Kubrick, inclusão e ocupação: Cine Teatro Cuiabá promove mostra a preços simbólicos

 

Em uma mistura de inclusão, e ocupação de espaço, o Cine Teatro Cuiabá exibe a partir desta terça-feira (21), obras de diretores famosos que marcaram gerações. Com preços quase simbólicos, a Sessão Encontros com Cinema devolve ao edifício sua relevância no cenário cultural cuiabano e proporciona, até o dia 9 de maio, um encontro com o diretor Stanley Kubrick, escolhido para nomear a mostra. Laranja Mecânica (1971), O Iluminado (1980) e Lolita (1962) serão algumas dos clássicos rodados.

Nesse embalo, acontece o segundo encontro do curso de extensão “Experimentos Cênicos a partir da distopia em Kubrick”, oferecido pela MT Escola de Teatro, para 25 alunos selecionados. As aulas tiveram início no dia 14 de março e seguem até 02 de maio, às terças, das 19h às 22h.

Os ingressos para assistir aos filmes custam R$4 (inteira) e R$2 (meia), e estão à venda, além da bilheteria, também pelo site Ingressos MT. As exibições são sempre às 19h. A mostra é um projeto em parceria com a Pró-reitoria de Cultura, Extensão & Vivência (PROCEV), Cineclube Coxiponês e Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e tem como objetivo formar plateias que se interessem em ver ou rever obras cinematográficas de cineastas prestigiados nessa área.

download
E para o público infantil tem ainda o projeto A Escola vai ao Teatro, que consiste em visitas agendadas, onde alunos e professores de escolas públicas privadas conhecem o Cine Teatro e assistem a um filme. Nesta semana, a atração é Alice Através do Espelho, que é uma continuação de Alice no País das Maravilhas. Desta vez, após uma longa viagem pelo mundo, ela volta para a casa da mãe e através de um espelho mágico retorna ao País das Maravilhas, vivendo incríveis aventuras. O projeto acontece todas as terças-feiras às 15h.

Para esta semana entra em cena Lolita, que conta a história de um professor de meia-idade que se apaixona por uma adolescente de 12 anos. Apesar de não suportar a mãe da jovem, se casa com ela, apenas para ficar mais próximo do objeto de sua obsessão, pois a atração que ele sente pela enteada é algo devastador.

A jovem, por sua vez, mostra ser bastante madura para a sua idade. Enquanto ela está em um acampamento de férias, sua mãe morre atropelada. Sem empecilhos, seu padrasto viaja com sua enteada e diz a todos que é sua filha, mas na privacidade ela se comporta como amante. Porém, ela tem outros planos, que irão gerar trágicos fatos.

O Cine Teatro

Inaugurado em 23 de maio de 1942, o prédio possui 1.182m2 de área construída, incluindo teatro com plateia para uma capacidade de 515 pessoas. Foi construído em área central da cidade, na Avenida Getúlio Vargas, ao lado do antigo Grande Hotel, oportunizou grandes espetáculos cinematográficos e cênicos até fins da década de 60.

Cineteatro
Reprodução/Internet

Em outras décadas, foi sede do Banco Bemat, cedido para a Fundação Cultural de Mato Grosso e sofreu interferências na estrutura do prédio ao longo dos anos. Passou por reforma, restauro e revitalização, reabrindo as portas em 2009. Funcionou até setembro de 2014 sob regime de contrato de gestão.
Atualmente a política de gestão do Cine Teatro Cuiabá passa por reformulação. Um novo chamamento está aberto com o objetivo é transformar o espaço num centro cultural artístico-pedagógico de referência, adotando um modelo de Teatro-Escola que combinará difusão e formação profissional.

