“QUE OBESA O QUE”: inferno astral e o desabafo de uma jabuticaba

Por Felipe de Albuquerque

Não dá pra saber ao certo quando começa. Princípio e meio se imiscuem, não palpáveis, inidentificáveis. O fim é mistério. A autopercepção de que algo está acontecendo pode vir depois de uma noite mal dormida e que paira sobre os nossos corpos como uma nuvem cinza ao longo do dia. Ou ainda pode ser que venha como um vento forte que atravessou a vida no meio da tarde insossa de um domingo. Talvez chova em algum momento.

Comigo foi mais ou menos um pouco das duas situações. Adormeci depois de uma sesta despretensiosa e quando acordei já senti a mente cheia de uma primavera monocromática. Doía a cabeça, mas a alma também. Segui os dias, mesmo indisposto, equilibrando o destempero com as obrigações da vida. Aos poucos, foi se evidenciando um desdobramento que não se encaixava muito bem na forma original. Se eu pudesse, talvez tivesse me isolado dos outros e de mim para refletir sobre este fenômeno, como quando tentei (e falhei), correr para o banheiro do trabalho para ficar em silêncio por uns instantes, encostar a cabeça na parede de azulejo gelado e não pensar em nada. Até as luzes automáticas se apagarem e eu precisar me movimentar novamente para sair de lá.

Neste período, algumas outras situações se seguiram e me fizeram perceber que além de uma “cefaleia tensional” e desânimo, havia tomado pra mim uma estranha impaciência. Na segunda-feira, após o concurso do Miss Universo, cheguei ao trabalho e o assunto era o corpo da representante canadense. Ouvi um “ela é obesa” e, de pronto, não hesitei em soltar um “que obesa o que”. Mas não foi um “que obesa o que” qualquer: eu me intrometi numa conversa que não era minha e destilei toda a minha frustração pela derrota da brasileira no comentário. “QUE OBESA O QUE”.

No mesmo dia, reagi mal a algumas piadas homofóbicas – não direcionadas a mim, claro – e deixei a sala com as mãos tremendo. Fechando a porta atrás de mim, sai provocando e reproduzindo o que ouvi em voz alta: “BOIOLA, BOIOLA, BOIOLA”; como uma criança que tapa os ouvidos e fica dizendo algo insistente e inconveniente. Muitas das vezes, quando tomo coragem para enfrentar as ofensas, costumo lidar com isso de forma bem-humorada. Mas não foi o caso, desta vez, e esse tipo de violência que geralmente passa de raspão, me perfurou o peito em cheio.

Sob os meus olhos, uma sequência de eventos me permitia perceber que o mundo girava e eu ali, não conseguindo me mover à mesma velocidade. Deadline; as páginas de texto em branco; a organização de uma comemoração em andamento; relacionamentos balançados por respostas atravessadas; o namoro, a família; os amigos; tudo o que usualmente tranquilizaria ou não desestabilizaria grandemente o peito fez surgir em todo o meu redor uma pressão de dentro para fora e no sentido inverso. Lendo as crônicas de um blog que adoro chamado “Tô puta vou cozinhar”, veio-me  à mente a metáfora de uma jabuticaba rolando dentro da boca, enquanto aguardava os dentes do mundo romperem a fina película que envolve sua semente. E esmagarem.

Eu me sentia bastante assim. Parecia que as situações, pequenas e grandes, estavam todas coadunando para uma grande instabilidade. O mundo apertando, raspando minha casca sob suas presas afiadas.

2
Ilustração de Samantha Mash | Inseparable Duo

Uma colega de trabalho, notando algum desânimo, vira para mim num destes dias qualquer e brinca que tudo estava mais difícil porque estávamos no inferno astral. Escuto sua versão, tenho empatia por suas situações. De lá pra cá, o sol entrou em peixes. Talvez as coisas se aquietem agora. Aguardo em silêncio, rolando na boca do tempo com a cabeça cheia de primavera. É só o inferno astral. Foi só mais um inferno astral.

Anúncios

2 comentários em ““QUE OBESA O QUE”: inferno astral e o desabafo de uma jabuticaba

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s