Borboletas de cerâmica habitam Chapada dos Guimarães

Por Juliana Fernandez

Com origem na língua tupi, Panapana significa coletivo de borboleta. Nome apropriado para a junção de duas mentes criativas que buscam liberdade para confeccionar através da inventividade instintiva, peças de cerâmica que remetem um dos mais belos cartões-postais de Mato Grosso: a Chapada dos Guimarães. Estabelecido na cidade histórica, o Laboratório Panapana foi fundado no final de 2015 pela sul-mato-grossense Deborah Chaves, e pela coimbrense Mafalda Ramos. As peças de cerâmica produzidas pela dupla possuem a leveza e o mistério do minimalismo, e a paleta de cores mato-grossense, composta pelos três biomas encontrados no estado.

O duo se conheceu através de uma amiga em comum. Mafalda havia acabado de chegar ao Brasil, e buscava trabalhar em arqueologia, sua área de formação. Deborah, por sua vez, possui mestrado em física, e passou por design de moda. Em uma viagem juntas, as duas identificaram ideias e interesses em comum.

“A Chapada acabou por ser o nosso ponto de confluência, quando decidimos morar juntas. Decidi desvincular-me da minha formação acadêmica com o objetivo de me dedicar a estudar e experimentar com o som e com outras formas de expressão artística. A Deborah sempre teve interesse em arte e não tinha um curso voltado para essa área em Mato Grosso, e por isso, optou por estudar Design em Moda em Cuiabá. Assim, conheceu os conceitos de design que aplicamos no desenvolvimento das coleções do Panapana. Para além do seu trabalho, tem-se dedicado a estudar e fazer cursos na área de artes visuais. Panapana é o nosso laboratório de criação, onde aplicamos os nossos estudos em artes e música, desenvolvendo a nossa forma de expressão artística”, conta Mafalda.

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Deborah explica que a modelagem do barro surge como instinto do ser humano às necessidades do dia-dia, ao mesmo tempo consubstanciando uma comunhão com a terra, na argila.

“Tendo como inspiração a Chapada, concordamos que a cerâmica seria, por isso, o ponto de partida mais adequado para iniciar o nosso projeto, precisamente por essa conexão com a terra no contato com o barro. Escolhemos a cerâmica porque somos dotados de polegares oponentes, num universo humano voltado para si mesmo, imediato, mecanizado e desconectado do seu meio. Valorizamos e reaprendemos atividades artesanais como a confecção de cerâmica, o tricot, a costura, introduzindo também a pintura e a gravura. Cada peça é modelada por nossas mãos e mentes, sem o recurso a formas desnecessárias de estandardização”, diz.

As peças do Laboratório Panapana têm como principal influência a natureza, em suas formas orgânicas e cores. A primeira coleção lançada através dele se chama Apotropaikos, palavra de origem grega cujo significado é “Protetores”. A coleção é inspirada em plantas protetoras brasileiras, recorrentes nos lares em todo o país.

“Somos apaixonadas por plantas. Por ser um tema por demais amplo, optamos por associar as nossas coleções a determinados grupos de plantas. Estes grupos direcionam as nossas pesquisas e a criação das peças. A nossa intenção é também apresentar as plantas que estudamos em vasos, ilustrações e pequenos informativos. A nossa primeira coleção se chama Apotropaikos, plantas de proteção. Já nosso design remete à cerâmica japonesa do século XVIII e contemporânea, alguns artistas que admiramos são Kasuo Takigushi, Kae Takada, Takeshi Omura, Lisa Naples, Nancy Gardner, Michelle Summers, Ruan Hoffmann, Polly Fern, Jenny Mendes e Stig Lindberg. Designamos nossa estética, de forma jocosa, de minimalismo tropical”, revela Deborah.

Em seu processo criativo, as garotas aplicam conceitos de design para a elaboração de suas peças, desde a definição de um tema, sua metodologia de pesquisa e a elaboração da cartela de cores. Cada peça é única e vinculada a uma determinada coleção.

“O nosso percurso na cerâmica é recente e estamos sempre a experimentar. Gostamos de pensar que criamos peças para o nosso dia-a-dia, peças que se víssemos por aí, compraríamos, como se fossemos os nossos próprios clientes. Assim, criamos vasos, que enchemos de plantas; louça utilitária como bules, xícaras, potinhos, pratinhos; peças de bijuteria na forma de pingentes e pequenos patuás. Queremos que as nossas peças sejam tanto utilitárias, quanto artísticas, que carreguem um sentido”, finaliza Mafalda.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

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Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio

Por Felipe de Albuquerque

Gosto do silêncio que emana de todas as arestas do apartamento. Fechando os olhos, eu até consigo alcançar a alguns lances de escada e uma inclinação à direita e, após, à esquerda, a algazarra que fazem as crianças enquanto brincam de pique-esconde na área comum do prédio. Também é possível perceber que, mais a frente, um grupo de jovens universitários reunidos na churrasqueira tentam conversar mais alto que as músicas sertanejas que embalam o encontro; logo ao lado, no caminho que leva ao portão principal, um cachorro late para o outro enquanto seus tutores, sem graça pelo desconforto, cumprimentam-se. Aqui no silêncio eu visualizo cenas e ruídos de fora. Mas eles geralmente não me alcançam.

Na maior parte do pouco tempo em que passo no apartamento somos apenas eu e as arestas. E o som dos meus pés contra o piso áspero percorrendo a estreita cozinha para preparo de algum alimento à beira da pia e do fogão. Como quando ontem mesmo, perambulei como barata tonta para preparar uma comidinha teoricamente rápida. A cozinha me lembra que não me sentia tão desastrado assim desde a última vez, quando criança, joguei o apontador fora e fiquei com as raspinhas do lápis de cor nas mãos.

Pica e refoga alho e cebola. O atrito da faca contra a madeira e, depois, o próprio som dos alimentos que incendeiam o espaço com seus aromas de cocção. Vez ou outra, distraído com qualquer atividade, inclusive cozinhando, também tenho o hábito de emendar uma conversa comigo mesmo em voz alta ou balbuciar o refrão de alguma música. Assim, aos poucos e por uns breves instantes, rompo o silêncio do ambiente só para me provar que está tudo sob controle. E que tenho alguma ação sobre a quietude. Mas logo em seguida, ela avança novamente e me amansa. Continuar lendo “Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio”