O morro foi feito de samba: 100 anos é cenário de luta e resistência

Ritmo documenta fases da história do Brasil e celebra primeira década com reconhecimento mundial como música popular brasileira

Por Mirella Duarte

Imagine que a arte seja capaz de manter a expressividade de um povo, bem como, proporcionar voz aos menos favorecidos. Dar mais visibilidade as minorias e suas lutas. Mostrar a realidade vezes triste, vezes alegre, mas transformar de maneira poética as dores dos ancestrais em críticas sociais. Virar os olhos do mundo para as avenidas [de carnaval] com trilhas ritmadas por um estilo que já fora criminalizado pelas autoridades no decorrer das décadas. E a arte foi, musicalmente, capaz de evidenciar estes temas, e, apesar de toda a censura em 2016 o samba completa 100 anos. Nesta edição a revista Viver MT fará um especial com depoimentos da velha guarda, músicos, apreciadores e compositores que contribuem ou já contribuíram com este som ao mostrar em como o samba foi e ainda é importante na história do Brasil.

Com influência nos batuques africanos e indígenas a batida do samba é peculiar. Ritmado com o cavaquinho que futuramente em meados da década de 70 foi modificado a partir do banjo, este estilo é harmonioso e pode envolver vários instrumentos, além de combinações entre diversos gêneros. Considerado música popular brasileira por críticos, historiadores e artistas de diferentes modalidades, resgata a essência, história e a multiplicidade cultural de etnias nativas e das que vieram no período de colonização.

Estudiosos afirmam que a palavra samba está relacionada às batidas do estilo, pois, a princípio, os mesmos batuques sonorizariam religiosidades tragas da África, como uma espécie de comunicação ritual através da música e da dança, da percussão e dos movimentos do corpo, na mesma proporção que a capoeira [luta e dança] também originária do Brasil, carrega. Há indícios que ela tenha vindo de uma língua africana chamada banto, falada em Angola.

Sendo assim, os ritmos com o decorrer dos anos também incorporaram elementos de outros estilos, sobretudo no cenário do Rio de Janeiro do século XIX, que ainda evidenciava feridas sociais da escravidão, inclusive, entre brancos e negros, homens e mulheres, ricos e pobres ou de religiões que não se limitavam às matrizes cristãs e européias, como se diferenciavam, por exemplo, a Umbanda e Candomblé.

Em 1930, surgiu Noel Rosa e Ary Barroso, que levaram o ritmo popular às classes médias. É também nesta época foram criadas as variações do samba como samba-canção, samba-choro, samba de breque e samba-enredo. Como retrata a canção de Noel, ‘Orvalho vem caindo’, “Tenho passado tão mal, a minha cama é uma folha de jornal / Meu cortinado é um vasto céu de anil / E o meu despertador é o guarda civil”, no período da Ditadura Militar (1937-1945), no governo Getúlio Vargas, os brasileiros viveram à criação da chamada Lei da Vadiagem, e, em um momento com problemas de falta de trabalho também ocasionado por diversas desigualdades sociais, especialmente para a população de baixa renda e pouca escolaridade, a legislação previa a punição por ociosidade de uma pessoa apta a trabalhar. Desde então, a “vadiagem” serviu, em muitos casos, como amenização de abusos do poder militar — ao representar o Estado — nas prisões efetuadas para averiguações.

Símbolo de resistência, boemia e critica social, o estilo foi auge nas paradas em um período onde a periferia tinha pouca atenção da mídia. O samba retratava desde paixões por mulheres, brigas de bar à pobreza, violência e fome. Na música de Pixinguinha, ‘A Favela vai Abaixo’, o compositor diz saudoso, sobre o amor pela comunidade e dos diversos ataques que a periferia recebia com freqüência. “Vê agora a ingratidão da humanidade / O poder da flor sumítica, amarela / Que sem brilho vive pela cidade / Impondo o desabrigo ao nosso povo da favela / Minha cabocla a favela vai abaixo / Ajunta os troços vamo embora pro Bangu […] / Isso deve ser despeito dessa gente / Porque o samba não se passa para ela / Porque lá o luar é diferente / Não é como o luar que se vê desta favela”, cantarolava.

