“Mundo Paralelo” dos livros

 

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Reprodução: Acervo Pessoal Anna Leon

 

Por Lorena Krebs

De Camões a Pessoa, de Assis a Drummond, de Vargas Llosa a García Márquez, e de tantos outros a tantos outros, o mundo da literatura é vasto. Repletos de histórias que aumentam a imaginação e dão asas a quem se permite ter, os livros são a chave para o desenvolvimento de muitas coisas, mas, nem sempre, o acesso a estes é fácil.

Pensando nisto que as estudantes universitárias, Anna Leon e Bruna Vaz criaram a iniciativa “Mundo Paralelo”. A ideia é que possam, por meio de quatro vertentes de trabalho, auxiliar o acesso aos livros em Cuiabá. As duas, que vieram de realidades diferentes, têm em comum a paixão pela leitura e a vontade de mudar a educação brasileira. Continuar lendo ““Mundo Paralelo” dos livros”

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Alienígena do cerrado – contato de terceiro grau com Hilda Kobayaschi

Por Juliana Fernandez

Através do emaranhado de conexões virtuais conheço fantásticos artistas que, de qualquer outra maneira, provavelmente não teria acesso às suas obras. O sentimento de descoberta se torna mais rápido. No primeiro clique, o artista obtém a minha momentânea atenção. No segundo clique, acesso seu trabalho completo, seja por Instagram, seja por site próprio, seja por fanpage. Eu estou acostumada com esse processo, oras, eu inclusive utilizo dele para levar o meu trabalho para outras pessoas. Justamente por estar tão habituada, o momento que conheci a obra de Hilda Kobayaschi ficou gravado na minha memória.

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Obra de Hilda Kobayaschi, fotografia de arquivo pessoal.

Veja só, quando eu digo “a obra de Hilda Kobayaschi”, me refiro a uma singular obra, um único quadro. Não sei o nome dele, só sei que ele é diferente de tudo que eu já havia visto de um artista regional, especialmente quando levo em consideração a idade do quadro. Escondido na escuridão do terceiro andar do jornal que estagio, o quadro aparece como uma revelação. Ao vê-lo, sinto a mesma emoção de Maria Madalena ao tocar o Santo Graal pela primeira vez. A temática do quatro é alienígena. É impossível falar de arte e alienígenas sem falar do lendário H. R. Giger, falecido há alguns anos. Entretanto, a obra de Kobayaschi em nada lembra o suiço. A temática alienígena é universal por natureza, mas a artista consegue representa-la de maneira genuinamente regional. Pintado em 1998, o quadro se torna maior de idade neste ano. Eu tinha uns cinco, seis anos quando ele foi feito.

No que capta a minha atenção, aparece uma mulher azul, que adormece serena em segundo plano. Seus seios parecem morros, e morros parecidos com seus seios aparecem ao fundo. Dos bicos dos morros saem alienígenas que parecem formigas. Uma nave globulosa está chegando ou partindo. De familiar encontramos o planeta Terra ao fundo. Entretanto, vê-lo assim tão longe não é familiar, o que torna Terra também alienígena. Por ultimo, o primeiro plano composto por plantas rasteiras, características do Cerrado.

As plantas são o que conectam a obra com o estilo Naif, que a internet me ensinou ser um estilo no qual o artista capta seu próprio cotidiano, utilizando recursos próprios para levar à superfície escolhida paisagens, festas populares e atividades de lazer. A internet também me ensina que este é o estilo de Hilda Kobayaschi. Ela também ensina que, pelo menos no mundo online, Hilda – aqui já a chamando pelo primeiro nome – é muito misteriosa. Da pouca informação coletada, descubro que Hilda também é compositora, toca viola e berrante. Me apaixono mais por ela. Eu acredito em mulheres renascentistas, capazes de exceder em diferentes áreas da arte. Ver Hilda tocando berrante me dá esperança de que eu também não preciso escolher, que eu também posso exceder em diferentes áreas.

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Nessa foto Hilda aparece tocando berrante, a foto foi retirada do twitter @Rio2016

Procuro no Facebook e encontro o perfil de Hilda Conceição Kobayaschi. A descrição diz em letras maiúsculas “SOU ARTISTA PLÁSTICA, NO MOMENTO ESTOU MAIS DEDICANDO A ESCOLA DE MÚSICA VIOLA CAIPIRA” seguida de quatro pontos de exclamação. Ela mora em Campo Grande, mas é mato-grossense de Alto Paraguai. Hilda tem algumas fotos de obras em seu perfil. Checo a assinatura delas com a da obra que gosto tanto. É ela mesma, Hilda Kobayaschi. Momento de tensão: envio um pedido de amizade ou não? Ela não me conhece, não tem motivos para aceitar. Para piorar, ela deixou bem claro em letras maiúsculas e quatro pontos de exclamação de que não está trabalhando com artes plásticas no momento. Quem sou eu para importunar uma senhora tão inspiradora que no momento está se dedicando à escola de música da viola caipira?

