Falta de representatividade e racismo causam adiamento da Mostra de Cinema Negro

Por André Garcia Santana

Adiada  pela insatisfação relacionada à falta de representatividade e acusações de racismo, a “Liberdade Mostra de Cinema Negro”, que aconteceria no período entre os dias 15 e 19 deste mês, não tem uma nova data para sua realização. A decisão foi tomada após uma série de denúncias contra a programação, que não contemplava cineastas ou produtores negros. O debate, nascido da ausência de representação ganhou corpo no Facebook, expondo a falta de diálogo entre o Estado e esta camada da população, muitas vezes invisibilizada pela política e administração pública.

As críticas levantadas com divulgação da programação, na última semana, levam em consideração a sua grade, composta majoritariamente por produções de profissionais brancos. O caráter racista, de acordo o representante do Movimento Rota, André Eduardo Andrade, fica ainda mais evidente com a nomenclatura da sessão “Deu Branco”, repetida em grande parte dos espaços da agenda. Nomes de artistas negros também foram ignorados pela curadoria na escalação para as oficinas que seriam ministradas, segundo ele.

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Programação inicialmente divulgada pela Sec.

A discussão levantada também por grupos como o Coletivo Negro da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), de Quilombolas e religiões de matrizes africanas, aponta ainda para falhas no próprio conceito da divulgação. “Quando você vê grilhões se desfazendo e se transformando em borboletas, percebe que não estão atentos as demandas atuais da população negra, protagonista de sua própria existência”, comenta o produtor cultural.

Um abaixo assinado contra a programação foi criado, reunindo dezenas de assinaturas. Na ocasião e a Secretaria de Estado de Cultura (Sec), informou que houve um erro na divulgação do material que o nome “Deu Branco” já havia sido substituído por “Sessão Regional”, espaço no qual profissionais do Estado exporiam trabalhos relacionados ao assunto. A pasta convocou ainda uma reunião com movimentos artísticos, religiosos e sociais, para que reivindicações e sugestões fossem expostas por quem vive e luta diariamente por uma existência igualitária.

No encontro, realizado no Palácio da Instrução, no entanto, um dos produtores foi acusado de fazer afirmações racistas ao longo das discussões, e os apontamentos já acatados pela organização foram desconsiderados diante da situação, agravada com um desentendimento entre ele e André. “Durante a reunião houve vários momentos em que percebemos a falta de diálogo da curadoria, que nem mesmo estabeleceu uma temática concreta para a mostra. O produtor chegou a dizer que não deveria existir o Dia da Consciência Negra”, relata.

A situação foi narrada pela também integrante do Movimento Rota, Amanda Nery, por meio de uma postagem em seu perfil.  “Os ânimos se exaltaram e o João colocou o dedo na cara do André e levantou o tom de voz. Nesse momento, eu me coloquei fisicamente entre os dois e gritei, berrei, urrei que não admitia que NINGUÉM humilhasse um negro na minha frente…Continuou gritando e avançando cada vez mais perto até outras pessoas intervirem. Um segurança chegou a ser chamado… Mas não recuei. Porque eu não vou mais admitir isso. Nenhum de nós vamos. (Sic)”

sem-titulo1Arte da Mostra Liberdade, também alvo de críticas.

De acordo com André o caso só evidencia a problemática levantada pelo grupo uma vez que, que uma pessoa branca não poderia considerar tais recortes sociais com a propriedade que uma pessoa negra, inserida nestes contextos. “O Deu Branco foi só a ponta do iceberg. Foi a partir dele que percebemos todo o problema que a falta de representatividade envolvia e resolvemos correr atrás. A elaboração da programação com 70% de profissionais brancos, o conceito da divulgação e a própria postura dos realizadores não seria assim se o projeto fosse realizado por pessoas negras.”

