Dicionário para vagabundos

Por Ana Flávia Corrêa 

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Ilustração de Polly Nor

“Estou disposto a escrever o meu próprio dicionário. O seu único objetivo seria o de desmistificar os eufemismos. Não deverá ser uma tarefa fácil, eu bem sei. Mas urge que seja feita o quanto mais cedo for possível, principalmente porque estamos sendo tomados por uma onda de falsa sinonímia, muito bem orquestrada para poder reverter o impacto do sentido de tudo aquilo que nos incomoda.

Não posso dizer que seja uma hipocrisia esta ação (que, aliás, é muito bem planejada), porque já me peguei a mim mesmo mudando as minas referências com o temor de ofender a alguém e sobretudo: com o medo de me encarar como o que de fato sou. A coisa acontece mais por temeridade do que por falta de escrúpulos. Outro dia, por exemplo, troquei mais de uma vez o termo “gordo” por “cheiinho”, e mesmo sentindo todo o incômodo que esta palavra horrível pode causar, não fui capaz de eliminá-la de vez do meu vocabulário. Em outro caso, insisti a me apresentar-me como “morador de rua” quando, na verdade, não há nenhuma dúvida de que eu seja, de fato, um vagabundo ou pedinte.

Não quero, contudo, que os futuros leitores do meu dicionário de eufemismos, me confundam com algum ativista do politicamente incorreto, este movimento nulo, mais baseado na vontade de ofender do que na fidelidade ao nome das coisas. Eu, como um bem aventurado sem teto, me fio unicamente no poder das palavras e na força que elas possuem para nos explicar o mundo – ou pelo o menos para nos oferecer um sentido dele.

Para que nenhum imbecil venha a me tomar como base teórica, quero tratar de avisar (já nos preâmbulos) o que é e o que não é um eufemismo factoide. Um eufemismo não se trata somente de uma palavra que substitui outra, mas de uma palavra que toma o lugar da verdadeira. Como temos uma língua diversificada – e isso é ótimo – as palavras estão em maior número do que as coisas, e por isso é que constantemente elas brigam por espaço, por um posto.

A palavra sincera é aquela que não ofende, nem elogia. O eufemismo tanto pode ofender por omissão quanto pode elogiar por missão. Quantas vezes a simples troca de um termo por outro já ofendeu pelo medo de ofender? E quantas vezes a troca de um termo por outro elogiou e maquiou o verdadeiro sentido da coisa? Pense, por exemplo, na palavra “aconchegante” no lugar de “apertado” que mesmo eu, que não tenho casa, sei distinguir muito bem. Agora, pense em quando como dizemos “diferente” quanto queremos dizer “feio”, a ofensa acaba sendo ainda maior.

Os problemas, na verdade, não são as palavras, mas quem se apodera delas. Se um mendigo como eu pudesse dominar tudo quanto diz o mundo invariavelmente seria outro, não digo que as coisas se inverteriam, mas tenho certeza de que, ao contrário do que dizem, poderíamos ver com mais clareza olhando de baixo. Isso porque é só nas margens, nas calçadas  nas sarjetas que conseguimos ver as coisas tendo como parâmetro o isolamento e não a centralidade.  Nós falamos para conferir sentido a nós mesmos e não àquilo de que falamos.

As palavras, a exemplo dos vagabundos, tem um papel de espectadoras e são usadas como ferramentas contra o mundo. No entanto, volta e meia esta gente que se caga diante de um vocábulo sincero, de um antônimo, de um termo forte, tem de se aguentar com um desses bêbados que se levantam trôpegos e começam a causar estardalhaço no ambiente iludidamente organizado da cidade.

O “horror” – vejam que palavra linda – é como aquele pedinte que se rebelou contra os dez centavos que lhe foram arremessados na calçada  quando a senhorinha tinha uma carteira repleta de notas vermelhas.

A “síncope” – tão forte esta – é exatamente idêntica ao casal de catadores de latinha que brigam por um litro de cachaça no meio da rua empoeirada da periferia.

O “distúrbio” – meu deus, que linda! – não passa de mais um aleijado que atravessa a rua com o edredom nas costas enquanto os carros buzinam para que ele termine logo a sua jornada de uma perna só.

Assim, já começo a organizar as primeiras palavras, uma por uma, com os casos comuns de trânsito que posso ver todos os dias, bastando abrir os olhos. E oferecendo em segundo plano o eufemismo referente que qualquer vagabundo poderá mais tarde consultar e protestar contra quem lhe chamou de “dependente químico” ou “zé droguinha” ou qualquer outro termo que procura disfarçar o que de fato somos de verdade.