Quatro dias depois, com o coração na mão, envio o pedido de amizade. Segundo o perfil de Hilda, a ultima vez que ela acessou o Facebook foi no inicio de novembro. E ela não acessou até o fechamento deste texto. Ela não precisa, vive muito bem no mundo não-virtual, ou assim gosto de imaginar. Na minha cabeça ela é metade humana, metade fictícia. Misteriosa em tempos de redes supostamente sociais. Hilda é como seu quadro que me causou tanta comoção. Tão humana quanto alienígena, tão próxima quanto distante. Entretanto, não perco as esperanças. Já tenho ensaiado o que vou escrever para ela caso aceite meu convite de amizade, mesmo sabendo que na hora vai me dar um nervoso resultando na mensagem “meu deus do céu eu amo muito o trabalho da sra”.

Colonização da noite – Tentativas de perturbação e enternecimentos aluados

Estudo de Eugène Delacroix.

Por Lázaro Thor Borges

Dentro da noite urbana e límpida de estrelas, alguns personagens tem se notabilizado pelos conflitos que empreendem uns com os outros. Um caso recorrente é o do gato e do insone. Há sempre um gato para acompanhar o insone e vice-versa. De hora em hora, o sujeito que não dorme não escapa de ter que topar com algum felino, que se não está na nossa própria casa, vem da rua e dos lugares do bairro.

Tanto pela notivaguidade quando por sua tradicional indiferença o gato olha com um olhar adormecido sempre que topa com um cidadão desiludido entre os muros das casas. Mas não pense você, meu amigo leitor, que o animal faz isso porque é grosseiro e preguiçoso de entender a alma dos outros. Ele assim se porta porque os gatos todos do mundo e dos subúrbios já não suportam mais encontrar solitários de todas as raças dentro da noite veloz.

É que o espaço-tempo da noite, que antes era restrito a vagabundagem felina, tem se transformado em um verdadeiro e insólito clube de desesperados. Homens de todas as personalidades e prazeres que já não suportam a existência que levam e procuram na madrugada um silêncio que os reconforte. Todos eles, portanto, tomam a exclusividade dos bichanos. Acabam tolhendo e censurando as malandragens, balbúrdias e bacanais programadas para serem feitas no decorrer da madrugada.

As involuções de natureza tecnológicas tornaram a humanidade menos diurna. Ao mesmo tempo, o emprego generalizado da luz elétrica no cotidiano foi espantando o medo de ficar acordado e dando lugar a confortável tristeza madrugante. Assim a noite deixou de ser a serventia da caça e se habituou a ser a serventia da casa – se o leito me permite a paranomásia tosca.

Mas a estirpe dos gatos foi ainda mais prejudicada com a mudança. Não duvido, por exemplo, que este amarelo que esta aqui ao meu lado enquanto eu escrevo esteja a reclamar de mim e a me chamar mentalmente de “paspalhão” e outros nomes mais feios que me recuso a reproduzir. Tudo isso unicamente porque mantenho a lâmpada acesa e estorvo cada gesto do seu flanar estrelado.

E mesmo se eu for à varanda ou ficar sob o sereno um ou outro magrelo há de se constranger com a minha presença incômoda. Capaz, inclusive, de impedir que ele trace uma família de roedores ao pé do bueiro ou termine o seu gracejo com uma fêmea muito sublime que mia a poucos metros daqui.

E o pior é que há muitos noctívagos e insones mal educados que não são suficientemente atenciosos para mensurarem o tamanho do rombo que fazem no noite-a-noite dos felinos. Para essa deseducação há todo tipo de ferramenta: Pedras, paus e palavrões. Muitas vezes esses trogloditas obrigam o pobre cão modorrento de sua casa a acordar e enxotar – muito de má vontade, diga-se – o companheiro peludo de turno diferente.

Esses tais mal-educados, porém, acabam por se saírem melhor que aqueles sujeitos melancólicos que tomam o gato no colo e decidem acariciá-lo com uma paciência inesgotável de gente muito mal amada. O animalzinho coitado se vê numa situação ainda mais degradante porque no auge de sua euforia de flaneur ele é obrigado a aquietar o sangue e ter de tratar bem o cidadão que o estima. Porque, afinal das contas, o gato pode até ser um bicho sem coração – como muitos o acusam – mas ele jamais deixará de perder a elegância no trato.

Sei que posso muito bem ser acusado de falta de empatia – termo muito comum no nosso tempo. No fundo, tenho notado que no final das contas há mais gente preocupada em submeter sua dor a paciência alheia do que a curá-la de fato. Um exemplo muito útil é de um gato meu que já se foi há alguns anos, o bom e velho “Mequetrefe”. O velho “Meq”, como o chamávamos, deixou o lar que viveu toda a vida para morrer distante, sem dar acesso as nossas saudades e lágrimas. Se este exemplo não servir, sugiro que pelo o menos a humanidade resolva seus dilemas de dia e deixe a noite para quem sabe aproveitá-la da melhor maneira.

