Sem despedidas: fico em Cuiabá

Por Raquel Mützenberg

Nos últimos anos pude experimentar o que sempre achei que seria a solução para os meus problemas de adolescente rebelde e sem grana: me ausentar de Cuiabá, mesmo que por pouco tempo. Durante a faculdade, que cursei em Cuiabá, um dos primeiros textos mais elaborados que escrevi se chamava “Vou-me embora de Cuiabá”. Querendo dar o fora, sentia que me não encaixava em nenhum grupo social e almejava viver o que outras cidades poderiam proporcionar: cursos de artes, experiências culturais, shows, amigos artistas.

A constante insatisfação me fez correr atrás com o que eu tinha nas mãos: amigos com sonhos parecidos. Incrível pensar na força que uma boa ideia tem, mas uma boa ideia compartilhada… talvez seja o que estamos prestes a viver com a instituição da MT ESCOLA DE TEATRO. Ainda que tardia para a realidade do grupo de amigos artistas que compartilho a vida, vem num momento em que precisamos dar uma respirada profunda para acreditar num futuro mais justo e, tomara não tão distante.

Hoje, depois de passar 25 anos da minha vida em Cuiabá, e alguns meses fora – nos quais pude conhecer minimamente a sensação de sentir saudades do meu lugar – escrevo de longe, novamente. Daqui, vejo artistas propondo repensar o uso da praça da Mandioca, que se tornou movimentada depois de um fluxo de eventos impulsionados por artistas. Vejo grupos de teatro realizando festivais com ou sem apoio, levando ao público performances extremamente potentes. Vejo grupos afirmando suas identidades pautadas na desconstrução do gênero. Vejo Cuiabá com uma potência de crescer no setor criativo, com pessoas competentes e talentosas. Hoje entendo porque não ir embora. Porque faz mais sentido criar o nosso, e nas dimensões que a cidade tem, vejo um mar de possibilidades.

Estou no Cariri, região do sertão do Ceará, participando da Mostra Sesc Cariri 2016 com a performance Maiêutica. Vim só, sem equipe, mas com duas bonecas na mala: minhas eternas companheiras. Aqui, o festival acontece nas cidades maiores e nas menores. Vamos de van (que aqui chama de topique) para os locais de apresentação, apareço nas ruas e caminho parindo.

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Durante as refeições, encontro outros artistas locais e de fora da região. O clima é de festejo, de compartilhar experiências e criar laços. É um clima que eu queria ver em Cuiabá. Quente igual, Cariri e Cuiabá tomam forma de um sonho. Com a cabeça derretida pelo sol quente, tropeço em poetas, repentistas, mamulengueiros, cordelistas, performers, músicos. Lindo demais um lugar com tanta gente que se dedica à arte: donas de casa viram poetisas e dançarinas de côco que afirmam com sotaque pesado que sua função é não deixar a cultura morrer. A galera mais jovem me pergunta cadê meu sotaque, dizem que eu tenho que carregar ele comigo e que se eles forem a Cuiabá levam junto.

De noite, a festa é na praça, com a feirinha Cariri Criativo cheia de novidades, bolsinhas, imãs, comidinhas veganas, e o palco com atrações musicais. Depois de ver o show dos amigos da Banda Mais Bonita da Cidade, conheci o Chico Correia & Eletronic Band:

Conheça mais sobre a Mostra Sesc Cariri de Culturas: http://mostracariri.sesc-ce.com.br/

Na próxima semana vamos viver, em Cuiabá, o Festival Zé Bolo Flô de teatro de rua, e que seja de festa e novos encontros! Confira a programação abaixo:

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