Eternotemporário, o lambe-lambe é exposição artística e adorno urbano

Por Juliana Fernandez 

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Lambe-lambe de Hugo Alberto.

Coloridos ou em preto e branco, chamativos ou discretos. Desenhos grudados nas superfícies da cidade tornam o cinza de prédios e obras não finalizadas parte de uma arte maior. O cotidiano cuiabano se torna uma colagem visual, com diferentes mensagens e olhares. Comunicação e arte é colada na capital através  dos lambe-lambes, ou apenas lambes. Posters de diversos tamanhos que são usados há séculos na publicidade, desde o inicio do milênio eles aparecem pelas cidades brasileiras como formas de intervenções artísticas. De papel e cola, o lambe-lambe é temporário, mas eterno enquanto dura. Através dele, se manifesta críticas e ironias, até declarações de amor e o silêncio.

Foi nessa onda que surgiu o Clichês na Rua, formado por Talissa Briante, Luana Brandão e Thiago Barbosa. O contato com os lambes surgiu no Facebook, quando uma das integrantes viu uma postagem sobre o assunto e se encantou com a ideia. “Nós sempre gostamos de intervenções urbanas. De levar a arte para a rua e comunicar com as pessoas que estão nela. A Talissa teve a ideia de fazer as frases e colocar poemas e versículos pela cidade”, explica Luana, de 26 anos.

Apesar do inicio despretensioso, aos poucos o projeto ganhou forças e recebeu carinho de quem vê. “A gente fez o Instagram e a página do Clichê, e quando vimos, as pessoas tiravam fotos nas ruas dos clichês que a gente produziu e marcavam a gente nas fotos, o lambe tem um retorno muito forte”, comenta Luana. “Não tínhamos criado tanta expectativa. Foi muito bom sentir que as palavras de amor que levamos tiveram um impacto positivo”, completa Talissa.

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Lambe-lambe do Clichês na Rua.

Entre as respostas recebidas por eles, Luana guarda consigo uma em especial.”Na fanpage do Clichês uma mulher escreveu para a gente que ela estava no ponto de ônibus e viu um clichê nosso, nele estava escrito ‘Calma! Ainda há tempo’. Ela disse que estava super apressada, mas se sentiu mais tranquila quando leu o Clichê. O lambe falou com ela de alguma forma.”

Já Hugo Alberto, de 25 anos, utiliza o lambe-lambe como um meio de levar sua arte para a rua de uma forma diferente. O artista plástico cria em seu ateliê, e depois cola os lambes pela cidade. “Me identifiquei com o lambe porque me atrai esteticamente e é uma maneira rápida de intervenção. Geralmente, eu tiro um dia para produzir os lambes e no próximo já saio para colar”, expõe.

No inicio, Hugo produzia desenhos complexos, mas hoje prefere trabalhar com um único elemento que será distribuído por Cuiabá. “Eu fazia os lambes como se tivesse fazendo uma tela mesmo, com vários elementos e de tamanhos maiores. Hoje escolho um elemento que eu esteja trabalhando mais, como estudo de forma e cores, e faço repetições. Como se retirasse uma parte do cenário todo e o levasse para rua”, diz.

Mesmo com seu valor artístico, segundo a assessoria da Polícia Judiciária Civil, o lambe-lambe é arte que só pode ser colado em espaços públicos com autorização. Caso não possua autorização, ainda se enquadra em vandalismo. Ainda segundo a assessoria, não existe uma lei especifica sobre intervenções artísticas em Mato Grosso. Independente de regulamentações, é uma forma rápida e prática de passar uma mensagem, seja ela através de imagem ou palavra. A temporariedade de cada lambe, assim como sua transformação após colado através das forças naturais, é o que o torna único.

Ksuwt é um cuiabano de 20 anos que decidiu adotar o pseudônimo para compartilhar sua arte com a cidade. “Sinceramente, eu não ligo muito para ispão. Regulamentada ou não, a minha linha de movimento é independente e é de ocupação e resistência. Eu colo em um ponto que eu acho interessante, e se tirarem eu coloco de novo. Se tirarem de novo, eu já procuro um outro ponto”, expõe o artista, que observa um tratamento mais positivo do estado em relação à arte de rua nos últimos anos.

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Lambe-lambe de Ksuwt.

Conhecido por trabalhar com feições femininas e desenhos no estilo retrato, Ksuwt vê no lambe-lambe uma forma prática de compartilhar arte. “É importante que aconteçam essas intervenções, primeiramente para dar um charme para a cidade. Estamos cheios de obras paradas, abandonadas ou mal acabadas. Essa cor cinza de concreto predominando não é bonito, é feio.”

Assim como Ksuwt, Hugo acredita na capacidade do lambe-lambe de redefinir um determinado local, tornando a cidade mais agradável para o povo que transita sobre, sob, e dentro dela. “Prefiro colar em casas abandonadas, acho que resignifica o lugar. Quem é artista tem necessidade de se expressar, e qualquer forma de intervenção muda o cotidiano da cidade. A história que a cidade te conta vai tomando outros rumos”, diz.

“Intervenções também são importantes para mostrar a cena underground dos artistas da cidade. Nem sempre a arte vai estar dentro de museus e exposições, mas também em um muro bem alto, um poste, um viaduto. Tira a morbidez da rotina. É legal estar em um ônibus ou carro e ter algo interessante para olhar, algo que não é um outdoor”, finaliza Ksuwt.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

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