A Nova Estranha América

Greil Marcus, em seu livro Invisible Republic, de 1997, usou a espressão “Old weird America” para descrever os sons estranhos encontrados na compilação Anthology of American Folk Music. O Invisible Republic é um livro sobre a criação e a importância cultural do The Basement Tapes, um álbum de Bob Dylan. Marcus diz que a influência da compilação no álbum de Dylan é tamanha que a sensibilidade do Anthology está refletida nas gravações do The Basement Tapes e argumenta que os sons do Basement são “uma ressurreição do espírito do Anthology”.

David Keenan, na The Wire, revista considerada a bíblia da música de vanguarda e experimental (por favor, não me diga que você achava que a NME e a Pitchfork detinham esse título), chamou o novo movimento de música experimental que vinha emergindo de “New Weird América”, um jogo de palavras com o termo utilizado por Marcus para descrever o Anthology. Keenan então “cunhou” a expressão “freak folk” para definir o estilo de vários artistas, desde Jack Rose até Devendra Banhart.

O freak folk é um gênero (se é que podemos chamar assim) já velho, mas paradoxalmente novo. Une o folk cru dos artistas esquecidos dos anos 60 com a psicodelia que marcaram os mesmos anos, mas com uma roupagem nova.

O cantor que trouxe esse estilo ao mainstream foi Devendra Banhart, que em 2004 lançou a compilação The Gold Apples of the Sun, que reunia a nata do folk psicodélico independente da época. Esse álbum é considerado o principal álbum do movimento. Banhart também tirou do esquecimento artistas como Vashti Bunyan (essa que é considerada genuinamente a primeira cantora de freak folk).

Banhart e seu estilo de vestir. Seria ele um “hipster”?

Banhart é, talvez, o mais relevante (o que não quer dizer que seja o melhor) de uma trupe de notáveis cuja música é calma, fantástica, surreal e com um traço de ironia. A gangue inclui a altamente poética Joanna Newson, que com sua harpa mortal nos deixa em êxtase, os felizes mas não menos psicodélicos do Animal Collective, as emblemáticas e exóticas irmãs Sierra e Bianca do CocoRosie, e o barroco e teatral Antony Hegarty, do Antony and the Johnsons.

As irmãs do CocoRosie

Eles tocam músicas que a maioria das pessoas consideraria estranhas – o que não deixa de ser verdade. O experimentalismo é tanto que às vezes chega a incomodar, mas é um incômodo bom, que dá prazer em ouvir. É sensacional. Além do folk e da psicodelia, alguns artistas adicionam outros temperos à mistura, como o tropicalismo, a musique concrète, o free jazz, elementos eletrônicos, sons étnicos de lugares distantes etc.

Cada novo artista que você descobre é um universo musical a ser desvendado. Cada ritmo, cada acorde, cada timbre, cada instrumento diferente pode ter um experimentalismo mais diferente ainda por trás. Ou não, pode ser apenas a coisa mais simples e banal do mundo, mas que ainda assim vai soar diferente.

O movimento vem crescendo relativamente rápido. É do Grizzly Bear o melhor álbum do gênero na minha opinião, o Veckatimest. Alguns outros artistas, como a tUnE-yArDs, os Dirty Projectors, o Vetiver e o Ariel Pink’s Haunted Graffiti vêm fazendo relativo sucesso nos meios alternativos.

Aqui vão alguns dos melhores exemplos (os clipes não deixam de ser estranhos, mas excelentes):

O jeito é embarcar na vibe dos artistas e experimentar também.

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