Em dança com tempo, Pantanal e suas histórias resistem à seca e cheia; a primeira vez de um turista deslumbrado

Por André Garcia Santana

Pelos aproximados 100 km de trepidação, no trecho que liga Poconé a Porto Jofre, durante a noite, contornos desfocados delineiam amostras de contradição. Flashes de ecossistema resguardado em exuberância e equilíbrio. Prenúncios parcos do que reserva o Pantanal. Do pouco que se vê, no breu, faíscam reflexos de um dos predadores símbolo dali. Multiplicados em pares de olhos, centenas de jacarés ladeiam as bordas alagadas da Transpantaneira. Paralisados, fitam o nada ao longo do caminho. Ignoram a presença curiosa acomodada no carro, onde exclamação é o som. Atenções instigadas pelo movimento da fauna ainda acordada, materializada em pequenos lobos, garças, e tamanduás que cruzam via.

O caminho de cascalho, interrompido por pelo menos uma dezena de pontes, nem sempre acabadas, demanda vigilância extra ao receber os pingos que anunciam a primeira chuva da temporada. Sem pedir permissão, ela chega mansa acompanhando o trajeto até a chegada na pousada de destino. Finalmente ali, à beira do rio Pixaim, a edificação apresenta uma das últimas formas de intervenção humana no local. Em respeito ao espaço que lhe cerca, o repouso co-existe modesto com a imponência das árvores, que emolduram a passagem das águas, resguardadas por grupos de jacarés e ariranhas. Na escuridão, o barulho de suas ventas é o único elemento a denunciar a presença.

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Virada a noite, no início da manhã se intensifica o deslumbre, estampado em maior evidência na cara do grupo de turistas japoneses. Pouco depois do nascer do sol, eles partem de caminhão em busca das quase 500 espécies de aves que integram o bioma. Neste horário, é possível observar garças, gaviões, carcarás, curicacas e biguás, ainda empoleirados nas árvores ao amanhecer. A cada nova aparição, a cada vôo alçado, os contrates e explosões de cores se revelam, fazendo com que um suspiro de excitação escape a boca de quem contempla uma beleza rara, há muito negada pelo ferro e concreto.

E assim seguem os sentidos, sendo provocados. Seja nos ruídos do mato, no som de cada bicho, nas suas formas curiosas ou cores surpreendentes. É no passeio de barco, no entanto, que as sensações se acentuam. Encarado com determinação, ainda que debaixo do chuvisco que perseguiu o final de semana, o desafio aproxima mais ainda hóspedes e anfitriões. Logo no píer, embarca-se, praticamente sob a escolta dos jacarés, rumo ao descanso de capivaras, e concentrações de ariranhas. Iguanas e micos também são flagrados. “Costuma aparecer onça?”, indaga a turista à ‘Peixinho’, o guia.

Na noite anterior, na mesa de sinuca, enquanto explicava a ausência da bola 9 – levada por uma macaco-prego que confundiu com um ovo – ele dava a mesma resposta. “Tem sempre uma ou outro por aí.” Também foi ali, ao provar com humildade sua superioridade no jogo, que contou parte de sua história. Começando por quando chegou ao hotel, há oito anos. Já com experiência, foi contratado, especialmente por seu dom em interagir com animais. Concentrado na estratégia, mantém-se modesto, volta à disputa e deixa que o colega, Edson, narre suas façanhas. “A ararinha pega peixe na boca dele”, diz o guia.

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Ainda em sua vez, numa sequencia de bolas encaçapadas, Peixinho confirma a narrativa com um sorriso de canto de boca. A habilidade com a fauna local é natural, segundo ele, que conta ter se criado na roça. No Youtube, seus vídeos provam os relatos e Peixinho aparece deitado no chão, acariciando jacarés, conversando com ariranhas, chamando gaviões, etc. Ações comprovadas mais de uma vez durante o passeio de barco, marcado para o outro dia.

Neste momento, outra peculiaridade sua vem à tona. Os animais são chamados por nome, e na maioria dos casos, respondem ao pedido do guia. As alcunhas, por vezes aleatórias, também podem fazer referência as característica de cada bicho. Como no caso de Cicarelli, a ariranha, assim batizada por ter uma “boca gostosa”. No contorno do Pixaim, além dela, nos deparamos com Ceará, um gavião que, para delírio dos visitantes, mergulha céu abaixo, em um rasante que lhe garante capturar um peixe. Estes, todos os já mencionados, e outros, imencionáveis, surgem aos poucos pelo trajeto.

Pouco interessados no aspecto de estranhos, só se movem caso os limites da proximidade sejam rompidos. Preferem. ao invés disso, tomar seus banhos de sol, comer, descansar. Em alguns casos somente, a situação muda e, num movimento contrário, parecem mais curiosos do que assustados. O inverso dos ocupantes do monomotor, que mais assustados que curiosos, questionam os artifícios do animal. “Ela consegue pular no barco, seu Peixinho?”, pergunta a mãe de família.

