“Papa Don’t Preach”: eu revolucionei a música pop!

Por Felipe Albuquerque

Se me perguntarem o que eu entendo por “revolução”, ainda que eu não responda isso, na minha mente logo vem a imagem de uma explosão, que, repentinamente muda o curso da história ou muda padrões que se repetiam enfadonhos. Pra ser ainda mais sincero e abstrato – qualé, galera, coisas da minha cabeça – imagino uma explosão de cores, em meio a uma escuridão. Isso parece um pouco otimista demais, visto que nem toda revolução, ao menos olhando para o passado, tenha sido feita para “o bem”, para iluminar e “colorir” – mas isto, com certeza, não se refere ao assunto de hoje.

Caso o título já não tenha sido suficientemente elucidativo, aí vai uma foto do tema sobre o qual trataremos:

Ainda não reconheceu este rostinho? Bem, caso você não tenha nascido na década de 70, ou não seja fã e tenha buscado levantar a biografia dela ou, ainda, seja péssimo fisionomista – como eu, rs – é compreensível que não se lembre de ter visto este rosto, exatamente como é na imagem acima, na sua TV LED 42 polegadas. Isso por um simples motivo: essa artista começou sua carreira há um bom tempo – e, a meu ver, esse tempo todo lhe fez muito bem – e esta foto é justamente do início. Mas vamos continuar com nosso “pinte o 7”. Hum, a próxima imagem deixará tudo mais claro. Esse sutiã criado por Jean-Paul Gaultier foi utilizado pela cantora na turnê Blond Ambition Tour, tornando-se uma de suas marcas registradas.

Ah, agora o 7 já está mais do que pintado! É claro que estamos falando dela: Madonna – ou Madge para os mais íntimos-. Com 30 anos de carreira, ela já lançou 12 álbuns, correu o mundo com 9 turnês, vendeu mais de 300 milhões de discos e é reconhecida pelo Guiness World Records com a artista musical feminina mais bem sucedida de todos os tempos.

Diante de tamanhos feitos, falar de sua carreira consistente, de sua qualidade musical e dos incríveis números e recordes alcançados pela cantora, não corresponde a minha alçada – até porque, isso é inquestionável e eu passaria muito tempo discorrendo detalhadamente sobre tudo isso. Meu objetivo aqui é invocar algumas consequências e não somente causas que possam retratar o porquê de Madonna ser considerava a “Revolução colorida” a qual me referi no início deste post.

            “If you wait too long you’ll be too late! Tick, Tock! Let’s go!”

Um dos pontos em que Madonna merece todos os louros foi a luz que a artista deu a um racismo mascarado, no entanto, ainda existente principalmente nos Estados Unidos, palco de conflitos segregacionistas que chegaram a dividir o país em torno da questão da escravidão. Com o clipe de Like a Prayer (1989), em que há cruzes em fogo, num primeiro momento temos a impressão de que a maior polêmica é simplesmente fundada em si, numa provocação à Igreja Católica. No entanto, a proposta de tratar de religião e racismo, comparando o tabu do amor inter-racial à perseguição a Cristo, vai além da “heresia”. As cruzes queimando em Like a Prayer remetem à Ku Klux Klan, que talvez seja o mais famoso grupo racista nos Estados Unidos.

Embora a ascensão e queda desse movimento tenha durado 130 anos na história, o espectro de seu ódio, inicialmente dirigido a todos os negros americanos, perdurou e passou a incluir os judeus, os católicos, os homossexuais e os imigrantes, inspirando outras formas e grupos de perseguição. Mais tarde ela voltou a trazer essa imagem marcante, envolvendo contrastes de cores e o racismo, como pode ser visto em Secret (1994), onde ela é a única branca em cena e simula romance com um negro. Notamos que a figura do negro é muito recorrente ao seu lado, seja dançando em sua turnê, seja atuando em seus clipes, o que foi e ainda é muito importante para reafirmar ideias de igualdade racial, humana, dentro da sociedade.

Para além das minorias, Madonna agiu como uma representante de si mesma, das mulheres, incitando-as a usufruírem de seus corpos da maneira que lhes convier. Abaixo, transcrevo um trecho da entrevista dada pela autora do livro Madonna– A Biografia do Maior Ídolo da Música Pop, Lucy O’Brien à revista Rolling Stone, em 2008.

              Madonna mostrou que as mulheres podiam manter o poder e o controle de seus negócios. Viu que sexo era lucrativo e foi além, quebrando tabus. Embora no início parecesse ser apenas mais um ídolo fútil, logo virou esse conceito de ponta-cabeça e passou a parodiá-lo. Muitos admiram sua coragem e vontade de assumir riscos. Ela não se preocupa com a aprovação dos outros, e para muitos que acreditam que é preciso se reprimir para ser aceito, isso é algo inspirador. Também é uma artista que promoveu uma visão multirracial e de apoio à cultura gay. Trabalhou duro em campanhas contra a aids nos anos 80, quando a doença ainda não era tão conhecida. E, com tudo isso, expandiu os limites do que significa ser uma estrela pop. Também subverteu os estereótipos sexistas porque sempre transmitiu mensagens de poder e controle; abordou assuntos polêmicos como sadomasoquismo e masturbação. Hoje muitas a imitam, como Kylie, Britney e Christina, mas sem entendê-la realmente. Arrancar as roupas e dizer que você é poderosa não é o bastante. Se não faz algo diferente com isso, acaba caindo na mesma velha exploração sexual que já conhecemos.

 Mais que nos unir em torno de sua imagem, Madonna proporcionou aos seus fãs uma união social, psicológica e, até mesmo física, numa época em que os tabus encalacravam o indivíduo, ensurdecidos por ideais de individualidade e silencio, ainda que mascarados; não importando se eles fossem mulheres, negros, gays, vadias e/ou marginalizados, eles sempre poderiam encontrar no centro, no seio, algo que os firmava fisicamente no chão, ao passo que os levava à evasão através da música: Madonna.

Constantemente se reinventando, a artista sempre ofereceu ao público uma nova faceta, uma nova possibilidade de catarse. Em MDNA podemos acompanhar exatamente essas diversas nuances: desde a furiosa letra de Gang Bang à luminosa, doce e poética trilha sonora do filme W.E, Masterpiece.

Por falar em Gang Bang, fecho esse post com a sugestão dessa música que pra mim é uma das melhores de MDNA – certamente a melhor pra fervilhar o PACULT nas pistas, rs. “Like a bitch out of order”, até breve.

Um Comentário

  1. Pingback: Liberdade à cinquentona – e o caso Pussy Riot | pacult

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s