Ruby Sparks: sobre amor e expectativas.

Não é de hoje que criamos expectativas sobre pessoas e, todos os dias, pelo menos algum desafortunado – ou desafortunada, já que a falta de sorte não discrimina gênero – se apaixona por alguém sem mesmo conhecê-la. Tá certo, não é todo mundo que se apaixona na primeira vista, mas quantos milhares – ou milhões – não se apaixonaram pela ideia de alguém? Pela concepção platônica que você – em questão de segundos – criou sobre a pessoa em questão. O grau de platonismo pode variar de uma pessoa à outra, mas todas fazem parte do mesmo clube. Esse tipo de paixão é um sentimento complexo e um tanto quanto lamentável, tendo geralmente como resultado final algo frustrante (normalmente envolvendo um punhado de lágrimas, determinada quantidade de comida e/ou bebida, além da promessa de nunca mais passar por isso de novo). Essa receita, ainda que desapontadora na vida real, pelo menos é um sucesso cinematograficamente: vamos chamá-la de Escola Annie Hall de Expectativas Frustradas, cujos ensinamentos podem ser vistos em (500) Days of Summer, How I Met Your Mother e Submarine (para citar alguns exemplos mais recentes). Todavia, nenhum deles é tão literalmente platônico como Ruby Sparks.

Calvin (Paul Dano) é um prodígio da literatura que antes dos vinte já era considerado um gênio americano, todavia, já faz dez anos desde lançou seu fantástico debut e desde então ele vive em um bloqueio criativo. Ou melhor, vivia. Ao sonhar com uma garota que inventou, Calvin – em um dos grandes lances de sua solidão – decide escrever sobre um relacionamento entre os dois, o que acaba levando-o a produzir paginas e paginas de texto em uma velocidade alucinada. Ele se apaixona por sua personagem, o que não chega a ser um problema até o momento em que Ruby – assim ela foi nomeada pelo escritor – aparece em sua casa, tão viva quanto o esperado de qualquer ser humano.

Uma das lendas da mitologia grega é a de Pigmaleão, um grande escultor, considerado muito famoso. Muito solitário, ele decidi esculpir a mais bela estatua de Afrodite já feita pelo homem. Após trabalhar incansavelmente, ele finaliza sua obra e descansa. Durante o sono, a deusa do amor se apieda do escultor e dá vida à estatua, que recebe o nome de Galatéia. Na lenda, tudo termina bem (eles tiveram uma filha que teve filhos e assim por diante). Entretanto, em Ruby Sparks os acontecimentos seguem outro rumo. Se Calvin a fez humana, com uma personalidade bem especifica – bem aos moldes de Ramona Flowers, Summer e a já citada Annie -, nada mais natural do que ela agir como humana, e é ai, a partir do momento em que a personagem/garota real foge às expectativas que Calvin começa a perceber a merda que fez, e também é nesse momento em que o longa-metragem mostra porque sua ficção é tão real (curiosamente, Efeito Pigmaleão é o nome dado pela psicologia para quando usamos nossa expectativa e percepção da realidade para nos relacionarmos com a mesma).

Ainda que Paul Dano seja meio Michael Cera e se interprete repetidas vezes em diferentes filmes, o elenco possui a química necessária para fazer os diálogos funcionarem (atenção especial para a maravilhosa Annette Bening e Antonio Banderas como a mãe e o padrasto hippies de Calvin), contudo, quem rouba a cena é Zoe Kazan que além de interpretar Ruby, também assina o roteiro (fazendo parte dessa nova leva de atrizes-roteiristas-produtoras encabeçada por Lena Dunham).

Ainda que não tenha outras características tão boas como o roteiro, o filme é muito bem feito (os diretores são os mesmo do ótimo Little Miss Sunshine, a febre indie de 2006), com uma boa trilha sonora e fotografia que chega a ter seus momentos de contemplação (afinal, quem nunca quis chorar de emoção pela beleza de um filme?). Entretanto, a grande mensagem do longa-metragem deve ser colocada em prática pelo expectador: não tenha grandes expectativas, elas geralmente vão te desapontar e você vai acabar perdendo algo que seria ótimo em qualquer outra situação.

Ruby Sparks pode ser descrito como uma dramédia romântica, ou até mesmo como filme sobre magia, mas é principalmente sobre amor, expectativas e como pode ser difícil encarar a realidade.

 

Um Comentário

  1. Cibele Franca Grangeiro Borges

    assisti esperando um grande filme por adorar Little Miss Sunshine, e me surpreendi ao ver que a garota que ele idealizou como perfeita não era uma simples ‘gostosa’, a beleza de Ruby deixa o filme bem peculiar. Não sabia dessa lenda grega, mto
    romantica por sinal *-* aaah e o Antonio Banderas completa o filme se tornando uma surpresa mto boa no elenco.

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