A mente de um Surfista Solitário

 

a imagem de uma das praias mais gostosas que eu já conheci, Ponta Negra, em Natal.

Penso que o estado ideal do ser humano seja o seu mais íntimo, diligente e ferrenho individualismo. Há uma explicação bastante clara para essa minha tese: segundo Vygotski afirmou – e essa ideia ainda se perpetua sem grandes abalos científicos – a mente é social. Em outras palavras, todas as nossas vivências, sejam elas intelectuais ou empíricas formam o que nós somos hoje; e por essa formação receber influências constantes do meio – porque, teoricamente, estamos vivos e experienciando – somos pessoas diferentes a cada novo instante.

E quando eu digo estado ideal, refiro-me à utopia que sempre nos acomete quando passamos por algum momento não muito bom ou até mesmo ruim, de fato, em nossas vidas. A perda de um ente querido, o término de um relacionamento; os mendigos estendendo suas mãos sujas e ossudas me dá um trocado?; as guerras infindáveis no Oriente Médio e a iminência constante de atentados terroristas; um livro ou um filme dramático com o qual nos identificamos e nos condoemos por dias. Se o real desejo é que não nos sintamos comovidos por essa realidade diária, eu reafirmo: nosso estado ideal é o individualismo.

Talvez, daí, surja a fascinação do homem pelas máquinas: elas não sentem, elas não são movidas pela necessidade, nem se preocupam com as mazelas do mundo. A máquina é apenas a máquina; inteligente e individual a ponto de creditar, a si mesma, a panaceia de que ela precisa pra sobreviver. E se basta.

Supondo que, de fato, nosso estado ideal seja fundado no indivíduo e a nossa busca é para que não sintamos mais nada, fica fácil concluir que estamos deixando de ser humanos, para nos tornarmos seres autômatos. E será tão mais fácil (sobre)viver.

Mas, infeliz ou felizmente, por enquanto, ainda somos mais que nosso próprio umbigo – e, reiterando, nossa mente é social, não artificial -. Você provavelmente já leu algum O cortiço e, desde então, teve de se deparar com questões deterministas de como o meio nos influencia – e de como, as vezes, ele consegue se sobressair à nossa própria racionalidade.

No entanto, admito que meu motivo de escrever este post talvez seja menos nobre que citar uma teoria de Vygotski e demonstrar um pouco do que eu venho aprendendo nesses semestres iniciais de faculdade. Todo esse argumento (pseudo)elaborado para te convencer até agora é, na verdade, um raciocínio para eu me sentir menos frustrado em ter acordado muito bem (não só pela agradável noite de sono, mas pelo rápido cronograma mental que fiz ao pensar no meu dia de hoje – e nos vindouros); pela minha mente ser tão social e meu humor ser tão vulnerável às oscilações do meio.

Defendo-me: como não ficar feliz ao acordar ouvindo a voz dos pais reverberando pelas paredes da casa? É tão bom! – Já faz seis anos que eu moro na capital com minha irmã, eles estão aqui de passagem (em constante passagem, por sinal, rs) -; ou então receber logo cedo uma ligação bom dia ou um sms hey, sumido!; sentir-se lembrado nos dá uma sensação de magnitude e completude tão grandes que por mais que a rotina diga tic-tac-tic-tac-pouco-tempo-corra e esteja nos transformando em cronômetros, são essas pequenas coisas, detalhes, que ainda nos tornam seres humanos.

Hoje é aquele dia do mês, a última-quarta (que, na verdade, agora é toda quinta), que eu me desobriguei, assim deliberadamente democraticamente comigo mesmo, a falar de música e a falar mais sobre coisas aleatórias, crônicas, etc. Mas eu ouvi essa música do Gabriel o Pensador com participação do Jorge Ben Jor na rádio, assim que liguei na “tupi fm” (sdds, laila dominique) pra arrumar meu quarto. E é impressionante a capacidade de deslocar que essa onda da música traz. Não sei se é minha (muita) saudade da praia ou se é de total responsabilidade do “Surfista Solitário”, mas eu abri a janela pra esse sol escaldante e já estava pegando meu kit-farofa, sombreiro, tanga (canga?! – sempre confundo -) e cadeira reclinável pra me estirar na areia às margens do Rio Cuiabá.

 

 

Só posso desejar não ouvir mais essa música hoje, para a vontade instintiva não voltar. E claro, que esse tempo seco não influencie minha vida amorosa. Determinismo seletivo, por favor.

 

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