Quero com isso não somente evitar as miragens, mas também ir em busca da proximidade do sonho – aquela instância de felicidade que pouco a pouco os desgraçados vão reconhecendo a distância e os vencedores procuram através de lupas. Quem sabe se com isso não alcanço algum poeta (gente ainda muito rara) que tenha certa afeição pelas coisas e pelas palavras incertas que vagam deliberadamente sem casa.”

* Lázaro Thor Borges é natural de Paraíso do Tocantins, mas reside em Mato Grosso há 11 anos, aproximadamente.

Aprendeu a ler muito cedo, com a mãe, e o escrever veio como consequência de uma mente inquieta.

Quando criança enterrou seu caderno de poemas – do homem aranha – pra não ter que olhar para seus manuscritos.

Hoje, tem o ímpeto de joga-los fora depois de datilografa-los na máquina de escrever.

Para ele, injustamente, todos os seus poemas são horríveis.

Sabe quase tudo de pássaro, planta e é um arsenal de conhecimentos inúteis, dos quais desembesta a falar sobre com alguns copos de cerveja ou café.

É sonhador e, nas horas vagas, jornalista.

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O cotidiano inseguro das mulheres no quinto estado em casos de feminicídio

Segundo pesquisa, Mato Grosso é o quinto do país em mortes de mulheres. Como agravante, o estado culturalmente machista e patriarcal não está preparado para amparar as vítimas de violência doméstica

Por Ana Flávia Corrêa

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Ilustração de Cornelia Li

O sentimento de insegurança é uma constante na vida de pessoas em situação de risco.

Para as mulheres, esta perspectiva não seria diferente em Mato Grosso, o quinto em casos de feminicídio, ou seja, o quinto em que mulheres morrem exclusivamente por questões de gênero.

Segundo o Atlas da Violência do Instituto de Pesquisa Pública e Aplicada (Ipea), divulgado em 2016, a média nacional é de 4,6 vítimas de feminicídio a cada 100 mil habitantes. Mato Grosso ultrapassa esse número e atinge a média de 7 mulheres mortas a cada 100 mil habitantes.

Sílvia*, de 40 anos, decidiu compartilhar sua história sob a segurança do anonimato. Ela teme que seu ex-marido e agressor possa voltar a ameaça-la, pois o mesmo, apesar dos quatro processos e das medidas protetivas, ainda caminha livremente no bairro em que ela reside.

Ela relatou que começou a se relacionar com o seu agressor em 2004 e que desde então as violências só se agravaram. Primeiro, veio a psicológica, depois a física e por último o abuso contra sua filha mais velha. Durante dez anos, ela alegou viver o que chamou de “ciclo da violência”.

Francisco*, seu ex-marido, era usuário de drogas e a agredia diariamente por motivos banais sempre que estava sob efeitos de entorpecentes. Ela alegou, entretanto, que as agressões também ocorriam quando ele estava são.

“Eu me recordo a primeira vez em que ele me bateu. Foi um tapa na cara, dentro do caro, na presença dos meus dois filhos”, comentou com os olhos marejados. “Eu havia encontrado um pacote de cocaína dentro de casa, e disse que queria a separação. Ele então me agrediu”, acrescentou.

Sílvia, apesar das agressões psicológicas que aconteciam desde o começo do relacionamento, relatou nunca ter pensado que Francisco chegaria a agredi-la, mas, segundo ela, desde aquele dia as coisas só pioraram.

“Ele já quebrou televisão, computador, geladeira”, contou mostrando uma marca na altura da mão, feita pelo agressor com um golpe de faca.

A vítima, de cabelos pretos e olheiras profundas, relatou que as cicatrizes psicológicas, entretanto, marcam mais do que as físicas. No auge das agressões, ela desenvolveu síndrome do pânico e chegou a pesar 42 quilos. Hoje, pouco tempo depois do ocorrido, ela e seus dois filhos passam por tratamento psicológico a fim de diminuir as chagas da violência doméstica.

Sílvia decidiu denunciar seu agressor em 2014, quando descobriu um diário em que ele relatava ter desejos sexuais pela sua filha Ana*, de 9 anos na época.

“Eu já desconfiava, mas sempre que questionava ele dizia que eu estava louca. Quando eu encontrei o diário eu percebi que não. Foi quando eu decidi denunciar”, comentou. “Nas duas páginas que eu consegui ler, ele dizia que minha filha era uma ninfeta linda e que seria suave e gostoso senti-la por inteiro.”

A vítima relatou, também, que o agressor pedia para Ana deitar no sofá e, mesmo ela insistindo para que não, ele mandava Ana tirar a blusa para que ele a massageasse. Ele então abusava da menor apalpando o seu corpo.