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A salvo da “onça da água”, já em terra firme, a hora do almoço vira urgência e na reunião que se sucede, em volta dos pratos, o assunto é um só. Entre as teses e conclusões de especialistas em coisa nenhuma e moradores de selvas de pedra, a conclusão é unânime: é tudo incrível (mesmo na chuva).

Não podia ser diferente. Nas cenas que se repetem a cada dia desde que o Pantanal é Pantanal, renova-se a cada nascer do sol o ânimo da vida, restaurada a cada ciclo, reforçada por perdas e ganhos, secas e inundações. Um cenário em que histórias como as de Peixinho se encaixam ao jogo do mato, com respeito, sem imposições. “Gosto de deixar claro que não alimentamos os animais. É só um agrado ou outro.”

É neste contexto que se apresenta Roberto, o guia a cavalo. Descalço, monta no pêlo, sem cela ou espora. É assim desde que tinha 11 anos de idade, segundo afirma. Deste período até hoje, já trabalhou como garimpeiro e foi peão de rodeio, abandonando a arena por conta de um ferimento no joelho. “A mulher reclama um pouco de ficar longe, mas vale a pena pelo trabalho”, diz. Assim como a maioria dos funcionários, ele passa 22 dias ali, longe da cidade, e seis em suas casas, em Poconé, com a família.

_rfp5199“Não precisa ter medo, cavalo foi feito pra aguentar muito peso”, orienta a um desajeitado. O cavalo em questão é Pintadinho. Menor que o esperado, chega junto com final da tarde nublada, na qual, sustentado pelo desânimo percorrerá com o hóspede a trilha. Alinhados, pelo menos em espírito, cavaleiro e cavalo seguem devagar. Ritmo propício a mais uma rodada de contemplação. É nesta hora, que um casal de cervos é flagrado enveredando pelas árvores. Ao longe, em meio ao verde pálido da estação, a florada de Ipê rosa recompensa a tonalidade da paisagem.

Por fim anoitece e o pôr do sol, discreto por conta da chuva, cessa as atividade visíveis aos nossos olhos, despreparados para o selvagem, cego para a realidade. Incluindo à experiência uma desnecessária análise, concluí-se que a magia do local está nas criaturas. Todas elas. Da relevância dos bichos em suas cadeias e da simbologia das plantas, às histórias que circundam os homens e mulheres que lá vivem, próximos a este turbilhão. Tudo ali se apresenta como uma lição, uma viagem dentro da viagem. Uma ilha de tempo na qual o interesse gratuito brota na medida da interação. Um alívio ao cotidiano ordinário.

O texto foi originalmente publicado no site Olhar Conceito.

Perfilados, vol. 1 – Dona Dorce, a tia dos livros

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Fotografia por Isabela Meyer

Por Ana Flávia Corrêa

É com um maço de cigarros e, muito provavelmente, com uma garrafa de café extremamente amargo que dona Dorce – a tia do livros – atende, de manhã à noite, os leitores que visitam a Biblioteca Livre, no bairro São Mateus, em Várzea Grande.

A mulher, de 46 anos, há cerca de um concilia seus afazeres domésticos com o cotidiano das crianças, adolescentes e adultos que vão até a biblioteca à procura de um livro, conselho ou meio minuto de prosa.

Entre o asseio das roupas, o cuidado com seus seis gatos e com suas plantas, é certo que alguém baterá palmas em frente à geladeira colorida instalada em frente da casa de dona Dorce e ela sairá, aos gritos, para solucionar o “problema” dos pequenos -ou grandes – leitores.

Foi em novembro de 2015 que ela, seu marido Eder Junior e seu filho mais velho, Lázaro Thor, decidiram montar a biblioteca. Misturando um sonho antigo, a falta de dinheiro e o improviso, a geladeira que estava encostada se transformou em um acervo de livros de todos os gêneros.

O marido, pintor e faz-tudo, ficou responsável pelas engenhosidades, já o filho, estudante, se incumbiu da arrecadação dos livros e restou à dona Dorce a função de “bibliotecária”, da qual ela se adaptou rapidamente.

A tia dos livros, que estudou até a oitava série, cataloga as doações, faz o cadastro dos leitores, anota os empréstimos e dá dicas para os que vão até a “geladeiroteca” sem um pedido específico.

“Acho que você vai gostar de O vendedor de sustos”, diz ela a um menino, sentada na calçada enquanto folheia a obra do escritor João Anzanello Carrascoza.

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Fotografia por Isabela Meyer

Há um consenso entre as crianças. A maioria, segundo ela, voltam satisfeitas e em busca de  um “pitaco” novo.

Dona Dorce , no entanto, não se restringe aos conselhos literários. Ela, que sabe o nome de todos os leitores da biblioteca, arranja tempo para conversar com os jovens durante o empréstimo dos livros e para “assuntar” sobre os problemas cotidianos.

