Ameríndio?

Por Augusto E. K. Ferreira

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As primeiras missas cristãs do império romano, quando o cristianismo se torna religião oficial naquele imenso território pelas mãos de Constantino, ecoam até hoje no nosso cotidiano. Verborrágicas e sustentadas por tentáculos institucionais.

A arte, ponte de espaço e tempo que conecta (ou pelo menos tenta conectar) as almas dessa grande humanidade, nos permite entender muitas coisas. Mas de onde vem isto a que chamamos arte? Nos permitindo um maior envolvimento na malha dos questionamentos, chegamos à conclusão de que questionar também foi um processo apreendido, que nos foi ensinado como deve ser feito, mais adiante: “Quem somos nós no meio dessa palhaçada?”, caberia a inserção na frase questionadora do palavrão “Fuck”, oriundo do vocabulário inglês, famigerado e em voga no momento. É fato que fomos colonizados, como comentei numa mesa há alguns meses atrás, sobre sermos frutos de um estupro (Latim, STUPRUM, “relações culpáveis”) territorial. Palavra forte, não? A história humana é toda permeada por violências sem fim; um querido professor da minha graduação lança: “Todos temos em algum(s) momento(s) da história que constitui nosso mapa genético, o registro de alguma violência sexual” além de outros tipos de violência. Violência é algo que nos ensinaram não ser muito legal, quem é vítima de alguma violência física, por exemplo, sabe que não é legal, porque dói.

2016, sem dúvida, nos reservou muitas surpresas, e como comento com amigos, tem muita água até o fim do ano. Nossa medida de tempo é um tanto diferente dos chineses, o ano deles termina depois do nosso, vale lembrar que o ano de 2016 é representado pela malícia e engenhosidade do macaco, o signo deste ano. Ainda estamos em novembro, o mês do Javali na astrologia chinesa, aqui, “onde o sol se põe”, comemoramos recentemente o dia da Consciência Negra, e fico sabendo no telejornal que o samba comemora 100 anos de existência. Somos a ponta de um processo histórico mais recente, o Ocidente é cria nova perto da história oficialmente milenar dos povos e civilizações do continente asiático. A gente pode até arriscar dizer que a Europa tem seu início no início deste texto, porém, há quem discorde, e existem correntes de pesquisa que discordem também. A democracia é um invento de terras europeias, também. Deitou-se nos braços de Morfeu (poderia ser outra divindade, né?) e acorda alguns séculos mais tarde dentro das colônias no Mundo Novo.

Temos nos países escandinavos alguns bons exemplos de democracia (há quem discorde), e sabemos que a Europa tem um processo histórico muito maior que o nosso. Sou nativo do Brasil, moro em Cuiabá, cidade que tem quase metade da idade oficial do país. E aqui já me perguntaram o que é a “Cuiabania” que tanto falam por aqui, creio que não o responderei aqui, até porque acredito que não saiba do que se trata também. Século 21, terceiro milênio da era cristã, percebo que existem outras pessoas preocupadas, no meio cultural da cidade, em discutir e questionar o modo vigente de se conceber, pensar, contemplar, digerir, consumir e viver a cultura por aqui. Muitos tem se preocupado unicamente com as questões relacionadas as verbas estatais direcionadas para a cultura e o fazer dinheiro com cultura e arte, duas palavras que se confundem muito nos discursos e nas rodas de conversa em Cuiabá, no restante do país também, isto é percebido em muito conteúdo midiático veiculado nas redes sociais. A preocupação aqui é esta também, mas não somente, pois para se vender qualquer coisa precisamos de embalagem, logo temos de dar nome aos bois, levantar bandeiras e tudo o mais, abrindo espaço para que se consagre muita produção com rica embalagem e parco conteúdo. Não discordo, a variedade é necessária.

Pouco tempo de Ocidente, pouco tempo de América, pouco tempo de democracia pros nativos da América Latina, cada dia um novo tempo próspero para a construção, que não cessa, da língua que falamos, a “benção” européia que nos permite cantar a poesia através dos tempos, e raciocinar como gente grande. Cuiabá é mais nova ainda no meio disso tudo. Trabalho num estúdio (DemoExMachina), e já nos deparamos em conversas com nortes tais: “Como deveria soar a música legitimamente cuiabana?”, “Seria possível uma identidade musical que nos diferenciasse de fato em relação ao restante do mundo?”, você leitor se pergunta: “Já não existe uma música que soe como esta terra?” ou ainda “Já não existe a música legitimamente cuiabana?”, é algo para se analisar. Pensamos o mundo por uma gramática externa que afirmamos ser nossa. Não sou o primeiro a pensar isto. Ainda bem! Mas ainda não estamos nem perto de uma solução para isso, se é que existe alguma. Quando as armas e os barões assinalados, que da ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da Taprobana, e por aqui chegaram desferindo o primeiro tiro de arma de fogo trespassando os ares, uma “relação culpável” aconteceu, a desmedida invasão da paisagem sonora desta terra se realizou. O ar desta terra foi ocupado pelas frequências de vozes falando um idioma desconhecido e sons até então inimagináveis para este lugar. Mas provavelmente não existia som por aqui antes dos europeus chegarem, até porque o som só existe se é ouvido por alguém (como alguns afirmam), assim como a existência deste lugar se fez com a chegada deles.

