Empire – você provavelmente não viu, mas deveria

Série de televisão centrada na família Lyon e na empresa que pertence a eles, Empire foi criada por Lee Daniels e Danny Strong. A série foi ao ar pela primeira vez em janeiro de 2015, e desde então é transmitida pela FOX.

Em Empire, Lucious Lyon (Terrence Howard) é um rapper que saiu das ruas e prosperou na música, como cantor e através de sua gravadora. A história começa com o patriarca descobrindo que possui uma grave doença, e tem apenas três anos de vida, por isso precisa começar a preparar um de seus filhos – Andre (Trai Byers), Jamal (Jussie Smollett) ou Hakeem (Bryshere Y. Gray) –  para ocupar seu trono. Enquanto isso, Cookie (Taraji P. Henson), sua ex-esposa e também ex-sócia, retorna depois de passar 17 anos na prisão, disposta a recuperar tudo que perdeu.

Este não é um texto para te convencer a ver a série, mas sim para elucidar os motivos pelos quais você provavelmente não ouviu falar sobre ela, nem leu posts acalorados de seus amigos sobre os personagens da mesma.

Empire é uma série que eu acompanho desde foi lançada, o apelo à história e cultura negra me cativou desde o começo. Por isso, esperei que os amigos acompanhassem a série com o mesmo fervor que eu. Qual foi a surpresa quando percebi que a hype brasileira não chegou nem perto de consumir essa série?

Me pergunto sobre o que nos falta para perceber e ressaltar essa que é uma das séries de maior sucesso nos Estados Unidos? Afinal, Empire já quebrou recordes de audiência de séries consagradas, como Grey’s Anatomy e The Big Bang Teory.

Acredito que Empire seja talvez mais necessária no Brasil, que em seu país de origem. Temos dificuldade em comprar cultura negra, admirar cultura negra, amar pessoas negras. E Empire não nos dá uma versão polida e educada de pessoas negras (que em geral se relacionam com pessoas brancas), e sim, isso é sobre How to Get Away With Murderer e Scandal – séries que também tem a sua importância, mas que passam a imagem do negro que o brasileiro quer consumir.

O que queremos é uma versão limpa e politizada, um negro que “sabe se comportar”, um negro que ascendeu, enriqueceu, logo deixou de ser “mal educado”. Então não sabemos lidar com os conceitos que Empire traz, com mulheres vestidas com roupas chamativas e sensuais, relações afrocentradas e pessoas não magras exercendo papéis de importância na sociedade e tendo relacionamentos afetivos e sexuais.

Exatamente por isso, Empire é tudo que os brasileiros precisam consumir, porque ela é empoderadora, ela dá novas possibilidades às pessoas negras, a qualquer pessoa, na verdade.

Precisamos ver a Cookie, uma das principais personagens da série. Precisamos saber que ela foi traficante de drogas, porque essa era a única alternativa que ela tinha, conhecer suas amigas da prisão, nos apaixonar por todos os incríveis homens que ela conhece, ver uma mulher adulta às vezes sofrendo por amor, e às vezes apenas querendo um homem bonito em sua cama, sem nenhum problema em falar sobre as duas coisas.

Precisamos ver Cookie usando roupas que nossas mães nunca ousariam usar, ver ela contratando pessoas negras, trabalhando – e trabalhando muito – tendo total consciência de sua força e poder, e do valor de seu trabalho.

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Eu sei coisas.

Mas todo o peso dessa série não se resume a sua representatividade étnica, essa é uma série de minorias. Desde a assistente de Lucius Lyon, Becky Williams (Gabourey Ridley Sidibe), uma mulher negra e gorda, que é bem sucedida no trabalho e tem um homem lindo e sexy para chamar de seu (protagonizando uma cena de sexo que foi extremamente controversa nos EUA), ao Jamal Lyon, homem gay que precisa vencer o preconceito da família e da indústria, temos inúmeros exemplos de força e ativismo.

Ativismo esse que se categoriza pela simples existência, pela vida diária, pelas possibilidades infinitas do ser, extrapolando os limites que a sociedade impõe às minorias.

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Eu interpreto Becky. A muito, muito confiável e super, super linda assistente do Lucious.

Olhar para uma família negra, poderosa, problemática e unida, que sempre passa pela questão racial, mas não se resume a ela, é o que nós precisamos. Empire devia ser a nova bíblia dos afrodescendentes.

Então, se ainda não viu a série, prepare-se para adentrar um novo universo de possibilidades.

