As cenas mais SURREAIS do seriado Friends

Por Thiago Mattos

O seriado Friends (1994-2003) ainda é visto diariamente por milhares de pessoas ao redor do mundo. Com quase 13 anos da exibição de seu último episódio (6 de maio de 2004), a comédia que reúne Jennifer Aniston (Rachel Grenne), David Schimmer (Ross Geller), Courteney Cox (Monica Geller), Matthew Perry (Chandler Bing), Matt Leblanc (Joey Tribianni) e Lisa Kudrow (Phoebe Buffay), ainda tem espaço reservado na grade televisiva da Warner Bros.

No entanto, mesmo uma série tão aclamada tem seus momentos exóticos e até inverossímeis (o primeiro episódio, por exemplo, é repleto de erros de continuidade). Na coluna de hoje, elencamos as três cenas mais surreais em Friends.

Antes de tudo é necessário destacar: as três cenas são hilárias, porém quando se pensa um pouco sobre elas, o encanto é perdido por serem situações impossíveis.

  1. A troca de apartamentos

A aposta sobre os apartamentos, em que Joey e Chandler vencem um quiz contra Monica e Rachel. As meninas querem se livrar dos patos dos rapazes, mas Monica exagerou na proporção ao aceitar essse desafio.

Pode-se dizer que a competitividade excessiva da personagem de Courteney fez com que ela aceitasse, mas outro traço marcante de sua personalidade é a grande preocupação com organização e limpeza, o que faria com que ela nunca aceitasse ir para um ‘boys apartment’.

E quando você acha que será algo momentâneo, os personagens realmente passam alguns episódios da quarta temporada em apartamentos trocados. Tão hilário quanto impossível na vida real.

  1. Chandler e Janice vão para o Iêmen (e nunca mais se fala nisso)

Também na quarta temporada, em uma de suas tentativas de se livrar da Janice, Chandler inventa que terá que se mudar para o Iêmen por motivos de trabalho. A ideia acaba não surtindo o efeito desejado e a indesejada namorada o acompanha até o voo partir.

Chandler inclusive paga mais de dois mil dólares na passagem. E detalhe, a viagem para o Iêmen não é mencionada em mais nenhum momento durante a série, nem mesmo por Janice.

  1. Rachel cai da sacada

No fim do episódio 16 da primeira temporada, Rachel vai retirar as decorações de Natal da sacada do apartamento da Monica e simplesmente cai de lá. Quando, por um segundo, você acha que ela morreu, a loira fica pendurada por um fino cordão e pede ajuda a Mr. Heckles.

Convenhamos, essa cena é bizarra! No episódio seguinte, Monica leva Rachel ao hospital por ter torcido o tornozelo.

Menção honrosa (A cena que seria surreal)

Além desses três momentos, que julgo como os principais, podemos fazer várias ‘menções honrosas’ como: Ross errando o nome da esposa no casamento e metade das cenas que envolvem as atuações do Joey ou as músicas da Phoebe.

Destaco, como curiosidade, a cena deletada do terceiro episódio da oitava temporada. A cena que, se fosse ao ar, seria a mais surreal de toda a série. Chandler faz uma piada com a revista no aeroporto e acaba sendo levado para responder algumas perguntas.

As partes foram deletadas, pois seriam exibidas originalmente no dia 23 de setembro de 2001, duas semanas após o atentado às Torres Gêmeas no dia 11 de setembro. O ‘timing’ não foi bom e o trecho foi retirado. Confira.

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Vaginismo – o corpo da mulher ainda é um tabu

Por Juliana Fernandez

Muitas vezes causado por medo e estresse excessivo, o desconforto durante a relação sexual afeta de 3% a 5% das mulheres no mundo todo. Chamado vaginismo, essa disfunção sexual é rara e pouco conhecido entre mulheres. Descrito como uma síndrome psicofisiológica, o vaginismo é caracterizado pela contração involuntária dos músculos ao redor do orifício vaginal, causando dor e até a impossibilidade de manter relação sexual. Sem causa física, o distúrbio geralmente surge em mulheres que sofreram traumas e abusos sexuais.

Uma das poucas profissionais com conhecimento da área, a fisioterapeuta pélvica Maria Aparecida Araújo Macedo conta que a disfunção afeta drasticamente a autoestima das mulheres já na adolescência.

“Geralmente mulheres vaginicas sofrem com depressão, tem uma grande dificuldade relacionamento interpessoais. A doença pode levar a casamentos não consumados e acarreta  distúrbios emocionais. Mulheres que tem vaginismo fica com autoestima baixa por não conseguir  levar uma vida sexual saudável. Por isso, é recomendado que se trate a disfunção em seu inicio, normalmente durante a juventude da mulher”, explica.

Ela também conta que apesar de sempre ocorrer nos músculos perineais e elbadores, a disfunção se divide em dois tipos: primária e secundária.

“Apesar de ambos causarem a contração dos músculos do assoalho pélvico e adutores da coxa, o vaginismo primário é quando a mulher é incapaz de manter relações sexuais devido às contrações involuntárias da parede da vagina. Já o vaginismo secundário ocorre quando a mulher teve relações sexuais, porém com dificuldade em ter a penetração e dores após a relação, que também chamamos de despareunia”, diz a fisioterapeuta.

A antropóloga Poliana Queiroz, 29 anos, conta que sentiu os sintomas do vaginismo durante sua primeira relação sexual aos 18 anos.

“No inicio, achei que era por ser a primeira relação. Com as outras relações sexuais eu também sentia muita dor. Eu continuava estudando, me tocando, pesquisando… Mas eu ainda sentia muita dor. Até ter um momento que eu não conseguia mais ter penetração alguma. Era muito dolorido, mas eu tinha desejo. Eu procurava ginecologistas e elas sempre falavam que eu precisava relaxar”, lembra.

Segundo Poliana, a falta de informação disponível sobre vaginismo dificultou tanto o diagnostico médico quanto seu autodiagnostico, que ocorreu após longas buscas em sites e redes sociais.