Os leitores, principalmente os mais jovens, adquiriram um vínculo materno com a tia dos livros, que chega a visita-los em casa caso constate que algo não está bem.

“Dia desses, no mercado, vi essas duas crianças pegando comida no lixo, aqui perto. Trouxe elas aqui pra casa. Elas estavam todas sujas, cheias de machucados e com fome”, disse ela, durante conversa.

“A mãe deles estava há dias sem aparecer em casa, aqui na Cohab, tinha deixado os dois com a irmã mais velha, que também estava com fome. Eu chamei o conselho tutelar e eles levaram elas. Hoje a mãe voltou, eles estão bem cuidados e vem sempre na biblioteca”, ela completa, orgulhosa.

Em casa, não falta tempo para o resto das atividades, o café sai de hora em hora e tudo está sempre aconchegante para receber os filhos legítimos e os adotados, que encontram morada na casa toda enfeitada e no riso alto de dona Dorce.

Em meio a tantos afazeres e com tempo para cuidar de tudo e de todos, a tia do livro, quando questionada sobre quem cuida dela, responde:

“Minha filha, quem cuida de mim é eu mesma, porque se não lascou o resto.”

Corda Bamba: sobre caminhos, tempo e (des)afetos

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Faz quase três anos que perdi duas das pessoas mais importantes da minha vida. Isso me fez prestar mais atenção no tempo e na finitude das coisas. Desde então, tenho me esforçado bastante pra não me consumir do depois.

Depois marcamos algo, depois nos falamos melhor, depois vejo isso, depois tento de novo. O depois é como um ácido corrosivo, líquido aparentemente inofensivo, que preenche provisoriamente as lacunas entre o hoje e o amanhã. Ele não permite o presente, ele não autoriza a continuidade.
Mudei tanto de lá para cá que nem sei dizer, e foi dando o melhor de mim que aprendi a observar meus limites. Quando se arrisca o “tudo ou nada” o intenso se (con)funde com os extremos.
Solta-se o verbo, os medos, abre-se às jaulas dos anjos e demônios. Após isso passei a ser amada e odiada com mais freqüência.

Talvez, porque ainda me soem desesperadores os manuais de felicidade que indicam caminhos entre os meios termos, nas convicções seguidas de entretanto e nas entrelinhas das pessoas. Pessoas e sensações, atos.
Como dois lados que levam para o mesmo destino, é a tentativa de equilíbrio, uma corda bamba. Essa constante “fuga” do fim, mesmo que saibamos que durante o caminho, ele seja a única certeza para qual caminhamos.

Como se a idéia de eternidade fornecesse margem para que não nos entreguemos agora, é uma poética cruel e que se vende em livros resumidos nas prateleiras promocionais. Como se caminhássemos com um propósito que o objetivo nunca se chega e em caminhos estreitos demais para se incluir sentimentalidades claras, ditas e óbvias. Lembranças de momentos bons ou ruins com nossa família, amigos ou aquele romance típico de Borbulhas de Amor do Fagner fazem parte disso.
Há quem diga que nascemos e morremos sozinhos, e talvez, Orson Welles esteja certo, mas dividir as solidões nunca me pareceu tão sensato. Acontece aquela fisgada a cada resposta morna, conversa mal resolvida. O intenso domina ou abandona, ambos não dividem a mesma fronha do travesseiro pra repousar a consciência indecisa. As pessoas se conhecem por semanas, meses e anos e se desconhecem do nada.

Depois – Esbarram nas ruas, nas filas do mercado, nas feiras ou em qualquer outra coincidência cotidiana. Tal qual uma corda estendida entre dois olhares o movimento é controlado. Existe neste meio o equilíbrio do (des)afeto, nem pra lá ou pra cá. Na passagem pelo bem ou mal me quer. Qualquer passo em falso indica uma queda livre, esquenta o nosso sangue e arde as pontas das orelhas, assim como, as veias do coração.

Depois – Por vezes um movimento com o rosto é o suficiente para anular o abraço, que autoriza o desvio do olhar, segurar a respiração. Em pensamentos parece estarmos sempre sozinhos. O único laço, quem sabe, passe a ser lembranças do que já fora importante – um dia, e com um cálculo preciso nos transformamos em estranhos.

O que não dizem nos parágrafos curtos de uma mensagem virtual ou um “olá” é sobre a escassez  que fica na gente. Mesmo a boca muda, grita. Digita e apaga, digita e apaga. Vou, não vou. Encosto, não encosto. Caminhando perdidos tentamos parecer tranquilos, mas na loucura dos escaldantes neurônios: existem jardins que imaginamos cultivar flores tão lindas quanto a do Pequeno Príncipe, mas nesse labirinto nos deparamos mais frequentemente com buracos tão profundos quanto às expectativas daquela menina louca chamada Alice, que perseguia um coelho surtado e com relógio sempre atrasado – sem saber se os transtornos eram causados pelo “antes” ou pela busca fantasiosa do que aconteceria”depois”.

