A memória e o imortal

Por Felipe de Albuquerque

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Ilustração do sul-coreano Gynree (2016)

O lugar da memória é o lugar do imortal. Quando recordamos um evento, uma situação, conseguimos relativizar o tempo e resgatar para o presente as experiências que vivenciamos. Através de registros, fotografias, documentos, podemos compartilhar estas memórias. E elas se tornam imortais também em outras vidas.

Bom ou ruim, ao lembrarmos de acontecimentos significativos, trazemos para perto o passado mais longínquo ou o instante imediato que precede o há pouco. O que eu escrevo e o que você lê neste instante já ficou para trás. E tais informações podem ser suficientemente transgressoras para você não descartá-las ao longo dos dias, dos anos, em meio a inúmeros outros dados que se proliferam a todo instante.

Seja através da recordação daquele perfumado almoço de domingo em família; da tarde melancólica e silenciosa em que foi concluída a leitura de um livro; ou do abraço caloroso pela conquista do time do coração. As lembranças nos permitem dobrar essa linha do tempo, atritando num único instante dois momentos atravessados, dependentes. Somos; sendo.

Quando recebi das mãos de minha mãe o livro “Dicionário Sentimental de Diamantino” (2016), do poeta Nicolas Behr, fui arrebatado pela inflexão proposta pelo autor ao dar sentido e significado às suas memórias de menino na cidade interiorana de Mato Grosso. Descente de alemães, ele viveu sua infância no final da década de 50 numa fazenda um pouco afastada do município. Foi alfabetizado numa instituição mantida pelos padres jesuítas no período que faz questão de registrar: antes da soja. A chegada da monocultura transformou significativamente a paisagem cultural, social e vegetal, que foi cenário de sua meninice, fato que parece deixá-lo saudosista, elemento recorrente de suas obras. “Quero registrar fatos que corriam o risco de se perder na noite dos tempos, falar de pessoas, lendas e paisagens que me são caras”, destaca o poeta na introdução do livro.

Com aproximadamente 10 anos de idade, Nicolas mudou-se com a família para Cuiabá e, posteriormente, para Brasília, onde ainda hoje vive. Regularmente, ele retorna a Diamantino, porque não consegue ficar longe de suas memórias, do que ele é. E nessa busca por amarrar sua própria linha do tempo, já escreveu outros dois livros com o tema central voltado à sua infância – e a Diamantino –.

Conheci o trabalho de Nicolas Behr num momento muito delicado de minha vida. Enquanto escrevia o livro-reportagem “Quem vai levar a bandeira?” Cultura Popular e Devoção ao Divino Espírito Santo em Diamantino-MT, que foi meu trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social, deparei-me com o livro “Menino Diamantino” (2012). Foram meses no trecho, conciliando a rotina de trabalho em Cuiabá, com as investidas à cidade da minha infância, como Nicolas. Na obra, além de encontrar uma inspiração necessária para a escrita, reconhecer a similaridade entre as nossas trajetórias, conectei-me com uma série de recordações pessoais, que permearam o trabalho de campo e me impulsionaram nas investigações movidas sobre meu objeto de pesquisa.

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Nicolas Behr. Foto retirada da internet 

Em Dicionário Sentimental de Diamantino, além das impressões do poeta, há muita memória da cidade. De “A” a “Z”, Nicolas perpassa a história, a poesia, a cultura e sociedade local com registros fotográficos de personalidades, manuscritos. Um trabalho primoroso de quem segue compilando os retalhos de sua vida e tenta fazer um resgate histórico de muito que se perdeu ao longo dos anos.

Falar diamantinensse”, “Asilo São Roque”, “Dorme-dorme”, “Tempo dos padres”, “Calçamento” e “Adelino Dias da Silva” são alguns dos substantivos que o poeta vai significando, enquanto vai tecendo as amarras entre suas memórias e a história, tornando-se imortal, em outras vidas, as experiências na pequena e singular cidade de sua infância.

Nicolas Behr lança seu livro Dicionário Sentimental de Diamantino no dia 07 de dezembro, às 18h, no Sesc Arsenal de Cuiabá.

Conheça mais sobre o autor no link: http://www.nicolasbehr.com.br/

Conheça o trabalho do ilustrador Gynree aqui:http://www.gynree.com/

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