“Li muito até encontrar o termo ‘vaginismo’. E a explicação de uma fisioterapeuta era de que por medo e pressões, por a mulher não ser aberta a conversar sobre sexualidade, ela pode ter um retraimento involuntário na relação. Por mais que a mulher sinta desejo, ela se fecha naturalmente. Foi então que pensei ‘puts, eu tenho isso’. Pesquisando, encontrei uma fisioterapeuta aqui em Cuiabá. Ela explicou para mim o que eu tinha, e que o meu vaginismo nem era grave, em uma escala, o meu era mediano. Tanto é que o meu tratamento foi rapidíssimo”, comenta a jovem.

Poliana conta que, para sua surpresa, encontrou vários grupos de apoio em redes sociais. Neles, mulheres de diferentes idades trocam relatos e dicas sobre o processo de cura da disfunção.

“Através das redes sociais, encontrei grupos de meninas e entendi que essa é uma doença que atinge diversas mulheres e pouco se fala sobre o assunto. Por eu ser antropóloga e ter estudado gênero, e saber das pressões sociais que as mulheres sofrem, acho que este assunto precisa ser discutido mais abertamente. Assim, mais mulheres terão ciência da doença, já que muitas passam por isso sem saber que existe cura”, explica Poliana.

De acordo com Maria Aparecida, o primeiro passo do tratamento é a consulta com um ginecologista, que irá expor a situação e certificar se a mulher realmente possui vaginismo.

“Seguindo essa consulta e fechado o diagnostico, é aconselhável iniciar o tratamento com um fisioterapeuta especialista na área. Dependendo do caso, é recomendável tratamento psicológico conjunto com um profissional que atue na área da sexualidade. Muitas mulheres tem receio de procurar ajuda profissional, assim como temos profissionais não capacitados. O tratamento recomendado contém exercícios para o assoalho pélvico, terapia manual, eletroestimulação, massagem perineal, liberação de pontos de gatilho e uso de dilatadores vaginais”, expõe.

Para Poliana, é preciso que a classe médica se sensibilize com as doenças sexuais femininas, para que assim aja uma maior propagação de informação entre médicos e pacientes.

“Na verdade, o vaginismo não é considerado uma doença. Porque o prazer feminino, historicamente, é um pecado. E isso é internalizado pelas mulheres, que não se percebem como doentes porque não tem informação e não sabem que isso pode ser tratado. No meu caso, através dos grupos do Facebook eu conheci outras pessoas que passavam por situações similares à minha. Mas eu também acho que tem que ocorrer grupos de estudo, e principalmente, tem que ocorrer dialogo para que as mulheres possam se tratar e ser  felizes”, finaliza.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Ensaio sobre escoliose: breve reflexão de um jovem gay

Por Felipe de Albuquerque

Enquanto eu encarava a parede branca, a profissional investigava minhas costas nuas tentando desvendar a causa de um desconforto que, muito esporadicamente, vem me habitar na região das escápulas. Silenciosa, ela seguia observando minhas tangentes e digitando em seu computador o que eu supunha serem os indícios da trajetória irregular de algumas vértebras. Eu estava ali no consultório fisioterápico, com os pés descalços, na melhor versão de mim em minha boa postura. “Preciso que agache sem dobrar os joelhos, os braços repousando a frente do seu corpo”, ela disse, analisando-me desengonçado, agora de perfil. Eu estava arrasando com minha flexibilidade amadora, pensei, enquanto me concentrada em respirar para não desmoronar.

Quando me sentei em frente à mesa, após toda aquela avaliação, a fisioterapeuta só não disse que estava tudo bem. “Escoliose”, “encurtamento muscular”, “leve torção nos quadris” foram alguns dos diagnósticos que levo do consultório desde então. Após enumerar estas falhas posturais, que não poderia deixar de corrigir para evitar dores mais sérias posteriormente, ela me posicionou diante de um grande espelho enquanto, ponto a ponto, foi me encaixando como um quebra-cabeças numa posição tanto quanto distante da “melhor versão de mim em minha boa postura”.

Ali estava o que eu poderia/deveria ser. Com o dorso mais elevado, os ombros voltados para trás pressionando as omoplatas; o queixo para cima e as mãos repousando ao lado do corpo, a imagem virtual que se formou refletia um desconfortável alguém; no caso eu mesmo, forjando uma postura confiante. “Se te chamarem de convencido por causa da postura, você recebe como elogio, porque é assim que saberá que está bem”, incentivou ela. No decorrer dos dias, tento imaginar que há um prendedor de roupas gigante me segurando pelo dorso, evitando minha derrocada.

Começamos a primeira sessão de Reedução Postural Global (RPG). Sobre uma maca, ela me colocou numa posição que me lembrou yoga – só que menos hard – e lá fiquei estagnado, concentrado na minha própria respiração por uns 20 minutos. Encerrada a sessão, tornei a me sentar em frente à fisioterapeuta, do outro lado de sua mesa, enquanto ajeitava a roupa dentro da mochila e conversávamos sobre os aspectos que, para além da dura rotina dos dias, podem nos levar ao desenvolvimento de pequenas ou grandes lesões ao nosso corpo.

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Escondendo uns sentimentos lá no fundinho do peito || Xavier Lucchesi

Ela endossou meu comentário de que, por questões psicológicas e sociais, nossos corpos também são empurrados para dentro, com as forças que nos atingem de todas as direções e nos força a proteger o que mais temos de precioso e íntimo: nossos sentimentos, que se alojam e tentam se esconder nas cavidades mais profundas de nosso peito.

Confesso que, desde aquele dia, que foi a primeira vez em que visitei um consultório de fisioterapia em aproximados 25 anos, pego-me refletindo sobre como todos estes vetores sociais e psicológicos me atingiram ao longo de minha vida. Além da timidez, com a qual brigo até hoje, tenho diversas fragilidades que me inibem, até mesmo, a expressar minha visão sobre os dias, sobre as coisas; a gritar e a enfrentar pequenas agressões cotidianas; a me posicionar no mundo.

No todo, sei que as sociabilidades de crianças e adolescentes não são fáceis. Crescer nos rasga de dentro para fora e de fora para dentro e algumas destas experiências nos torna mais fortes e preparados para as dificuldades que nos aguardam a vida adulta. Mas quando um jovem menino é descoberto homossexual, como foi o meu caso, esta fase da vida tende a ser ainda mais dolorosa.