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Eu te fiz melhor. Não esqueça de me agradecer.
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Ser mulher no Brasil infelizmente não é tão bom

Por Juliana Fernandez

O Brasil é o pior país da América do Sul para meninas; ele também é um dos piores do mundo para garotas, ficando atrás de países como Iraque, Ghana e Índia. Segundo o estudo Every Last Girl da ONG internacional Save The Children, o Brasil ocupa a 102ª posição no Índice de Oportunidades para Garotas, publicada ano passado. A lista é composta por 144 países. Para a criação do Índice foram considerados dados sobre gravidez na adolescência, mortalidade materna, casamento infantil, representação das mulheres na política e conclusão do ensino médio.

Na lista, o Brasil se destaca por ser um “país de renda média superior, que está ligeiramente acima no índice que o pobre e frágil Estado do Haiti”, que ocupa a 105ª posição. Para a defensora pública e presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher, Rosana Leite, a realidade brasileira é machista, na qual a representatividade feminina é tímida.

“O homem não entende de leis que a mulher precisa, o que ajuda na hierarquização do homem sobre a mulher. As leis que protegem mulheres são muito novas, a própria lei Maria da Penha tem apenas 10 anos. Entretanto, hoje as mulheres são mais abertas ao amparo dessas leis, que são afirmativas. É um trabalho de formiguinha, mas já no ano passado houve a Primavera das Mulheres, na qual mulheres relataram os abusos e situações que passaram em suas vidas. Sou muito esperançosa sobre o futuro, especialmente no que se refere ao futuro das meninas”, comenta a defensora pública.

Em todo Brasil, vivemos rotinas e dinâmicas machistas que transformam e destroem vidas femininas desde o nascimento de uma mulher. A jovem M. R., 20 anos, sofreu uma série de abusos sexuais pelo então namorado de sua mãe aos 6 anos de idade. Segundo o relato da jovem, sua família não tinha consciência a violência pela qual a filha passava.

“Minha mãe nunca gostou que eu ficasse perto de nenhum homem, justamente por eu ser uma menina. Eu era uma criança e não entendia o porquê disso, então teimava. Quando fiz 6 anos, começaram os abusos. Ele me fazia acariciar o órgão genital dele. Por um tempo, não vi maldade nisso, para mim, era apenas um carinho em alguém que eu gostava. Mas ele começou a me dar presentes, então minha mãe desconfiou e teve uma conversa comigo sobre assédio e pedofilia, questionando ao final se eu estava passando por isso, mas eu neguei porque estava envergonhada. Logo depois minha mãe terminou seu relacionamento com ele”, lembra a jovem.

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Ilustração de Daniel Simmonds

Após o abuso, M.R. se tornou uma menina que não gostava de ser tocada pelas pessoas. Durante a adolescência, não tinha relações duradouras. Segundo ela, era porque criava repulsa tanto dela quanto do companheiro.

“Já perdi as contas de quantas vezes passei mal na rua porque homens chegaram perto de mim, ou porque eles andavam no mesmo sentido que eu. Hoje eu namoro um menino iluminado, que por ser meu amigo de longa data, atravessa esse inferno comigo todos os dias e aguenta os meus ataques de pânico. Contei sobre o abuso para a minha mãe quando fiz 19 anos. Eu tenho ciência de que preciso de ajuda, porque não é fácil lidar com isso. Mas só de pensar em falar nisso, já dói, já me deixa desconfortável. É uma coisa que, se eu pudesse, apagaria da minha história”, desabafa M.R.

Segundo a integrante do coletivo Frente Feminista da UFMT, Lígia da Silva, os dados do Índice de Oportunidades para Garotas trazem tensão, já que mostram que o Brasil ainda necessita progredir para se tornar um país no qual meninas tenham a oportunidade de atingir seu potencial máximo em toda e qualquer área de suas vidas.

“Enquanto mulher, mãe, trabalhadora e feminista, vejo que ainda temos que enfrentar uma luta muito grande para que as futuras gerações de meninas possam tomar um fôlego, sabe? Eu vejo muitas meninas falando sobre feminismo nas escolas, mas ainda não conseguimos atingir muitas mulheres. Muitas mulheres ainda são invisíveis socialmente pelo recorte de classes que nós temos. Atualmente, o número de analfabetismo em Mato Grosso é maior entre as mulheres do que entre homens. Os dados que recebemos são alarmantes; a média de feminicídios em Mato Grosso é maior que a médica nacional. Nós não temos um governo ou uma segurança que se preocupe com os casos de violência contra as mulheres”, conta Lígia.

