O peso do canudo

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Antes de ser calouro ou veterano, sou humano

Por Marcelo Dantas

“Sabe o que ninguém me contou quando entrei na faculdade?”, indagou-me Pedro, 28, advogado, enquanto espalhava a manteiga de amburana no pão. “Que a tinta do trote nunca mais sai dos jeans?”, respondi, arrancando dele uma leve e despercebida risada. “Não, idiota”, retrucou, agora sisudo, dedo em riste. “Ninguém me contou que a tinta do trote nunca mais sai nem da cueca!”, finalizou, sem conseguir conter o riso.

Celebrávamos, no charmoso Flor Negra, na São Sebastião, minha graduação em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso. “A eterna FD. Amor e ódio, saudade e alívio”, disse-me, nostálgico, e continuou: “Se não fosse pela camiseta, jamais saberia que 1957 foi o ano de fundação da nossa faculdade”. Três anos atrás, em 2013, era Pedro que, deslumbrado, recebia das mãos do queridíssimo Tavoloni o canudo vermelho.

“Estava vazio?”, questionei, causando nele um repentino arquear de sobrancelhas. “Vazio? Nenhum canudo é entregue vazio”, afirmou. “Quando recebeu o seu, não sentiu o peso da dúvida, da incerteza e da insegurança?” E, partindo a terrine de porco ao meio, respondeu a pergunta que abre este diálogo: “Quando entrei na faculdade, ninguém me contou que não é todo mundo que experimenta um ‘chamado’ na vida”.

“Decidiram?”, interrompeu-nos o garçom. “Filé mignon empanado”, prontamente sugeri. Escolha tranquila; era o meu prato predileto. Perturbado, naquele instante, ficou meu pensamento, em face do apreensivo coquetel de frases que Pedro me serviu.

A palavra “chamado” havia me… chamado a atenção. No vasto menu de ciências, escolhi as jurídicas. Aos 20, decidi cursar Direito. Escolhi? Decidi? Decidiram por mim? Estagiei em escritórios, tribunais e na Defensoria Pública. Fui aprovado em concursos públicos ainda na faculdade. Trabalho, hoje, numa procuradoria. Teria eu experimentado um “chamado”?

“Que horrível absurdo, ter de decidir a própria vida na juventude, quando se é idiota”, exclamou Pedro, citando passagem “de um filme polonês cujo nome não me lembro”, mas que aqui cabe o registro: “Day of the Wacko”, obra de 2002 do diretor Koterski. “Dantas”, continuou, “advogo há três anos e confesso: não amo o que faço. Não que eu odeie meu trabalho; é diferente. Apenas afirmo: não o amo”. A tela alegre de Adir Sodré na parede contrastava com o quadro sombrio que Pedro parecia pintar. “É uma pena”, comentei, e novamente recebi um repentino olhar de surpresa.

“Não é”, afirmou, contundente. “Sabe o que ninguém me contou quando entrei na faculdade, e dela saí? Que nem todo mundo encontra um propósito específico numa carreira. Que realização pessoal e trabalho não têm de estar obrigatoriamente ligados: ninguém deve se sentir fracassado por não prezar a carreira que escolheu, ou por não amar o que faz. Às vezes, Dantas, trabalho é apenas trabalho. E isso é normal. Não é uma pena — é o que paga as contas.”

“É o que paga este filé”, afirmei, quebrando a austeridade do diálogo. Não foi só a Pedro que deixaram de contar essas coisas. Recém-formado e já contando três anos de serviço público, não foram raras as vezes em que voltei para casa frustrado ou desiludido por não sacudir o mundo com o que eu fazia. Vários foram os momentos de dúvida, de insônia e de ansiedade por não me sentir realizado. No entanto foram raras, e quase inéditas, as ocasiões em que conferi humanidade a essas inquietudes.

Sabe, pois, o que ninguém me contou quando entrei na faculdade? Que, antes de ser calouro ou veterano, sou humano. E a mim é permitido sentir dúvida. A mim é permitido sentir medo, insatisfação, mesmo que doa — e sem culpa. Pior seria perder a sensibilidade. Isto é ser humano. Isto é estar humano. O que me é proibido é deixar o Flor Negra sem saborear a sobremesa que leva o nome da casa — e obedeci. Duas vezes.

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* Marcelo Dantas Ribeiro é bacharel em Direito pela UFMT | mdrlv@me.com

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