“Querida Amy,

em algum lugar da minha imaginação, talvez bem próximo de um pleonasmo, hoje é uma segunda-feira cinza. Há uma leve chuva molhando a terra com seu cheiro característico, e eu prevejo (eu pressinto), que virá um vento frio adentrar a porta e ouriçar os pelos de minhas costas; em algum lugar da minha imaginação, você me olha com seus olhos delineados, intensos, “the ronettes”; o cabelo ao alto “alex foden”, fazendo sombra num quadro floral que orna com a mesinha rústica do telefone, exatamente ao meu lado – direito -. O queixo repousa na palma da mão, fazendo da perna cruzada nua que brota de um de seus vestidos rodados e pregas, o baluarte que suporta a bela escultura, fria e doce tez, do seu rosto. Você está tranquila, curiosa, feliz. Obrigado por me deixá-la observar, assim.

Querida Amy, em algum lugar da minha geladeira (na porta, entre o frasco de ketchup e a garrafa de água), procuro um Martini, que ganhei de uma amiga, aberto no primeiro dia deste ano. Sem pensar muito, pois eu estou determinado a apenas fazer disso um ritual sem porquês, destilo porção da metade restante numa xícara de café e a trago como uma nuvem de flashes, um bolo de angústias amorosas e de conflitos que sempre e só existiram dentro da minha cabeça. Desceu queimando.

Na verdade, apesar de evitar os porquês – é tão mais simples – não me sinto bem em deixá-la sem alguma justificativa; nunca se faz nada por nada. Brindei intimamente pensando em você; brindamos juntos e acho justo que sejamos sinceros um para com o outro. É que você me intimida e eu talvez só consiga verter algumas palavras, se eu estiver (um pouco) menos sóbrio; sempre me faltou coragem para conseguir encaixar os signos e semânticas em seus respectivos lugares, para entender e ouvir o que você diz quando a procuro em Tears Dry On Their Own; e me falta, ainda – muita coragem – para escrever essa breve carta em uma – sua – singela homenagem.  Desculpe-me perturbá-la, depois desse um ano. Passou tão ligeiro…

Desculpe-me, também, por tê-la deixado, com frequência, em segundo plano (e você sempre ali, quando eu mais precisei, em alguma playlist). Como eu já disse e, reitero, você me intimida. A música pop é tão mais fácil! A mente ouve, o corpo escuta, responde e dança. Agora, quando a mente escuta… Bem, os sentimentos se abarrotam, os pensamentos buscam sentidos e a razão vem à tona, tortuosa, algumas vezes, conflituosa. Sinapses, igualmente, se convertem em dolorosas catarses. Desculpe-me deixá-la assim, distante, como uma lembrança triste, que acompanha outras lembranças tristes, num cortejo em luto, Back to Black.

Querida Amy, imagino que o precoce flerte com o jazz e o soul e a predileção natural e determinista por artistas como Frank Sinatra, Dinah Washington, Ella Fitzgerald, Donny Hathaway, tenham lhe pesado nos ombros. Um halo denso e, de algum modo, pesaroso, sempre ronda esse estilo musical… Será que algum dia você foi, de fato, uma criança? Por outro lado, talvez você só tenha alçado tamanha excelência, em virtude desse contato intenso com ambas as vertentes musicais, triviais para lhe lapidar e lhe transformar nessa cantora igualmente profunda, melancólica, genial e, sobretudo, apaixonada.

Sobretudo, apaixonada…   A ponto de se deixar abater por um sentimento viciante, atormentada até o fim, até ser devorada por um dos gumes dessa faca que atravessa o peito, se rendendo a subterfúgios, se fragilizando. Eros não lhe teve piedade: tomou-lhe por inteira, carnal, incontrolável… Blake, seu maior vício, não tardou a tornar-se a porta de entrada para sua constante dependência de outros vícios. Se a droga proporciona a efêmera sensação de liberdade, Blake a libertou, para sempre: dentro de uma caixa de Pandora. E “apesar dos pesares”, ele ainda vive.

Querida Amy, há alguns dias, vi numa dessas postagens de redes sociais, uma imagem com o título “todo mundo tem um amigo:” e sua foto estava lá. Chamavam-na de “doidão” e, eu não sei se, por já pensar que a data de sua partida iria completar dentro de pouco tempo um ano, ou se por me deparar com a realidade de que a mídia constrói e descaracteriza com vetores guiados por interesses e forças diversos, me entristeci. Questionei-me por um tempo, pensando que, embora seus vícios existissem e fossem apurados corriqueiramente pelos paparazzis, você foi uma boa surpresa dentro da contemporaneidade, um fenômeno e uma personalidade irrevogável da música; você é um espírito vivo do jazz se perpetuando ao longo do tempo… Com sua voz rouca, posso ouvi-la lendo em voz alta Cecília Meireles, ainda que nem esse nome, você tenha ousado escutar – não tem problema, nem mesmo os brasileiros a conhecem -. Veja:

Retrato
“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Amy, em qual tablóide ficou perdida a sua face?

Saiba que, se você se perdeu, você nos levou para esse mundo de perda também. Perdemos uma parte de epifania, de arte, melancolia, refúgio e genialidade. Ficamos órfãos de uma sensibilidade que mãe adotiva nenhuma tem sido capaz de suprir. E eu te olho, só me lembro “zeitgeist”, “zeitgeist”, uma palavra potencialmente intensa, que talvez seja o mais próximo de sintetizar tudo o que você representa, uma porta para sentimentos profundos que soam revolucionários em tempos da chamada “ditadura da alegria”.

Querida Amy, é tão bom pensá-la assim… Viva. E não é difícil, pois escuto suas músicas, neste exato momento. Lamento, porque repentinamente, sinto como se eu pudesse resgatá-la de seu próprio caminho, mesmo sabendo que ele não poderia ter sido trilhado de outra maneira: tudo corroborou para lhe tornar genial, inigualável; eterna. ”

Diamantino, 23 de julho de 2012

Felipe de Albuquerque Augusto

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