De acordo com os dados, um dos principais problemas enfrentados pelo país é a falta de representação parlamentar. A lista “Mulheres em Parlamentos Nacionais” criada pela União Interparlamentar coloca o Brasil na 155ª posição entre países com representação feminina na política; entre os 513 deputados federais eleitos em 2014, apenas 51 são mulheres. Para a cientista política Christiany Fonseca, o Brasil é um país que foi formado dentro de uma perspectiva patriarcalista, onde a figura masculina ainda está muito presente nos espaços, e isso afeta efetivamente na condição e condução de como as mulheres pautam seu cotidiano e a sua entrada no aporte político.

“Grande parte dos partidos no Brasil são comandados por homens. Ao longo dos anos, criamos formas de ampliação legal da inclusão da mulher, efetivamente, essas condições dentro dos partidos são desiguais. Não se dá condições para que as mulheres possam disputar lugares de poder em pé de igualdade com os homens. As mulheres vêm tentando lutar por uma inclusão, desde quando não tinham direito ao voto. A primeira deputada federal brasileira foi eleita em 1934, nós temos a primeira senadora eleita em 1990. A inclusão da mulher no cenário político é muito recente, e quando ela se insere ainda sofre muitas limitações”, finaliza Christiany.

 

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Autoria da ilustração sobre o texto: Daniel Simmonds.

“QUE OBESA O QUE”: inferno astral e o desabafo de uma jabuticaba

Por Felipe de Albuquerque

Não dá pra saber ao certo quando começa. Princípio e meio se imiscuem, não palpáveis, inidentificáveis. O fim é mistério. A autopercepção de que algo está acontecendo pode vir depois de uma noite mal dormida e que paira sobre os nossos corpos como uma nuvem cinza ao longo do dia. Ou ainda pode ser que venha como um vento forte que atravessou a vida no meio da tarde insossa de um domingo. Talvez chova em algum momento.

Comigo foi mais ou menos um pouco das duas situações. Adormeci depois de uma sesta despretensiosa e quando acordei já senti a mente cheia de uma primavera monocromática. Doía a cabeça, mas a alma também. Segui os dias, mesmo indisposto, equilibrando o destempero com as obrigações da vida. Aos poucos, foi se evidenciando um desdobramento que não se encaixava muito bem na forma original. Se eu pudesse, talvez tivesse me isolado dos outros e de mim para refletir sobre este fenômeno, como quando tentei (e falhei), correr para o banheiro do trabalho para ficar em silêncio por uns instantes, encostar a cabeça na parede de azulejo gelado e não pensar em nada. Até as luzes automáticas se apagarem e eu precisar me movimentar novamente para sair de lá. Continuar lendo ““QUE OBESA O QUE”: inferno astral e o desabafo de uma jabuticaba”

Imersão e respeito à sabedoria indígena é traduzida em arte

Por André Garcia Santana

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Reprodução:Arquivo Pessoal

A distância que separa indígena e branco em um trajeto marcado por violência e invisibilização, recua em alguns passos diante da respeitosa interação entre as culturas. Sinal ainda raro que traz às sombras da arrogância colonizadora a luz do conhecimento ancestral: profundo, resiliente, simbólico e belo. Preceitos materializados com a pincelada de Deuseni Félix, que rompe a barreira da apropriação e imerge no convívio de quem ainda luta pelo direito de ser ouvido, pelo reconhecimento histórico que vai muito além da inspiração artística.

Foi a partir daí que, mesmo sob as dificuldades impostas a uma cadeirante, estabeleceu experiências com inúmeras tribos por todo o Estado, compartilhando de suas rotinas e se aproximando de diferentes vivências. Com uma rede improvisada em duas forquilhas, aprendeu tomar banho no rio. Se alimentou de carne de macaco e experimentou o biju, o polvilho, o pequi da forma como eram originalmente consumidos antes de os modificarmos.

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Reprodução:Arquivo Pessoal

“Não é só pesquisa, todos são meus amigos. Hoje eu não consigo mais viver sem isso e posso dizer seguramente que os considero como minha primeira família. Há um conhecimento profundo da qual nos ainda não sabemos nada, mesmo vivendo no segundo maior Estado com maior número de índios no país, mesmo tendo quase todos o sangue deles. Praticamente tudo que se ouve sobre o índio é preconceito e ninguém parece estar interessado em mudar isso”, afirma.

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Reprodução:Arquivo Pessoal

Antes de associar a arte à representatividade, se lembra de atribuir o trabalho artístico a predestinação, dom nato, limitando-se a contemplar. Os estudos, no entanto, a convenceram do contrário. No caminho percorrido entre nanquins, aquarelas e lápis, percebeu que dedicação e observação sobrepunham a utopia do destino, passando por diferentes técnicas e relevos até encontrar sua vocação em óleo sobre tela. Grandes telas, especificamente. A partir dai, não foi difícil imaginar em seus painéis rostos, cores e apetrechos indígenas.