Confira a programação que ainda entrará em cena da Mostra Kubrick:

Terça 21/03: Lolita (1962)

Terça 28/03: Dr. Fantástico (1964)

Terça 04/04: Laranja Mecânica (1971)

Terça 11/04: Barry Lyndon (1975)

Terça 18/04: O iluminado (1980)

Terça 25/04: Nascido para matar (1987)

Terça 02/05: De olhos bem fechados (1999)

Terça 09/05:  Documentário: Imagens de uma Vida (2001) – Direção: Jan Harlan

Entrada: R$4 (inteira) / R$2 (meia)

Horário: 19h

 

Anúncios

Em preto, branco e cerâmica, artista reverência homem e natureza para homenagear João Sebastião

Em reverência a obra do artista plástico João Sebastião, o cacerense Airton Reis abriu, na terça-feira (28), sua exposição Luto Cultural, com a qual marca um ano de morte do homenageado. Em preto e branco, ele traz aos salões da Casa Cuiabana 50 peças com ícones da terra modelados em cerâmica. Simbologia que remete a sua historia e estabelece uma ligação entre elementos da natureza e cotidiano, itens indissociáveis na obra de João.

mostra_de_arte_contemporanea_-_joao_sebastiao_620x465_01

Conhecido por suas cores intensas e forte apela a cultura mato-grossense, ele, que se doou a arte por mais de 40 anos, valorizava sobretudo os animais do Pantanal, em espcial a onça-pintada, materializada muitas vezes no rosto de uma mulher. A explosão visual destas fusões, hora resultantes em Fridas , hora em garras dispostas pelo espaço, o levaram a  expôr nos principais museus de arte do país e do exterior, consolidando seu nome como um dos mais importantes das artes plásticas da região.

Pintor, desenhista, figurinista e professor, João Sebastião Iniciou seus estudos de pintura com Bartira de Mendonça em 1965, em Cuiabá. Entre 1966 e 1967, fez contato com nomes representativos de tendências modernas, no Rio de Janeiro e, por volta de 1969, começou a freqüentar o ateliê de Humberto Espíndola (1943), em Campo Grande (MS). Ao longo destes períodos, já deixava claro sua preferência pelas formas femininas, as quais demonstrava interesse e gratidão.

001305002013.jpg

A partir de 1973, com o traço já consolidado, passou a desenvolver atividades artísticas no Museu de Arte e Cultura Popular na Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT, na Capital. Diante do histórico e do retrato multicolorido da relação entre o homem e a natureza, tão explorados por João, Airton buscou referências para seu trabalho. Junto a isso, rememorou a própria infância a beira do Rio Paraguai, trazendo a produção a figura do peixe, hoje parte do seu universo iconográfico.

“Há outros elementos presentes como pedras, rochas e conchas. Sou um artista das águas. Fui construindo esta exposição como um sentimento de gratidão em relação a João Sebastião porque ele foi o meu mestre, me ensinou como humanizar símbolos da terra como o peixe, que está sempre presente nas minhas obras”, explica Airton.

Todas as peças são, segundo Airton, em preto e branco para simbolizar o luto. Há apenas uma colorida, uma tela produzida há 35 anos e que já esteve presente em diversas exposições. “É uma referência da minha história”, revela. A exposição tem entrada gratuita e acontece e fica em cartaz até o dia 9 de março.

Imersão e respeito à sabedoria indígena é traduzida em arte

Por André Garcia Santana

02
Reprodução:Arquivo Pessoal

A distância que separa indígena e branco em um trajeto marcado por violência e invisibilização, recua em alguns passos diante da respeitosa interação entre as culturas. Sinal ainda raro que traz às sombras da arrogância colonizadora a luz do conhecimento ancestral: profundo, resiliente, simbólico e belo. Preceitos materializados com a pincelada de Deuseni Félix, que rompe a barreira da apropriação e imerge no convívio de quem ainda luta pelo direito de ser ouvido, pelo reconhecimento histórico que vai muito além da inspiração artística.

Foi a partir daí que, mesmo sob as dificuldades impostas a uma cadeirante, estabeleceu experiências com inúmeras tribos por todo o Estado, compartilhando de suas rotinas e se aproximando de diferentes vivências. Com uma rede improvisada em duas forquilhas, aprendeu tomar banho no rio. Se alimentou de carne de macaco e experimentou o biju, o polvilho, o pequi da forma como eram originalmente consumidos antes de os modificarmos.