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É difícil encaixar-se dentro das estruturas || Xavier Lucchesi

Apesar de alegre e quase sempre confortável com todas as minhas mudanças físicas e psíquicas no decorrer deste período da vida, sempre foi sufocante lidar socialmente com a minha orientação afetiva/sexual. Recordo-me, por exemplo, que apesar de gostar de jogar futebol com os meninos, sempre era pisoteado em minhas falhas. Era preciso ser o melhor para compensar a minha falha em ser homossexual – e eu simplesmente não era –. Aos poucos, deixei para lá o esporte e hoje mantenho distância e muitas críticas a boa parte dos fanáticos pelo esporte.

Dentre inúmeras outras situações, lembro-me de fazer o possível para chegar o quanto antes à sala de aula para evitar ser notado pelos colegas e ouvir algumas palavras que me atingiam fisicamente. Durante as aulas, era impensável solicitar ao professor a saída ao banheiro, porque, novamente, eu teria de enfrentar algum constrangimento. Passar em frente aos colegas jamais. Dia após dia, torna-se cansativo passar por estas situações e eu preferia só evitar, poupar-me.

Hoje, leio a notícia infeliz de que um casal homoafetivo que mora no norte do Rio de Janeiro recebeu em sua casa uma carta com dizeres bíblicos, homofóbicos e racistas solicitando que se mudem por serem “abominações”. Como outrora, estas palavras vão se alojando nas costas, pesando nos ombros e tentando atingir bem lá no meio do peito. Sinto a dor destes irmãos, que devem ter vivido uma realidade muito próxima a minha e passaram por tamanha brutalidade.

Infelizmente, nem a sobrevivência a toda sorte de sofrimento de uma vida poderia preparar este jovem casal para enfrentar tamanho ódio pela sua própria existência. “Eu não tenho dormido. Não tenho comido. A minha vida está paralisada. Eu tenho medo de acontecer de novo. Eu tenho medo de sair na rua e acontecer alguma coisa. Tenho medo que a pessoa que fez isso consiga reverter essa história a favor dela e contra a gente. Só medo, medo e medo”, diz Maycon Aguiar, 23 anos. Como pode alguém sofrer ameaças por amar? Ainda por cima em nome de Deus, que em inúmeras passagens bíblicas pontua o respeito ao próximo?

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Quer dizer que as bonita tão falando mal de mim?! || Xavier Lucchesi

São situações como estas, amedrontadoras, que nos desestabilizam não apenas internamente, mas se manifestam, gradativamente, em nossa pele, nossas vértebras e estruturas, furtando-nos de uma vida mais salutar, transformando nossos corpos que, em vão, seguem tentando se proteger para evitar momentos ainda mais profundos de tristeza. Talvez este texto não dialogue com os milhares de jovens gays e lésbicas que passam e vão passar por inúmeras situações de constrangimento.

Estou na iminência de completar 25 anos – pisces rules – e ainda hoje ouço em todos os ambientes que frequento piadas sobre a sexualidade de outrem associado aos adjetivos “bichona”, “viado”, “sapatão”, “traveco”. Não sei por qual motivo, as pessoas que falam pejorativamente tais termos desconsideram a minha presença e identidade e o fato de que eu poderia me incomodar com isso. Na maior parte das vezes, tenho feito questão de me posicionar.

A diferença, queridos pares, é que a gente aprende a enfrentar estas inúmeras situações. Seja sutilmente, ignorando, ou seja se posicionando, falando, escrevendo, o enfrentamento é libertador. Aos poucos, com o tempo – confiem no tempo, por favor, acreditem em mim – encontramos meios de desviar ou não ser atingidos tão profundamente pelas palavras que se alojam em nosso corpo e nos inibem de viver. Se atingidos, conseguimos superar mais facilmente, com o apoio de familiares, amantes, amigos e profissionais da saúde. Conquistamos alguma liberdade e vamos encaixando a alma ao corpo e nos sentindo bem no quebra-cabeças que refletimos no espelho.

Hoje as costas já doem menos.

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Leia mais sobre a notícia do jovem casal gay clicando aqui;

Conheça o trabalho de Xavier Luchessi;

Sexo, Tinder e Rock ‘n’ roll

O amor contemporâneo é digital

Por Marcelo Dantas 

Entre um e outro gole de cerveja no Hookerz, na Filinto Müller, meu amigo Pedro, 23, fez uma revelação a nossa roda: “Perdi minha virgindade com um cara que conheci no Tinder”. O imediato silêncio da turma passou despercebido em meio ao rock que tocava no pub, mas uma pergunta curta e grossa logo retomou a conversa e rendeu boas risadas: “Doeu?”

Ninguém sabia que ele, universitário da Federal que se gabava por ficar com belas mulheres, era gay, e ninguém do grupo se lembrava de tê-lo visto no Tinder — app em que todos nós estávamos. “Passei pelo perfil de todos vocês”, disse ele, mordendo o mini-hambúrguer da casa e lançando mão de pergunta que seria a tônica da abafada noite de sexta-feira: “O que estão buscando lá?”

Para quem não está familiarizado, Tinder é um aplicativo de paquera para celulares que permite que as pessoas se conectem por meio de um simples deslize de dedo sobre a tela. Integrado ao Facebook, você começa a ver fotos de usuários nas proximidades, um por vez. Pode aprová-los, deslizando o dedo para a direita, ou descartá-los, deslizando-o para a esquerda. Sendo o interesse mútuo, o software notifica as duas pessoas, que podem conversar num bate-papo privado. O serviço chegou ao Brasil no final de 2013 e contava, já em 2014, com 10 milhões de usuários.

“Sexo”, respondeu Bianca, 34, analista de um tribunal na capital. “Busco sexo. Tinder é um cardápio, igual a este”, finalizou, apontando para o menu do bar. Túlio, 18, estudante de pré-vestibular, balançou a cabeça concordando: “É uma vitrine com vários produtos, que nem a da loja aqui ao lado”.

Pontos de vista expressivos, e que seriam debatidos pelo grupo.

“Tudo depende do uso que você faz dele”, observou Cláudio, 41, advogado. “Acho que os interesses são os mais diversos possíveis. Sexo, romance, amizade, curiosidade”, disse. “Particularmente, quero conhecer gente nova. Passo o dia inteiro no escritório, debruçado sobre processos, até mesmo aos finais de semana. É complicado interagir, e o Tinder ajuda”, admitiu, pedindo ao garçom nova rodada de bebida.

