Obsessão na geração crush

Por Yasmin Souza

 

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Gianni Berengo

O mundo é feito de relação. O outro sou eu e eu sou o outro. Onde existe outro, há lei, há respeito, ética e dignidade.

Aí veio o libertino e disse: – O mundo é putaria.

Bom… Uma amiga uma vez me disse, que romance é igual fazer xixi fora de casa, você não quer, mas como não tem outro jeito mesmo, vai, né… Viver de paixões é fácil, mas e aquele amor que  Guimarães Rosa cantava que é um pouquinho de saúde?

Consumimos até nossa forma de relacionar, somos criados desde nosso cerne, temos registros já tão delimitados que reproduzimos. Reproduzimos nosso erotismo, nosso prazer, nossas paixões. É quase um ato canibal, quanto mais desejo, mais me satisfaço, mais consumo o Eu de mim. Viver de paixões é quase que viver na zona de conforto. Paixões se dissolvem, se consomem, mas não constroem apropriadamente.

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Antes do Amanhecer – Richard Linklater

Tudo parece estar envolvendo somente mero consumismo sexual, abraçando certos estereótipos libertários que não garantem relações mais saudáveis, pois só se constituem da dimensão sexual. A insistência nas relações baseadas somente nos interesses sexuais, impede e barra o uso da gentileza, dos elogios e da amizade. Da sincera conexão que se atribui nessa teia de conexões que o mundo proporciona, da leveza do comunicar. Quando você anseia por alguém, você anseia a resposta afirmativa daquela pessoa aos teus desejos, que quem sabe, não fale só sobre sua própria carência de não saber se satisfazer sozinho?

Nós encontramos pessoas, não procuramos.

Você espera encontrar a pessoa suficientemente capaz de suprir carências internas para sua própria satisfação, e cria-se a obsessão pela concorrência, por se fantasiar nesse campo minado de relações afeto-sexual, onde tudo é corriqueiro. Até minha adolescência, a denominação desse surto dos crush’s era chamado de amor platônico mesmo, onde se molda a pessoa, que torna-se objeto, a seu próprio encantamento. Enxerga até relógio de ouro onde na verdade é cobre enferrujado.

Não espere que alguém dê aquilo que se deve obter sozinho. Felicidade é conteúdo inato, se focar, é um mergulho. É o tipo de remédio obrigatório, diário, controlado e disciplinado. É o ato consciente e ético que trata Espinosa, que trata o tantrismo, e mil e uma outras vertentes que consideram que o nível de conhecimento aplicado torna-se algo somático, evolucional. Você é o seu próprio conteúdo de prazer principal, o seu próprio amor, é questão de autonomia, de poder.

Não se deve esperar por falsos amores voando com asas inexistentes e nem olhar admirados para o céu, o amor é uma construção que sai do chão. O amor platônico nos mantém cativos na caverna vendo luzes e sombras. Ele nos alimenta de imagens pálidas que brilham distantes e faz nos tornamos raquíticos sentimentais, onde se não se vê, se vicia.

Apenas os homens fizeram de sua atividade sexual uma atividade erótica, uma busca psicológica independente do fim natural. Segundo George Bataille, o erotismo do homem difere da sexualidade animal justamente por colocar em questão a vida interior. O erotismo é, na consciência do homem, o que nele coloca o ser em questão.

Nós já nascemos amorosos, mas vivemos em um momento histórico em que predominam relações de dominação e competição, contrapondo aos fundamentos amorosos. Esse tipo de relacionar é o oposto do amar, pois amar é um respeito pela individualidade. Amar nos permite sermos vistos, escutados, sentidos. É um tipo de comportamento em que não há expectativas e preconceitos, impera a aceitação do outro pelo que se é de fato, não do que se espera do Ser. O ideal é recuperar o constitutivo do próprio ser e ir de encontro ao outro.

Só o caminho é que se faz no encontro dos amores.

 

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