A partir da primeira denúncia, outros três processos foram abertos. Sílvia e Ana foram “amparadas” pela lei por meio de três medidas protetivas: o agressor teve de usar tornozeleira eletrônica, foi proibido de se aproximar das vítimas e as duas, mais o filho de Sílvia com o agressor, Théo*, passaram alguns dias em uma casa de amparo.

Sílvia, no entanto, alegou que nenhuma das medidas foi o suficiente para que ela tivesse paz e pudesse se sentir livre. Francisco, segundo a vítima, não carregava a bateria da tornozeleira e continua transitando livremente em seu bairro com o sentimento da impunidade. Os processos, quase dois anos após a abertura, ainda não foram julgados.

Ana, sua filha, irá mudar de cidade por medo do agressor.

“Eu nunca vou me sentir livre. Eu ando pela cidade pedindo a Deus para que eu não o encontre”, diz emocionada. “ Se você perguntar para vinte mulheres que denunciaram pela lei Maria da Penha, vinte e uma dirão que ela não funciona na prática”, finalizou.

O Estado

Para a presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (CEDM-MT) Rosana Leite, a lei Maria da Penha é excelente na teoria, mas, na prática, o Estado não possui recursos para fazer com que ela funcione em sua totalidade.

“É a terceira lei mais elogiada do mundo no que diz respeito a proteção de mulheres, mas nós vivemos ainda em um país de terceiro mundo em que a realidade estrutural não é a mais adequada para atende-la”, afirmou. “Se ela fosse aplicada literalmente como está no papel, a realidade hoje seria diferente”.

Segundo ela, em resposta ao alto índice de mortalidade de mulheres, o Conselho Estadual apresentou, no ano passado, o primeiro Plano de Políticas Públicas para Mulheres. Este plano prevê, dentre outras coisas, a capacitação permanente dos órgãos governamentais para que eles estejam preparados para receber as denúncias de violência doméstica.

Rosana acredita que Mato Grosso é um estado patriarcal onde a transformação precisa acontecer desde a base. Ela afirmou que o conselho apresentou uma medida, prevista no plano, para que uma educação não sexista seja ensinada nas escolas, conforme artigo VIII da lei Maria da Penha.

“O feminicídio é nada mais do que a mulher morrer por ser mulher num ato de descriminação. É uma morte por condição de gênero. Precisamos mudar este conceito dentro do Estado para que possamos diminuir os números.”

A representante do CEDM-MT também é defensora pública e, desta perspectiva, acredita que Mato Grosso seja referência em aplicação da lei Maria da Penha.

“Eu trabalho com esta lei e posso assegurar que ela é efetiva e eficaz”, afirmou. “Hoje nós temos as medidas protetivas que garantem que a integridade física que a mulher tanto busca seja preservada. No entanto, nós precisamos ser informados pela vítima de que maneira essa violência vem ocorrendo.”

Segundo a procuradora, o Estado não possui uma maneira eficiente de assegurar que as medidas protetivas sejam cumpridas.

Em agosto, o governador Pedro Taques determinou a criação de uma delegacia que possa atender as mulheres vítimas de violência 24 horas. Rosana afirma que muitas das agressões ocorrem no período noturno, em feriados e em finais de semana e ressalta que os profissionais que têm o primeiro contato com as vítimas precisam estar preparados e capacitados permanentemente.

“A mulher busca nada menos do que a igualdade material. Nós queremos aquela igualdade que seja palpável, não a igualdade formal que tem na constituição”, finaliza.

Rosana relata, com o gravador já desligado, que também é vítima de assédio dentro da instituição em que trabalha. Desde o começo de sua carreira, segundo ela, é subestimada por ser mulher e estar em um cargo de poder.

“Eu me recordo que no começo na carreira, quando fui trabalhar no interior, tive a oportunidade de estar em uma audiência onde três mulheres foram encarregadas do respectivo processo. Quando o réu chegou para ser julgado, soltou uma frase nos menosprezando, dizendo que não seriamos capazes por nosso gênero”, disse a defensora.

Maria da Penha

Maria da Penha Maia Fernandes ficou paraplégica após duas tentativas de homicídio por parte de seu marido. A primeira, com um tiro e a segunda com um choque elétrico. Desde então, Maria lutou por 20 anos para que seu agressor fosse preso. O caso se tornou exemplo conhecido mundialmente e deu nome à lei que ampara as mulheres vítimas de violência doméstica.

Esta lei aponta as formas de evitar que a violência doméstica seja evitada e nomeia a responsabilidade de cada órgão público com a mulher vítima de violência. As medidas protetivas também foram criadas, dentre elas estão o afastamento do lar, a proibição de chegar perto da vítima e a suspensão de porte de armas.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados.