Quem mexeu no meu guarda-roupas?

De todos os aspectos humanos, ou seja, dentre uma variada matiz de traços que dão ao ser o adjetivo de humano, o mais difícil e complexo diante de uma postura analítica, é o do comportamento. Primeiro, porque, como já vimos em post anterior, a nossa mente é social: são diversos fatores do meio que confluem para nos educar e, de acordo com os filtros que recebemos ao longo da vida de pessoas que tomamos como exemplo, vamos criando receptáculos e sintetizando, para nós, informações que influenciarão diretamente em nossas ações comportamentais. Segundo, porque com a mudança dos meios, das vivencias, dos receptáculos – que são naturalmente dinâmicos – nós também mudamos traços de nossa personalidade e do nosso comportamento. E é essa metamorfose tão premente, tão idiossincrática, que nos amplia o entendimento do que seria a igualmente polissêmica palavra viver.

Adianto que está longe de mim a intenção de servir de exemplo – de qualquer coisa que seja -. Perante a sociedade, nunca fui lá molde de muita coisa: nem tão bonito, nem tão inteligente, nem tão extrovertido, nem tão comedido; apenas medíocre.  Desculpo-me também, por, talvez, não ser a pessoa mais indicada para analisar, um pouquinho que seja, o ser humano: tenho amigos psicólogos, conhecidos terapeutas, aos quais, ao final do post, ficariam de cabelo em pé com tanta baboseira.  A meu favor, a certeza de que – ainda – não dependo disso para sobreviver e de que todo o meu conhecimento sobre a psique seja secular: não me especializei em psicologia; posso errar – ou não, rs.

Fugindo do piegas, longe de ser original e beirando o pedante, não gostaria que este post tivesse um ar de Paulo Coelho ou, ainda Augusto Cury. Tomem como um convite à reflexão, uma pausa no dia corrido, ou uma abertura à meditação que eu me pego fazendo sempre, naturalmente, e que acho extremamente interessante e gostaria de compartilhar, como uma imagem do facebook, com vocês. Por exemplo: uma auto pergunta bastante recorrente é “como mudei durante os últimos 5 anos?!” Ou : “como foi que, aos 15 anos eu acreditava ter maturidade de um homem feito, experiente, dando conselhos para amigos, julgando a torto e a direito, e, hoje, aos 20, eu me sinto como um adolescente de 15 – em verdade,  não sei é de nada! -?”

Para figurar ainda mais essa questão um pouco (eufemismo) abstrata de mudança, nada melhor que uma mudança, de fato, no mundo físico para retratá-la. Sim. Há cerca de duas semanas, me pego mexendo com a mudança de casa: carrega móveis pra lá, monta prateleiras cá; amontoa tudo nesse espaço vazio aqui. E, ainda que estejamos mudando para, exatamente, a casa ao lado, percebo que isso pouco ou nada interfere na (in)comodidade: ainda é uma interrupção da rotina; ainda lidamos com a relocação de móveis que, antes, pareciam se encaixar perfeitamente em determinado lugar.

Além disso, nos acostumamos a certos hábitos que, praticamente se tornam leis, sob a pena de, se quebrada, provocar taquicardia, respiração ofegante, ou, simplesmente, cólera – vide eu mesmo, neste instante, que não estou escrevendo na minha mesa branca, no meu quarto, sozinho. Saudades do silêncio -.

Quem disse que mudar seria fácil?

Há um livro que, eu confesso, não terminei de ler porque à época, vésperas de vestibular, estava bastante autômato/bitolado resolvendo exercícios das apostilas, sem tempo para leituras e literatura. Mas, ainda pretendo retomá-lo. Quem Mexeu no Meu Queijo? foi um best-seller que estourou no Brasil em meados de 2002. Através da parábola, no livro, contada por Michael aos amigos, somos levados pelos labirintos roedores de Hem, Haw, Scurry e Sniff em busca de seus tesouros de queijo, que figurativamente, representam nossos objetivos de vida.

A moral da história é a de que, os ratos, ao perceberem que o queijo acabou, tomam atitudes diferentes – abrindo espaço para os leitores, que também assumem posturas diferentes diante de dificuldades e mudanças, se identifique com uma das personagens – mostrando que a vida não é necessariamente um caminho livre de obstáculos mas, sim, um caminho repleto de sobressaltos e adversidades.

Então, sinteticamente, apesar de a vida tender para a natural estagnação – a morte – enquanto estivermos mudando e enquanto buscarmos o melhor jeito de nos adaptar a essas mudanças, estaremos vivendo – não apenas sobrevivendo -. Mudar, ainda que nem sempre, a curto prazo, pareça bom, a longo prazo nos dá oportunidades de fazer parâmetros, reforçar baluartes e refletir sobre determinadas posturas e traços de nossa personalidade que podem ser lapidadas, suprimidas ou exasperadas. O término de um relacionamento amoroso, os amigos de infância que se afastaram; a mentalidade infantil e prepotente de alguns anos atrás: não há regras, há necessidade.

Mais uma vez, eu me pergunto: quem disse que mudar seria fácil?

Já não importa; meu guarda-roupas está desmontado, minhas roupas já não estão mais no mesmo lugar e eu já me peguei vestindo uma cueca, sem querer, com duas numerações a mais; para os viventes, dispostos, folgados, apertados, excitados ou, simplesmente vivos: adaptar (- se), mudar; viver.

Todas as ilustrações deste post são da artista Pat Perry

  1. Gabih Alves

    Quem não gosta de mudanças? Sair da monotonia, conhecer pessoas novas e fazer coisas diferentes do habitual?
    O ruim das mudanças é que, nunca estamos preparados quando elas acontecem, podemos até achar que sim, que estamos, mas isto é um verdadeiro equívoco.
    Aí vem a fase da adaptação…
    Esse comentário aqui não precisa ser considerado, afinal, é um “achismo”, uma opinião de quem não tem formação, nem propriedade para fazer tal afirmação, mas enfim, vou deixar de enrolação, pois vim aqui pra falar sobre o seu post, Lipe. rs
    Então, eu gostei muito desse post, de verdade. Como já te disse, gosto da visão que vc tem sobre as coisas, acho diferente e adoro a forma como vc escreve também. Penso que a cada post, vc cresce mais ainda. *-*
    Parabéns, muito sucesso pra ti e ficarei aqui aguardando sua próxima postagem. rs
    Beijooos

    • Felipe Albuquerque

      eu fico muito grato Gabi, pelo apoio, pelo comentário e pela opinião. não há palavras que consigam exprimir o quão lisonjo me sinto por saber que alguém, ainda que apenas uma pessoa, me lê e que, de algum modo, consigo transmitir uma mensagem que, ainda que não agrade a todos, convença de um modo generalizado. sem mais: obrigado e, por favor, não me abandoneeee!! rs

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