Com uma realidade além das praias de Copacabana e Ipanema como era costumeiro por outros estilos, não foi difícil se estender pelo interior do Brasil através das transmissões de rádio e aos poucos deu voz e interpretação a importantes poetas e compositores nacionais como Vinicius de Moraes, Cartola e Pixinguinha. Porém, ainda que com ar literário sofria marginalização de muitos veículos de comunicação, polícia e casas de shows.

De acordo com o músico e jornalista Raoni Ricci, o samba, assim como, todas as formas de arte, além de entreter precisam exercer o papel de inclusão, pois esta é a essência do estilo e deve-se dar continuidade ao que ele propõe. “Em Cuiabá a praça da mandioca tem sido fundamental para envolver várias classes sociais através da música. Além de fazer parte do centro histórico da cidade, esta revitalização permite que fortaleçamos não apenas a cultura do samba, mas a união de várias tribos como a do rock, rap, reggae e outras que ouviram o show da Mart’nália, por exemplo, que abriu a programação festiva e de homenagem ao Centenário do Samba [em Cuiabá]”, ressaltou.

Raonni revela que iniciou a carreira de músico há pouco tempo, apesar do gosto pela música brasileira ter vindo desde cedo através da família. “Comecei a cantar em 2012 em ‘canjas’ no antigo Chorinho. Lá tive a oportunidade de conhecer muitos músicos, inclusive da Velha Guarda, que sempre acolheu a mim e todos os outros jovens apaixonados pelo samba. Acredito também que o Chorinho foi fundamental para fortalecer o samba nos últimos anos, que este ritmo também tem a função de critica social, livre pensamento, e de aperfeiçoar novos talentos da musica mato-grossense”, explicou.

Segundo o sambista da velha guarda Marcelo Beleza Pura, o samba carrega traços valiosos da cultura brasileira, pois permite que a realidade seja retratada de forma leve e na maior parte das vezes, animada para combater preconceitos. “O samba é capaz de transformar o que é triste em poesia serena, faz pessoas sorrirem e chorarem com um ritmo forte e cheio de emoção. Meu pai, irmã [Dada da Mangueira] e toda minha família sempre tiveram laços com a música. Aos 15 anos eu já observava os cantores nas rodas de samba. Na década de 80, mais velho, eu vivia minha juventude tocando cavaquinho e tive, assim como minha irmã a chance de participar dos desfiles da Mangueira”, contou.

Marcelo recorda os sucessos dos grupos Originais do Samba e Cuiabá Samba Show, que tinham uma ‘pegada’ bem humorada para descrever o cotidiano. “Eu sempre cantei Martinho da Vila e outros nomes importantes da música. Tive várias referências, mas lembro-me bem que no início da popularização do samba a polícia escorraçava os compositores, que eram a maior parte homens simples e negros nas praias e eles, desta maneira, obrigatoriamente tiveram que desenvolver o samba no morro [favela] e não em outras localidades consideradas ‘proibidas’. Em Cuiabá houveram bandas de samba que se apresentavam além das marchinhas na década de 50 e 60, algumas delas, os músicos cantam e tocam até hoje, mas em outras formações. Praticamente não houve incentivo de nenhuma secretaria governamental durante todo este tempo e acredito que por isso, apesar do sambar ter a história dele em Mato-Grosso, talvez, não tenha se desenvolvido quanto poderia”, explicou.

Beleza Pura afirma que o samba é uma manifestação artística e popular e os encontros eram freqüentes entre os apreciadores, militantes e outros que se identificavam com as letras e batidas. “Tocávamos com lata, pandeiro, reco-reco e as mais diferentes improvisações possíveis para dar ritmo às composições. Aqui [Cuiabá] não haviam escolas de samba no início da década de 60, apenas comemorações de marchinha. Futuramente iniciamos os blocos de carnaval em zonas que hoje ficam o Museu das Águas, encontros de roda de samba na Casa Cuiabana e eles lotavam. Era freqüente a movimentação com mais de 2 mil pessoas”, lembrou.