Frutos de uma busca por respostas, iniciada nos anos 90, depois de um acidente que comprometeu o movimento de suas pernas, estes personagens se firmaram de vez no imaginário de Deuseni após um pedido de ajuda dos filhos, que, com dever escolar em mãos, não encontraram material esclarecedor o suficiente sobre o a temática. Instigada pela escassez de informações, resolveu aprofundar seu conhecimento. “Eu achei absurdo, primeiro o fato de eu não saber responder nada sobre o assunto, depois não encontrarmos material sobre eles.”

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Reprodução:Arquivo Pessoal

Os livros não bastaram. Ela foi in loco. Conheceu e ainda frequenta várias aldeias. E, por sua produção, desenvoltura e facilidade em se adaptar aos costumes diários das tribos por onde passa, ganhou uma família inteira de índios que a consideram como mãe, nora e avó. “Essa relação acontece porque eu não me vejo diferente deles. Eu faço as mesmas coisas. Sempre que vou à aldeia como a mesma comida, tomo banho no rio, durmo na rede. Se eles vivem assim, por que eu iria fazer diferente?”

Um laço que, além de aproximar suas duas famílias, criou um vínculo de respeito e receptividade mútua. Por isso, segundo ela, não é raro que receba em seu apartamento amigos que vêm das aldeias que a acolheram. “Até as 18:00 horas minha casa é de branco, depois é casa de índio. Eu já aviso isso aos vizinhos e conhecidos, pra que ninguém se choque com algum costume ou ritual.”, exemplifica a naturalidade com a qual convivem.

É preciso entender a afinidade da artista plástica com estas tradições para compreender o cerne de seu trabalho. Em largas dimensões, as obras não nascem de observação aleatória, cada uma carrega em si o traço característico de etnias distintas. Txucarramae, Kaiapós, Kalapalos, Umutinas, dentre muitos outros, são retratados com fidelidade a sua identidade cultural. Características como o corte de cabelo, pintura corporal e ornamentos são determinantes para a composição, uma vez que cada detalhe carrega a cultura de nações, classificadas em nossa ignorância como um massa unificada de nativos.

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Reprodução:Arquivo Pessoal

Em cores fortes, essas informações ganham forma e causam uma sensação impactante. Em um primeiro momento, chamam a atenção pela disposição harmônica dos elementos e tons, depois pela profundidade da expressão, sobretudo do olhar. Carregado de uma observação profunda, distante e misteriosa, esse atributo marca as obras de Deuseni, deixando pairar entre os expectadores a mistura entre dúvida e contemplação. O mistério, de acordo com ela, remete ao pouco que se sabe sobre esses povos.

Situação a qual trabalha para mudar. Desde que enveredou por esse mundo, faz com que as telas ganhem a companhia de parte do seu conhecimento. Por isso, todas elas guardam dados sobre a nação ou etnia representada. Informações oriundas dos estudos da criadora e que são obrigatoriamente repassados aos compradores e admiradores. “Não quero que levem uma obra apenas por levar. Tudo isso tem muita história envolvida. Uma história com a qual temos muito a aprender. Os índios são muito sábios e podem nos ensinar”, afirma.

Depois de ter concebido e participado de inúmeras exposições Brasil e mundo a fora, é certo que seu intento não é em vão. Hoje, Bélgica, Portugal, Estados Unidos e Inglaterra, fora os diversos estados do país, conhecem parte do que Deuseni prega, e leva para seus trabalhos.

Em obras criadas em forma de quebra cabeça, técnica desenvolvida por ela para facilitar a composição de gosto exagerado, telas menores se juntam para formar uma única peça maior, levando a pessoas de civilizações e costumes diferentes o vislumbre para uma janela de novo horizonte, no qual a integração e o aprendizado plural caminham juntos.

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Como as bibliotecas abandonadas em Várzea Grande evidenciam o descaso com a Educação no município

Por Lázaro Thor Borges

A biblioteca pública Farol do Saber, localizada no centro de Várzea Grande, foi criada e desenhada para ser uma biblioteca infantil. Quem frequenta o lugar, no entanto, já passou (e muito) da tenra idade. Um desses frequentadores, o motorista Antônio Francisco, veio para a cidade em 1988, vindo interior do Paraná, e hoje exibe os seus saudáveis 66 anos todas as tardes na biblioteca.

O local, abandonado há mais de dois anos pela prefeitura, tornou-se um ponto de encontro da terceira idade várzea-grandense. Mais cinco ou sete colegas de Antônio aparecem por lá, sentam-se na porta da pequena edificação com suas cadeiras portáteis de praia e cuias de tereré.