Depois que sufoca, que nunca chega. É, novamente, aquele ácido que também nos servimos nas xícaras falantes de chá ou café [pontualmente] todos os dias.

Depois, não alimenta sentimento. Nem assemelha-se ao que faz do nosso peito caixinhas de música ou faz trec trec na chave. Não aperta ou deixa mais frouxa, nem solta as notas musicais do coração. O que falta me parece ser um (des)concerto no relógio, se viver mais nas mesmas proporções de tempo. Acelerar e pausar o momento, reativar o tic tac mesmo que se viva em outra dimensão.

Mirella Duarte é jornalista, poeta de rua e especialista em escrever textos soltos,
desperdiçados que nem açúcar em volta da xícara de café.

Meu presente de natal: massagem tântrica

Por Raquel Mützenberg

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Ilustração de Ashley Marnich

Nesta semana fui matar uma curiosidade que tinha há anos: terapia tântrica. Desde que iniciei a vida sexual, costumo ler sobre as diversas maneiras de praticar sexo, e o sexo tântrico sempre foi o que mais me intrigou.

Durante meu último relacionamento, convidei meu então parceiro a ir a uma sessão de meditação tântrica, porém sem sucesso. O terapeuta me explicou que é normal no casal um estar mais disposto que o outro. Mas eu não estava a fim de forçar a barra com uma coisa que considero tão íntima. Pois sexo, pra mim, tem a ver com autoconhecimento e liberdade de buscar o que te sacia e te faz entrar em contato com seu próprio prazer.

Depois de alguns meses curtindo a solteirice, cheguei a um dilema: me sinto uma mulher livre, mas quando vou me relacionar, me parece muito pesada a abordagem que muitos homens têm… eu não acredito que tenho que cumprir algum papel numa relação, mas quando menos espero, ali estou cumprindo também. E se tento desviar algum caminho, parece um perigo, uma afronta, uma falta de noção feminina por estar buscando meu próprio prazer. Me perguntava se era uma questão de falta de intimidade, ou eu é que não estava sabendo lidar.

Pois bem, fui a uma sessão de massagem tântrica. Falei sobre tudo isso ao terapeuta e ele me dissertou sobre as pressões sociais em cima dos homens. Eu só pensava comigo mesma: “e eu com isso?”. Quando me relaciono com mulheres me sinto mais livre para dizer do que gosto e nunca me ocorreu de uma mulher violentamente puxar minha cabeça em direção ao seu sexo e eu ouvir “chupa”. Por que diabos homens se sentem no direito de fazê-lo? Aliás, quando me fizeram, fui bem clara sobre o ponto final que estava acontecendo exatamente naquele momento com o meu tesão. Isso porquê sou uma pessoa de fetiches, mas como tudo numa relação, são coisas que devem ser conversadas antes.

Levei todas essas questões ao Thiago Gopi, terapeuta tântrico que atende no Centro 7 Chakras de terapia tântrica. Busquei um terapeuta homem justamente pelo fato de que sexo com mulheres para mim está muito bem resolvido. Antes de iniciar a prática da massagem, conversamos sobre muito do que precisa ser desconstruído no sexo ocidental, sobre a educação sexual que acontece atualmente basicamente por meio da pornografia – uma pornografia machista que preza pelo prazer masculino e a submissão feminina, sobre a falta de abertura que temos para conversar sobre o assunto. Thiago me explicou também sobre a questão das guerras e dos estupros, de que no Brasil temos uma herança da colonização na qual o estupro foi muito praticado para povoar o lugar com sangue europeu. Minha bisavó paterna, por exemplo, não a conheci, mas na família dizem que foi uma “índia pega no laço”. Ou seja, eu já fui pega no laço, mas porque eu pedi né (risos).

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Fotos do projeto #mottabondage, do artista visual Fábio Motta

Depois de papear um tanto, subimos para a sala onde havia um tatame. Ali rolou uma playlist maravilhosa (arrasou, Thiago!). A prática consiste em muito toque, arrepios, sensibilidade à flor da pele, antes de chegar ao ponto ápice: a massagem genital. Regada a muito óleo de uva, o terapeuta massageia cada parte do corpo de maneira intensa e muita coisa foi novidade pra mim! Orgasmos múltiplos à parte, o último momento da sessão é nas nuvens, literalmente: num momento comigo mesma, aproveitei para meditar e sentir profundamente essa experiência. Dois dias depois da sessão ainda tenho um espasmo de liberdade na alma.

Quero experimentar ainda as meditações tântricas que o espaço oferece, se você também ficou curiosx, entre em contato com o Thiago Gopi aqui.

Fica de brinde o último clipe da Clarice Falcão, que tá de parabéns

 

https://vimeo.com/196530591

 

 

 

Como Pokémon GO será lembrado daqui a 20 anos?

