“Fugere” e algumas lembranças

Foto da rua lá de casa

Já sobre o coche de ébano estrelado

Deu meio giro a Noite escura e feia;

Que profundo silêncio me rodeia

Neste deserto bosque à luz vedado!

Jaz entre a folhas Zéfiro abafado,

O Tejo adormeceu na lisa areia;

Nem o mavioso rouxinol gorgeia,

Nem pia o mocho, às trevas costumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte

Que o fio, com que está minha alma presa

À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este terror, esta tristeza,

Porque a meus olhos se afigura a Morte

No silêncio total da Natureza. (BOCAGE, Du Manuel)  

Antes de qualquer colocação, quero me antecipar e me desculpar pela surpresa do tema de hoje. Aos leitores que nos acompanham sempre; aos leitores que me leem todas as quartas em busca de informações sobre música pop: não falarei, hoje, sobre artista ou videoclipe algum. Na verdade, talvez eu faça algo completamente diferente toda quarta última do mês – sim, hoje completamos um mês juntos! Antecipo, também, meu muito obrigado aos amigos, apoiadores e divulgadores do PACULT.

Isso – escrever sobre temas aleatórios a cada último post do mês – ainda não é certo, mas eu senti a necessidade de escrever sobre esse outro assunto e, como minha “editora chefe” que ouso apelidar de “editora inventiva” nos deixa bastante livres para criar, decidi arriscar. Nomes como Azealia Banks e Rita Ora têm me vindo constantemente à mente, mas eu nem consegui terminar de escrever nada referente a elas sem, antes, privilegiar as sensações que capitei nos últimos quatro dias. Então, você que veio em busca de música, fique ligado que, nos próximos posts, voltaremos com “nossa programação normal”.

Fui motivado por uma onda nostálgica que parece ter dominado, também, outros colaboradores de nosso blog, que verteram emoção ao declarar seu flerte com alguns livros em momentos marcantes de suas vidas – declaro que ouvir Wannabe não me influenciou nostalgicamente em nada, até porque eu não fui escutá-la depois da notícia de que as Spice Girls se reuniram para lançar um musical (Viva Forever) sobre elas mesmas (?!) -. Fui ainda mais arrebatado pela nostalgia, devido a minha última ida ao interior do Estado, Diamantino, final de semana passado. Cidade em que, não nasci, porém fui criado até meus 13 anos. “Prepara que aí vem as novids!”

Ultimamente, cada retorno à casa em que cresci, na qual ainda vivem os meus pais, têm significado bem mais que uma necessidade de sanar a saudade. Tomo cada “visita ao passado” como vital: paro pra respirar, organizar pensamentos, pensar – propriamente -, sentir, observar, admirar as estrelas e alguns resquícios de natureza; ficar off-line.

É bem verdade que Cuiabá está longe de ser uma São Paulo, com seus esquemas de rodízio de carros para tentar evitar congestionamentos de centenas de Km; é bem verdade que o ar que aqui respiramos consegue ser, ligeiramente, menos poluído que o de lá; é bem verdade, também, que a violência que aflige todas as capitais consegue soar ainda mais intensa, por causa dos veículos midiáticos, lá do que dentro da nossa “cidade verde”.

Contudo, nosso trânsito, em virtude de três jogos de futebol, está se tornando caótico; nosso ar irrespirável (valha-me o período das secas e queimadas) e a violência, bem, não preciso nem elencar alguns casos que chegaram a motivar polêmicas e dividir opiniões: “as mulheres e suas vontades de serem estupradas expressas nos trajes que usam…”.

Para além do espaço físico, somos acometidos por uma série de cobranças que nos cerceiam psicologicamente. Qual caminho seguir? Qual profissão? Geração X, Y ou Z? Tá solteira fia (ainda?)? “Com que roupa eu vou?”, Madonna ou Lady Gaga? E é nesse ponto que o “fugere urbem para o interior”, ainda, é ineficaz: você sai na rua e sabe que sempre, independentemente da atitude, as “tias da janela” estarão de orelha em pé e olhos atentos cuidando de sua vida – de preferencia, falando mal -. Então a cobrança persiste.

De um modo geral, há um “ruído” com o qual temos de lidar diariamente nas nossas, muitas vezes, enfadonhas rotinas. É bom ter algo com o que possamos “escapar”, silenciar. Um livro, um beijo, uma conversa, um abraço, uma fugidinha (sem ou com trocadilhos), uma música.

No post de semana passada, mencionei uma solidão que “ninguém pode suprir”, mas, com a qual, necessitamos nos encontrar, vezenquando. Necessitamos, porque é muito fácil se perder dentre as questões e cobranças que o mundo nos impõe. É cômodo levar a vida na barriga, sem sinapses, sem reflexões e fazer escolhas ao acaso. “Mamãe mandou” não diz respeito mais ao “mundo de gente grande” – como é bom ser criança, né?! -. E é para essa solidão, que escapamos; é pra ela que, independentemente da tática, do meio, nos dirigimos – ou, ao menos, deveríamos.

No meu caso, não credito o valor da experiência ao “fugere urbem”, pois, em tese, escapei para minhas próprias memórias – que ainda estão bastante vivas. Mais que escapar, tenho de confidenciar: fui me encontrar com quem eu fui um dia para perceber que mudei muito, mas ainda sou o mesmo em tantos gostos; fui para fincar os pés em algumas raízes e cultivar alguns valores que eu sei (só eu sei) que ainda são meus.

Acessando a estas memórias me deparo, também, com o que me motivou a sair de lá, um “bicho do mato”, para enfrentar um lugar que me soava tão misterioso, enigmático e amedrontador: tenho um apreço por essa selva de pedras; pelas pessoas e suas rotinas agitadas. Ah, a vida noturna… Criei gosto por crônicas urbanas e o contato com essa realidade  é uma espécie direta de matéria prima. Desde então, entendi o que é dar a cara a tapas, chegando a uma conclusão inevitável: gosto de apanhar.

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