Quando conheci Neil Gaiman, ele me contou a história de certa raposa.

Por Juliana Fernandez

Assim como Toru Watanabe, personagem central de Norwegian Wood, tenho a mania de reler meus livros preferidos incontáveis vezes. Abro em um trecho de um dos meus prediletos e vou lendo, a maior parte das vezes só parando porque adormeci já quase amanhecendo. Tudo começou aos 6 anos, quando li meu primeiro Harry Potter e passei o resto do ano inconscientemente empenhada em decorar cada uma das linhas daquele livro. Não é necessário ser Sherlock Holmes para perceber que não deu certo, mas ainda lembro-me de minhas partes preferidas. Com os anos, fui estendendo esse costume para séries e filmes, entretanto, ainda são os livros minhas principais companhias.

Minhas obsessões literárias – por assim dizer – foram muitas, nos últimos anos: A Sombra do Vento, Orlando, Dom Casmurro, o Ciclo da Herança, a trilogia Millennium… Às vezes elas passam para nunca mais voltarem, outras elas retornam para lembrar quão bons livros são e que havia um bom motivo para eu ter entrado naqueles universos fantásticos tantas vezes.

The Sandman: The Dream Hunters faz parte dessa segunda categoria.

A novella foi lançada em 1999, entretanto, demorariam 6 anos para que chegasse em minhas mãos (também pudera, na época em que foi publicada, eu estava no auge de meus 7 anos de idade). Quem havia recebido The Dream Hunters (Sandman – Os Caçadores de Sonhos, na tradução em português) de presente foi meu irmão mais novo, enquanto eu fui presenteada com um volume de “Japonês em Quadrinhos”, de Marc Bernabé. O livro era legal, mas o do meu irmão parecia ser mais (talvez um daqueles casos de que “a grama do vizinho é sempre mais verde”) e como ele não nunca foi um grande entusiasta do habito da leitura, peguei seu livro emprestado – sem ele saber – no dia seguinte.

Naquela época, eu não sabia quem era Neil Gaiman, quem era o Sonho e os outros Perpétuos. Yoshitaka Amano era um nome desconhecido e minhas leituras basicamente consistiam de livros infanto-juvenis nacionais e ávidas leituras quase diárias de Harry Potter. Após The Dream Hunters, Neil se tornou o primeiro autor cujos livros eu comprava sem mesmo saber sobre o que se tratava. Bastava saber que ele havia escrito, pois isso já era uma garantia de que seria uma boa história.

E não é que até agora ele nunca me desapontou? Eu poderia escrever linhas e linhas sobre O Livro do Cemitério, Deuses Americanos, Filhos de Anansi, O Mistério da Estrela e Coraline, e talvez algum dia eu realmente as escreva.

Porém, quando conheci Neil Gaiman, ele me apresentou a uma raposa e um guaxinim… Eles fazem uma aposta: quem conseguir tirar certo monge de seu templo, poderá ser o dono do lugar e morar ali. Ambos tentam e falham, o monge se mostra alguém muito mais sábio do que os dois seres acreditavam e a raposa acaba se apaixonando pelo jovem eremita. Ao descobrir que a morte do amado está sendo planejada, ela entra no Sonhar e pede ajuda ao Sonho. Durante a história acompanhamos não só o crescimento do amor da raposa pelo monge, mas também sua tristeza e sua vingança, porque por mais que ela consiga parecer humana quando quer, ela ainda é uma raposa.

“A fox’s teeth are very sharp.”

Segundo o autor, o que o levou a escrever sobre uma raposa nipônica foi a ideia de que elas tem pés em diferentes campos. Em algumas fábulas você descobre que elas têm uma “pata fantasma”, em outras uma “pata pessoa” e em outras “uma ou duas patas de raposa”.

Esse ano, Gaiman disse em um discurso que quando tinha 15 anos, fez uma lista com tudo que gostaria de escrever, e ao invés de planejar uma carreira, escrevendo cada uma das coisas daquela lista. Hoje de manhã, reli The Dream Hunters após anos e pensei que talvez, décadas atrás, um jovem Neil colocou em uma lista que gostaria de escrever alguns contos fantásticos, inspirados em contos de fadas de diferentes lugares do mundo. Faria muito sentido, se pensarmos bem.

Ao terminar de ler a novella, me senti triste e feliz ao mesmo tempo. Um maravilhoso final agridoce que te deixa indeciso por um tempo, mas é só até você decidir fechar exemplar em mãos, pois quando for guardar The Dream Hunters (porque uma história dessas merece ter seu corpo material cuidado com carinho) você já vai estar sorrindo e pensando “Sabe de uma coisa? Eu gostei dessa raposa…”, porque é impossível não se simpatizar com ela.

Além de que você vai querer ver as ilustrações de Yoshitaka Amano – responsável por, entre outras coisas, o design e o logo da franquia Final Fantasy –, que são tão belas que chegam a te devastar um pouquinho por dentro (todas as ilustrações desse post são dele).

“All that I did,” she said, “everything I tried to do. All for nothing.”

Nothing is done entirely for nothing, said the fox of dreams. Nothing is wasted. You are older, and you have made decisions, and you are not the fox you were yesterday. Take what you have learned, and move on.

E sobre o livro “Japonês em Quadrinhos”: acabei nunca o terminando de ler e até hoje não sei falar japonês, limitando-me a palavras como arigatou, baka, hentai e kawaii, para o horror de meus amigos.

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