Por Thiago Mattos

O jogo Pokémon GO foi lançado em solo brasileiro no dia 3 de agosto, de lá pra cá, o aplicativo foi febre por cerca de um mês, mas de novembro pra cá caiu no ostracismo. Por se tratar de um game que depende de ter muitas pessoas jogando para se ter uma verdadeira experiência e diversão, o jogo foi do céu ao inferno em poucas semanas.

Dessa forma, o Pacult leva a você uma análise fria desse título, sem a euforia do lançamento e tampouco a suposta rejeição dos últimos meses. Juntamente a essa resenha, já apostamos/elencamos as quatro formas de como Pokémon GO será lembrado daqui a 20 anos.

Vídeo: 15 de julho de 2016, o dia em que um Vaporeon parou o Central Park.

  1. A chegada da Nintendo aos smartphones

Mesmo tendo sido um jogo elaborado pela empresa californiana Niantic, pode-se afirmar com maior certeza que Pokémon GO será lembrado como a chegada de franquias da Nintendo aos Smartphones. A consolidação veio neste mês de dezembro com Super Mario Run, o primeiro jogo de fato elaborado pela Nintendo para celulares.

  1. Viés saudosista

O fato do game ter apenas os 151 monstrinhos originais e incentivar as pessoas a saírem de casa, teoricamente de forma responsável e independente, nos mostra que o público alvo de Pokémon GO são pessoas entre 20 e 29 anos de idade (as crianças do final dos anos 90).

Grande parte desta geração assimilou bem apenas os Pokémons das duas primeiras gerações (os primeiros 251) e viu com bons olhos a Niantic não disponibilizar os 802 monstrinhos que já existem*.

A grande verdade é que para a grande maioria das pessoas (incluindo as que não gostam da franquia), Pokémon são os 151 originais e Pokémon GO captou bem esse pensamento.

Por outro lado, o feitiço virou contra o feiticeiro e, por ser um game voltado à captura, seria interessante para a Niantic oferecer mais pokes aos jogadores, pois muitos alegam que a diversão acabou rapidamente.

De qualquer forma, mesmo com as atualizações inserindo novos Pokémons, o jogo será lembrado por trazer de volta a febre àquelas pessoas que assistiram as três primeiras temporadas do anime e jogaram Pokémon Yellow com Pikachu sempre ao lado.

Os constantes lançamentos de três em três anos da franquia principal fazem o trabalho de tentar renovar o fã clube Pokémon, já Pokémon GO cumpriu seu papel de ressuscitar o sentimento nos chamados ‘grown-ups’.

*Número atualizado pós-lançamento de Pokémon Sun & Moon (Novembro de 2016).

  1. Nem ótimo nem medíocre, bom

Quando quase todos os treinadores ainda não haviam chegado ao nível 20 e muitas pessoas jogavam, Pokémon GO parecia um game quase perfeito. Os jogadores queriam um sistema de trocas, poder batalhar entre amigos e reclamavam dos trapaceiros de GPS.

Vídeo: O aclamado trailer de Pokémon GO mostra um sistema de troca de pokémons entre amigos.

As pequenas melhorias não vieram e os treinadores que chegavam ao níveis mais avançados passaram a simplesmente não verem mais motivos para seguirem a jornada Pokémon e o game foi sendo abandonado.

A Niantic parece apostar que a febre vai voltar em doses homeopáticas cada vez que ela anunciar uma novidade, como a aparição de um Pokémon lendário ou a inclusão dos pokes da segunda geração, no entanto me parece uma tática arriscada, pois os gamers mais casuais não devem se sentir motivados a usarem o aplicativo novamente.

Podemos concluir que Pokémon GO não é um jogo nota 9,5 como parecia no primeiro mês, tampouco 6,5 como muitos acham que é hoje. É um título nota 8, que proporciona bem suas 30h de diversão.

  1. Experiência social

Após esse período de mais de cinco meses após o lançamento global e quatro no Brasil, qualquer análise sobre Pokémon GO daqui pra frente precisa separar o impacto do game na sociedade do jogo em si.

O fenômeno social provocado pelo aplicativo é muito maior e melhor que o próprio jogo em si. Notícias de pessoas depressivas e sedentárias que se motivaram a sair de casa, caminhar, visitar parques e recuperaram a vontade de viver são o grande legado que Niantic e Nintendo trouxeram à sociedade.

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Estimulando caminhadas em parques, Pokémon GO gerou debates por talvez ter se tornado um ‘App fitness’, especialmente num ‘país acima do peso’ como os EUA (Imagem: Sparkpeople.com)

Por outro lado, os críticos sempre irão apontar os acidentes de carro, tombos e até mortes ‘causadas’ pelo game. Um debate foi lançado e certamente permeará o meio acadêmico nas próximas décadas.

Certamente muitos TCCs, teses de mestrado e doutrado irão estudar esses três meses em que as interações entre as pessoas, jogadoras ou não, foram afetadas por um game.

