Ser mulher no Brasil infelizmente não é tão bom

Por Juliana Fernandez

O Brasil é o pior país da América do Sul para meninas; ele também é um dos piores do mundo para garotas, ficando atrás de países como Iraque, Ghana e Índia. Segundo o estudo Every Last Girl da ONG internacional Save The Children, o Brasil ocupa a 102ª posição no Índice de Oportunidades para Garotas, publicada ano passado. A lista é composta por 144 países. Para a criação do Índice foram considerados dados sobre gravidez na adolescência, mortalidade materna, casamento infantil, representação das mulheres na política e conclusão do ensino médio.

Na lista, o Brasil se destaca por ser um “país de renda média superior, que está ligeiramente acima no índice que o pobre e frágil Estado do Haiti”, que ocupa a 105ª posição. Para a defensora pública e presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher, Rosana Leite, a realidade brasileira é machista, na qual a representatividade feminina é tímida.

“O homem não entende de leis que a mulher precisa, o que ajuda na hierarquização do homem sobre a mulher. As leis que protegem mulheres são muito novas, a própria lei Maria da Penha tem apenas 10 anos. Entretanto, hoje as mulheres são mais abertas ao amparo dessas leis, que são afirmativas. É um trabalho de formiguinha, mas já no ano passado houve a Primavera das Mulheres, na qual mulheres relataram os abusos e situações que passaram em suas vidas. Sou muito esperançosa sobre o futuro, especialmente no que se refere ao futuro das meninas”, comenta a defensora pública.

Em todo Brasil, vivemos rotinas e dinâmicas machistas que transformam e destroem vidas femininas desde o nascimento de uma mulher. A jovem M. R., 20 anos, sofreu uma série de abusos sexuais pelo então namorado de sua mãe aos 6 anos de idade. Segundo o relato da jovem, sua família não tinha consciência a violência pela qual a filha passava.

“Minha mãe nunca gostou que eu ficasse perto de nenhum homem, justamente por eu ser uma menina. Eu era uma criança e não entendia o porquê disso, então teimava. Quando fiz 6 anos, começaram os abusos. Ele me fazia acariciar o órgão genital dele. Por um tempo, não vi maldade nisso, para mim, era apenas um carinho em alguém que eu gostava. Mas ele começou a me dar presentes, então minha mãe desconfiou e teve uma conversa comigo sobre assédio e pedofilia, questionando ao final se eu estava passando por isso, mas eu neguei porque estava envergonhada. Logo depois minha mãe terminou seu relacionamento com ele”, lembra a jovem.

201e5737957869-5751640a40333
Ilustração de Daniel Simmonds

Após o abuso, M.R. se tornou uma menina que não gostava de ser tocada pelas pessoas. Durante a adolescência, não tinha relações duradouras. Segundo ela, era porque criava repulsa tanto dela quanto do companheiro.

“Já perdi as contas de quantas vezes passei mal na rua porque homens chegaram perto de mim, ou porque eles andavam no mesmo sentido que eu. Hoje eu namoro um menino iluminado, que por ser meu amigo de longa data, atravessa esse inferno comigo todos os dias e aguenta os meus ataques de pânico. Contei sobre o abuso para a minha mãe quando fiz 19 anos. Eu tenho ciência de que preciso de ajuda, porque não é fácil lidar com isso. Mas só de pensar em falar nisso, já dói, já me deixa desconfortável. É uma coisa que, se eu pudesse, apagaria da minha história”, desabafa M.R.

Segundo a integrante do coletivo Frente Feminista da UFMT, Lígia da Silva, os dados do Índice de Oportunidades para Garotas trazem tensão, já que mostram que o Brasil ainda necessita progredir para se tornar um país no qual meninas tenham a oportunidade de atingir seu potencial máximo em toda e qualquer área de suas vidas.

“Enquanto mulher, mãe, trabalhadora e feminista, vejo que ainda temos que enfrentar uma luta muito grande para que as futuras gerações de meninas possam tomar um fôlego, sabe? Eu vejo muitas meninas falando sobre feminismo nas escolas, mas ainda não conseguimos atingir muitas mulheres. Muitas mulheres ainda são invisíveis socialmente pelo recorte de classes que nós temos. Atualmente, o número de analfabetismo em Mato Grosso é maior entre as mulheres do que entre homens. Os dados que recebemos são alarmantes; a média de feminicídios em Mato Grosso é maior que a médica nacional. Nós não temos um governo ou uma segurança que se preocupe com os casos de violência contra as mulheres”, conta Lígia.

De acordo com os dados, um dos principais problemas enfrentados pelo país é a falta de representação parlamentar. A lista “Mulheres em Parlamentos Nacionais” criada pela União Interparlamentar coloca o Brasil na 155ª posição entre países com representação feminina na política; entre os 513 deputados federais eleitos em 2014, apenas 51 são mulheres. Para a cientista política Christiany Fonseca, o Brasil é um país que foi formado dentro de uma perspectiva patriarcalista, onde a figura masculina ainda está muito presente nos espaços, e isso afeta efetivamente na condição e condução de como as mulheres pautam seu cotidiano e a sua entrada no aporte político.

“Grande parte dos partidos no Brasil são comandados por homens. Ao longo dos anos, criamos formas de ampliação legal da inclusão da mulher, efetivamente, essas condições dentro dos partidos são desiguais. Não se dá condições para que as mulheres possam disputar lugares de poder em pé de igualdade com os homens. As mulheres vêm tentando lutar por uma inclusão, desde quando não tinham direito ao voto. A primeira deputada federal brasileira foi eleita em 1934, nós temos a primeira senadora eleita em 1990. A inclusão da mulher no cenário político é muito recente, e quando ela se insere ainda sofre muitas limitações”, finaliza Christiany.

 

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Autoria da ilustração sobre o texto: Daniel Simmonds.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s