Irregularidades alimentares em tempos de luto

Por Juliana Fernandez

Quebro o ovo direto no prato. Tal qual um mau presságio em um mito grego, o que cai no macarrão instantâneo não é um ovo com gema amarelinha e saudável. Para o meu horror, uma gosma preta lovecraftiana entra em contato com o resto da comida, o negrume se dissolve no caldo vermelho, o cheiro de morte chega com força nas minhas narinas. Abafo um grito de desespero e com um pouco de pesar e bastante alívio jogo o jantar fora. Refaço a refeição com novos ingredientes, sem o ovo. Engulo tudo rapidamente, um tanto desanimada.

***

O acontecido se dá durante a noite, quando, como de rotina, preparo um miojo Turma da Mônica (sabor tomate suave) com muito creme de pimenta defumada, finalizado com um ovo cru misturado com o resto. Para dar substância, sabe? O prato é feito automaticamente por mim. Sem muito orgulho, assumo a certeza de ser a maior compradora de macarrão instantâneo sabor tomate suave desta parte da cidade: a quantidade varia entre oito a quinze unidades para consumo semanal. Embora eu desvie o olhar na hora de pagar pelo vício, os atendentes do mercadinho já me conhecem. Eu sei que sim.

É provável que atualmente eu seja também a maior compradora de energéticos fora de festas ou raves desta região da cidade. Nem sei se as pessoas ainda falam rave, mas acredito que o propósito da bebida continue parecido com este.Por experiência sei dizer quais delas são mais laxativas, quais são os sabores menos deprimentes e os mais efetivos.

Meus amigos estão preocupados com essa combinação, então venho parando aos poucos de mencionar minha rotina nutricional. “Mas é só até você terminar o seu TCC, não é?”, me pergunta um deles, meio temeroso. Brinco que estou cuidando do meu corpo como se ele fosse um templo… Em ruínas. Rimos de nervoso. Talvez essa seja a mais nova forma de auto-sabotagemTM maquinada pelo meu subconsciente.

Costumo evitar pensar em todas as vezes que me sabotei. Sou insone desde os doze anos, não é preciso de muita coisa para que eu passe a noite acordada, revirando na cama. Com a defesa da monografia cada vez mais próxima, as noites em claro se tornaram cada vez mais recorrentes. Comento “por cima” sobre a minha insônia com meus tios durante uma viagem de carro para Chapada. Eles dizem que eu preciso relaxar, e eles não estão errados.

Mas verdade é que eu não consigo relaxar, pelo menos não durante os últimos nove meses. Não relaxo desde o final de junho do ano passado por causa d’Ela. Meu intuito no início deste texto não era falar sobre Ela. Eu não falo sobre Ela. Não escrevo sobre Ela. Não escrevi sobre Ela no dia se sua morte, nem durante o sétimo dia de seu falecimento. Não escrevi sobre Ela quando se completou um mês de sua morte. Engoli o choro durante o primeiro Natal sem Ela. Justo Ela, que me ensinou através do exemplo que ser uma boa pessoa não significava ser cristã. E Ela definitivamente não era, apesar de seu passado católico, mas era sem dúvida a minha pessoa favorita no mundo todo.

Então, este texto, que tratava dos meus péssimos hábitos alimentares, chega até aqui pela minha crença de que a tristeza e o luto se fazem presentes das formas mais estranhas e misteriosas.

Minha mãe, Ela, faleceu sem se despedir. O ataque fulminante veio enquanto eu tomava banho. O som do chuveiro abafava o barulho de fora, mas eu ouvi mamãe gritar. A princípio, achei que ela estava ralhando com meu padrasto. Era costume os dois discutirem sobre assuntos mundanos, ambos muito questionadores. Segundo astrólogos, essa rotina se dava pela natureza ariana dos dois. E lá em casa a gente falava com frequência e também berrava bastante. Mas… Aquela vez em particular, mamãe não parava de falar.

Fechei a torneira e no mesmo instante soube que minha mãe gritava de dor. Eu nunca tinha escutado mamãe berrar de dor, não daquele jeito. Saí correndo do banheiro, a toalha enrolada no meu dorso, os pés escorregando pela casa a procura d’Ela. Cheguei ao portão e meu padrasto já saia com o carro, minha mãe estava no banco de trás, mas eu não conseguia vê-la. Meu irmão mais novo estava parado no meio da sala de estar, aturdido.

Já na minha memória seguinte, estou no meu quarto. Tanto eu quanto mamãe somos parte da Seicho-No-Ie, e naturalmente, li uma sutra, a oferecendo para a melhora d’Ela. Para minha surpresa e desconforto, durante aquela meia hora de leitura, eu só conseguia pensar “nossa, mamãe realmente viveu uma boa vida”, e “ela fez tudo que sonhava fazer e viveu com a liberdade que ansiava tanto”.

Minha mãe foi a única a acreditar na minha vida após uma tentativa de suicídio, o que tornava ainda mais ingrato o fato de eu não acreditar na vida dela. Me condenei. Mamãe não estava morta e aquela era certamente uma atitude não-filial de minha parte. No dia seguinte, bem cedo, avisei os amigos mais próximos que minha mãe estava hospitalizada, pedi orações e boas vibrações. Meia hora depois bateram na porta do meu quarto. Abri e dei de cara com meus tios e meu padrasto. Eles avisaram que “o ataque foi demais para sua mãe” e eu não entendi.

– Ah, mas ela ainda tá viva, não tá?

Questionei temendo a resposta.

Uma semana depois escrevi um pequeno texto para ser lido em sua missa do sétimo dia, justo d’Ela, que não era cristã. No final, não precisei ler. A missa era muito curta e várias pessoas haviam falecido, o padre não teria tempo para que parentes de todos falassem, e se não pudesse ser todos, que não fosse nenhum. Suspirei aliviada. Realmente não estava pronta para falar sobre Ela, especialmente em um lugar tão público. Justo eu, que assim como Ela, nem sou cristã.

Desde então evito falar sobre Ela, com medo de minha própria reação. Depois do falecimento d’Ela, fui morar com meus tios, irmãos de mamãe. A família se separou aos poucos. Meu irmão do meio foi morar sozinho. Meu irmão mais novo, que é meu xodó, ganhou uma bolsa de estudos em Foz do Iguaçu, e está morando lá desde o início do ano. Meu pai se faz presente como pode e a gente se esforça para se ver com regularidade. Whatsapp é um must para famílias espalhadas.

Eles me observam, mas não falam muito. Eu os observo e também fico calada. Nossa família é bem pequena, não tanto por opção. Aparentemente, as pessoas do nosso ramo familiar morrem bem cedo e meus tios já tiveram suas porções de luto ao longo da vida, cada um com sua própria história. Eles já adultam há muito mais tempo que eu, uma adulta em treinamento. Eles me observam, me apóiam e só opinam quando peço.

Este não é o meu primeiro luto. Quatro anos antes de mamãe falecer, foi vovó, que eu também amava muito. Mês passado, minha gata Jorja também morreu. Houve uma época que nós tínhamos muitos gatos, e Jorja era sem dúvida a preferida d’Ela. Jorja também era meu último vínculo com minha vida A.c.M. (Ainda com Mamãe).

Eu já passei por tudo isso antes, eu sei que daqui dois anos eu estarei bem. Enquanto esse momento não chega, vou vivendo como posso. Destruindo meu corpo das maneiras menos nocivas que encontro. Acabei de virar um energético Monster, do verde, e já sinto meu estômago revirar. A água para o miojo está esquentando no fogão.

 

 

 

*Ilustração de ssnchan

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