Bonitinha, mas ordinária

(cenário: o interior de um ônibus em movimento num dia de muito sol)

Senhora faladeira: cai não, menino!

(menino após tropicar na porta do ônibus se apoia no braço de um dos acentos)

Menino (sorrindo sem graça): pode deixar, senhora. Aqui nóis trupica, mas não cai!

(menino, agora devidamente digno, estende o braço entregando uma nota de R$10, 00 ao senhor motorista/cobrador)

Senhor motorista: não não, moço. Agora a gente não recebe mais não. Tem que comprar o cartão. Agora só com o cartão.

Menino (indignado): então pare pra que eu possa descer! Onde compro o cartão? Só no MTU?

Senhor motorista: não, pode ficar aí, moço. Nessas paradas de ônibus vende cartão com o pessoal da MTU. Eles tão por aí, fica tranquilo, pode ficar aí.

Senhora faladeira: vê com o Adalto. Adalto sempre tá alí berando a Getúlio Vargas. Fala com ele.

Menino (conformado): tudo bem.

Senhora faladeira: mas você não tem cartão? É estudante de mochila e tudo!

Menino: pois é, até tenho, mas a faculdade tá de greve.

Senhora faladeira: faz qual faculdade? UNIC?

Menino: não, UFMT.

Senhora faladeira (rindo de deboche): rum, diz que UFMT é pra rico e UNIC que é pra pobre; filhinho de papai paga um cursinho aí no Farina, paga dois mil reais por mês e passa.

Menino: é mesmo?

Senhora faladeira: é sim. Vai dizer que não é?

Menino (sem querer entrar em discussões): é… Mas agora tem as cotas aí, né. Isso vai mudar.

Senhora faladeira (brava): tomare que mude.

(Pausa. Silêncio. Buzina. Motor do ônibus acelerando).

Senhora faladeira: eu, por exemplo, agora vou fazer um cursinho aí pra ver se aprendo ingres. Falar com os gringo que vem pra copa.

Homem de camiseta azul (ao lado do menino – que se segura para não tecer comentários -): hummm, que isso hein?!

Senhora faladeira: não é porque tenho sessentão que não vou dar um jeito de falar com os gringos… quem sabe aí…

Homem de camiseta azul ao lado do menino (mudando o peso do corpo de perna, para se apoiar à arrancada do ônibus. Ainda rindo): sim, claro…

(ônibus para. Menino compra o cartão, não com Adalto, mas com outro cara que a Senhora faladeira cumprimenta como se fosse ele mesmo).

Senhora faladeira: tarde! dia quente, né moço?

(moço não ouve, pois as bundas de quem sobe no ônibus interceptam o diálogo. Ela não insiste)

(menino recebe o troco e segue a manada que está a passar pela catraca)

Menino: até mais, senhora!

Senhora faladeira (acenando com a mão direita): tchau.

Menino (balbucia, sentando-se num dos bancos mais ao fundo, surpreso com a senhora faladeira): que engraçada.

(aos fundos, a voz da senhora continua a reverberar, enquanto se dirigia ao seu novo interlocutor – homem de camiseta azul – disputando com o som roufenho do motor).

Menino (ainda surpreso, sorrindo): pobre homem de camiseta azul.

(e o ônibus vai embora)

Isso (cena supracitada), evidentemente, não aconteceu comigo quando eu voltava da autoescola na tarde de hoje, enquanto tomava um ônibus, totalmente distraído e aos trancos pela ansiedade e possibilidade de perdê-lo, ao mesmo tempo em que havia decidido e começado a maquinar sobre este post. A qualidade não chega aos pés de uma homenagem digna que “o tema” merece, mas relevem e se apeguem à intenção: foi transcrito com fidelidade, risos e esmero. rs.

Ouso dizer que sou corajoso para escrever qualquer coisa sobre ele; deveria me limitar à admiração, mas não me resigno. Vocês, meuzamigosleitor, me deixam a vontade; e, de repente, é como se eu estivesse conversando com a Giovanna. Então, vamos desvendar a identidade da nossa homenagem de hoje.

Há exatos 100 anos, nascia aquele que viria a se tornar um dos maiores nomes da história do nosso país. Nelson Rodrigues, dramaturgo considerado por muitos o pai do teatro brasileiro, despontou com sua Vestido de Noiva, em 1943 e, desde então, somou a sua vasta biografia, dezessete peças, nove romances, sete livros de contos e crônicas e milhares de artigos de jornais.

Suas palavras se juntavam no papel sempre coesas pela inspiração e admiração que possuía pela morte e adultério. Em verdade, Nelson retratava uma face do Brasil que, segundo o jornalista Augusto Nunes, ainda “tenta inutilmente esconder as taras, as vergonhas familiares, a guerra conjugal, o adultério, os preconceitos, a sexualidade reprimida, a mesquinhez patológica”, um país que reflete bem a dualidade maniqueísta – de tentar se esconder por detrás do pudor.

Mas não há fechadura que Nelson não tenha espiado – não, exceto essa que você certamente pensou, Big Brother -. Como ele se definiu: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)”.

E o menino Nelson continuará vivo nas mesas de botequim, palco em que, corriqueiramente, se reproduzem suas frases, bem como em suas peças que nunca saem de cena, estreladas por nomes como Marília Pera e Fernanda Montenegro. No dia 21 de dezembro de 1980 – quando veio a falecer – “o homem que passou a vida inteira pensando na morte, se foi. Nunca se saberá se já tinha descoberto que era imortal”. E, concordando com Augusto Nunes, se sentará com nossos filhos, e netos, e bisnetos num bar, rememorando e revivendo grandes momentos da humanidade e da sociedade de nosso país. Porque as personagens mudam, mas os tipos transcritos por Nelson serão tão eternos quanto ele mesmo.

Para fechar a breve homenagem, indico o mais recente videoclipe da Azealia Banks, cantora que já mencionei aqui outras vezes e que é a nova queridinha da música, da moda, do entretenimento. Assista, Van Vogue:

 

O videoclipe é bem simples, mas traz claras referência do detetive Dick Tracy (cujo filme têm como trilha sonora Vogue, da Madonna), mostrando, também, a face fashion-sexy da nova queridinha da moda, que em meio às águas, desfila a mais recente coleção de Alexander Wang.

 

Madonna e Warren Beatty (como Dick Tracy)

Azealia pode não ter nada a ver com todo o contexto, muito menos ter relação direta com nosso país – que foi a grande fonte de inspiração para Nelson -. Mas ela bem que, artisticamente, parece ser personagem retirada de uma das obras do dramaturgo; seja pela oralidade lacônica, seja pela reprodução com um inglês coloquial falado nas ruas de Nova York; seja pela vulgaridade dos palavrões sujos, tão polêmicos quanto Um beijo no asfalto; ou só pelo fato de ser uma mulher a falar de tudo isso (de pu$$y e a$$) quando lhe convier. A grande genialidade da figura Azealia, é que ela representa em si, a ambiguidade: elegante, marcas caras, bitch wering. Azealia é a típica bonitinha, mas ordinária; saudades de Geni.

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