O twee pop e a nostalgia de uma inocência já perdida

Em 1986, a revista britânica de música NME lançou uma fita cassete (sim, daquelas que tem dois furinhos no meio e que a gente enfiava a caneta BIC nos buracos) chamada C86. A fita era uma compilação de um novo gênero feito de letras puras e nostálgicas, melodias doces e alma pura: o twee pop. Estilo esse que é considerado o primeiro de música independente fora dos padrões musicais da época.

A definição de “twee”, no UrbanDictionary:

  1. twee
    Something that is sweet, almost to the point of being sickeningly so. As a derogatory descriptive, it means something that is affectedly dainty or quaint, or is way too sentimental

Resumindo: é algo tão fofo, doce e sentimental que chega a enjoar. Traduzindo para português seria mais ou menos algo como “piegas”. É assim que é o twee pop. Uma explosão de sentimentos não revelados, lembranças perdidas, fofura, nostalgia da nostalgia e uma pitada de frustrações internas.

No começo, o estilo era mais ou menos um subgênero do pós-punk. Esse gênero, junto com os acordes simplificados do punk e as melodias ensolaradas do jangle pop dos anos 60, é a principal influência para esses seres tão tímidos e sonhadores. Quando a NME lançou a fita C86, o subgênero evoluiu e começou a ganhar status de gênero.  A compilação trazia artistas consagrados atualmente, como Primal Scream e The Wedding Present.

Os sons da fita cassete chamaram a atenção por estarem indo contra a corrente que vinha fazendo sucesso. O punk e o pós-punk, ainda que implicitamente, eram extremamente masculinos. Já o recém-nascido twee era algo feminilizado, algo sentimental, algo que conseguia ser feliz falando de coisas tristes, algo que era tão puro e ingênuo que ia contra todas as convenções já pré-estabelecidas para se fazer um rock. Nem mesmo o riot grrrl era páreo para o twee pop e seu açúcar cristalizado.

A C86 é considerada a pivô do surgimento da música alternativa independente britânica. A partir daí, várias bandas emergiram em um curto espaço de tempo. Talvez a mais representativa – e provavelmente a melhor – banda da época, The Field Mice se tornou um ícone no gênero, mostrando que é possível fazem um som nessas características sem ser ou parecer um idiota. A principal gravadora de twee pop, a Sarah Records, é até hoje cultuada pelos fãs órfãos do estilo, que ficou esquecido no começo dos anos 90. Nessa época, o indie virou mainstream. Era um indie totalmente contrário a todas as características do twee pop. O indie dos anos 90 era tudo aquilo de que o twee queria fugir.

No meio dos anos 90, com o sucesso dos psicodélicos do coletivo Elephant 6, e com o relativo sucesso de uma banda de Glasgow que escrevia letras poéticas em melodias melancólicas e felizes, o gênero ressurgiu das cinzas. O sucesso do Belle & Sebastian foi tamanho que outras bandas seguiram o mesmo caminho, tais como as já populares Camera Obscura, Architecture in Helsinki e The Pains of Being Pure at Heart (que mistura os elementos sonhadores do dream pop e do noise com a inocência do twee).

É legal perceber a complexidade dos ouvintes de twee pop. Se você era uma criança tímida, um garoto estudioso, uma garota diferente, uma criança doce, tropeçando em pedaços de si mesmo, provavelmente ao ouvir as bandas você se identificará. Com o tempo, você vai crescendo, e deixando para trás lembranças partidas de uma época que ficou lá trás, e você vai ter que seguir em frente. Mas ainda assim com um pouco de nostalgia. Nada mais apropriado pra esse dia das crianças.

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