Daytripper: sobre momentos

Por Juliana Fernandez

Às vezes gostamos tanto de algo que chega a ser difícil falar sobre o objeto que gera tamanha afeição em nós. O objeto pode ser algo ou alguém, às vezes os dois. Tenho uma lista interminável de coisas e pessoas que estimo tanto, tanto, ao ponto de ser difícil explicar o motivo por detrás do sentimento. Hoje me aterei à falar apenas sobre uma delas: Daytripper, uma das minhas graphic novels preferidas e também uma das mais importantes em minha – atualmente – curta existência.

A obra é mais uma parceria de Fábio Moon e Gabriel Bá. Ambos quadrinistas,os irmãos são parte do que há de melhor nos quadrinhos no mundo, sendo os primeiros brasileiros a ganhar um Eisner Award (melhor série limitada ou arco de história) pelo assunto de todas essas palavras enfileiradas aqui. Já conhecia o trabalho da dupla, mesmo só possuindo os dois ótimos volumes de The Umbrella Academy, escrita por Gerard Way – é, o vocalista do My Chemical Romance – e ilustrada por Bá. Sendo assim, fiquei curiosa desde o momento no qual li uma nota sobre Daytripper na internet, e a arquivei em um espaço do cérebro reservado para todas as leituras que gostaria de ter em um futuro próximo ou nem tanto, e quem sabe, um dia tirá-la de lá (o que ainda não acontece com a frequência que gostaria).

O daytripper do título é Brás de Oliva Domingos (que fisicamente lembrou-me muito Chico Buarque) e em dez capítulos – já que originalmente a graphic novel foi dividida em dez edições e lançada como série limitada pelo Vertigo, um dos selos da DC Comics – são retratados alguns dos momentos mais importantes de sua vida. Cada capítulo tem como nome a idade de Brás durante o momento de sua história a ser contado. Em uma narrativa não-linear, acompanhei Brás durante seu primeiro beijo, seu reencontro com um amigo até então desaparecido, o nascimento de seu filho, sua velhice e sua relação com seu pai. Em cada uma das dez partes, nós vemos o que Brás se tornou ou o que viria a se tornar. No primeiro, Brás tem 32 anos é um obituarista, se tornando um escritor anos depois… Ou não. Cada capítulo termina de maneira que torna impossível um – ou todos – dos futuros apresentados nos demais. Em cada fim, um obituário diferente.

E esse é um dos motivos por Daytripper ser tão boa.

Assim como nós, Brás tem seus momentos especiais – acredite, isso parecia muito menos piegas em minha cabeça do que aqui –, como posso explicar… Todos nós temos pequenos momentos brilhantes, mágicos, históricos. Assim como temos os grandes, que mudam nossa vida para melhor ou não. Ao ver Brás passar por eles, e vê-los terminar de maneira tão brusca e amarga, é uma tarefa árdua não pensar um pouco em sua própria vida durante a leitura.

Entretanto, só conheci Brás no fim do ultimo ano, quando viajei para São Paulo com minha família. Na época, uma pessoa muito importante para mim estava muito doente, e nós estávamos indo visitá-la. Pela primeira vez durante muito tempo, eu não estava feliz por sair de Cuiabá e passar alguns dias na maior cidade do Brasil. Minha pessoa preferida do mundo inteiro estava com câncer, e desde que ela fora diagnosticada com a doença, me sentia cada vez mais culpada por todos os instantes que não estive com ela.

Na véspera de Natal, Daytripper chegou a minhas mãos através dessa pessoa. Basta dizer que devorei cada página, em poucas horas havia terminado a graphic novel (em inglês, porque lamentavelmente a edição em português estava esgotada).

Na versão que possuo, nas ultimas paginas se encontram alguns dos primeiros desenhos que Moon fez para a obra. Segundo ele, os desenhos eram uma tentativa de explicar que Daytripper seria uma história sobre momentos serenos, pacatos, silenciosos.

It would be about what you can tell from somebody’s eyes.

An exchange of looks.

A smile.”

E é exatamente sobre isso que Daytripper é sobre, e nesse ponto, a graphic novel – ou quadrinhos, se preferir – se afasta das demais de sua categoria. A maneira com que cada pequeno ou grande momento – porque eles acontecem – é retratado, lembrou-me muito do diretor americano Wes Anderson, cuja sensibilidade ao retratar momentos que nós costumamos classificar como relevantes e irrelevantes fez sua fama, e essa opinião não é só minha, mas também do Martin Scorsese (você pode ler algumas palavras do diretor sobre o colega de profissão aqui).

No inicio de fevereiro, reli Daytripper mais uma vez, mas daquela por um motivo diferente. Precisava escrever a mensagem a ser colocada no santinho de luto, para ser entregue após a missa de sétimo dia. Minha melhor amiga havia falecido, e os obituários escritos por Brás de Oliva Domingos eram o mais próximo que eu possuía como exemplo.

Após fevereiro, só voltei a colocar minhas mãos em minha edição ontem, para escrever esse texto. Ainda não tive coragem para abri-la, mas talvez eu releia mais uma vez essa tarde.

Ao contrário do que possa parecer, Daytripper não é feita de papel impresso, mas de momentos, possibilidades, escolhas, e principalmente, de vida. Daqui à décadas, provavelmente lembrarei dela, assim como não esquecerei os fantásticos pequenos momentos que compartilhei com uma das mulheres que me criou.

Nota: 10

Os Beatles tem uma música de mesmo nome, e como qualquer outra música do Fab Four, vale a pena ouvir:

  1. Felipe

    Você não escreveu sobre a obra; você escreveu sobre sentimentos – principalmente os seus. Ficou tão bonito. Se eu fosse apenas seu leitor, já estaria me sentindo um íntimo.

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