12
Reprodução:Arquivo Pessoal

“Não é só pesquisa, todos são meus amigos. Hoje eu não consigo mais viver sem isso e posso dizer seguramente que os considero como minha primeira família. Há um conhecimento profundo da qual nos ainda não sabemos nada, mesmo vivendo no segundo maior Estado com maior número de índios no país, mesmo tendo quase todos o sangue deles. Praticamente tudo que se ouve sobre o índio é preconceito e ninguém parece estar interessado em mudar isso”, afirma.

14
Reprodução:Arquivo Pessoal

Antes de associar a arte à representatividade, se lembra de atribuir o trabalho artístico a predestinação, dom nato, limitando-se a contemplar. Os estudos, no entanto, a convenceram do contrário. No caminho percorrido entre nanquins, aquarelas e lápis, percebeu que dedicação e observação sobrepunham a utopia do destino, passando por diferentes técnicas e relevos até encontrar sua vocação em óleo sobre tela. Grandes telas, especificamente. A partir dai, não foi difícil imaginar em seus painéis rostos, cores e apetrechos indígenas.

Frutos de uma busca por respostas, iniciada nos anos 90, depois de um acidente que comprometeu o movimento de suas pernas, estes personagens se firmaram de vez no imaginário de Deuseni após um pedido de ajuda dos filhos, que, com dever escolar em mãos, não encontraram material esclarecedor o suficiente sobre o a temática. Instigada pela escassez de informações, resolveu aprofundar seu conhecimento. “Eu achei absurdo, primeiro o fato de eu não saber responder nada sobre o assunto, depois não encontrarmos material sobre eles.”

10
Reprodução:Arquivo Pessoal

Os livros não bastaram. Ela foi in loco. Conheceu e ainda frequenta várias aldeias. E, por sua produção, desenvoltura e facilidade em se adaptar aos costumes diários das tribos por onde passa, ganhou uma família inteira de índios que a consideram como mãe, nora e avó. “Essa relação acontece porque eu não me vejo diferente deles. Eu faço as mesmas coisas. Sempre que vou à aldeia como a mesma comida, tomo banho no rio, durmo na rede. Se eles vivem assim, por que eu iria fazer diferente?”

Um laço que, além de aproximar suas duas famílias, criou um vínculo de respeito e receptividade mútua. Por isso, segundo ela, não é raro que receba em seu apartamento amigos que vêm das aldeias que a acolheram. “Até as 18:00 horas minha casa é de branco, depois é casa de índio. Eu já aviso isso aos vizinhos e conhecidos, pra que ninguém se choque com algum costume ou ritual.”, exemplifica a naturalidade com a qual convivem.

É preciso entender a afinidade da artista plástica com estas tradições para compreender o cerne de seu trabalho. Em largas dimensões, as obras não nascem de observação aleatória, cada uma carrega em si o traço característico de etnias distintas. Txucarramae, Kaiapós, Kalapalos, Umutinas, dentre muitos outros, são retratados com fidelidade a sua identidade cultural. Características como o corte de cabelo, pintura corporal e ornamentos são determinantes para a composição, uma vez que cada detalhe carrega a cultura de nações, classificadas em nossa ignorância como um massa unificada de nativos.

13
Reprodução:Arquivo Pessoal

Em cores fortes, essas informações ganham forma e causam uma sensação impactante. Em um primeiro momento, chamam a atenção pela disposição harmônica dos elementos e tons, depois pela profundidade da expressão, sobretudo do olhar. Carregado de uma observação profunda, distante e misteriosa, esse atributo marca as obras de Deuseni, deixando pairar entre os expectadores a mistura entre dúvida e contemplação. O mistério, de acordo com ela, remete ao pouco que se sabe sobre esses povos.