“Mas qual a qualidade dessas interações?”, interrompeu Denise, 27, médica residente. “São relações superficiais, baseadas numa foto e que podem acabar com um simples apertar de botão”, pontuou. Essas afirmações me fizeram lembrar de “Amor Líquido”, obra de Bauman indicada pelo professor Orione no meu 4º ano de Direito. O sociólogo polonês sustenta que, na “modernidade líquida”, nada é feito para durar, para ser “sólido” — especialmente nossas relações.

“O Tinder está é expandindo a forma como nos relacionamos, Denise”, discordou Cláudio. “Conheci pessoas que talvez jamais conheceria. Toda relação é superficial no início, sobretudo a virtual. Mas a química só acontece quando há, de fato, diálogo e contato pessoal”, afirmou. “O aplicativo está fazendo com que encontros virtuais se tornarem reais”.

O cofundador da plataforma, Justin Mateen, parece concordar. Em entrevista ao caderno Tec, da Folha de S. Paulo, em 2013, ele responde que o Tinder é “um reflexo honesto da interação humana”, acentuando que, “quando você conhece alguém em um café, a primeira coisa que nota sobre ela é sua aparência física. Na conversa, você busca semelhanças como amigos ou interesses mútuos”.

“Além disso, percebo que o aplicativo tem contribuído com a socialização dos gays em Cuiabá”, atestou Pedro. “Socialização, não apenas sexo. Muita gente ainda está trancada no armário, por conta do preconceito, e o Tinder permite fazer amizades sem se expor tanto. É um primeiro passo”.

“E você, Dantas, o que acha?”, me questionou Bianca. “Acho que este será o tema do próximo artigo”, respondi. “Apesar de popular, o Tinder é tabu. Tanto que tenho certeza que terei de mudar o nome de vocês ao reproduzir os diálogos, estou errado?”, perguntei. Não estava.

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* Marcelo Dantas Ribeiro é bacharel em Direito pela UFMT | mdrlv@me.com

Plantas Alimentícias Não Convencionais: a comida que você ignora

Por Lázaro Thor Borges

Todas as manhãs a cidade fica repleta de florzinhas brancas.  Canteiros centrais de avenidas, terrenos baldios e praças semi vazias são o habitat natural da Damiana, uma planta que nasce em praticamente qualquer tipo de solo – desde que haja muito sol.

A Turnera ulmifolia (nome científico da Damiana) é considerada uma “praga” para agricultores e jardineiros, e mantém-se praticamente desconhecida da maioria das pessoas. O que muita gente não sabe é que a Damiana é uma flor comestível, com propriedades medicinais, usada desde os tempos da América pré-colombiana pelos povos do continente.

Esta é a damiana, conhecida também como chanana ou "flor-do-guarujá".
A damiana é conhecida também como chanana ou “flor-do-guarujá”

Ela é uma PANC – Planta Alimentícia Não Convencional. E faz parte de um extenso grupo de vegetais que até pouco tempo era conhecido apenas como “mato” ou “erva daninha” por todos nós. Juntam-se a esta florzinha, poderosas riquezas negligenciadas no mundo gastronômico e científico, como o caruru, o milho-de-grilo, a taioba, a tansagem e muitas outras.

A ciência dos “matos de comer”

Um dos percussores do estudo dessas plantas, o professor doutor Valdely Ferreira Knupp, conta que entre as dez frutíferas mais produzidas para comercialização e consumo no Brasil, nenhuma é brasileira. Ele explica que este dado é sinal de que o brasileiro não consome os produtos que brotam de sua terra. A este fenômeno o professor dá o nome de “colonização alimentar”, quando os produtos consumidos não valorizam a flora brasileira.

A feijoa (ou goiaba-da-serra) é uma planta originária do sul do Brasil, o formato lembra uma goiaba, mas o sabor é aromático e doce
A feijoa (ou goiaba-da-serra) é uma planta originária do sul do Brasil. O formato lembra uma goiaba, mas o sabor é aromático e doce.

Esta situação cria muitas circunstâncias irônicas. Um exemplo é a história da goiaba-da-serra. Fruta de sabor delicado e que é endêmica do sul do país. Na região, no entanto, quase ninguém a conhece e ela é considerada por muitos uma fruta estrangeira. Isso porque os maiores produtores do fruto no mundo é a Nova Zelândia e a Austrália, onde é muito apreciada e consumida.

A mesma discrepância ocorre com o “figo-da-índia”. A fruta, que brota do cacto palma, é muito comum na caatinga e presente também em todo território brasileiro. Apesar disso, ela é considerada o alimento símbolo da Sicília, na Itália. Lá o fruto do nosso cacto é utilizado na gastronomia local como sinônimo de “iguaria”, enquanto aqui pouca gente conhece ou consome a fruta.

“A maioria das plantas chamadas daninhas ou inços são espécies com grande importância ecológica e econômica. Muitas destas espécies, por exemplo, são alimentícias mesmo que atualmente em desuso (ou quase) pela maior parte da população”, explica o professor Knupp.

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As folhas do Picão (ou Carrapicho) também são alimentícias.

A tese de doutorado de Valdely pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) versa exatamente sobre o assunto. Ele fez um estudo sobre as panc’s encontradas na região metropolitana de Porto Alegre. A descoberta, segundo a tese, é de que 21% das plantas consideradas “daninhas” tinham potencial alimentar. O mais incrível nesse tipo de descoberta é que a maioria das panc’s não são encontradas em regiões de difícil acesso como sítios e fazendas no interior do Estado. Elas são em sua maioria urbanas.

Este é o caso do carrapicho (conhecido também como picão). Diversas cartilhas disponibilizadas na internet mostram receitas com a planta. Para quem conhece pela primeira não deixa de ser uma grande surpresa: quem imaginou que aquele matinho que gruda na calça e incomoda poderia se transformar, por exemplo, em uma sopa ou em um refrigerante caseiro?

Plantas Alimentícias Não Convencionais Cuiabanas (PANCC’s)

Uma caminhada simples pela cidade pode evidenciar o quanto as PANC’s estão presentes no ambiente urbano da capital mato-grossense. Usada para arborização, o oiti dá um fruto desconhecido por muitos e que cai normalmente no final do ano. Apesar de ser ignorado pela maioria dos transeuntes, o fruto é comestível. Outro exemplo é o fruto da palma (o figo-da-índia), comum em alguns jardins de casas da capital.

