Não é apenas mais um conto de Halloween americano

Arte: Rafael Irineu

Era bem verdade que, quando Katy havia se dirigido ao jardim para conferir os últimos detalhes da pequena confraternização, a Lua já pintava o céu com uma réstia de luz refletida num novelo de nuvens densas; era verdade, também, que agora, olhando pela escada que descia sob seus pés, o medo que ia lhe subindo pela espinha, realizando sinapses e provocando pequenos espasmos pelo corpo todo, parecia antecipá-la para tudo de ruim que viria acontecer nos próximos atos.

– Maldita hora em que dispensei todos os empregados… Rihanna? – chamou, enquanto se achegava ao grande salão no qual desaguava a escada – Garotas, onde vocês estão?

O silêncio só era interrompido por uma gargalhada estridente e anasalada vinda da cozinha e foi para lá que Katy, segurando tremulamente o celular com o número de John Mayer discado, se dirigiu. A cada passo, mais a nitidez da risada ganhava foco; mais podia-se identificar sua origem e as palavras que saiam vomitadas em meio a lamúrias e escárnios. Já na porta que dava passagem para a cozinha, Katy deslizou para dentro, se agachando num balcão próximo. O intervalo fora suficiente para que ela identificasse, no restrito campo de visão, a figura de negro: Lady Gaga. Apenas ouviu:

– Agora quero ver você continuar nos palcos, com essa turnê flop, com esse álbum ruim. Você não é mais 1/5 do que foi um dia… Ma-don-na.

– Deixe-me só levantar daqui, sua desvairada. Você ainda é inferior, vai levar uma surra para pagar pelo que está fazendo – e começou a cantarolar Express Yourself.

– Cala a boca, sua velha!.Com o ácido que você está inalando, logo todo formol de seu sangue irá se converter em álcool… Coma…

– Gata, para! – Disse Katy se levantando.

– Katy! Eu já iria atrás de você… Como vai querida?

– Dispenso sua simpatia.

– Hum… Seja bem-vinda a sua casa.

– O que faz aqui? Você não foi convidada e… Solte Madonna agora! – Katy esmurrou o balcão.

– Calma. Eu só estou jogando fora a “nata” desse pop lixo que está sendo produzido e reproduzido. Não é esse o mundo que eu imaginei para mim, para minha música… Não aguento mais farofa. Quero Art.

– Devaneios e hipocrisia. Suas melhores músicas são farofas. Arte por kitsch, meu amor… Você está louca. Não vai se safar dessa – as mãos buscando pelo celular que havia ficado no chão.

– Ninguém sabe que estou aqui. Quer dizer, eu tenho alguns monsters infiltrados. Sabe a Zezé? “eu quero ver tu me chamar de amendoim!”? Apenas um exemplo… E, que burrice dispensar todos seus empregados. Logo no dia do Halloween?! Que oportuno! Vai colocar a empregada da Rihanna pra lavar louça? A vovó Madge pra fazer os docinhos? Enfim, que ótima oportunidade para acabar com vocês, todas juntas, de uma só vez. Vai ser choque de monstro, meu amor! Quem vai desconfiar de euzinha, a Rainha Lady Gaga?

– Linda, primeiro: Zezé é Beyfã; essa história está mal contada. Segundo: desde de Paparazzi você não engana ninguém. Agora fazendo a recalcada e invejosa pra cima de mim? Por favor… – Madonna gemeu de dor e, como num último suspiro, permaneceu quieta, com a cabeça pendendo para o lado direito -Ela precisa de um médico, Gaga – e abaixou para pegar o celular -.

– Movimento errado, honey.

Lady Gaga correu para junto de Katy Perry e, lutaram pela posse do celular, até que Katy foi arremessada no balcão de mármore e Gaga pode se livrar de qualquer ameaça, prendendo-o junto ao seu sinto de couro.

– Sabia que engordar na pizzaria de papai iria me servir pra algo.

– Sua maluca! – Disparou Katy.

– Você me dá pena, com seus vocais ruins.

– Preciso te lembrar quem está na Billboard, meu amor?

– Quieta, vadia! Vai ser bom te ver implorando pra viver…

– De mim você não terá sequer silêncio.

Silêncio.

– E a Britney? E a Rihanna? O que você fez com minhas amigas, minhas convidadas? – Disse Katy se apoiando, um tanto quanto desnorteada, na torneira da pia -.

– Bem, Rihanna foi fácil. Quanto mais eu batia, mais ela gostava. Aí eu me cansei e enfiei uma dessas abóboras de Halloween em sua garganta. Se ela não tivesse morrido, teria se apaixonado. O momento de retocar a maquiagem foi perfeito pra ela se isolar no banheiro. Sou genial. Nothing less

– Você não vai se safar, não vai se safar… – Balbuciou Katy

– E Britney… Bem, contei uma história de um palhaço, destes bem caricatos. Certamente, ela ainda está em choque, imóvel no porão com a boca vedada… Muda. – Respirou – Acalme-se que, depois de você, passarei para “vê-la” e, fim, essa festinha de Halloween acabou, em grande estilo. Estou pensando em começar com uma tortura, te colocando pra ouvir seu próprio live de Firework…

– Deixe-nos em paz, seu monstro! – Katy investiu contra Lady Gaga, que sacou uma faca e perfurou o peito direito de Perry -.

Katy agonizou silenciosamente. Aos poucos, seu corpo ia tombando, caindo por sobre a pequena poça de chantili, decorrente da hemorragia.

– Vou vir puxar-r seu Lambo- – tin – Katy se deitou lentamente. Silenciou

– Sem mais remixessss – sibilou Lady Gaga.

Quando todo o trabalho havia terminado, Lady Gaga ateou fogo em todos os cômodos que escondiam suas vítimas.

De longe, quando as nuvens cinzas se misturavam ao céu negro despertando a atenção das autoridades locais, uma sombra já corria pelo jardim, se esgueirando entre os arbustos; fugindo. A Lua, antes uma pintura, não fez diferente: sumiu sem deixar vestígios. Um borrão escuro numa noite de Halloween.

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