Autoreverência através do Big Chop

Por Juliana Fernandez

Com o boom de alisamentos no fim da década de 90 e inicio dos anos 2000, meninas de cabelos crespos e cacheados aprenderam submeter seus cabelos à pesadas químicas desde cedo.  Influenciadas pela família, amigos e televisão, elas abriram mão dos cachos por cabelos mais lisos e, pelo menos em teoria, mais fáceis de cuidar. Essas garotas tentaram de tudo um pouco: de escova progressiva, definitiva e inteligente até relaxamentos. Com ou sem formol. Entretanto, a partir de 2010 essa geração de meninas, unidas através da internet, começou a se perguntar se o que procuravam era realmente um cabelo mais prático, ou se o que buscavam era uma maneira de serem incluídas na sociedade. Foi o inicio de uma geração de jovens – especialmente negras -, com tranças, turbantes e muito cabelo natural.

A busca pelo cabelo sem química não é fácil. Para conseguir os cachos de volta, elas passam pela transição capilar, que é um processo no qual os tratamentos de alisamento são abandonados para que o cabelo cresça sem química. O processo pode ser um baque à autoestima, já que a raiz do cabelo cresce com a textura natural enquanto o resto do cabelo continua liso. A transição capilar pode durar anos, dependendo do tamanho do cabelo de cada uma. A norma é o cabelo alisado, e muitas garotas começam a ter seus cabelos alisados por mães, tias e avós ainda na infância.

Estudante de arquitetura, Gizele Mesquita não lembra quando começou a relaxar o cabelo. A jovem de 24 anos teve seu cabelo relaxado por suas tias.

“Eu era muito pequena e morava com as minhas tias. Tem que ter paciência para lidar com o cabelo crespo. Como eu não sabia cuidar, e as minhas tias tinham outras coisas para fazer, elas acharam melhor que eu começasse a relaxar o cabelo para facilitar o penteado. Com o tempo, meu cabelo ficou sem forma. Eu usava Hair Life, que fedia muito. Era uma coisa bem complicada”, lembra.

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Ilustração de Ojo Agi.

Ela decidiu trocar de química aos 15 anos e começou a usar Guanidina, que é na verdade uma mistura de carbonato de guanidina com hidróxido de cálcio. O produto queimou seu couro cabeludo e chegou a criar cascas em sua cabeça.  Com história semelhante, a publicitária Leilaine Rezende, começou a relaxar o cabelo com 13 anos.

“O meu cabelo sempre foi rebelde e volumoso. Ele era contido em um rabo de cavalo no topo da cabeça, com a frente bem lisa, rente ao couro cabeludo e sufocada por muito creme. Isso gerava uma caspa sem igual. Tinha vontade de tê-los soltos. Foi quando uma cabeleireira, amiga da família, sugeriu que eu fizesse um relaxamento leve”, conta Leilaine. Por causa da química, seu cabelo passou de loiro escuro para ruivo queimado, cor que segundo ela, lembrava água de salsicha.

A decisão de voltar ao cabelo natural não foi fácil para ambas. O processo de transição capilar de Gizele começou em 2014, quando foi selecionada para um intercambio em Portugal. Após chegar ao país de destino, notou que o produto utilizado para alisar os fios não era encontrado na região.

“Eu fui deixando, e as pessoas lá achavam bonito o cabelo cacheado. Eu achava muito feio do jeito que estava, com a raiz grande. Mas os meus amigos e conhecidos de lá elogiavam bastante. O meu cabelo era mais um na multidão, eles não estavam nem ligando se a raiz estava aparecendo ou não. Ao mesmo tempo, eu recebia mensagem por inbox de amigos e família aqui no Brasil que pediam para eu pentear ou alisar meu cabelo”, explica.

Quando voltou para Cuiabá, Gizele já havia decido parar de alisar o cabelo. Sua decisão chocou sua família e seus amigos. Ela conta que, além de receber criticas e olhares incomodados, precisou lidar com amigos que decidiram realizar uma intervenção para que alisasse o cabelo.

