Wide Awake: O choque entre o conto de fadas e a realidade

A origem do conto de fadas remonta ao período medieval e sua propagação e vivência, até a contemporaneidade, só foi possível através da tradição oral dos camponeses. Longe do halo dos filmes da Disney, com princesas doces, ambientes encantadores e finais felizes para sempre, os contos possuíam um teor voltado ao publico adulto e pautava temas como incesto, estupro e canibalismo.

Acredita-se que esses contos tenham sido escritos com contornos tão tenebrosos na intenção de reforçar os valores morais apregoados na época e alertar as “boas moças” para os perigos que, potencialmente, as circundavam. Depois, a partir do final do século XVII, com Charles Perrault e, posteriormente no século XIX com os Irmãos Grimm, os contos começaram a ser compilados, escritos e depurados como “histórias para crianças”. Assim sendo, há mais de um século estamos sendo alimentados por uma visão muito mais sensível e delicada da realidade, uma espécie de válvula de escape para problemas que, muitas vezes existem desde a tenra idade e só podem e devem ser enfrentados de frente.

É neste contexto, com ares contemporâneos de contos de fadas, que nossa heroína Katy Perry percorre um labirinto escuro em busca de sua Pasárgada no vídeoclipe “Wide Awake”, que marca o encerramento de seu álbum Teenage Dream (2010). Se você ainda não o assistiu, clique no play abaixo porque este post contém spoilers!

Logo inicialmente podemos perceber que a personagem está perdida em meio a inúmeras escolhas a despeito de qual caminho seguir, por qual passagem adentrar. Por sorte – ou azar – ela encontra numa das paredes de pedra que a circundam um vistoso morango, que chama atenção pelo vermelho pulsante num cenário de escuridão. Ingênua – e, talvez, cega – ela o come; “semioticamente” falando, podemos deduzir que, na verdade, ela se apaixona. Isso fica claro ao recorrermos à simbologia por detrás da cor vermelha, que pode representar desde paixão à raiva, além da própria simbologia contida na figura do morango e seu sabor agridoce – o amor pode ser doce, mas também muito amargo.

Katy, possivelmente acreditava que isso traria alguma espécie de raiz, ou ponto fixo em que ela pudesse se apoiar, uma vez que canção diz “Yeah, I was in the dark/ I was falling hard”, mas se dá conta de que “That everything you see/Ain’t Always what it seems” e, mais: “I wish I knew then/What I know now (…) You made it so sweet/ Till I woke up on the concrete”. Apesar de Katy negar que as letras de suas duas últimas músicas de trabalho não façam menção ao breve casamento com o humorista Russell Brand, fica difícil não reconhecê-lo em suas letras altamente confessionais. Essa sensação ainda é reforçada porque é a cantora mesmo quem escreve as canções.

Dando sequência aos acontecimentos dentro de seu “conto de fadas”, a personagem principal, como se pedisse socorro, lança um sinalizador de fogo que emana de seu peito (nem toda semelhança com seu outro vídeo clipe Firework é mera coincidência) queimando o céu em busca de ajuda. Eis que surge Katheryn, uma garotinha que não só lembra a cantora fisicamente, como, mais tarde, temos a comprovação de que é ela mesma: Katheryn Elizabeth Hudson, vulgo Katy Perry. Enquanto ambas se encontram e se conectam, a música diz ao fundo “I’m wide awake/Need nothing to complete myself, no”.  A personagem conta com a ajuda de seu alter ego mirim para enfrentar o assédio de “paparazzi em pele de Fred Krueger” e, mais tarde, bastante debilitada por experimentar o “fruto”, para enfrentar seus próprios instintos.

Digo “instintos” porque, procurando uma compreensão para duas figuras humanas com cabeças de bois que impedirão Katy e Katheryn de seguirem com a peregrinação, encontramos no Dicionário de Símbolos (1994) de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, a explicação de que o animal representa as camadas profundas do inconsciente e instinto; representa a besta que habita em nós. Contrapondo-se a esse lado de “vícios” e costumes é Katheryn, com sua coragem perante o desconhecido e sabedoria pura, quem derrota os “guardiões” libertando, num mesmo ato, a nossa amante do definhamento numa cadeira de rodas. Katy, que vem cantando e repetindo “I’m wide awake”, transpassa mais esse obstáculo e tem a chance de comprovar que, de fato, está bem acordada.

Diante de um cenário digno de Tim Burton, a personagem encontra seu “príncipe encantado” a esperando em cima de um cavalo branco. Oras um conto de fadas contemporâneo perfeito, não?! Ledo engano. A princesa heroína saca as intenções fajutas desse marmanjo e comprova que as experiências amorosas vividas no “labirinto do coração” não a deixarão repetir os mesmos erros. E é aí, frente a frente com o sujeito, que se dá a sequencia de um dos momentos mais marcantes e de epifania do vídeo: o soco. AH! A nossa heroína encantada – não mais tão encantada assim – parece ter lido os contos de fadas da era medieval!

Para além do vídeo, confesso: como é bom se sentir vingado. Obrigado Katy Perry, por essa sensação de catarse! Por representar num ato tão “repugnante” um afastamento de uma ideia que não nos ludibria mais! É libertador, afinal, quantos de nós já não nos deparamos com “eu te amo” forjado? A dor física, muitas vezes, é até uma via de fuga para diminuir a dor causada por sentimentos e ideias falsas. Aplausos. Esse tipo de príncipe que dá beijo de dedos cruzados nunca deveria ter saído de seu brejo – e, convenhamos, há muitas pererecas, que não ficam para trás.

O clipe segue sua reta final e, Katy-heroína-personagem-Perry finalmente encontra seu lugar de paz, tranquilidade; um sol cintila no céu, sobrevoando o labirinto tortuoso que a levou até onde ela está, hoje, com todos os seus “pedaços reunidos” e debaixo de próprios pés. Despede-se de sua companheira Katheryn que, de bicicleta, não vai para muito longe; sempre que precisar dela, ela estará por alí, para ajuda-la outra vez. De volta de seus devaneios “conto de fadas”, Katy surge como se nada tivesse acontecido, entoando a deliciosa canção “Teenage Dream”. Ela está de volta, aparentemente a mesma de sempre, só que diferente.

Ao final do videoclipe, percebemos que estamos diante de um roteiro longe de ser original; mas que pela simbologia, parece dialogar perfeitamente com o atual contexto da artista. Soa verdadeiro: Katy nos fala sobre o seu conto de fadas, mostrando que nem todo feliz é desde sempre, mas que o para sempre pode ter sim um final feliz – ou, ao menos, não devemos perder esse lado de fantasias durante a nossa vida, contudo, estejamos acordados -. Outro ponto louvável fica por conta da direção de Tony Truand e produção impecáveis: uma fotografia fantástica ornando e unindo belos tons sombrios a doces ambientes coloridos. A esta altura, elogiar a beleza da cantora é um “detalhe” que não nos pode passar despercebido, uma vez que, ela consegue se superar a cada nova cor de cabelo. Linda.

Do “Conto de Fadas Wide Awake”, no contexto do mês dos namorados, podemos tirar algumas boas lições: 1) antes de tudo, vem o amor próprio; 2) ainda que tenhamos esposas, filhos, maridos, haverá algo que será só nosso, uma espécie de “solidão”, a qual ninguém poderá completar; 3) eu quase posso escutar minha avó dizendo “antes só do que mal acompanhado”; e, por fim 4) tenha medo de se envolver com Katy Perry. Desde “One of the Boys” (2008) ela faz “cantigas de escárnio” satirizando seus relacionamentos “(…) You’re so gay and you don’t even like boys (…)”. Pela frente, Perry enfrentará o mundo das telonas com seu documentário/show “Katy Perry: Part of Me 3D”, que tem previsão de estreia, no Brasil, em agosto. Abrindo ainda mais espaços para expor sua vida, a cantora também deixa brechas para receber críticas. No entanto, como aprendemos com os contos de fadas da vida real, às vezes, não há válvula de escape melhor que enfrentar os problemas de frente; Katy faz isso encantadoramente com maestria, recordes e bom humor.

Créditos a: Brendon Guthierrez

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