Situação a qual trabalha para mudar. Desde que enveredou por esse mundo, faz com que as telas ganhem a companhia de parte do seu conhecimento. Por isso, todas elas guardam dados sobre a nação ou etnia representada. Informações oriundas dos estudos da criadora e que são obrigatoriamente repassados aos compradores e admiradores. “Não quero que levem uma obra apenas por levar. Tudo isso tem muita história envolvida. Uma história com a qual temos muito a aprender. Os índios são muito sábios e podem nos ensinar”, afirma.

Depois de ter concebido e participado de inúmeras exposições Brasil e mundo a fora, é certo que seu intento não é em vão. Hoje, Bélgica, Portugal, Estados Unidos e Inglaterra, fora os diversos estados do país, conhecem parte do que Deuseni prega, e leva para seus trabalhos.

Em obras criadas em forma de quebra cabeça, técnica desenvolvida por ela para facilitar a composição de gosto exagerado, telas menores se juntam para formar uma única peça maior, levando a pessoas de civilizações e costumes diferentes o vislumbre para uma janela de novo horizonte, no qual a integração e o aprendizado plural caminham juntos.

01

A bovinocultura como instrumento de ruptura e consolidação artística

Por André Garcia Santana

Ao fazer do boi figura central do seu universo iconoclástico, Humberto Espíndola marcou o animal como símbolo de uma região, carregando em sua forma muito mais que sentido social. Para além da contribuição à construção identitária dos estados, recém-separados à época, atribuiu ao bicho cores e composições capazes de projetar a cultura de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul pelo Brasil e mundo a fora. Por meio de seu traço -preciso, carrego de significado – contribuiu ativamente para uma ruptura histórica, participando de um movimento que descentralizou a produção artística e posicionou o Centro Oeste no cenário nacional.

Assim, para contar sua história e melhor compreender sua produção, é preciso rememorar os anos de 1965, 66 e 67, marcados por uma frenética busca pela expressão artística que fizesse com que a crítica voltasse os olhos para  a região, considerada até ao período, a periferia da arte brasileira.  Para isto foi criada a Associação Mato-grossense de Arte, fundada por Aline Figueiredo em Campo Grande em 1967, e depois, em 1973 o Museu de Arte e de Cultura Popular (MACP) na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), fundado num esforço entre Aline e Humberto.

humberto-espindola1-copia-copia
Reprodução/Internet

“Naqueles anos pintei muitos temas e experimentei muitas técnicas. Penso que o toque mágico para conceituar e conceber minha bovinocultura foi ter visto na Bienal de São Paulo de 1967 a grande mostra da pop art norte-americana ali exibida com todos seus exemplos e conceitos. O way of life americano, conceito básico da pop mais o environment (que entendi como circunstancia social e ecológica) foram a pedra de toque. Isso tudo no Mato Grosso da época e de hoje nos dois estados, tinha um equivalente: a cultura do gado, a bovinocultura, que em minha obra dei um sentido sociológico a desinência cultural”, conta.

Embora a presença do animal se repita, o apelo muda a cada fase de sua produção. A força desta característica foi mantida em cronologias específicas, até se tornar um grande repertório iconográfico do qual foi abolido o fator tempo. De acordo com o artista, hoje já não há a preocupação de colocar a pintura em séries.

img_6960-copia-copia
Reprodução/Andréa Lobo – Circuito Mato Grosso

“Os quadros agora vêm sem necessidade de sequência, hoje os analiso mais pela paleta de cores. A fase que denomino histórica, os primeiros sete anos de 1968 a 1974, que passa pelos salões nacionais e bienais internacionais, sob o regime militar, com censura do governo e prêmios da crítica. Foi o período da construção e consolidação de minha carreira. A história não se repete, e já obtive naquela época mais de uma dúzia dos mais importantes prêmios nacionais e participei, dentre outras, da Bienal de Veneza de 1972, considerada o clímax da carreira para um artista plástico.”

4-3
Reprodução/Internet

O  mural de 380m², realizado no Palácio Paiaguás, e hoje tombado pelo patrimônio histórico, representa um marco de encerramento dessa fase. A partir daí se dedicou muito a animação cultural e a programação do MACP, nos dez anos que se seguiram. Nesse período surgiu a fase das Rosas/rosetas apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e a série Divisão de Mato Grosso, elaborada durante a criação de Mato Grosso do Sul.

