Sexo, Tinder e Rock ‘n’ roll

O amor contemporâneo é digital

Por Marcelo Dantas 

Entre um e outro gole de cerveja no Hookerz, na Filinto Müller, meu amigo Pedro, 23, fez uma revelação a nossa roda: “Perdi minha virgindade com um cara que conheci no Tinder”. O imediato silêncio da turma passou despercebido em meio ao rock que tocava no pub, mas uma pergunta curta e grossa logo retomou a conversa e rendeu boas risadas: “Doeu?”

Ninguém sabia que ele, universitário da Federal que se gabava por ficar com belas mulheres, era gay, e ninguém do grupo se lembrava de tê-lo visto no Tinder — app em que todos nós estávamos. “Passei pelo perfil de todos vocês”, disse ele, mordendo o mini-hambúrguer da casa e lançando mão de pergunta que seria a tônica da abafada noite de sexta-feira: “O que estão buscando lá?”

Para quem não está familiarizado, Tinder é um aplicativo de paquera para celulares que permite que as pessoas se conectem por meio de um simples deslize de dedo sobre a tela. Integrado ao Facebook, você começa a ver fotos de usuários nas proximidades, um por vez. Pode aprová-los, deslizando o dedo para a direita, ou descartá-los, deslizando-o para a esquerda. Sendo o interesse mútuo, o software notifica as duas pessoas, que podem conversar num bate-papo privado. O serviço chegou ao Brasil no final de 2013 e contava, já em 2014, com 10 milhões de usuários.

“Sexo”, respondeu Bianca, 34, analista de um tribunal na capital. “Busco sexo. Tinder é um cardápio, igual a este”, finalizou, apontando para o menu do bar. Túlio, 18, estudante de pré-vestibular, balançou a cabeça concordando: “É uma vitrine com vários produtos, que nem a da loja aqui ao lado”.

Pontos de vista expressivos, e que seriam debatidos pelo grupo.

“Tudo depende do uso que você faz dele”, observou Cláudio, 41, advogado. “Acho que os interesses são os mais diversos possíveis. Sexo, romance, amizade, curiosidade”, disse. “Particularmente, quero conhecer gente nova. Passo o dia inteiro no escritório, debruçado sobre processos, até mesmo aos finais de semana. É complicado interagir, e o Tinder ajuda”, admitiu, pedindo ao garçom nova rodada de bebida.

“Mas qual a qualidade dessas interações?”, interrompeu Denise, 27, médica residente. “São relações superficiais, baseadas numa foto e que podem acabar com um simples apertar de botão”, pontuou. Essas afirmações me fizeram lembrar de “Amor Líquido”, obra de Bauman indicada pelo professor Orione no meu 4º ano de Direito. O sociólogo polonês sustenta que, na “modernidade líquida”, nada é feito para durar, para ser “sólido” — especialmente nossas relações.

“O Tinder está é expandindo a forma como nos relacionamos, Denise”, discordou Cláudio. “Conheci pessoas que talvez jamais conheceria. Toda relação é superficial no início, sobretudo a virtual. Mas a química só acontece quando há, de fato, diálogo e contato pessoal”, afirmou. “O aplicativo está fazendo com que encontros virtuais se tornarem reais”.

O cofundador da plataforma, Justin Mateen, parece concordar. Em entrevista ao caderno Tec, da Folha de S. Paulo, em 2013, ele responde que o Tinder é “um reflexo honesto da interação humana”, acentuando que, “quando você conhece alguém em um café, a primeira coisa que nota sobre ela é sua aparência física. Na conversa, você busca semelhanças como amigos ou interesses mútuos”.

“Além disso, percebo que o aplicativo tem contribuído com a socialização dos gays em Cuiabá”, atestou Pedro. “Socialização, não apenas sexo. Muita gente ainda está trancada no armário, por conta do preconceito, e o Tinder permite fazer amizades sem se expor tanto. É um primeiro passo”.

“E você, Dantas, o que acha?”, me questionou Bianca. “Acho que este será o tema do próximo artigo”, respondi. “Apesar de popular, o Tinder é tabu. Tanto que tenho certeza que terei de mudar o nome de vocês ao reproduzir os diálogos, estou errado?”, perguntei. Não estava.

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* Marcelo Dantas Ribeiro é bacharel em Direito pela UFMT | mdrlv@me.com

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