Fruto do Oiti, planta muito usada na arborização urbana, cujo fruto é comestível
Fruto do Oiti, planta muito usada na arborização urbana, cujo fruto é comestível

A experiência de levar plantas não convencionais para o prato do cuiabano é algo que a equipe do restaurante Raposa Vegana já faz há algum tempo. Uma das panc’s que eles utilizam no cardápio é a taioba. A planta chamou a atenção de muita gente recentemente quando uma reportagem veiculada no Fantástico mostrava alguns de seus benefícios. Apesar de ser pouco convencional, a taioba já era utilizada por moradores da área rural de algumas regiões do Brasil – uma riqueza alimentícia herdada dos povos indígenas.

No caso do Raposa Vegana, a utilização de panc’s ainda é modesta, mas o objetivo dos administradores do restaurante é tornar algumas plantas ainda mais recorrentes no cardápio. Ainda que o restaurante tenha uma clientela predominantemente vegetariana e vegana, uma das principais barreiras é a estranheza em relação as panc’s.

“É normal as pessoas ficarem receosas, o mesmo acontece com a carne de jaca, muito gente come sem saber que é, mas depois que descobre gosta. No caso das panc’s nós usamos diversos tipos e há pratos com taioba, feijão gandu, vitex, etc”, explica Wanessa Ramos que juntamente com o namorado João Lucas Souza administra o restaurante.

A internet é PANC

Devagar e sem muito alarde o conceito que dá visibilidade e utilidade às panc’s tem crescido na internet. Nas redes, ser “panc” é quase como sinônimo de vegetariano ou vegano. Para os grupos contrários ao consumo de carne, as plantas não convencionais oferecem uma chance de complementar e enriquecer o consumo diário.

O blog Matos de Comer é parada certa para quem deseja conhecer mais receitas e maneiras de utilizar as pancs no dia a dia. Com uma abordagem social e muitas vezes ecológica, Guilherme Ricci explica para os seus leitores como é feita a identificação e o manejo desses alimentos.

Além do blog, o Ministério da Agricultura disponibiliza uma publicação em arquivo pdf com alguns detalhes e mais explicações sobre hortaliças comestíveis não convencionais. Outra fonte interessante de conhecimento sobre as panc’s são os grupos no facebook, onde há muita gente que tem se especializado – pelo o menos de maneira caseira – no assunto.

Um amor a declarar

Por Yasmin Souza

Um amor a declarar

O lugar de onde venho
é tão belo de sonhar,
assim que amanhece
o sol de rachar
os passarinhos se põe à espiar
o Seu Messias da padaria
com pão-doce a passar:

– Olha o padeiro!

Na Lixeira que Deus me jogou
de parte de cá e de lá
me ajeitei no colo de São Benedito
que sempre esteve a me ninar e guiar,
o santo preto me ensinou
que não havia dor em ser ovelha negra
pois negro tinha seu valor
assim comecei a cantarolar
feito sabiá

Pelas curvas do rio que cresci
nas suas mananciais me fiz doce
para correnteza dos sonhos
me levar a desaguar no mar

Antes tive que reconhecer
a beleza do teu verde
quando te despiram
e o povo se pôs a chorar
pelo teu desestruturar
Resta teu calor
que aquece as almas
sob um glorioso céu do meu país
de gente amorosa e feliz

Aqui os pássaros gorjeiam
como em nenhum outro lugar
junto à eles
vou cantar eternamente
o transpirar da minha raiz
a minha tão amada, Cuyabá.

Yasmin Souza

ao som de:

mais poesias na minha page:

https://www.facebook.com/suasina/

Dias líquidos: o perene pensamento de Bauman

Por Felipe de Albuquerque

Entre o final do ano que passou e o início deste, ausentei-me por duas semanas de casa em viagem ao litoral sul. Duas semanas de um ano com cinquenta e duas semanas; duas semanas que, no decorrer dos meses, representam uma porção reduzida, “minúscula” do tempo.

Percebi, entretanto, que estes poucos dias de ausência foram mais que suficientes para o cotidiano me surpreender com pequenas mudanças que apareceram nas paisagens dos meus dias – do “lado de cá” –. Os vizinhos da casa 1 estão reformando a garagem, deixando a fachada nua, desbotada; no condomínio, parte do muro quase cedeu e, agora, quando olho pela janela, deparo-me com cones, remendos e brechas que permitem ver o terreno baldio ao lado.

No caminho que percorro diariamente até o trabalho, também surgiram alguns buracos que, aos poucos e, forçosamente, tento memorizar para evitá-los. Dentro de casa, igualmente, houve mudanças. Estou na iminência de sair de casa e meu irmão já tomou conta do quarto que ainda ocupo; a minha bagunça, quase sempre tão familiar, somou-se a dele e, ainda, surpreende-me o equilíbrio que conseguimos ter com as pilhas de nossas roupas.

Retornei da viagem com muitas lembranças e alguns destes estranhamentos que serviram como metáfora para refletir minhas próprias relações com o outro, com o mundo. E estive tão pouco tempo fora. Estes pequenos eventos que provocaram as inquietações surgidas neste período, fizeram-me recordar de algumas reflexões com as quais tive contato lá em meados de 2011, no início de minha graduação em Comunicação Social. Tratam-se das proposições feitas por Zygmunt Bauman, sociólogo que, aos 91 anos, deixou-nos nesta semana e que consolidou uma profícua base teórica sobre o conceito de modernidade líquida e seus desdobramentos em nossa sociedade. Continuar lendo “Dias líquidos: o perene pensamento de Bauman”

Eternotemporário, o lambe-lambe é exposição artística e adorno urbano

Por Juliana Fernandez 

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Lambe-lambe de Hugo Alberto.

Coloridos ou em preto e branco, chamativos ou discretos. Desenhos grudados nas superfícies da cidade tornam o cinza de prédios e obras não finalizadas parte de uma arte maior. O cotidiano cuiabano se torna uma colagem visual, com diferentes mensagens e olhares. Comunicação e arte é colada na capital através  dos lambe-lambes, ou apenas lambes. Posters de diversos tamanhos que são usados há séculos na publicidade, desde o inicio do milênio eles aparecem pelas cidades brasileiras como formas de intervenções artísticas. De papel e cola, o lambe-lambe é temporário, mas eterno enquanto dura. Através dele, se manifesta críticas e ironias, até declarações de amor e o silêncio.

