Bitch, please?

Fotografia de Emily Shur

Por Felipe Albuquerque

O mundo pop é uma grande indústria de contradições. Sejam nas posturas dos próprios artistas, sejam nos ideais apregoados, há um caldeirão do qual sempre emanam novas “personagens” dispostas a se (re)inventarem, se contradizerem e, assim, se firmarem no movediço solo dessa indústria. E – olha a contradição aí – apesar dessa constante renovação, o pop se torna, algumas vezes, muitas vezes, enfadonho.

Há tanta mesmice produzida que quando surge alguém com talento real, ou o artista se deixa suprimir pela produção ou a utiliza a seu favor. Com naturalidade expressa num sorriso e, claro, contraditoriamente, artificialidade na produção visual e, um tanto quanto musical, Azealia Banks tem galgado fama ao redor do mundo diferenciando-se pela segunda opção.

Nascida no ano de 1991, Azealia Amanda Banks – qualquer identidade com o sobrenome de uma famosa modelo internacional é mera coincidência – teve uma infância de dificuldades, ao lado de duas irmãs mais velhas, pela ausência do pai que faleceu quando ela tinha apenas dois anos. Foi criada em Harlem, conhecido bairro de Manhattan por seu aporte cultural e comercial de afro-americanos. Banks estudou no mesmo LaGuardia High School, no qual passaram, também, nomes como Nicki Minaj, Kelis e Al Pacino, mas não chegou a se formar em busca do sonho de ser artista. Abaixo, um video no qual Azealia foi escolhida embaixadora numa série de documentários da Nike Sportwear para o World Basketball Festival, sobre a Harlem que a inspira.

O contato com as artes proporcionou a Azealia oportunidades de experienciar diversas áreas, do teatro aos musicais, mas não tardou muito para que ela se encontrasse no hip hop e se destacasse por suas rimas rápidas. De inicio, lançando vídeos na internet, acabou por chamar atenção da XL Records, com quem teve uma “pseudo” negociação, mas logo veio o desentendimento com o executivo da gravadora Richard Russell, uma breve depressão e um afastamento da mídia por um período de um ano.

Sobre o episódio, a artista conta à BBC sem pausa ou rubor diante de alguns palavrões: “the original idea was to have me work with Richard Russell… Richard was cool, but as soon as I didn’t want to use his beats, it got real sour. He wound up calling me ‘amateur’ and shit, and the XL interns started talking shit about me. It just got real fucking funny. I was like, ‘I didn’t come here for a date. I came here to cut some fucking records.’ I got turned off on the music industry and disappeared for a bit. I went into a bit of a depression (…) It was almost the day I signed to XL that they started checking out. There were a good seven to eight months where I was just sending them texts and no-one would say anything or pick up the phone or respond to my emails. Nothing. And it started to ruin me. So I started harassing Richard. Like, ‘Dude, I’m going to chop your neck off. Answer my emails!”

Fotografia de Emily Shur

Durante a “bad trip” e “some very bleak circumstances” pela qual caminhou sua carreira entre 2010 e início de 2011, Azealia escreveu a música/hit “212”, que viria a se tornar seu single de reviravolta. Ela se mandou para o Canadá e, por conta própria, gravou a música e a divulgou na internet, infiltrando-se na mente da massa e caindo nas graças da crítica especializada. “I had been dropped from XL. My manager dropped me. My boyfriend left me. I was starting to accept that my career was never gonna happen. So the song was just me, like, ‘Fuck y’all. Y’all not gonna help me? I’m gonna get it myself.'”, disse numa entrevista a Paper Mag.

Se você ainda não se deixou contagiar pela incrível batida de 212, voltado para o banger e hip hop, faça-se esse favor:

Esse single tanto conquistou os charts europeus, quanto ratificou Azealia na posição nº1 de indicações da “Cool List” da revista especializada NME em 2011 e também a nomeação pela BBC ao Sound Of 2012 – nesta figurando em 3º lugar.

