Ainda sobre aquilo que nos conecta

Por Felipe de Albuquerque

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Yukai Du; setembro de 2016

É estranho voltar após um longo hiato. O jogo do tempo foi tão sagaz que sequer deixou poeira sobre os móveis. Nesta casa está tudo no lugar em que foi deixado. Os móveis conservaram a mesma tonalidade, algumas peças de roupa ainda estão sobre a cama e, na pia da cozinha, repousam alguns copos sujos. A desordem sutil e honesta se manteve no ar, à espera, como se sonhasse que este nosso distanciamento fosse breve, de modo que, tão imediatamente, de surpresa, eu pudesse retornar para dar conta das coisas. Eu também não imaginei, à época, que me ausentaria por tantas horas, dias, meses… Mas aconteceu como um sopro.

Passaram-se três anos. Ou seriam quatro? É sempre um trabalho hercúleo dizer com precisão quando foi a última vez em que estive aqui. O tempo, mais uma vez foi sagaz e muito sutil em sua passagem sobre meus olhos. Vasculho rapidamente alguns arquivos e confirmo: quatro anos. Quatro anos. Chego mansinho, conservando, por ora, o estranhamento do retorno, com mais vontade de observar, que de opinar. Ambiento-me e me acostumo com o espaço que já foi tão familiar. É como retornar ao trabalho após um feriado prolongado. Como agora.

Do lado de fora e, desde então, muitas mudanças aconteceram. Dentre alguns dos eventos que vão surgindo ao alcance da memória, por exemplo, a lembrança de que conclui a graduação, de que estou exercendo a minha profissão num lugar incrível, de que sou tio pela segunda vez e de que me tornei vegetariano.

Enquanto a vida seguiu, aqui, nesta casa, no PACULT, tudo permaneceu incólume: os registros opinativos sobre a música pop internacional, o percurso de artistas e de nomes massivamente conhecidos – e de outros nem tão conhecidos assim –, as crônicas dos dias e alguns rascunhos da vida e do ordinário. Os móveis ainda estão no lugar, com suas cores vívidas e distintas. Em alguns cômodos, ainda é possível notar as evidências de alguns equívocos gramaticais ou conceituais. Tudo por aqui, como um baú de memórias expostas. Tão minhas, tão nossas. De alguém que já fui mas que, inteiramente, não sou mais.

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Yukai Du; setembro de 2016

Depois desse hiato é estranho voltar. A engrenagem range diante da força inicial, reverberando pelos ambientes da casa; pressionando as estruturas a se moverem, acomodando, como possível, aquilo que estava posto. E o novo. Não só eu, mas outros mais chegaram e vão chegando. Outras perspectivas, outras ideias. Eu mesmo mudei. É impossível continuar com a mesma cara. Quatro anos desde “Scream & Shout: a corte está ameaçada”, texto sobre a novo videoclipe do will.i.am com a Britney Spears publicado no dia 29 de novembro de 2012.

Neste cenário e, apesar das mudanças, decidi que os meus temas de antes continuariam permeando os textos tratados nesta coluna: o cotidiano (ao qual se inclui este registro) e, sobretudo, música pop. Valho-me da mesma justificativa que iniciou este trabalho anos atrás, quando este blog foi iniciado por um grupo pequeno de estudantes de Comunicação Social ansiosos por exercer a escrita e publicar nossos registros sobre o mundo.

Além de ser um consumidor dessa cultura popular, acredito veementemente que a música conecta as pessoas, para além das etnias, do espaço e do tempo. Por seu caráter massivo e seu impacto direto na indústria, o pop atravessa as fronteiras e sintoniza tantas outras mais sensações numa mesma frequência. Transpassando as críticas a esta indústria – que considero pertinente –, compete-me aqui dialogar com as pessoas que se sentem representadas por esse estilo musical. O que elas ouvem? Como se dá essa relação com os artistas locais, nacionais e internacionais? O que acontece e o que tem de novo neste cenário? Seus clipes, seus filmes, seus álbuns.

Sob uma perspectiva muito pessoal e, isto faz parte do novo segmento do PACULT, investigarei a produção deste tipo de cultura em Cuiabá. Talvez, a linguagem precise ser adequada para o novo perfil do blog, mais jornalístico, mas ainda assim – e felizmente –, não muito sisudo.

A periodicidade desta coluna será quinzenal, mas, a depender do fluxo de produção, isso poderá se adequar, tornando-se semanal (como antes). Por ora, apeguemo-nos à primeira opção, afinal, o período mais longo de maturação de uma matéria permitirá um conteúdo mais elaborado e, a isso, percebo uma intenção muito importante e significativa.

Aos poucos, e isso é um acordo, vamos juntos organizando a casa, os cômodos, lavando os copos sobre a pia e guardando as roupas que estão sobre a cama. Não que eu tenha deixado estes objetos no passado, mas é que eles precisam ceder espaço para uma nova desordem. De forma colaborativa, quero insistir em falar sobre uma das formas que nos conectam e de como a música pode nos sintonizar numa mesma frequência. Antes, hoje e sempre, ainda de um jeitinho bem cuiabano.

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Todas as ilustrações que dão contornos a esta publicação são da designer e ilustradora Yukai Du. Conheça mais seus trabalhos clicando aqui.

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