Quando fui até lá, numa quinta-feira de janeiro, encontrei todos eles muito bem acomodados, conversando amenidades diante do cenário lúdico. Falavam de saúde, família e detalhes de suas histórias de vida. Interrompi o papo atravessando a entrada e encostei o rosto na porta de vidro de insufilme. Enxerguei com esforço os livros caídos e as prateleiras maldispostas ao redor da sala imunda.

Antes de suspender suas atividades, a Farol do Saber recebia estudantes até do interior do estado. Escolas organizavam comitivas para que os alunos conhecessem uma coisa raríssima em Mato Grosso e no Brasil: uma biblioteca.

O que mais encantava as crianças, além dos livros, era o formato do prédio. A biblioteca tem esse nome por conta da sua torre, que lembra uma igreja ou um castelo. É possível subir até o topo, onde um parapeito protege os leitores curiosos de caírem lá de cima.

O prédio foi inaugurado em 2001, na gestão do prefeito Jayme Veríssimo de Campos, marido da atual gestora, a prefeita Lucimar Campos, ambos do partido Democratas. A biblioteca foi construída em uma praça cheia de mangueiras e oitis, e divide espaço com outras duas edificações abandonadas: o ginásio conhecido como “Fiotão” e o Restaurante Popular.

A praça é vizinha ao Terminal de Ônibus André Maggi e isso facilita com que o local seja um ponto de encontro recorrente. Foi lá que entrevistei a professora Maria Aparecida da Silva, secretaria geral do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público da cidade, o Sintep-VG. “Cida”, como é conhecida, tinha terminado uma aula na Escola Municipal Porfíria Paula de Campos, quando chegou no seu Gol vermelho vinho, surrado e barulhento.

A professora me conta que o no ano passado Sintep havia elaborado uma carta compromisso para atender as demandas do setor da educação na cidade. O documento previa investimentos de revitalização para as duas bibliotecas públicas de Várzea Grande. A segunda, a Biblioteca Municipal Professora Laurinda Coelho no bairro Cristo Rei, também está abandonada.Contudo, a prefeita Lucimar recusou-se a assinar o documento.

Em junho de 2016, a última greve organizada pelo sindicato terminou com um acordo de reajuste salarial somente para os professores. O presidente do Sintep, Gilmar Soares Ferreira, travou uma batalha caótica com a prefeita, mobilizando os servidores pelas ruas da cidade. Lucimar, por sua vez, chamou a greve de “ilegal” e combateu a paralisação acusando o sindicato de ser “eleitoreiro”. Gilmar, de fato, candidatou-se a vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT) naquele ano e a greve foi encerrada sem muitos avanços.

Apesar disso, o Sintep ainda é uma das poucas organizações que incomoda o executivo municipal com o problema das bibliotecas. Pouco se fala sobre o tema. A própria Cida quando perguntei se poderia me indicar alguém que defendesse a causa respondeu que essa seria uma tarefa dificílima. O que acontece, na verdade, é que pouca gente sabe que aquele “castelinho” abandonado na praça é de fato uma biblioteca.

O último puxão de orelha recebido pela prefeitura veio da imprensa. Em julho do ano passado, ou seja, há mais de seis meses, a TV Centro América produziu uma pequena reportagem em que denunciava o descaso em relação as bibliotecas. Na ocasião, o então secretário de educação do município Osmar Capilé, informou que somente a biblioteca do Cristo Rei teria previsão de reforma:

“Nós acreditamos que no segundo semestre isso já esteja realizado”, falou o secretário na época, olhando sério para a câmera. A despeito da promessa, a Laurinda Coelho continua abandonada, como sempre esteve há mais de cinco anos.

Ao que parece, este abandono é calculado. No orçamento encaminhado e aprovado pela Câmera Municipal não há nenhuma previsão de reforma, revitalização ou compra de livros para as duas bibliotecas da cidade. O maior orçamento na área de educação do município é a reforma do “Fiotão” cuja obra deve custar R$ 4,2 milhões.

Pedro Marcos Lemos, que ocupa o cargo de secretário de Comunicação do município, explica que o motivo para a paralisação da biblioteca do Cristo Rei foi um laudo técnico que apontou “grave risco estrutural” na edificação. Lemos diz que já existe uma emenda parlamentar no valor de R$ 250 mil para reforma do prédio. Mas tudo ainda sem prazos. A explicação é de que “projetos e planilhas” ainda estão sob análise para que posteriormente uma licitação seja iniciada. A Farol do Saber, porém, nem a uma promessa desse tipo pode se fiar, já que a prefeitura diz não saber o que será feito.