Nos anos de 1980 surge também a série das Queixadas e a da Iconografia Kadiwéu, intensificada com seu retorno a Campo Grande em 1983. La estudou tudo que podia sobre o boi e a tauromaquia, conquistando um sobrevida muito ampla ao tema. O aprendizado foi reforçado por viagens a lugares como Índia, Tailândia, Nepal, Indonésia, Grécia e Egito, onde o culto ao animal pode ser observado ainda hoje.

Com mais de três mil obras entre pinturas, desenhos, gravuras e esculturas relacionadas ao tema, Humberto crê que pinará o boi pelo resto da vida. “Quero ser conhecido na arte brasileira como o artista que dedicou sua vida a pintar o boi. Com pequenas escapadelas para temas que considero bissextos e que às vezes não resisto à tentação de pintá-los (creio ser normal na vida do artista o espírito experimental), mas sempre retorno ao boi”, diz.

af074-2
Reprodução/Internet

Ao estabelecer uma linha que aponte as diferenças e a evolução entre as fases iniciais e as séries mais recentes, ele aponta que o lado técnico apresentará grande influência. Transitando pela tinta a óleo, acrílica e depois tinta em massa, retornou ao óleo no principio dos anos 1970 e passou definitivamente para a acrílica no início dos anos 1990. Em sua opinião, cada mudança é um reaprendizado e resulta sempre em crescimento técnico.

“Hoje não tenho mais interesse em pintar critica social. Já não é mais papel da pintura. Gosto de expressar a beleza do boi e da rosa, abordo indiretamente o social, pois o artista querendo ou não, se ele é consciente, acaba abordando a sociedade em que vive e consequentemente seu tempo. O way of life e o environment continuam. Dou muito valor a minha pincelada, como construção do meu estilo atual e consequentes fases. Tenho certeza que pincelo hoje melhor que ontem. Vejo aí a diferença ou evolução”, conclui.

Apaixonado pela pintura desde a infância, Espindola se aventurou ainda pela poesia e pelo teatro. Formado em Jornalismo ele afirma que sempre ponteou a poesia  e revela que durante todo esse tempo, e de três anos para cá começou a escrever microtextos e versos sobre a bovinocultura, os quais, juntamente a mais de cem imagens de sua obra, pretende reunir em um livro. “Acho que agora estou maduro para isso. Aventurei-me também no teatro, atuei no palco e como diretor. Sabia que ser artista era fundamental para minha sobrevivência, mas quando redescobri a pintura, me senti completamente realizado, pois não viveria sem a arte.”

001160006013-copia
Reprodução – Internet

Como pinta para viver, espiritual e materialmente, seu relacionamento com a pintura tem momentos específicos, divididos em planejar, estudar, empresariar e executar. Deste modo, vê o ócio e a meditação como treino para mais facilmente entrar em contato com o que já tem pré-criado no subconsciente, seus arquétipos e os do tema. Por isso consdiera os hiatos na produção como naturais e saudáveis. Para ele, nspiração exige conhecimento e treino, e se não houver capacidade técnica de trazê-la a luz, de nada adianta para o surgimento da arte.

“A pintura é meu instrumento de crescimento espiritual, é minha religião. Sou muito exigente com aquilo que trago da realidade invisível da imaginação para a realidade da luz, da matéria, da pintura sobre a tela. A realidade palpável depois de pronta é irreversível, fica para a história.”

af328-2
Reprodução/Arquivo Pessoal
bf007-2-1
Reprodução /Arquivo pessoal

Em dança com tempo, Pantanal e suas histórias resistem à seca e cheia; a primeira vez de um turista deslumbrado

Por André Garcia Santana

Pelos aproximados 100 km de trepidação, no trecho que liga Poconé a Porto Jofre, durante a noite, contornos desfocados delineiam amostras de contradição. Flashes de ecossistema resguardado em exuberância e equilíbrio. Prenúncios parcos do que reserva o Pantanal. Do pouco que se vê, no breu, faíscam reflexos de um dos predadores símbolo dali. Multiplicados em pares de olhos, centenas de jacarés ladeiam as bordas alagadas da Transpantaneira. Paralisados, fitam o nada ao longo do caminho. Ignoram a presença curiosa acomodada no carro, onde exclamação é o som. Atenções instigadas pelo movimento da fauna ainda acordada, materializada em pequenos lobos, garças, e tamanduás que cruzam via.

