Alienígena do cerrado – contato de terceiro grau com Hilda Kobayaschi

Por Juliana Fernandez

Através do emaranhado de conexões virtuais conheço fantásticos artistas que, de qualquer outra maneira, provavelmente não teria acesso às suas obras. O sentimento de descoberta se torna mais rápido. No primeiro clique, o artista obtém a minha momentânea atenção. No segundo clique, acesso seu trabalho completo, seja por Instagram, seja por site próprio, seja por fanpage. Eu estou acostumada com esse processo, oras, eu inclusive utilizo dele para levar o meu trabalho para outras pessoas. Justamente por estar tão habituada, o momento que conheci a obra de Hilda Kobayaschi ficou gravado na minha memória.

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Obra de Hilda Kobayaschi, fotografia de arquivo pessoal.

Veja só, quando eu digo “a obra de Hilda Kobayaschi”, me refiro a uma singular obra, um único quadro. Não sei o nome dele, só sei que ele é diferente de tudo que eu já havia visto de um artista regional, especialmente quando levo em consideração a idade do quadro. Escondido na escuridão do terceiro andar do jornal que estagio, o quadro aparece como uma revelação. Ao vê-lo, sinto a mesma emoção de Maria Madalena ao tocar o Santo Graal pela primeira vez. A temática do quatro é alienígena. É impossível falar de arte e alienígenas sem falar do lendário H. R. Giger, falecido há alguns anos. Entretanto, a obra de Kobayaschi em nada lembra o suiço. A temática alienígena é universal por natureza, mas a artista consegue representa-la de maneira genuinamente regional. Pintado em 1998, o quadro se torna maior de idade neste ano. Eu tinha uns cinco, seis anos quando ele foi feito.

No que capta a minha atenção, aparece uma mulher azul, que adormece serena em segundo plano. Seus seios parecem morros, e morros parecidos com seus seios aparecem ao fundo. Dos bicos dos morros saem alienígenas que parecem formigas. Uma nave globulosa está chegando ou partindo. De familiar encontramos o planeta Terra ao fundo. Entretanto, vê-lo assim tão longe não é familiar, o que torna Terra também alienígena. Por ultimo, o primeiro plano composto por plantas rasteiras, características do Cerrado.

As plantas são o que conectam a obra com o estilo Naif, que a internet me ensinou ser um estilo no qual o artista capta seu próprio cotidiano, utilizando recursos próprios para levar à superfície escolhida paisagens, festas populares e atividades de lazer. A internet também me ensina que este é o estilo de Hilda Kobayaschi. Ela também ensina que, pelo menos no mundo online, Hilda – aqui já a chamando pelo primeiro nome – é muito misteriosa. Da pouca informação coletada, descubro que Hilda também é compositora, toca viola e berrante. Me apaixono mais por ela. Eu acredito em mulheres renascentistas, capazes de exceder em diferentes áreas da arte. Ver Hilda tocando berrante me dá esperança de que eu também não preciso escolher, que eu também posso exceder em diferentes áreas.

hilda-tocando-berrante
Nessa foto Hilda aparece tocando berrante, a foto foi retirada do twitter @Rio2016

Procuro no Facebook e encontro o perfil de Hilda Conceição Kobayaschi. A descrição diz em letras maiúsculas “SOU ARTISTA PLÁSTICA, NO MOMENTO ESTOU MAIS DEDICANDO A ESCOLA DE MÚSICA VIOLA CAIPIRA” seguida de quatro pontos de exclamação. Ela mora em Campo Grande, mas é mato-grossense de Alto Paraguai. Hilda tem algumas fotos de obras em seu perfil. Checo a assinatura delas com a da obra que gosto tanto. É ela mesma, Hilda Kobayaschi. Momento de tensão: envio um pedido de amizade ou não? Ela não me conhece, não tem motivos para aceitar. Para piorar, ela deixou bem claro em letras maiúsculas e quatro pontos de exclamação de que não está trabalhando com artes plásticas no momento. Quem sou eu para importunar uma senhora tão inspiradora que no momento está se dedicando à escola de música da viola caipira?

Quatro dias depois, com o coração na mão, envio o pedido de amizade. Segundo o perfil de Hilda, a ultima vez que ela acessou o Facebook foi no inicio de novembro. E ela não acessou até o fechamento deste texto. Ela não precisa, vive muito bem no mundo não-virtual, ou assim gosto de imaginar. Na minha cabeça ela é metade humana, metade fictícia. Misteriosa em tempos de redes supostamente sociais. Hilda é como seu quadro que me causou tanta comoção. Tão humana quanto alienígena, tão próxima quanto distante. Entretanto, não perco as esperanças. Já tenho ensaiado o que vou escrever para ela caso aceite meu convite de amizade, mesmo sabendo que na hora vai me dar um nervoso resultando na mensagem “meu deus do céu eu amo muito o trabalho da sra”.

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