A Sec garantiu que o diálogo com a comunidade será mantido e comunicou, por meio de nota, que o evento será realizado em nova data. “LIBERDADE: MOSTRA DE CINEMA NEGRO, que seria realizada no período de 15 a 19/11/2016, será prorrogada para uma nova data, em razão da reorganização de sua programação proposta pelo movimento negro e agentes do setor do audiovisual em reunião aberta na última sexta-feira (11). Segundo o informe, a SEC trabalhará de forma integrada com os segmentos envolvidos para a finalização da nova programação.

O adiamento, resultante da intervenção dos grupos se mostra como uma medida paliativa, na opinião de André, já que os movimentos só foram ouvidos depois que diversos problemas foram apontados na organização. Sob esta perspectiva André conclui que a medida foi necessária para o momento e que agora uma nova programação, que realmente contemple a população negra, poderá ser elaborada com mais tempo e cuidado.

Sobram ainda os resquícios da desigualdade imposta pela estrutura racista, que permeia sociedade e instituições. “Nossas demandas vão além de uma data apenas, mas não podem querer nos invisibilizar até no Dia da Consciência Negra. Dói muito quando tratam sua reivindicação como exagero, como se você tivesse querendo tirar vantagem. O que é preciso pra que a gente não sejamos tratados como um pretos loucos falando besteira? ”

Enquanto a mostra não ganha uma nova data, separamos cinco produções nacionais dirigidas por profissionais negros, que abordam a temática racial como cerne de seus trabalhos.

Bróder (Jeferson De – 2011)

Capão Redondo, bairro de São Paulo. Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane) são amigos desde a infância e seguiram caminhos distintos ao crescer. Jaiminho tornou-se jogador de futebol, alcançando a fama. Pibe vive com Cláudia e tem um filho com ela, precisando trabalhar muito para pagar as contas de casa. Já Macu entrou para o mundo do crime e está envolvido com os preparativos de um sequestro. Uma festa surpresa organizada por dona Sonia (Cássia Kiss), mãe de Macu, faz com que os três amigos se reencontrem. Em meio à alegria pelo reencontro, a sombra do mundo do crime ameaça a amizade do trio.

A Negação do Brasil (Joel Zito Araújo – 2001)

O documentário é uma viagem na história da telenovela no Brasil e particularmente uma análise do papel nelas atribuído aos atores negros, que sempre representam personagens mais estereotipados e negativos. Baseado em suas memórias e em fortes evidências de pesquisas, o diretor aponta as influências das telenovelas nos processos de identidade étnica dos afro-brasileiros e faz um manifesto pela incorporação positiva do negro nas imagens televisivas do país.

“Família Alcântara” (2006)

O filme conta história da família Alcântara formada por 78 pessoas de etnia bantu (origem da maioria dos africanos escravizados na América), que acreditam descender de povos que foram levados para Minas Gerais em 1760, e postos a trabalhar em plantações. Lilian Solá Santiago foi homenageada em Brasília por ter sido a primeira cineasta negra a ter um filme de média-metragem documental exibido em circuito comercial.

“Kbela”, Yasmim Tayná
O filme bebe na fonte do cineasta Zózimo Bulbul em especial em Alma no Olho. Kbela é uma poesia visual, cuja a técnica e estética estão alinhadas à linguagem cinematográfica no sentido de nos aproximar dos dramas das protagonistas. Curiosidade: o curta nasceu de um poema da diretora. O projeto foi concebido por várias mulheres negras e traz como uma das protagonistas, Maria Clara Araújo, uma mulher trans.
“O Dia de Jerusa”, de Viviane Ferreira
Bixiga, coração de São Paulo. Jerusa, moradora de um sobrado envelhecido pelo tempo, em um dia especial, recebe Silvia, uma pesquisadora de opinião que circula pelo bairro convencendo as pessoas à responderem questionários para uma pesquisa de sabão em pó. No momento em que conhece Silvia, Jerusa a proporciona uma tarde inusitada repleta de memórias, convidando-a a compartilhar momentos de felicidade com uma “desconhecida”. O filme foi exibido na mostra “Short Film Corner”, um espaço profissional dedicado aos encontros, aos intercâmbios e à promoção do filme curto, paralela à mostra competitiva.

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