O caminho de cascalho, interrompido por pelo menos uma dezena de pontes, nem sempre acabadas, demanda vigilância extra ao receber os pingos que anunciam a primeira chuva da temporada. Sem pedir permissão, ela chega mansa acompanhando o trajeto até a chegada na pousada de destino. Finalmente ali, à beira do rio Pixaim, a edificação apresenta uma das últimas formas de intervenção humana no local. Em respeito ao espaço que lhe cerca, o repouso co-existe modesto com a imponência das árvores, que emolduram a passagem das águas, resguardadas por grupos de jacarés e ariranhas. Na escuridão, o barulho de suas ventas é o único elemento a denunciar a presença.

_rfp4658

Virada a noite, no início da manhã se intensifica o deslumbre, estampado em maior evidência na cara do grupo de turistas japoneses. Pouco depois do nascer do sol, eles partem de caminhão em busca das quase 500 espécies de aves que integram o bioma. Neste horário, é possível observar garças, gaviões, carcarás, curicacas e biguás, ainda empoleirados nas árvores ao amanhecer. A cada nova aparição, a cada vôo alçado, os contrates e explosões de cores se revelam, fazendo com que um suspiro de excitação escape a boca de quem contempla uma beleza rara, há muito negada pelo ferro e concreto.

E assim seguem os sentidos, sendo provocados. Seja nos ruídos do mato, no som de cada bicho, nas suas formas curiosas ou cores surpreendentes. É no passeio de barco, no entanto, que as sensações se acentuam. Encarado com determinação, ainda que debaixo do chuvisco que perseguiu o final de semana, o desafio aproxima mais ainda hóspedes e anfitriões. Logo no píer, embarca-se, praticamente sob a escolta dos jacarés, rumo ao descanso de capivaras, e concentrações de ariranhas. Iguanas e micos também são flagrados. “Costuma aparecer onça?”, indaga a turista à ‘Peixinho’, o guia.

Na noite anterior, na mesa de sinuca, enquanto explicava a ausência da bola 9 – levada por uma macaco-prego que confundiu com um ovo – ele dava a mesma resposta. “Tem sempre uma ou outro por aí.” Também foi ali, ao provar com humildade sua superioridade no jogo, que contou parte de sua história. Começando por quando chegou ao hotel, há oito anos. Já com experiência, foi contratado, especialmente por seu dom em interagir com animais. Concentrado na estratégia, mantém-se modesto, volta à disputa e deixa que o colega, Edson, narre suas façanhas. “A ararinha pega peixe na boca dele”, diz o guia.

_rfp5463

Ainda em sua vez, numa sequencia de bolas encaçapadas, Peixinho confirma a narrativa com um sorriso de canto de boca. A habilidade com a fauna local é natural, segundo ele, que conta ter se criado na roça. No Youtube, seus vídeos provam os relatos e Peixinho aparece deitado no chão, acariciando jacarés, conversando com ariranhas, chamando gaviões, etc. Ações comprovadas mais de uma vez durante o passeio de barco, marcado para o outro dia.

Neste momento, outra peculiaridade sua vem à tona. Os animais são chamados por nome, e na maioria dos casos, respondem ao pedido do guia. As alcunhas, por vezes aleatórias, também podem fazer referência as característica de cada bicho. Como no caso de Cicarelli, a ariranha, assim batizada por ter uma “boca gostosa”. No contorno do Pixaim, além dela, nos deparamos com Ceará, um gavião que, para delírio dos visitantes, mergulha céu abaixo, em um rasante que lhe garante capturar um peixe. Estes, todos os já mencionados, e outros, imencionáveis, surgem aos poucos pelo trajeto.