Futuros amantes

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Ilustração de Emma Hanquist

Quando o amor não é recíproco

Por Marcelo Dantas 

Fernanda era jovem e vinha de relacionamentos esquisitos na vida. Em viagem ao Rio, encantou-se com o Cristo, com o Pão, com Ipanema e com… Luísa. Ficaram. Transaram. E foi muito gostoso. E a cidade dos encantos mil de repente se resumiu a apenas um. Fernanda voltou para Cuiabá querendo conhecer mais a bela moça, e o sentimento pareceu recíproco.

Passadas algumas semanas de conversa, Luísa disse a Fernanda que não gostava de ficar com várias pessoas, e que prezava pela exclusividade em seus relacionamentos. Fernanda, movida por misterioso sentimento, imediatamente cortou toda e qualquer relação romântico-afetiva, presencial ou a distância, com outras mulheres. Ela havia gostado de Luísa a ponto disto.

Fernanda, no entanto, sabia que relacionamento a distância era difícil. Havia o desejo do toque. Do calor do hálito. Do olho no olho. Lábio no lábio. Corpo no corpo. Incluiu, assim, viagens mensais ao Rio em sua rotina, a fim de se encontrar com a moça que tanto mudou seu pensamento. Descobriu, por fim, que foi a única a levar a exclusividade a sério.

“Era uma surpresa para ela, Pedro”, queixou-se Fernanda.

“E foi você a surpreendida.”

“Ela se chamava Carla e estava usando a minha camisola.”

“Fernanda, é uma pe….”

“O que ela tem que eu não tenho?”

“Fernanda, …”

“E aqueles peitos caídos?! E aquela flacidez toda?!”

“Fernanda! É uma pena que você esteja passando por isso. Sua dor é imensa. Mas não lamento pelos seus sentimentos. Eu ficaria surpreso se você não estivesse nervosa ou frustrada. Pior seria perder a sensibilidade. Você se importava. Você amava.”

“Amar é muito forte. Eu estava ficando. É bem diferente.”

Talvez não fosse tão diferente assim. Ficar também é uma forma de amar. Talvez não seja a mais idealizada, mas é amor. Talvez não seja a forma mais romântica ou poética, mas é o amor que temos hoje. E esse jeito de amar tem a sua importância.

“Você amava, Fernanda”, disse Pedro. “Não que fosse sua intenção casar-se com Luísa e com ela ter filhos. Mas vocês partilhavam companhia. Partilhavam nudez, carícias e intimidades. E você, em especial, criava expectativas, mesmo que pequenas. Desvalorizar o que se perdeu é um mecanismo de defesa.”

“Tá, então eu amava”, respondeu Fernanda, afobada. “O que eu faço com esse amor que ainda sinto por Luísa?”

“Pode doer — e vai — o que vou te dizer. Você só será livre quando compreender que este amor que ainda sente não é mais seu. Mas o amor nunca se perde. Ele espera, em silêncio, num fundo de armário, como já cantou Chico Buarque. Amarão com o amor que você deixou. E você amará, também, com o amor deixado por outros.”

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* Marcelo Dantas Ribeiro é bacharel em Direito pela UFMT | mdrlv@me.com

Qual é o animal da sua metamorfose?

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Ilustração de Nakano @nakanoart

Por Yasmin Souza

Em tempos duais, em uma sociedade que ainda se baseia na estrutura de bem e mau, se esquece da real forma da unicidade de cada ser em um conjunto. A ilusão contemporânea causa um efeito de estarrecimento entre as micro individualidades ressaltando os egoísmos, mesmo que discutido politicamente deixando mais confuso as regras sociais básicas para boa vivência e convivência, o principio parte da comunicação, e para haver comunicação é preciso mais que um, ouvir e se fazer ouvido.

Claro, são tempos difíceis, de barulhos externos e internos, mas seria talvez um erro pintar, bordar e delinear a cor verde em nossa comunicação? Um verde natural, da cor que percorriam as ruas e avenidas da cidade em que cresci, Cuiabá cidade verde, qual foi igualmente aniquilado aos poucos por nossas políticas públicas, se a natureza floreia o verde, eu quero florescer por dentro e transmitir os benefícios que essa cor reflete. Seja a pseudociência, a psicologia, o feng shui, dizem que as cores tem poder de transformar de dentro pra fora, então que possamos moldar o diálogo na base esperançosa da construção.

O mundo não muda enquanto as referências não se alteram, a vida percorre os clichês mais cíclicos possíveis do poder da mudança, começa individual, com o livre arbítrio que diferencia cada um do reino animal, com o poder da consciência de respeitar e compreender as diferenças. Não só classiais, mas a nível individual, respeitar espaços e tempos, de tudo e de todos. As micro individualidades se afirmando na base do ego, volta ao mesmo erro deturpado do destino da união, entre carteiradas de não aceitação, de erros e acertos, o outro não se faz ouvir, faz guerra.

A mudança começa em que animal você quer transmitir ser, construir ninhos, proteger manadas, alimentar ou destruir, cada um com sua forma, função digna e opcional, mas rumo à um só entendimento.