Foi nessa onda que surgiu o Clichês na Rua, formado por Talissa Briante, Luana Brandão e Thiago Barbosa. O contato com os lambes surgiu no Facebook, quando uma das integrantes viu uma postagem sobre o assunto e se encantou com a ideia. “Nós sempre gostamos de intervenções urbanas. De levar a arte para a rua e comunicar com as pessoas que estão nela. A Talissa teve a ideia de fazer as frases e colocar poemas e versículos pela cidade”, explica Luana, de 26 anos.

Apesar do inicio despretensioso, aos poucos o projeto ganhou forças e recebeu carinho de quem vê. “A gente fez o Instagram e a página do Clichê, e quando vimos, as pessoas tiravam fotos nas ruas dos clichês que a gente produziu e marcavam a gente nas fotos, o lambe tem um retorno muito forte”, comenta Luana. “Não tínhamos criado tanta expectativa. Foi muito bom sentir que as palavras de amor que levamos tiveram um impacto positivo”, completa Talissa.

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Lambe-lambe do Clichês na Rua.

Entre as respostas recebidas por eles, Luana guarda consigo uma em especial.”Na fanpage do Clichês uma mulher escreveu para a gente que ela estava no ponto de ônibus e viu um clichê nosso, nele estava escrito ‘Calma! Ainda há tempo’. Ela disse que estava super apressada, mas se sentiu mais tranquila quando leu o Clichê. O lambe falou com ela de alguma forma.”

Já Hugo Alberto, de 25 anos, utiliza o lambe-lambe como um meio de levar sua arte para a rua de uma forma diferente. O artista plástico cria em seu ateliê, e depois cola os lambes pela cidade. “Me identifiquei com o lambe porque me atrai esteticamente e é uma maneira rápida de intervenção. Geralmente, eu tiro um dia para produzir os lambes e no próximo já saio para colar”, expõe.

No inicio, Hugo produzia desenhos complexos, mas hoje prefere trabalhar com um único elemento que será distribuído por Cuiabá. “Eu fazia os lambes como se tivesse fazendo uma tela mesmo, com vários elementos e de tamanhos maiores. Hoje escolho um elemento que eu esteja trabalhando mais, como estudo de forma e cores, e faço repetições. Como se retirasse uma parte do cenário todo e o levasse para rua”, diz.

Mesmo com seu valor artístico, segundo a assessoria da Polícia Judiciária Civil, o lambe-lambe é arte que só pode ser colado em espaços públicos com autorização. Caso não possua autorização, ainda se enquadra em vandalismo. Ainda segundo a assessoria, não existe uma lei especifica sobre intervenções artísticas em Mato Grosso. Independente de regulamentações, é uma forma rápida e prática de passar uma mensagem, seja ela através de imagem ou palavra. A temporariedade de cada lambe, assim como sua transformação após colado através das forças naturais, é o que o torna único.

Ksuwt é um cuiabano de 20 anos que decidiu adotar o pseudônimo para compartilhar sua arte com a cidade. “Sinceramente, eu não ligo muito para ispão. Regulamentada ou não, a minha linha de movimento é independente e é de ocupação e resistência. Eu colo em um ponto que eu acho interessante, e se tirarem eu coloco de novo. Se tirarem de novo, eu já procuro um outro ponto”, expõe o artista, que observa um tratamento mais positivo do estado em relação à arte de rua nos últimos anos.

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Lambe-lambe de Ksuwt.

Conhecido por trabalhar com feições femininas e desenhos no estilo retrato, Ksuwt vê no lambe-lambe uma forma prática de compartilhar arte. “É importante que aconteçam essas intervenções, primeiramente para dar um charme para a cidade. Estamos cheios de obras paradas, abandonadas ou mal acabadas. Essa cor cinza de concreto predominando não é bonito, é feio.”

Assim como Ksuwt, Hugo acredita na capacidade do lambe-lambe de redefinir um determinado local, tornando a cidade mais agradável para o povo que transita sobre, sob, e dentro dela. “Prefiro colar em casas abandonadas, acho que resignifica o lugar. Quem é artista tem necessidade de se expressar, e qualquer forma de intervenção muda o cotidiano da cidade. A história que a cidade te conta vai tomando outros rumos”, diz.

“Intervenções também são importantes para mostrar a cena underground dos artistas da cidade. Nem sempre a arte vai estar dentro de museus e exposições, mas também em um muro bem alto, um poste, um viaduto. Tira a morbidez da rotina. É legal estar em um ônibus ou carro e ter algo interessante para olhar, algo que não é um outdoor”, finaliza Ksuwt.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

A bovinocultura como instrumento de ruptura e consolidação artística

Por André Garcia Santana

Ao fazer do boi figura central do seu universo iconoclástico, Humberto Espíndola marcou o animal como símbolo de uma região, carregando em sua forma muito mais que sentido social. Para além da contribuição à construção identitária dos estados, recém-separados à época, atribuiu ao bicho cores e composições capazes de projetar a cultura de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul pelo Brasil e mundo a fora. Por meio de seu traço -preciso, carrego de significado – contribuiu ativamente para uma ruptura histórica, participando de um movimento que descentralizou a produção artística e posicionou o Centro Oeste no cenário nacional.

Assim, para contar sua história e melhor compreender sua produção, é preciso rememorar os anos de 1965, 66 e 67, marcados por uma frenética busca pela expressão artística que fizesse com que a crítica voltasse os olhos para  a região, considerada até ao período, a periferia da arte brasileira.  Para isto foi criada a Associação Mato-grossense de Arte, fundada por Aline Figueiredo em Campo Grande em 1967, e depois, em 1973 o Museu de Arte e de Cultura Popular (MACP) na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), fundado num esforço entre Aline e Humberto.

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Reprodução/Internet

“Naqueles anos pintei muitos temas e experimentei muitas técnicas. Penso que o toque mágico para conceituar e conceber minha bovinocultura foi ter visto na Bienal de São Paulo de 1967 a grande mostra da pop art norte-americana ali exibida com todos seus exemplos e conceitos. O way of life americano, conceito básico da pop mais o environment (que entendi como circunstancia social e ecológica) foram a pedra de toque. Isso tudo no Mato Grosso da época e de hoje nos dois estados, tinha um equivalente: a cultura do gado, a bovinocultura, que em minha obra dei um sentido sociológico a desinência cultural”, conta.