Na tentativa de amenizar o problema do abandono, Pedro Lemos lembrou, por e-mail, que a prefeitura investiu na construção de oito escolas, com bibliotecas próprias. Mas diferença potencial entre as bibliotecas escolares e as duas bibliotecas incrustadas em regiões centrais da cidade é que estas últimas possuem um caráter comunitário, com capacidade de transformar qualquer munícipe em um leitor assíduo. Para isso, porém, é preciso que estejam bem estruturadas, aparelhadas e seguras. E principalmente que mantenham as portas abertas.

 

 

 

Formas opostas de trabalhar uma franquia de games: Resident Evil x Pokémon

Por Thiago Mattos

A franquia de games Resident Evil tem sete jogos em sua linhagem principal. Produzidos pela Capcom, os games tiveram início em 1996, com Resident Evil, originalmente lançado para Playstation. Quase 21 anos se passaram até o lançamento de Resident Evil 7, no momento disponível para PS4, Xbox e PC.

A série de games Pokémon foi lançada também em 1996, com Pokémon Green e Pokémon Red no Japão (Green virou Blue quando o jogo foi lançado no ocidente, mais de um ano depois). A franquia principal sempre esteve nos consoles portáteis da Nintendo, do Game Boy ao Nintendo 3DS. Já são sete lançamentos (ou 14 jogos) da franquia principal, assim como Resident Evil.

Você deve estar se perguntando agora, ‘que diabos o cara está comparando duas franquias nada a ver’? Realmente, o que as séries têm em comum acaba no número de lançamentos principais, na idade das duas franquias e, por último, no fato de ambas serem jogos que viraram filmes BEM antes disso virar moda (está virando).

Não vamos comparar os games em si, mas sim o que Nintendo e Capcom fizeram com as franquias…

Pokémon

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Os games da saga principal de Pokémon  já venderam 232 milhões de cópias (com spin-offs o número chega a quase 300). Apenas os jogos da primeira geração, contando a remasterização FireRed e LeafGreen, comercializaram mais de 60 milhões de unidades.

É praticamente a mesma coisa de 21 anos atrás. Os desenvolvedores apostaram numa geração que cresceu jogando o game e a cada lançamento, geralmente de três em três anos, basicamente introduzem cerca de uma centena de novos monstrinhos e muito pouco além disso.

A conservadora tática nintendista deu seus frutos. Pokémon ainda consegue atrair novos fãs mirins, enquanto mantém um nicho de ‘Millenials’ que não pula uma geração. No entanto, nem tudo são flores, pois a maioria dos novos fãs, assim como as crianças que acompanharam a primeira geração, deixam o game de lado ainda que virem ‘gamers’ na vida.

Claramente, nos últimos 21 anos, a Nintendo apostou no sucesso da fórmula e na fidelização dos fãs, como quem pensa assim: ‘se 5% das pessoas que estão jogando pela primeira vez, jogarem para o resto da vida, está perfeito’.

Batalhas em dupla ou trio aqui, Mega evoluções ali, fenótipos diferentes acolá e pronto, não precisa mais do que isso.

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Pokémon Sun and Moon introduziu monstrinhos com alterações em seu fenótipo, isto é, a aparência e tipo de Pokémon pode ser diferente do padrão, como vemos nesse Vulpix de gelo. Provavelmente, a mudança mais radical promovida pela Nintendo nos últimos 21 anos.

Resident Evil

A Capcom, por sua vez, foi bem ‘vida loka’ com a franquia chamada ‘BioHazard’ no Japão. Os três primeiros games, consagraram a fórmula do ‘Survival Horror’. O jogador controla o personagem em terceira pessoa numa visão em perspectiva (como de uma câmera de segurança), a ambientação é aterrorizante, os corredores escuros, a munição escassa.

A sensação de perigo a cada canto e de que algo vai ‘pipocar’ na tela a qualquer momento são características marcantes dos primeiros jogos da saga. Até que, no belo ano de 2005, veio Resident Evil 4, ainda com uma ambientação perturbadora, mas o gênero Ação tomou conta.

A câmera agora fica atrás do jogador, o cenário é imenso e na maioria das vezes aberto, uma infinidade de armas à disposição e, no caso específico do RE4, nada dos clássicos zumbis.

Um exemplo que sempre gosto de citar é sobre as portas. No RE original, era necessário descobrir um meio de abri-las e ir explorando a mansão sem saber o que estava por vir. A partir do 4, a maioria das portas é figurativa, basta dar uma metralhada nela para abrir caminho.

A Ação cresceu e o Terror caiu ainda mais em RE5 e RE6. Até que, 12 anos após RE4, em 2017, veio o sétimo jogo, invertendo tudo de novo, trazendo a câmera para a primeira pessoa e, abertamente inspirado no game de 1996, fazendo o jogo já ser aclamado como o mais aterrorizante da franquia.

