Chimamanda e a arte revolucionária de ser mulher

Há quase dois anos me deparei com uma questão: quantas mulheres você já leu?

Na época achei que era uma cobrança profunda, quem eram as pessoas que eu prestigiava? Hoje, algumas páginas depois, eu entendo que não foi uma cobrança, mas sim um conselho, uma ajuda, ouso dizer uma salvação.

Das inúmeras coisas que o feminismo me ensinou a que mais carrego comigo é a importância da representatividade, de buscarmos nos cercar de boas referências, de tirarmos nossos olhares dos padrões impostos socialmente.

Como mulher, latino americana, negra e não-magra, padrões são o exato oposto do que eu represento, construir minha auto-estima referenciada nos filmes hollywoodianos e nos romances clássicos era uma missão utópica.

Então comecei a ler mulheres, ouvir mulheres, assistir mulheres, me cercar de referências que balizassem a construção do meu eu de uma maneira mais saudável.

bn-id265_wolfe_12s_20150428134615Numa dessas, em um beliche de hostel eu li pela primeira vez um livro da Chimamanda Ngozi Adichi. Passei dois dias quase sem sair do quarto, com a sensação de que qualquer minuto gasto longe daquelas páginas seria um desperdício.

Chimamanda ficou bastante conhecida quando um trecho de seu discurso para o TEDx foi usado em uma das músicas da Beyoncé. Vou pedir desde já que vocês ignorem esse discurso, não partam do pressuposto de que ele representa a literatura produzida por ela. Por mais que seja um dos melhores discursos que já ouvi/li, ele não tem a profundidade, vivacidade e leveza da escrita de Chimamanda.

Como mulher, e principalmente como mulher com aspirações a escritora, passei anos lendo romances (em geral escritos por homens) recheados de obviedades e clichês. Me deparar com uma escrita totalmente diferente da que estava acostumada a ler foi uma surpresa gratificante. Foi uma abertura de um novo horizonte, não só como um novo jeito de escrever, mas também como um novo jeito de olhar para a minha própria vida.

13525_ggO primeiro livro que li foi Americanah, que acompanha a adolescência e vida adulta de uma mulher nigeriana que migra para os Estados Unidos e depois retorna ao seu país.

Qualquer mulher fazendo arte por si só é um ato revolucionário. O relato do cotidiano de uma mulher, narrado por uma mulher, já é uma expressão artística importantíssima. Majoritariamente são os homens que ocupam esses lugares, eles que narram o que percebem do universo feminino, que nem sempre se aproxima do real.

Se Americanah não tivesse a profundidade que tem, se o livro não refletisse os aspectos tão intrínsecos do que significa ser uma mulher na sociedade atual, se ele não fosse tão visceral, ainda assim seria uma obra magnífica.

Acompanhar Ifemelu crescer, se apaixonar, perder seu amor, ter depressão, conhecer outros homens, trabalhar, voltar a seu país, escrever, viver… cada um desses momentos me fez mais próxima dessa mulher, e de outras milhares de mulheres no mundo. Me fez pensar sobre as dificuldades dos imigrantes, do que significa ser um africano no ocidente, do que significa não ter dinheiro – aquele não ter dinheiro que nos coloca nas posições mais baixas da sociedade. Do que significa ser uma mulher negra amando um homem, do que significa ser uma mulher negra amando um homem branco, do que significa ser.

É um livro que deixa com vontade de mais, de ler mais, de querer mais, de ser mais.

Se você for tomado pelo mesmo desejo que eu após terminar este, por assim dizer, relato, existem outros dois romances da autora publicados em português, Meio Sol Amarelo (que têm uma adaptação cinematográfica disponível no Netflix) e Hibisco Roxo.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s