Embora a presença do animal se repita, o apelo muda a cada fase de sua produção. A força desta característica foi mantida em cronologias específicas, até se tornar um grande repertório iconográfico do qual foi abolido o fator tempo. De acordo com o artista, hoje já não há a preocupação de colocar a pintura em séries.

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Reprodução/Andréa Lobo – Circuito Mato Grosso

“Os quadros agora vêm sem necessidade de sequência, hoje os analiso mais pela paleta de cores. A fase que denomino histórica, os primeiros sete anos de 1968 a 1974, que passa pelos salões nacionais e bienais internacionais, sob o regime militar, com censura do governo e prêmios da crítica. Foi o período da construção e consolidação de minha carreira. A história não se repete, e já obtive naquela época mais de uma dúzia dos mais importantes prêmios nacionais e participei, dentre outras, da Bienal de Veneza de 1972, considerada o clímax da carreira para um artista plástico.”

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Reprodução/Internet

O  mural de 380m², realizado no Palácio Paiaguás, e hoje tombado pelo patrimônio histórico, representa um marco de encerramento dessa fase. A partir daí se dedicou muito a animação cultural e a programação do MACP, nos dez anos que se seguiram. Nesse período surgiu a fase das Rosas/rosetas apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e a série Divisão de Mato Grosso, elaborada durante a criação de Mato Grosso do Sul.

Nos anos de 1980 surge também a série das Queixadas e a da Iconografia Kadiwéu, intensificada com seu retorno a Campo Grande em 1983. La estudou tudo que podia sobre o boi e a tauromaquia, conquistando um sobrevida muito ampla ao tema. O aprendizado foi reforçado por viagens a lugares como Índia, Tailândia, Nepal, Indonésia, Grécia e Egito, onde o culto ao animal pode ser observado ainda hoje.

Com mais de três mil obras entre pinturas, desenhos, gravuras e esculturas relacionadas ao tema, Humberto crê que pinará o boi pelo resto da vida. “Quero ser conhecido na arte brasileira como o artista que dedicou sua vida a pintar o boi. Com pequenas escapadelas para temas que considero bissextos e que às vezes não resisto à tentação de pintá-los (creio ser normal na vida do artista o espírito experimental), mas sempre retorno ao boi”, diz.

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Reprodução/Internet

Ao estabelecer uma linha que aponte as diferenças e a evolução entre as fases iniciais e as séries mais recentes, ele aponta que o lado técnico apresentará grande influência. Transitando pela tinta a óleo, acrílica e depois tinta em massa, retornou ao óleo no principio dos anos 1970 e passou definitivamente para a acrílica no início dos anos 1990. Em sua opinião, cada mudança é um reaprendizado e resulta sempre em crescimento técnico.

“Hoje não tenho mais interesse em pintar critica social. Já não é mais papel da pintura. Gosto de expressar a beleza do boi e da rosa, abordo indiretamente o social, pois o artista querendo ou não, se ele é consciente, acaba abordando a sociedade em que vive e consequentemente seu tempo. O way of life e o environment continuam. Dou muito valor a minha pincelada, como construção do meu estilo atual e consequentes fases. Tenho certeza que pincelo hoje melhor que ontem. Vejo aí a diferença ou evolução”, conclui.

Apaixonado pela pintura desde a infância, Espindola se aventurou ainda pela poesia e pelo teatro. Formado em Jornalismo ele afirma que sempre ponteou a poesia  e revela que durante todo esse tempo, e de três anos para cá começou a escrever microtextos e versos sobre a bovinocultura, os quais, juntamente a mais de cem imagens de sua obra, pretende reunir em um livro. “Acho que agora estou maduro para isso. Aventurei-me também no teatro, atuei no palco e como diretor. Sabia que ser artista era fundamental para minha sobrevivência, mas quando redescobri a pintura, me senti completamente realizado, pois não viveria sem a arte.”

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Reprodução – Internet

Como pinta para viver, espiritual e materialmente, seu relacionamento com a pintura tem momentos específicos, divididos em planejar, estudar, empresariar e executar. Deste modo, vê o ócio e a meditação como treino para mais facilmente entrar em contato com o que já tem pré-criado no subconsciente, seus arquétipos e os do tema. Por isso consdiera os hiatos na produção como naturais e saudáveis. Para ele, nspiração exige conhecimento e treino, e se não houver capacidade técnica de trazê-la a luz, de nada adianta para o surgimento da arte.

“A pintura é meu instrumento de crescimento espiritual, é minha religião. Sou muito exigente com aquilo que trago da realidade invisível da imaginação para a realidade da luz, da matéria, da pintura sobre a tela. A realidade palpável depois de pronta é irreversível, fica para a história.”

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Reprodução/Arquivo Pessoal
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Reprodução /Arquivo pessoal

Autoreverência através do Big Chop

Por Juliana Fernandez

Com o boom de alisamentos no fim da década de 90 e inicio dos anos 2000, meninas de cabelos crespos e cacheados aprenderam submeter seus cabelos à pesadas químicas desde cedo.  Influenciadas pela família, amigos e televisão, elas abriram mão dos cachos por cabelos mais lisos e, pelo menos em teoria, mais fáceis de cuidar. Essas garotas tentaram de tudo um pouco: de escova progressiva, definitiva e inteligente até relaxamentos. Com ou sem formol. Entretanto, a partir de 2010 essa geração de meninas, unidas através da internet, começou a se perguntar se o que procuravam era realmente um cabelo mais prático, ou se o que buscavam era uma maneira de serem incluídas na sociedade. Foi o inicio de uma geração de jovens – especialmente negras -, com tranças, turbantes e muito cabelo natural.

A busca pelo cabelo sem química não é fácil. Para conseguir os cachos de volta, elas passam pela transição capilar, que é um processo no qual os tratamentos de alisamento são abandonados para que o cabelo cresça sem química. O processo pode ser um baque à autoestima, já que a raiz do cabelo cresce com a textura natural enquanto o resto do cabelo continua liso. A transição capilar pode durar anos, dependendo do tamanho do cabelo de cada uma. A norma é o cabelo alisado, e muitas garotas começam a ter seus cabelos alisados por mães, tias e avós ainda na infância.

