Experiência cíclica padronizada: uma reflexão sobre o passar dos anos

Por Thiago Mattos

A coluna de hoje é um relato mais pessoal. Inspirado pelas festas de fim de ano, em que familiares ressaltam a importância da gratidão e da esperança no Natal e fazem diversas resoluções de ano novo para os próximos 365 dias, fiz muitas reflexões sobre o tempo e sobre como tratamos de organizá-lo em ciclos.

Isso mesmo, ciclos! Pessoalmente, tento ser a mesma pessoa os 365 dias do ano, mas não adianta, ninguém consegue. Nós acabamos de certo modo sendo afetados por essa padronização de sensações que cada mês parece emanar.

É verdade, o ano começa no carnaval

As pessoas extravasam, viajam, comem coisas diferentes, veem pessoas diferentes, fazem sexo, loucuras, brigam com amigos antigos e fazem novas amizades. Tudo isso numa intensidade insana que dura quatro dias.

Aí vem aquele período conhecido como quaresma, em que até você que não é cristão acaba sendo contagiado. Além das pessoas mais tradicionais, que praticam o jejum, quem nunca ouviu pelo menos uma dessas promessas:

‘não vou comer carne/não irei ao McDonalds/ não vou beber/não vou fumar/não vou mentir/não vou ver TV/não vou jogar videogame’.

É um período de renúncia e mortificação. Na prática, é a penitência pós-carnaval, momento de contrabalancear os excessos. Curiosamente, nenhuma data comemorativa ‘atrapalha’ esse período, que termina na semana santa.

Normalidade chata

A essa altura, estamos perto do mês de maio e o ano enfim chega a uma normalidade. Para sair um pouco da ‘chatice’, o calendário nos oferece doses homeopáticas de prazer: ‘dia das mães’, ‘dia do namorados’, ‘festa junina’, ‘dia dos pais’, ‘dia das crianças’. Datas cuidadosamente espalhadas entre maio e outubro.

O período de seis meses, que vai de maio a novembro, é o intervalo de 180 dias em que o ano de fato acontece. A maioria das pessoas está envolvida (seriamente) com seus trabalhos e a vida cai naquela rotina extenuante, uma maratona de resistência em busca de uma recompensa final.

Que recompensa? A Black Friday claro!

A data importada começou em 2010, apenas online, e cresce a cada ano no Brasil. Hoje já virou ‘black week’, ‘black november’, aquele toque de exagero comum a nós tupiniquins. Posterior a um período de seis meses de muita rotina para todos, o capitalismo viu uma janela de oportunidade para criar o carnaval do consumo.

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O tempero brasileiro na Black Friday (Créditos: Netshoes)

A Black Friday já funciona como o início do fim do ano no Brasil. Convenhamos, a data caiu como uma luva. Todo mundo fica feliz com as compras e aí chega dezembro, momento de agradecer a tudo e a todos por mais um ano que se vai, mais fácil ainda aproveitando as compras ‘70% off’. Quem sabe você já até conseguiu fazer as compras de natal ainda em novembro?

Hora de celebrar, o fim de ano é o ‘carnaval’ da família, onde todos os exageros, exceto o sexual, são novamente celebrados. A mesa farta, as viagens, as festas, a vitória da família contra mais um ano.

Vem a ressaca de início de ano. Em tese, voltamos a trabalhar em janeiro, mas todos estão em marcha lenta, os adultos pagam IPTU, IPVA e material escolar, enquanto os jovens vivenciam aquela volta às aulas fake, só pra dizerem que não ficaram de férias até o carnaval.

É aí começa tudo de novo. Segundo o IBGE, o brasileiro vive esse ciclo 75 vezes em média…

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