As ocupações, invasões e “relações culpáveis” vem acontecendo até hoje, em nome de um progresso, da construção de uma riqueza de determinadas pessoas. Nosso estado é vasto e uma terra virgem ainda em muitas coisas, como a eletrônica era na Alemanha pós-guerra, falando em música eletrônica, em qualquer esquina hoje podemos estar próximos de sermos atingidos por alguma produção musical envolvendo elementos eletrônicos. Por falar em Alemanha, Schwantes foi um nome de destaque para Mato Grosso e o povo do Rio Grande do Sul, responsável pela grande leva migratória do sul para cá, temos outros nomes com o do agora ministro Maggi, e lembro-me das vastas porções de terra pertencentes a grandes agricultores e pecuaristas no estado, as quais podemos ver das janelas dos ônibus, dos carros e aviões durante as viagens dentro de nosso território estadual. A cultura da cidade de Cuiabá foi destronada desde então, é o que afirmam muitas pessoas. Mas quem são essas pessoas? Quem é que diz que o samba faz cem anos de idade? Assim como me questiono quem diz o que é, e quem vem delimitando as coisas. Fazer história muito já esteve e ainda permanece relacionado a deter capital, o que está sendo escrito sobre o estado para a posteridade? O que está sendo registrado como cultura e arte desta terra para a posteridade? É uma preocupação, para mim, tão importante quanto o que como, algo que creio fazer parte do tempo presente. Quem lança os dados do jogo?

Mas o que é a cultura desta cidade? A música, as artes daqui, que são?

Já me passou pela cabeça, como já deve ter passado pela cabeça de tantos outros, tentar criar a partir do cenário de alguma tradição indígena, tentar criar novos mundos a partir dos símbolos de alguma etnia. “Unmöglich”! A lógica que baseará esta criação continuará sendo branca e externa, é como construir frases em russo sendo brasileiro, pode-se travestir o pensamento de russo, no final, você nunca será um. Talvez esta parte falte a gente entender e aceitar melhor por aqui. A lógica de pensamento que regia a concepção de mundo dos nativos que aqui habitavam antes dos europeus chegarem nos será para sempre desconhecida.

Mas pensemos, poderia existir uma lógica de construção, que norteasse as artes, própria desta terra?

Habitamos o centro geodésico da América do Sul, que nos esmaga diariamente com sua amplidão celeste, ao mesmo tempo estamos em um buraco, temos (ainda, segundo alguns, não mais) três ecossistemas em nosso estado. “Somos” (porque eu não sou) um dos maiores produtores de grãos do mundo, e o que é produzido de arte e cultura por aqui? No meio dessa produção barata vigente no mundo, muito dela criada por gente que aspira ideais românticos ultrapassados (sem saber) posando de pós-moderno, trans-moderno, qualquer coisa que denomine algo de valor contemporâneo, aonde estará Cuiabá? Será que precisamos de manifestos, como muitos já tentaram, de cunho quase modernista para nos afirmarmos enquanto pertencentes a alguma porção de terra nesta superfície planetária? Até será necessário que façamos o caminho de ir para fora para sermos reconhecidos aqui dentro? Afirmarmos que também temos rock’ n’ roll é movimento que pode muito se assemelhar a pedir benção do lord inglês para que existamos.  Até onde iremos cantar as mesmas palavras de Homero? Não o sei.

Hão de me perguntar, teremos como escapar disso, subverter esta ordem de coisas? Também não o sei, mas acredito que é sempre necessário analisarmos tudo, sorte a nossa que analisar e pensar as coisas não é necessariamente um advento europeu. O macaco do horóscopo chinês (segundo a crença) tem colocado todas as coisas em sua leviana mira, algumas certezas sendo postas em cheque, e o conhecimento, e outros valores ocidentais e humanos, sendo acertados pelas flechas da dúvida.

Mas que será o mundo? A humanidade existiu, e o mundo se fez mundo desde então?

Escrevo da mesa da sala de casa, moro em Cuiabá, um lugar que, pasmem, está situado no planeta Terra. Precisamos ter certeza de algo mais?

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