Estudante de arquitetura, Gizele Mesquita não lembra quando começou a relaxar o cabelo. A jovem de 24 anos teve seu cabelo relaxado por suas tias.

“Eu era muito pequena e morava com as minhas tias. Tem que ter paciência para lidar com o cabelo crespo. Como eu não sabia cuidar, e as minhas tias tinham outras coisas para fazer, elas acharam melhor que eu começasse a relaxar o cabelo para facilitar o penteado. Com o tempo, meu cabelo ficou sem forma. Eu usava Hair Life, que fedia muito. Era uma coisa bem complicada”, lembra.

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Ilustração de Ojo Agi.

Ela decidiu trocar de química aos 15 anos e começou a usar Guanidina, que é na verdade uma mistura de carbonato de guanidina com hidróxido de cálcio. O produto queimou seu couro cabeludo e chegou a criar cascas em sua cabeça.  Com história semelhante, a publicitária Leilaine Rezende, começou a relaxar o cabelo com 13 anos.

“O meu cabelo sempre foi rebelde e volumoso. Ele era contido em um rabo de cavalo no topo da cabeça, com a frente bem lisa, rente ao couro cabeludo e sufocada por muito creme. Isso gerava uma caspa sem igual. Tinha vontade de tê-los soltos. Foi quando uma cabeleireira, amiga da família, sugeriu que eu fizesse um relaxamento leve”, conta Leilaine. Por causa da química, seu cabelo passou de loiro escuro para ruivo queimado, cor que segundo ela, lembrava água de salsicha.

A decisão de voltar ao cabelo natural não foi fácil para ambas. O processo de transição capilar de Gizele começou em 2014, quando foi selecionada para um intercambio em Portugal. Após chegar ao país de destino, notou que o produto utilizado para alisar os fios não era encontrado na região.

“Eu fui deixando, e as pessoas lá achavam bonito o cabelo cacheado. Eu achava muito feio do jeito que estava, com a raiz grande. Mas os meus amigos e conhecidos de lá elogiavam bastante. O meu cabelo era mais um na multidão, eles não estavam nem ligando se a raiz estava aparecendo ou não. Ao mesmo tempo, eu recebia mensagem por inbox de amigos e família aqui no Brasil que pediam para eu pentear ou alisar meu cabelo”, explica.

Quando voltou para Cuiabá, Gizele já havia decido parar de alisar o cabelo. Sua decisão chocou sua família e seus amigos. Ela conta que, além de receber criticas e olhares incomodados, precisou lidar com amigos que decidiram realizar uma intervenção para que alisasse o cabelo.

“Para os meus amigos, eu estava passando muita vergonha. Eles falaram que as pessoas estavam comentando sobre o meu cabelo. Meus amigos perguntaram se eu penteava meu cabelo e se eu tinha espelho em casa. Para eles, eu precisava ‘dar um jeito’, como se fosse fácil, como se só a fala deles pudesse tornar o meu cabelo super hidratado. E eu tenho que levar em consideração que faço arquitetura, que é um curso que preza pela aparência”, relembra a estudante.

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Ilustração de Ojo Agi.

Após o episódio, Gizele realizou o Big Chop, ou BC (Grande Corte, em português). Maneira literal de cortar o mal pela raiz, no BC é removido todo comprimento do cabelo que tenha química. Algumas mulheres chegam a raspar os cabelos, outras cortam as pontas aos poucos até retirar toda a química do cabelo. Quando Leilaine fez o BC em novembro de 2012, as pessoas mais próximas se assustaram.

“Me chamavam de louca, inconsequente e de sapatão. Achavam que eu tinha perdido a vaidade e que isso me faria perder o namorado. Sofri muito. Chorava quando tinha que sair e não sabia que roupa me deixaria mais feminina e menos girafa”, revela.

Segundo Gizele, assumir os cachos a ajudou a se sentir mais empoderada, além de se assumir enquanto mulher negra.

“Antigamente, eu tentava embranquecer nessa cultura do branqueamento. Eu falava que meu cabelo era cacheado, mas não é. Ele é crespo. Leva um tempo para a gente aceitar e saber lidar com esse tipo de coisa. Porque ter cabelo crespo é assumir ser negro, e isso é complicado na sociedade que vivemos. Foi meio que paralelo o empoderamento em relação ao meu cabelo e a questão racial mesmo. Não tem como isso ser separado”, conta.

Para não desistir do processo de transição capilar, tanto Gizele quanto Leilaine contaram com o apoio de outras mulheres cacheadas e crespas através das redes sociais. “Elas foram essenciais no meu processo de aceitação, de afirmação de identidade e de contato com os cuidados ideais para o meu cabelo natural. Foi através do Instagram e do Facebook que eu aceitei que meu cabelo tinha a sua beleza, que existem técnicas mais naturais para realçar a textura e a saúde dos fios crespos. Vi quais eram as questões sociais e políticas que envolviam o preconceito sofrido e isso fortaleceu mais a minha decisão de assumir”, comenta Leilaine, que hoje administra o Ninho de Cacho, um perfil no Instagram sobre aceitação e enaltecimento do cabelo natural que conta com mais de 3 mil seguidores.

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Ilustração de Ojo Agi.

O coro é reforçado por Gizele.“É como você estivesse no consultório de um psicólogo. As meninas dão apoio. Tem menina que posta foto e escreve que não está mais aguentando as criticas da família e dos amigos. Ai vem 70, 80 meninas mostrando fotos dos cabelos delas, falando para não desistir e mostrando o antes e o depois. Sempre tem depoimentos de pessoas que passaram pela transição, aconselhando as meninas a não desistirem.”

A publicitária Jessyca Silva, de 25 anos, está em processo de transição capilar há 15 meses. Para ela, não só as redes sociais se tornaram peça de apoio para quem deseja passar pelo processo, mas também os movimentos sociais.

“A internet me ajudou bastante em relação a como cuidar do cabelo, quais produtos usar e empoderamento. Ver outras mulheres que passaram por isso e hoje tem cabelos cacheados lindíssimos ajuda muito. Os movimentos sociais com mulheres também me ajudam bastante. A gente se sente melhor ao ver que existe tantas mulheres iguais a você, com os mesmos medos, dramas e cabelos. É muito bom quando a gente se liberta do que deveríamos ser, para finalmente ser apenas a gente”, finaliza.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.