Para abrir os olhos

Eu sempre quis fazer trabalho voluntário, sempre achei que isso faria bem para as pessoas e consequentemente faria me sentir uma pessoa melhor, mas não sabia aonde ir nem por onde começar. Então um dia fui visitar uma amiga e ela disse que tava indo com um grupo fazer uma serie de visitas a locais de idosos, crianças com câncer, etc,  eu topei ir com ela.

Nossa primeira visita no asilo me fez sentir muito triste, pensei como alguém é capaz de deixar um ente querido num lugar como aquele, será que ninguém queria essas pessoas? Será que elas tinham sido tão ruins para ir acabar em um lugar como aquele?  Foi quando eu vi num cantinho um senhor que diferente dos outros que lá moravam tinha aspecto de ser completamente são, e ele era tão bonito, estiloso, usava óculos estilo aviador, cultivava um vasto bigode grisalho, um cabelão, e em seu olhar tinha um aspecto de rabugice digno de personagens de cinema. Eu fiquei encantada com aquela figura que destoava tanto do ambiente doente e melancólico daquele lugar e botei na minha cabeça que custe o que custasse eu iria falar com ele, eu sonhadora do jeito que sou já bolei toda a nossa linda história de amizade que nem em filmes como Up altas aventuras, Perfume de mulher, Gran Torino, e vários outros onde o personagem principal pena um pouco, mas acaba criando um laço de amizade com aquele idoso rabugento e tão fechado.  Comentei com a minha amiga que ele tinha aspecto de jornalista e de personagem de cinema, que estava enfeitiçada por aquele senhor e que ia falar com ele, e fui.

Qual não foi a minha surpresa ao ele rejeitar completamente minha primeira investida. E depois o grupo entrou de férias e se passaram 4 meses os quais eu não tirava essa figura da minha cabeça, pensando em meios de me aproximar dele, os meses foram passando e a minha ansiedade só crescia.

Quando finalmente as visitas retornaram eu confesso que estava super assustada de chegar para falar com ele e ser tirada de novo, então pedi para a minha amiga fazer a primeira investida, pois ela é bem mais descontraída que eu, ela escreveu um soneto em uma ficha e levou para ele, eu fiquei a paisana só esperando a deixa para me aproximar, no inicio ele também foi arredio com ela, mas quando ela disse que cursava letras ele abriu um enorme sorriso e disse – Eu também fiz letras!

Pronto! Era tudo que eu precisava, um sorriso, e puxei uma cadeira do lado dele, e esse foi o conturbado inicio de uma linda amizade. Passamos horas conversamos e pedimos autorização para voltar e vê-lo novamente, e ele aceitou, fiquei tão feliz.

Na semana seguinte fomos lá só para vê-lo e fomos recebidas com muito carinho e respeito, eu observei o quanto ele era um cavalheiro, atencioso, e muito respeitoso. Decidimos largar o trabalho voluntário e começar a visitar apenas ele, todas as semanas.

E de lá para cá já vão fazer 7 meses, e nesse tempo nós fomos cultivando uma linda amizade, a minha amiga por problemas pessoais teve de parar de ir, mas eu nunca vou deixar de ir, não cabe aqui escrever as inúmeras histórias que ele me contou, as coisas que ele me ensinou, e as vezes q ele me deu bons conselhos e um ombro amigo para chorar, ele tem se tornado meu melhor amigo e eu não tenho vergonha nenhuma de dizer que meu melhor amigo tem 72 anos e  mora em uma casa de apoio para idosos.

Bom a questão desse texto é compartilhar uma coisa que eu aprendi, não existe essa coisa de trabalho voluntário e fazer bem pros outros para se sentir bem, eu percebi que isso é uma baboseira, pois ao conhecer esse senhor eu percebi que eu não faço trabalho voluntário, não é nenhum trabalho para mim,  passar um tempo com ele, é um prazer uma honra, eu passo meus dias esperando para vê-lo, não é trabalho voluntário é apenas abrir novas possibilidades de conhecer outros mundos e outras vidas, é se abrir para novas experiências. Hoje eu tenho convicção que a amizade dele é muito importante para mim e que ele me faz mais bem do que eu faço a ele.

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