No inicio do ano, “os jogadores de vídeo game por detrás do controle” – mais especificamente a sua nova gravadora Universal Musical – começaram uma maior divulgação da cantora, promovendo apresentações em tradicionais e grandiosos eventos como o Coachella – nos Estados Unidos – e, na semana passada, no Hackney – em Londres -. Apesar de um breve repertório, é notável a conexão da cantora com o público e, mais, o seu domínio musical, que nos deixa com gostinho de quero mais.

Coachella 2012

Destas duas performances supracitadas, podemos extrair algumas evidencias incontestáveis: diferentemente da limitada voz de algumas cantoras usuais de hip hop, Azealia tem potencial para flertar com jazz e o soul e, caminhar tranquilamente pelo pop, fazendo um bom espetáculo ao vivo. Pelas poucas amostras que obtivemos com base no seu EP (Os “artistas novos” lançam EPs para fazer, de certo modo, sua marca, antes de lançar um CD sem um nome ao menos conhecido no mercado), a cantora irá brincar bastante com esse seu potencial, mesclando ritmos com ferozes rimas ao compasso “banger”.

Para o bem ou para o mal, esse EP serviu bastante para aguçar a curiosidade de quem vem acompanhando seu trabalho. Aliás, o CD, como um todo, tem sido associado a produtores de grande renome como Paul Epworth (produtor de ninguém mais que Adele e Florence + The Machine) e Travis Stewart (“Machinedrum”). Portanto, tem tudo para ser um grande sucesso.

Além do lado encantador da música, Azealia tem atraído a atenção da elite da moda, com seu estilo street que conta com cabelos coloridos, shorts jeans, cropped tops e muitos creepers, já sendo considerada a mais nova pupila dos olhos de Nicola Formichetti – que havia se associado, até então, apenas com Lady Gaga –. Em “Liquorice”, seu último belo, curioso e engraçado videoclipe, Nicola cuidou pessoalmente do figurino sendo que os dois já firmaram outra parceria para um futuro breve, com a escolha da canção “Bambi” como trilha sonora do desfile de moda da Mugler (do qual Nicola é diretor criativo), na Paris Fashion Week.

A barulhenta cantora caiu nas graças, também, de Karl Lagerfeld que acabou convidando a rapper para cantar na festa de comemoração de sua linha Karl e a presenteou com um suéter exclusivo estampado com seu rosto.

Um pouco de “egokarlcentrismo”, por que não?!

No nicho de amigos famosos, Azealia tem relações estreitas com M.I.A, Florence Welch e coleta alguns elogios como o de Gwyneth Paltrow, que declarou em seu twitter estar “obcecada” pelo vídeo de 212, e entrou para a exclusivíssima lista de cinco seguidos pelo rapper Kanye West na mesma rede social.

Diante de tamanha desbocada frenesi, podemos perceber que, brevemente, Azealia terá seus shows abarrotados de fãs, cantando palavrões pelos quatro cantos do mundo. Inspirando-se na igualmente brilhante Missy Elliott que estourou ainda no século passado, Banks tem tudo para retomar uma certa “contra cultura”, servindo como refúgio para muitos desses momentos entediantes da indústria de massa; pop. “Hey, I can be the answer”, diz em 212.

Na disputa pelos holofotes em 2012, Azealia corre na frente e é uma aposta certeira. Limitando-a, podemos dizer que é bitch que a Rihanna tanto quer ser em sua era Talk That Talk; é a cantora de qualidade natural que Nicki Minaj jamais conseguirá (se) (re)produzir. Ou, simplesmente como ela se descreve em sua página do Facebook “lyricist, bitch, comedian, cutie pie”. Na minha opinião, já temos a resposta, mas se ela ainda não te convenceu, conheça abaixo uma nova música que chegou a público no início da semana, “Nathan”.

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