Em dança com tempo, Pantanal e suas histórias resistem à seca e cheia; a primeira vez de um turista deslumbrado

Por André Garcia Santana

Pelos aproximados 100 km de trepidação, no trecho que liga Poconé a Porto Jofre, durante a noite, contornos desfocados delineiam amostras de contradição. Flashes de ecossistema resguardado em exuberância e equilíbrio. Prenúncios parcos do que reserva o Pantanal. Do pouco que se vê, no breu, faíscam reflexos de um dos predadores símbolo dali. Multiplicados em pares de olhos, centenas de jacarés ladeiam as bordas alagadas da Transpantaneira. Paralisados, fitam o nada ao longo do caminho. Ignoram a presença curiosa acomodada no carro, onde exclamação é o som. Atenções instigadas pelo movimento da fauna ainda acordada, materializada em pequenos lobos, garças, e tamanduás que cruzam via.

O caminho de cascalho, interrompido por pelo menos uma dezena de pontes, nem sempre acabadas, demanda vigilância extra ao receber os pingos que anunciam a primeira chuva da temporada. Sem pedir permissão, ela chega mansa acompanhando o trajeto até a chegada na pousada de destino. Finalmente ali, à beira do rio Pixaim, a edificação apresenta uma das últimas formas de intervenção humana no local. Em respeito ao espaço que lhe cerca, o repouso co-existe modesto com a imponência das árvores, que emolduram a passagem das águas, resguardadas por grupos de jacarés e ariranhas. Na escuridão, o barulho de suas ventas é o único elemento a denunciar a presença.

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Virada a noite, no início da manhã se intensifica o deslumbre, estampado em maior evidência na cara do grupo de turistas japoneses. Pouco depois do nascer do sol, eles partem de caminhão em busca das quase 500 espécies de aves que integram o bioma. Neste horário, é possível observar garças, gaviões, carcarás, curicacas e biguás, ainda empoleirados nas árvores ao amanhecer. A cada nova aparição, a cada vôo alçado, os contrates e explosões de cores se revelam, fazendo com que um suspiro de excitação escape a boca de quem contempla uma beleza rara, há muito negada pelo ferro e concreto.

E assim seguem os sentidos, sendo provocados. Seja nos ruídos do mato, no som de cada bicho, nas suas formas curiosas ou cores surpreendentes. É no passeio de barco, no entanto, que as sensações se acentuam. Encarado com determinação, ainda que debaixo do chuvisco que perseguiu o final de semana, o desafio aproxima mais ainda hóspedes e anfitriões. Logo no píer, embarca-se, praticamente sob a escolta dos jacarés, rumo ao descanso de capivaras, e concentrações de ariranhas. Iguanas e micos também são flagrados. “Costuma aparecer onça?”, indaga a turista à ‘Peixinho’, o guia.

Na noite anterior, na mesa de sinuca, enquanto explicava a ausência da bola 9 – levada por uma macaco-prego que confundiu com um ovo – ele dava a mesma resposta. “Tem sempre uma ou outro por aí.” Também foi ali, ao provar com humildade sua superioridade no jogo, que contou parte de sua história. Começando por quando chegou ao hotel, há oito anos. Já com experiência, foi contratado, especialmente por seu dom em interagir com animais. Concentrado na estratégia, mantém-se modesto, volta à disputa e deixa que o colega, Edson, narre suas façanhas. “A ararinha pega peixe na boca dele”, diz o guia.

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Ainda em sua vez, numa sequencia de bolas encaçapadas, Peixinho confirma a narrativa com um sorriso de canto de boca. A habilidade com a fauna local é natural, segundo ele, que conta ter se criado na roça. No Youtube, seus vídeos provam os relatos e Peixinho aparece deitado no chão, acariciando jacarés, conversando com ariranhas, chamando gaviões, etc. Ações comprovadas mais de uma vez durante o passeio de barco, marcado para o outro dia.

Neste momento, outra peculiaridade sua vem à tona. Os animais são chamados por nome, e na maioria dos casos, respondem ao pedido do guia. As alcunhas, por vezes aleatórias, também podem fazer referência as característica de cada bicho. Como no caso de Cicarelli, a ariranha, assim batizada por ter uma “boca gostosa”. No contorno do Pixaim, além dela, nos deparamos com Ceará, um gavião que, para delírio dos visitantes, mergulha céu abaixo, em um rasante que lhe garante capturar um peixe. Estes, todos os já mencionados, e outros, imencionáveis, surgem aos poucos pelo trajeto.

Pouco interessados no aspecto de estranhos, só se movem caso os limites da proximidade sejam rompidos. Preferem. ao invés disso, tomar seus banhos de sol, comer, descansar. Em alguns casos somente, a situação muda e, num movimento contrário, parecem mais curiosos do que assustados. O inverso dos ocupantes do monomotor, que mais assustados que curiosos, questionam os artifícios do animal. “Ela consegue pular no barco, seu Peixinho?”, pergunta a mãe de família.

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A salvo da “onça da água”, já em terra firme, a hora do almoço vira urgência e na reunião que se sucede, em volta dos pratos, o assunto é um só. Entre as teses e conclusões de especialistas em coisa nenhuma e moradores de selvas de pedra, a conclusão é unânime: é tudo incrível (mesmo na chuva).

Não podia ser diferente. Nas cenas que se repetem a cada dia desde que o Pantanal é Pantanal, renova-se a cada nascer do sol o ânimo da vida, restaurada a cada ciclo, reforçada por perdas e ganhos, secas e inundações. Um cenário em que histórias como as de Peixinho se encaixam ao jogo do mato, com respeito, sem imposições. “Gosto de deixar claro que não alimentamos os animais. É só um agrado ou outro.”

É neste contexto que se apresenta Roberto, o guia a cavalo. Descalço, monta no pêlo, sem cela ou espora. É assim desde que tinha 11 anos de idade, segundo afirma. Deste período até hoje, já trabalhou como garimpeiro e foi peão de rodeio, abandonando a arena por conta de um ferimento no joelho. “A mulher reclama um pouco de ficar longe, mas vale a pena pelo trabalho”, diz. Assim como a maioria dos funcionários, ele passa 22 dias ali, longe da cidade, e seis em suas casas, em Poconé, com a família.

_rfp5199“Não precisa ter medo, cavalo foi feito pra aguentar muito peso”, orienta a um desajeitado. O cavalo em questão é Pintadinho. Menor que o esperado, chega junto com final da tarde nublada, na qual, sustentado pelo desânimo percorrerá com o hóspede a trilha. Alinhados, pelo menos em espírito, cavaleiro e cavalo seguem devagar. Ritmo propício a mais uma rodada de contemplação. É nesta hora, que um casal de cervos é flagrado enveredando pelas árvores. Ao longe, em meio ao verde pálido da estação, a florada de Ipê rosa recompensa a tonalidade da paisagem.

Por fim anoitece e o pôr do sol, discreto por conta da chuva, cessa as atividade visíveis aos nossos olhos, despreparados para o selvagem, cego para a realidade. Incluindo à experiência uma desnecessária análise, concluí-se que a magia do local está nas criaturas. Todas elas. Da relevância dos bichos em suas cadeias e da simbologia das plantas, às histórias que circundam os homens e mulheres que lá vivem, próximos a este turbilhão. Tudo ali se apresenta como uma lição, uma viagem dentro da viagem. Uma ilha de tempo na qual o interesse gratuito brota na medida da interação. Um alívio ao cotidiano ordinário.

O texto foi originalmente publicado no site Olhar Conceito.

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