Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio

Por Felipe de Albuquerque

Gosto do silêncio que emana de todas as arestas do apartamento. Fechando os olhos, eu até consigo alcançar a alguns lances de escada e uma inclinação à direita e, após, à esquerda, a algazarra que fazem as crianças enquanto brincam de pique-esconde na área comum do prédio. Também é possível perceber que, mais a frente, um grupo de jovens universitários reunidos na churrasqueira tentam conversar mais alto que as músicas sertanejas que embalam o encontro; logo ao lado, no caminho que leva ao portão principal, um cachorro late para o outro enquanto seus tutores, sem graça pelo desconforto, cumprimentam-se. Aqui no silêncio eu visualizo cenas e ruídos de fora. Mas eles geralmente não me alcançam.

Na maior parte do pouco tempo em que passo no apartamento somos apenas eu e as arestas. E o som dos meus pés contra o piso áspero percorrendo a estreita cozinha para preparo de algum alimento à beira da pia e do fogão. Como quando ontem mesmo, perambulei como barata tonta para preparar uma comidinha teoricamente rápida. A cozinha me lembra que não me sentia tão desastrado assim desde a última vez, quando criança, joguei o apontador fora e fiquei com as raspinhas do lápis de cor nas mãos.

Pica e refoga alho e cebola. O atrito da faca contra a madeira e, depois, o próprio som dos alimentos que incendeiam o espaço com seus aromas de cocção. Vez ou outra, distraído com qualquer atividade, inclusive cozinhando, também tenho o hábito de emendar uma conversa comigo mesmo em voz alta ou balbuciar o refrão de alguma música. Assim, aos poucos e por uns breves instantes, rompo o silêncio do ambiente só para me provar que está tudo sob controle. E que tenho alguma ação sobre a quietude. Mas logo em seguida, ela avança novamente e me amansa.

Mudei-me pra cá há exato um mês, pouco tempo se comparado aos últimos e longos 11 anos em que minha irmã dividiu comigo sua vida, sua rotina e sua família. Na casa confortável, com belos móveis e cheia de alegria e açodamentos, eram raras as vezes em que eu me deparava com essa situação de solitude, sempre envolvido na dinâmica frenética das outras rotinas de minha família. No último ano, em especial, este ritmo ficou ainda mais intenso com a chegada do meu segundo sobrinho. A casa é puro movimento e pulsa em quase todos os cômodos, mas principalmente por onde o pequeno passa, preenchendo os caminhos com seus passos cada vez mais firmes.

Com meus pais, em minha infância, não era muito diferente. Vivi lá no casarão em que eles ainda moram até os meus 14 anos, quando os deixei para cursar o ensino médio em Cuiabá. Tenho nas lembranças o som da máquina de lavar processando a sujeira e os odores dos dias. E da minha mãe deixando os panos de chão brancos de doer a vista, de tanto que esfregava nas fissuras do tanque. A televisão ou o rádio também sempre ligadas, nem que fossem para nenhum espectador. E os passos apressados da mãe atravessando a casa, sempre multiatarefada.

Seus pés ligeiros batendo com a sola do chinelo de borracha marcavam o compasso das atribuições. As vezes, ainda penso que mamãe tem no peito o coração de um passarinho, pulsando ágil com destreza em sua lida diuturna.

Mas minha infância também tem os tons e semitons de meu pai, que vivia mexendo em algumas engenhocas, remendando seus tratores estridentes. Nunca entendi como um homem poderia ter conhecimento sobre tantas coisas técnicas e ferramentas. Aos finais de semana, ele mesmo conduzia a limpeza da piscina, lidando com aquele motor monocórdico, que as vezes emperrava e só ele com seu cinto de utilidades conseguia dar jeito.

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“Pausa sobre tela”: registro enquanto escrevo este post || Acervo Pessoal

Após cada um cumprir suas tarefas, eu sempre dividido entre as orientações de meus pais, tudo se aquietava em casa. Especialmente nas tardes de sábados. Nossos silêncios se encontravam quando tudo estava em ordem, como mamãe tanto prezava. E o cansaço da semana e das tarefas daquela manhã nos silenciava. O pai deitado preguiçosamente no chão e a mãe cochilando no sofá. No teto, o ventilador ligado a uma velocidade razoável embalava nosso marasmo. Talvez nós nunca tenhamos nos conectado quanto a estes momentos tão próximos do silêncio um do outro, juntos. Hoje, quando eu retorno para lá, é sempre este silencio que busco, nas paredes, no chão, no cheiro dos alimentos e no abraço de meus pais. Ali me sinto tão pleno comigo mesmo.

Hoje, sozinho neste apartamento, experimento por mais um dia o silêncio que vem das arestas. Ele não é mais apenas conexão ou eventualidade: é rotina e regra; e também é maioria na ambientação dos dias. Será que amadurecer também será sinônimo desta solitude?

Não reclamo, pelo contrário. Aos poucos me entendo com este novo aspecto do não-som, que já aceito como parte de mim e que me ensina em diversos aspectos, inclusive, sobre o que ele não é: vivacidade e movimento. Que me revela para questões como a vontade de habitar nos sons daqueles dias do passado, daquele timbre peculiar que vem das casas da mãe e da irmã e que remete às lembranças mais doces e perenes da vida. Mas que, ao mesmo tempo, aponta a necessidade de aprender a vivenciar esta nova fase da vida, aceitando as distâncias e a realidade.

Meu sono tem sido agitado. Tento dormir sem a expectativa de que, a qualquer momento, meu pai ou minha irmã entrem para me dar bronca por ter me deitado sem dar boa noite. Ontem, quando já embalava no sono, despertei. Abri bem os olhos para enxergar e apurei os ouvidos para reconhecer algum movimento. Mas só havia a penumbra e pontos de luz distribuídos na avenida que invadem meu quarto como estrelas. E o silêncio de todas as arestas.

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Ainda não tenho cortinas. Foto: “A iluminação é bonita, mas talvez esteja atrapalhando o sono” || Acervo Pessoal
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