O retrato, por Gogol

Alguns artistas se veem, constantemente, diante de um impasse: o que fazer com sua arte: dedicar-se a esta por amor, e não comercializá-la, afinal, os apreciadores saberão o real valor delas; ou seguir uma vertente que não lhes agrada por dinheiro e assim se manter dela, ou ainda, tentar conciliar os dois sem deixar a essência sumir. Tal dilema foi relatado de uma forma tão consequentemente natural por Nikolai Gogol, em “O retrato”, que, por vezes, nem sequer parecia ser um conflito tão grande na cabeça do protagonista da primeira parte do conto.

Nikolai Gogol

A primeira parte do conto é sobre uma parte da vida de um jovem pintor, Tcharkhov, que, mal tendo o dinheiro para pagar seus aluguéis vencidos, consegue, de alguma forma, dispensar uma parte de seus últimos centavos na compra de um retrato que acredita ter pertencido a um exímio pintor.

O retrato em questão é de um velho com traços asiáticos, cujo olhar é aterrorizante e marcante, e, apesar de já se encontrar aos pedaços e coberto de poeira, é extremamente sombrio e realista. Tcharkhov descobre escondida neste retrato determinada quantia de dinheiro, e passa a ser um pintor “de moda”, que faz o que as pessoas desejam, deixando de lado o seu talento para outros tipos de pintura, se deixa levar pela luxúria, ganância, e pouco a pouco, sob o efeito inicial deste quadro, ele segue por um caminho de loucura e constantes sentimentos conflitantes.

A segunda parte do conto revela um pouco mais sobre o retrato, e traz também outras tragédias que se seguiram a pessoas que tiveram contato com este, principalmente com o pintor de tal obra, que acreditava ter pintado o diabo em pessoa. A narrativa do conto se mostra bem coerente quanto ao contexto que está sendo apresentado, mas, devo dizer que, nesta segunda parte, Gogol capta e relata de uma maneira fascinante os sentimentos dos personagens envolvidos.

E, logo ao decorrer de algumas páginas, percebe-se o principal foco desta obra: a crítica à sociedade russa daquela época, os seus costumes, gostos, afazeres, por meio do olhar deste escritor e das palavras proferidas de uma maneira tão inteligente. E tal crítica é construída através do impacto deste retrato, que de alguma forma, traz nas pessoas os sentimentos mais perversos e baixos que elas podem ter, se caracterizando, de fato, como uma figura diabólica, capaz de exercer diversas influências.

Não posso afirmar que seja o meu conto preferido,  nem posso fazer muitas comparações com outras obras russas. Sei que, por vezes, o leitor pode se ver diante de cenas paradas, repetidas, porém, Gogol sempre recompensa com um roteiro inquietante através do qual ele conduz seus personagens neste conto que dificilmente fica esquecido em uma estante.

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