Há quem diga que o samba foi importante para visibilidade da mulher na música, mas o fato é a figura feminina é que foi crucial para o samba não perder o espaço, crescer e se consumar com o passar do tempo. Isto porque no período pós-abolicionista marcado pela perseguição de qualquer manifestação popular, artística [musical ou de dança], sotaques e religiosidades afro-brasileiras, que visavam manter tradições que a sociedade e elite tentavam descaracterizar, as mulheres negras foram fundamentais, pois além de manterem economicamente as famílias — já que continuaram a trabalhar como ajudantes nas casas grandes foram base para resistência da cultura, como anfitriãs dos eventos e reuniões de grupos nas comunidades.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida), que hoje seria o que é comumente conhecida como mãe de santo, se destaca entre as personalidades históricas. E é na casa desta senhora que fica na Rua Visconde de Itaúna, próximo à Praça Onze, que dizem ter ‘nascido’ os primeiros sambas. Lá aconteciam as reuniões musicais que eram proibidas, onde nomes como Pixinguinha, Sinhô e tantos outros se conheceram e puderam compor.

Sambistas e compositoras como Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Leci Brandão, Clara Nunes, Elza Soares, Mariene de Castro, Nilze Carvalho, Dona Inah, Jovelina Pérola Negra e Clementina de Jesus fizeram história ao inspirar mais mulheres a se manifestarem artisticamente, sem tantos pudores ou o exigente classicismo predominante em décadas passadas. Influência sonorizada por várias das artistas mencionadas, entre elas, Elza Soares, que dizia sobre a dor e amor de ser mulher, negra, artista e lutar contra preconceitos por meio das canções.

Uma das interpretações de Elza neste sentido foi em ‘Mulher do Fim do Mundo’, que descreve a vida e militância através, também, dos microfones – para falar da favela, pobreza, solidão da mulher negra e os preconceitos sofridos por pessoas periféricas. “As asas de um anjo soltas pelo chão / Na chuva de confetes deixo a minha dor / Na avenida deixei lá / A pele preta e a minha voz / Na avenida deixei lá / A minha fala, minha opinião / A minha casa, minha solidão / Joguei do alto do terceiro andar / Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida / Na avenida dura até o fim / Mulher do fim do mundo”.

Segundo a cantora e compositora Luciana Bonfim, o samba é também expressão da força feminina na música e uma das perfeitas demonstrações da brasilidade no mundo. Desde o início Luciana afirma ter base neste gênero e em ritmos com representações semelhantes. “Comecei a cantar profissionalmente aos 20 anos e no início me apresentava com músicas de Rock e Black Music. Aos 23 anos eu decidi que queria cantar e compor algo característico da minha terra e o samba me acolheu. Participei de diversos festivais e fui finalista de alguns, inclusive, no Rio de Janeiro [que morei por dois anos]. Em um destes festivais eu estava gestante do meu filho João e com a barriga bem grande, mas me apresentei mesmo assim”, ressaltou.

Bonfim considera que a revitalização do centro histórico no Rio de Janeiro foi um marco para reiniciar as apresentações do samba nos últimos dez anos, ao dar mais visibilidade para artistas e compositores apaixonados pelo estilo e impulsionar muitos shows, que, posteriormente, tomaram proporções nacionais. Em sua volta para Mato-Grosso percebeu a melhor aceitação e procura do ritmo. “Após meu retorno para Cuiabá, Marinho, proprietário do antigo ‘Chorinho’ Choro e Serestas me disponibilizou as quintas-feiras para o ‘Samba de Quinta’ e deu muito certo. A casa, que recebia muita gente aos sábados passou a lotar nesta data também, além de lá passei a cantar frequentemente no Sesc Arsenal e outras casas de show. Foi um período de resgate do samba, na minha opinião, porque diversos artistas como Sandra de Sá, Maria Rita e Diogo Nogueira estavam lançando discos. Foi um conjunto de coisas e eu e outros músicos tivemos nossa ascensão através disto. Gravei disco e compus muito. De dez músicas do lançamento do ‘Samba em sombra de pequizá’, oito são autorais”, contou.

O samba continua conquistando espaço pelo mundo e ampliando referências de músicos, admiradores e serve como tema de diversos trabalhos, inclusive, na sétima arte. No Brasil faz simbologicamente mais que 100 anos. Está eternizado além da teimosia e genialidade rítmica, mas no suor e nas conquistas de um povo que não deixa o samba morrer, não deixa o samba acabar.

Publicado originalmente na edição de outubro/2016 da Revista Viver MT.

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