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A evolução das câmeras em Resident Evil. Perspectiva em terceira pessoa no original; sempre atrás do personagem no 4; em primeira pessoa no 7. Tanto o primeiro quando o último empregam uma sensação de vulnerabilidade, típica do gênero Survival Horror. A franquia da Capcom já vendeu 80 milhões de cópias.

Para quebrar só um pouco mais os paradigmas, os personagens clássicos também não estão no game. Dessa forma, a Capcom mostra ousadia para adaptar sua franquia àquilo que o mercado estaria pedindo no momento.

Apesar de boa parte dos fãs da franquia não terem gostado de RE4, o título é, contando os inúmeros relançamentos, o mais vendido da franquia, com oito milhões de cópias. Novamente, a Capcom recebeu muitos comentários como ‘RE7 é bom, mas não é Resident Evil’.

Goste ou não, RE7 já comercializou três milhões de cópias e deve ficar próximo ou superar RE4 em vendas. Números que avalizam que a tática da empresa japonesa, mais uma vez, deu certo.

A conclusão é de que não há uma fórmula certa para se desenvolver uma franquia ao longo de mais de 20 anos, pois, de acordo com dados compilados pela wikipedia, falamos na coluna de hoje sobre a 3ª (Poké) e a 21ª (RE) franquias de videogame comercialmente mais bem sucedidas de todos os tempos. E aí, qual estilo te agrada mais?

Para aqueles gamers mais hardcores e que gostam de uma boa sátira, encerro com os vídeos de Honest Game Trailers dos primeiros games das duas franquias.

 

Foto de capa: LLamarey/deviantart.com

Chimamanda e a arte revolucionária de ser mulher

Há quase dois anos me deparei com uma questão: quantas mulheres você já leu?

Na época achei que era uma cobrança profunda, quem eram as pessoas que eu prestigiava? Hoje, algumas páginas depois, eu entendo que não foi uma cobrança, mas sim um conselho, uma ajuda, ouso dizer uma salvação.

Das inúmeras coisas que o feminismo me ensinou a que mais carrego comigo é a importância da representatividade, de buscarmos nos cercar de boas referências, de tirarmos nossos olhares dos padrões impostos socialmente.

Como mulher, latino americana, negra e não-magra, padrões são o exato oposto do que eu represento, construir minha auto-estima referenciada nos filmes hollywoodianos e nos romances clássicos era uma missão utópica.

Então comecei a ler mulheres, ouvir mulheres, assistir mulheres, me cercar de referências que balizassem a construção do meu eu de uma maneira mais saudável.

bn-id265_wolfe_12s_20150428134615Numa dessas, em um beliche de hostel eu li pela primeira vez um livro da Chimamanda Ngozi Adichi. Passei dois dias quase sem sair do quarto, com a sensação de que qualquer minuto gasto longe daquelas páginas seria um desperdício.

Chimamanda ficou bastante conhecida quando um trecho de seu discurso para o TEDx foi usado em uma das músicas da Beyoncé. Vou pedir desde já que vocês ignorem esse discurso, não partam do pressuposto de que ele representa a literatura produzida por ela. Por mais que seja um dos melhores discursos que já ouvi/li, ele não tem a profundidade, vivacidade e leveza da escrita de Chimamanda.

Como mulher, e principalmente como mulher com aspirações a escritora, passei anos lendo romances (em geral escritos por homens) recheados de obviedades e clichês. Me deparar com uma escrita totalmente diferente da que estava acostumada a ler foi uma surpresa gratificante. Foi uma abertura de um novo horizonte, não só como um novo jeito de escrever, mas também como um novo jeito de olhar para a minha própria vida.

13525_ggO primeiro livro que li foi Americanah, que acompanha a adolescência e vida adulta de uma mulher nigeriana que migra para os Estados Unidos e depois retorna ao seu país.

Qualquer mulher fazendo arte por si só é um ato revolucionário. O relato do cotidiano de uma mulher, narrado por uma mulher, já é uma expressão artística importantíssima. Majoritariamente são os homens que ocupam esses lugares, eles que narram o que percebem do universo feminino, que nem sempre se aproxima do real.

Se Americanah não tivesse a profundidade que tem, se o livro não refletisse os aspectos tão intrínsecos do que significa ser uma mulher na sociedade atual, se ele não fosse tão visceral, ainda assim seria uma obra magnífica.

