Plantas Alimentícias Não Convencionais: a comida que você ignora

Por Lázaro Thor Borges

Todas as manhãs a cidade fica repleta de florzinhas brancas.  Canteiros centrais de avenidas, terrenos baldios e praças semi vazias são o habitat natural da Damiana, uma planta que nasce em praticamente qualquer tipo de solo – desde que haja muito sol.

A Turnera ulmifolia (nome científico da Damiana) é considerada uma “praga” para agricultores e jardineiros, e mantém-se praticamente desconhecida da maioria das pessoas. O que muita gente não sabe é que a Damiana é uma flor comestível, com propriedades medicinais, usada desde os tempos da América pré-colombiana pelos povos do continente.

Esta é a damiana, conhecida também como chanana ou "flor-do-guarujá".
A damiana é conhecida também como chanana ou “flor-do-guarujá”

Ela é uma PANC – Planta Alimentícia Não Convencional. E faz parte de um extenso grupo de vegetais que até pouco tempo era conhecido apenas como “mato” ou “erva daninha” por todos nós. Juntam-se a esta florzinha, poderosas riquezas negligenciadas no mundo gastronômico e científico, como o caruru, o milho-de-grilo, a taioba, a tansagem e muitas outras.

A ciência dos “matos de comer”

Um dos percussores do estudo dessas plantas, o professor doutor Valdely Ferreira Knupp, conta que entre as dez frutíferas mais produzidas para comercialização e consumo no Brasil, nenhuma é brasileira. Ele explica que este dado é sinal de que o brasileiro não consome os produtos que brotam de sua terra. A este fenômeno o professor dá o nome de “colonização alimentar”, quando os produtos consumidos não valorizam a flora brasileira.

A feijoa (ou goiaba-da-serra) é uma planta originária do sul do Brasil, o formato lembra uma goiaba, mas o sabor é aromático e doce
A feijoa (ou goiaba-da-serra) é uma planta originária do sul do Brasil. O formato lembra uma goiaba, mas o sabor é aromático e doce.

Esta situação cria muitas circunstâncias irônicas. Um exemplo é a história da goiaba-da-serra. Fruta de sabor delicado e que é endêmica do sul do país. Na região, no entanto, quase ninguém a conhece e ela é considerada por muitos uma fruta estrangeira. Isso porque os maiores produtores do fruto no mundo é a Nova Zelândia e a Austrália, onde é muito apreciada e consumida.

A mesma discrepância ocorre com o “figo-da-índia”. A fruta, que brota do cacto palma, é muito comum na caatinga e presente também em todo território brasileiro. Apesar disso, ela é considerada o alimento símbolo da Sicília, na Itália. Lá o fruto do nosso cacto é utilizado na gastronomia local como sinônimo de “iguaria”, enquanto aqui pouca gente conhece ou consome a fruta.

“A maioria das plantas chamadas daninhas ou inços são espécies com grande importância ecológica e econômica. Muitas destas espécies, por exemplo, são alimentícias mesmo que atualmente em desuso (ou quase) pela maior parte da população”, explica o professor Knupp.

pico
As folhas do Picão (ou Carrapicho) também são alimentícias.

A tese de doutorado de Valdely pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) versa exatamente sobre o assunto. Ele fez um estudo sobre as panc’s encontradas na região metropolitana de Porto Alegre. A descoberta, segundo a tese, é de que 21% das plantas consideradas “daninhas” tinham potencial alimentar. O mais incrível nesse tipo de descoberta é que a maioria das panc’s não são encontradas em regiões de difícil acesso como sítios e fazendas no interior do Estado. Elas são em sua maioria urbanas.

Este é o caso do carrapicho (conhecido também como picão). Diversas cartilhas disponibilizadas na internet mostram receitas com a planta. Para quem conhece pela primeira não deixa de ser uma grande surpresa: quem imaginou que aquele matinho que gruda na calça e incomoda poderia se transformar, por exemplo, em uma sopa ou em um refrigerante caseiro?

Plantas Alimentícias Não Convencionais Cuiabanas (PANCC’s)

Uma caminhada simples pela cidade pode evidenciar o quanto as PANC’s estão presentes no ambiente urbano da capital mato-grossense. Usada para arborização, o oiti dá um fruto desconhecido por muitos e que cai normalmente no final do ano. Apesar de ser ignorado pela maioria dos transeuntes, o fruto é comestível. Outro exemplo é o fruto da palma (o figo-da-índia), comum em alguns jardins de casas da capital.

Fruto do Oiti, planta muito usada na arborização urbana, cujo fruto é comestível
Fruto do Oiti, planta muito usada na arborização urbana, cujo fruto é comestível

A experiência de levar plantas não convencionais para o prato do cuiabano é algo que a equipe do restaurante Raposa Vegana já faz há algum tempo. Uma das panc’s que eles utilizam no cardápio é a taioba. A planta chamou a atenção de muita gente recentemente quando uma reportagem veiculada no Fantástico mostrava alguns de seus benefícios. Apesar de ser pouco convencional, a taioba já era utilizada por moradores da área rural de algumas regiões do Brasil – uma riqueza alimentícia herdada dos povos indígenas.

No caso do Raposa Vegana, a utilização de panc’s ainda é modesta, mas o objetivo dos administradores do restaurante é tornar algumas plantas ainda mais recorrentes no cardápio. Ainda que o restaurante tenha uma clientela predominantemente vegetariana e vegana, uma das principais barreiras é a estranheza em relação as panc’s.

“É normal as pessoas ficarem receosas, o mesmo acontece com a carne de jaca, muito gente come sem saber que é, mas depois que descobre gosta. No caso das panc’s nós usamos diversos tipos e há pratos com taioba, feijão gandu, vitex, etc”, explica Wanessa Ramos que juntamente com o namorado João Lucas Souza administra o restaurante.

A internet é PANC

Devagar e sem muito alarde o conceito que dá visibilidade e utilidade às panc’s tem crescido na internet. Nas redes, ser “panc” é quase como sinônimo de vegetariano ou vegano. Para os grupos contrários ao consumo de carne, as plantas não convencionais oferecem uma chance de complementar e enriquecer o consumo diário.

O blog Matos de Comer é parada certa para quem deseja conhecer mais receitas e maneiras de utilizar as pancs no dia a dia. Com uma abordagem social e muitas vezes ecológica, Guilherme Ricci explica para os seus leitores como é feita a identificação e o manejo desses alimentos.

Além do blog, o Ministério da Agricultura disponibiliza uma publicação em arquivo pdf com alguns detalhes e mais explicações sobre hortaliças comestíveis não convencionais. Outra fonte interessante de conhecimento sobre as panc’s são os grupos no facebook, onde há muita gente que tem se especializado – pelo o menos de maneira caseira – no assunto.

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