“Para os meus amigos, eu estava passando muita vergonha. Eles falaram que as pessoas estavam comentando sobre o meu cabelo. Meus amigos perguntaram se eu penteava meu cabelo e se eu tinha espelho em casa. Para eles, eu precisava ‘dar um jeito’, como se fosse fácil, como se só a fala deles pudesse tornar o meu cabelo super hidratado. E eu tenho que levar em consideração que faço arquitetura, que é um curso que preza pela aparência”, relembra a estudante.

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Ilustração de Ojo Agi.

Após o episódio, Gizele realizou o Big Chop, ou BC (Grande Corte, em português). Maneira literal de cortar o mal pela raiz, no BC é removido todo comprimento do cabelo que tenha química. Algumas mulheres chegam a raspar os cabelos, outras cortam as pontas aos poucos até retirar toda a química do cabelo. Quando Leilaine fez o BC em novembro de 2012, as pessoas mais próximas se assustaram.

“Me chamavam de louca, inconsequente e de sapatão. Achavam que eu tinha perdido a vaidade e que isso me faria perder o namorado. Sofri muito. Chorava quando tinha que sair e não sabia que roupa me deixaria mais feminina e menos girafa”, revela.

Segundo Gizele, assumir os cachos a ajudou a se sentir mais empoderada, além de se assumir enquanto mulher negra.

“Antigamente, eu tentava embranquecer nessa cultura do branqueamento. Eu falava que meu cabelo era cacheado, mas não é. Ele é crespo. Leva um tempo para a gente aceitar e saber lidar com esse tipo de coisa. Porque ter cabelo crespo é assumir ser negro, e isso é complicado na sociedade que vivemos. Foi meio que paralelo o empoderamento em relação ao meu cabelo e a questão racial mesmo. Não tem como isso ser separado”, conta.

Para não desistir do processo de transição capilar, tanto Gizele quanto Leilaine contaram com o apoio de outras mulheres cacheadas e crespas através das redes sociais. “Elas foram essenciais no meu processo de aceitação, de afirmação de identidade e de contato com os cuidados ideais para o meu cabelo natural. Foi através do Instagram e do Facebook que eu aceitei que meu cabelo tinha a sua beleza, que existem técnicas mais naturais para realçar a textura e a saúde dos fios crespos. Vi quais eram as questões sociais e políticas que envolviam o preconceito sofrido e isso fortaleceu mais a minha decisão de assumir”, comenta Leilaine, que hoje administra o Ninho de Cacho, um perfil no Instagram sobre aceitação e enaltecimento do cabelo natural que conta com mais de 3 mil seguidores.

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Ilustração de Ojo Agi.

O coro é reforçado por Gizele.“É como você estivesse no consultório de um psicólogo. As meninas dão apoio. Tem menina que posta foto e escreve que não está mais aguentando as criticas da família e dos amigos. Ai vem 70, 80 meninas mostrando fotos dos cabelos delas, falando para não desistir e mostrando o antes e o depois. Sempre tem depoimentos de pessoas que passaram pela transição, aconselhando as meninas a não desistirem.”

A publicitária Jessyca Silva, de 25 anos, está em processo de transição capilar há 15 meses. Para ela, não só as redes sociais se tornaram peça de apoio para quem deseja passar pelo processo, mas também os movimentos sociais.

“A internet me ajudou bastante em relação a como cuidar do cabelo, quais produtos usar e empoderamento. Ver outras mulheres que passaram por isso e hoje tem cabelos cacheados lindíssimos ajuda muito. Os movimentos sociais com mulheres também me ajudam bastante. A gente se sente melhor ao ver que existe tantas mulheres iguais a você, com os mesmos medos, dramas e cabelos. É muito bom quando a gente se liberta do que deveríamos ser, para finalmente ser apenas a gente”, finaliza.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

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