Acompanhar Ifemelu crescer, se apaixonar, perder seu amor, ter depressão, conhecer outros homens, trabalhar, voltar a seu país, escrever, viver… cada um desses momentos me fez mais próxima dessa mulher, e de outras milhares de mulheres no mundo. Me fez pensar sobre as dificuldades dos imigrantes, do que significa ser um africano no ocidente, do que significa não ter dinheiro – aquele não ter dinheiro que nos coloca nas posições mais baixas da sociedade. Do que significa ser uma mulher negra amando um homem, do que significa ser uma mulher negra amando um homem branco, do que significa ser.

É um livro que deixa com vontade de mais, de ler mais, de querer mais, de ser mais.

Se você for tomado pelo mesmo desejo que eu após terminar este, por assim dizer, relato, existem outros dois romances da autora publicados em português, Meio Sol Amarelo (que têm uma adaptação cinematográfica disponível no Netflix) e Hibisco Roxo.

 

Temperos cuiabanos

Cuiabá adora comer fora – e há opções para todos os gostos

Por Marcelo Dantas

Nem o calor, nem a distância e, por vez, nem o dinheiro, impedem o morador de Cuiabá de comer fora. Cuiabá gosta de comer. E muito. E gosta de sair para comer. Há opções para todos os gostos e bolsos, e isso é bom — isso faz crescer a oferta de comida e melhorar o padrão dos restaurantes, bares e baguncinhas.

A prova é o sucesso de empreendimentos como o Coloiado, na Tancredo Neves, que reúne contêineres com as mais diversas opções gastronômicas possíveis — e vive lotado. O fato é que a comida sobre rodas parece ter seduzido nossa capital: ao cair da noite, os furgões raiam nas ruas, e estão sempre cheios.

As hamburguerias também conquistaram a cidade: nos últimos dois anos foram abertos vários negócios no ramo, que passaram a competir com o ótimo Cozinha dos Fundos, no Boa; o arrojado Ray’s, na Cândido Mariano; e o delicioso Habañero (é demais!), na 24 de Outubro, o alegre reduto gourmet cuiabano.

Outra gostosa constatação foi o êxito do charmoso Flor Negra, na São Sebastião, que presenteou Cuiabá com uma cozinha primorosa, sob a maestria da talentosa chef Ana Carolina Manhozo, que recentemente brilhou no Ateliê dos Chefs, uma iniciativa bem acertada do Nuun Garden. Sobre acertos, um japonês se destaca: o Mirai, no Florais Mall, é de um raro bom gosto, e serve um cardápio surpreendente no almoço.

Na Generoso Ponce, o Armazém Cuiabano tem deslanchado sob o dom e o zelo do Gustavo Caldas, que oferece guloseimas regionais num ponto que está na família dele desde os anos 1940. A The Bread Lab, no Santa Helena, cativa com pães e pizzas artesanais, sob a habilidade do caprichoso Lúcio Almeida. E, quando o assunto é croissant, tenho duas opções: a primeira é Paris, na França, a 9 mil km de casa; a segunda é a BakeHouse44, na Filinto Müller, padaria do Marcelo de Oliveira, que dista 6 km do meu bairro. Croissant é uma coisa difícil de ser feita, e o Marcelo faz o melhor.

Se croissant já é complicado, macaron é um desafio. De origem italiana, a iguaria chegou à França no século XVI, e só em meados do século XX ganhou a forma como conhecemos hoje. A receita demanda ingredientes bem específicos. Exige precisão e cuidados absurdos. É um dos meus doces prediletos, e nos últimos tempos tenho colecionado mais frustrações do que alegrias. Mas os da confeitaria Sweeterella, na 24 de Outubro, não falham.

A pâtisserie foi aberta há um ano pela carismática chef Tais Milan, 33. Cuiabana, largou a faculdade de Farmácia para se formar em Gastronomia, e se especializou em confeitaria em aclamadas escolas na França, Inglaterra e nos Estados Unidos. Seu noivo, Jorge Peralta, 29, peruano, é barista formado pela conceituadíssima Le Cordon Bleu. O chocolate é belga, o premiado Callebaut. O doce de leite, argentino. A baunilha é verdadeira — assim como o bolo de casamento, cujo pedaço pode ser guardado para que o casal siga a clássica superstição.

E já que estamos lá, é oportuno aproveitar o singular crème brûlée, e pedir um expresso ou cappuccino (os grãos são da centenária Fazenda Pessegueiro, em São Paulo). A loja é agradável, e o entusiasmo da chef é contagiante.

Se a culinária é a arte de fazer obras-primas que logo se desfazem, como já disse Drummond em algum lugar, Cuiabá está, sem sombra de dúvidas, repleta de artistas.

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* Marcelo Dantas Ribeiro é bacharel em Direito pela UFMT e adora comer | mdrlv@me.com

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