Pouco interessados no aspecto de estranhos, só se movem caso os limites da proximidade sejam rompidos. Preferem. ao invés disso, tomar seus banhos de sol, comer, descansar. Em alguns casos somente, a situação muda e, num movimento contrário, parecem mais curiosos do que assustados. O inverso dos ocupantes do monomotor, que mais assustados que curiosos, questionam os artifícios do animal. “Ela consegue pular no barco, seu Peixinho?”, pergunta a mãe de família.

_rfp5248
A salvo da “onça da água”, já em terra firme, a hora do almoço vira urgência e na reunião que se sucede, em volta dos pratos, o assunto é um só. Entre as teses e conclusões de especialistas em coisa nenhuma e moradores de selvas de pedra, a conclusão é unânime: é tudo incrível (mesmo na chuva).

Não podia ser diferente. Nas cenas que se repetem a cada dia desde que o Pantanal é Pantanal, renova-se a cada nascer do sol o ânimo da vida, restaurada a cada ciclo, reforçada por perdas e ganhos, secas e inundações. Um cenário em que histórias como as de Peixinho se encaixam ao jogo do mato, com respeito, sem imposições. “Gosto de deixar claro que não alimentamos os animais. É só um agrado ou outro.”

É neste contexto que se apresenta Roberto, o guia a cavalo. Descalço, monta no pêlo, sem cela ou espora. É assim desde que tinha 11 anos de idade, segundo afirma. Deste período até hoje, já trabalhou como garimpeiro e foi peão de rodeio, abandonando a arena por conta de um ferimento no joelho. “A mulher reclama um pouco de ficar longe, mas vale a pena pelo trabalho”, diz. Assim como a maioria dos funcionários, ele passa 22 dias ali, longe da cidade, e seis em suas casas, em Poconé, com a família.

_rfp5199“Não precisa ter medo, cavalo foi feito pra aguentar muito peso”, orienta a um desajeitado. O cavalo em questão é Pintadinho. Menor que o esperado, chega junto com final da tarde nublada, na qual, sustentado pelo desânimo percorrerá com o hóspede a trilha. Alinhados, pelo menos em espírito, cavaleiro e cavalo seguem devagar. Ritmo propício a mais uma rodada de contemplação. É nesta hora, que um casal de cervos é flagrado enveredando pelas árvores. Ao longe, em meio ao verde pálido da estação, a florada de Ipê rosa recompensa a tonalidade da paisagem.

Por fim anoitece e o pôr do sol, discreto por conta da chuva, cessa as atividade visíveis aos nossos olhos, despreparados para o selvagem, cego para a realidade. Incluindo à experiência uma desnecessária análise, concluí-se que a magia do local está nas criaturas. Todas elas. Da relevância dos bichos em suas cadeias e da simbologia das plantas, às histórias que circundam os homens e mulheres que lá vivem, próximos a este turbilhão. Tudo ali se apresenta como uma lição, uma viagem dentro da viagem. Uma ilha de tempo na qual o interesse gratuito brota na medida da interação. Um alívio ao cotidiano ordinário.

O texto foi originalmente publicado no site Olhar Conceito.

Entre falos e flores, Adir Sodré reina em estilo “Neo Qualquer Coisa”

adir12
Reprodução/InternetAndré Garcia Santana
André Garcia Santana

Para muito além de imposições que possam atribuir a seu trabalho quaisquer rótulos locais, Adir Sodré brinca com as determinações geográficas, fazendo do apelo regionalista mera desculpa para o desenvolvimento de criações que tocam pela identidade e abrangência universal. Ao longo dos anos, seu traço expansivo, consistente e inovador, vem celebrando a vida em uma explosão sagrada de flores e falos, estendendo-se pelo mundo e levando o cotidiano do Coxipó à Nova York, de Tóquio para a Rua 12 de outubro, e, do cerrado para longe das fronteiras que separam culturas.

Assim, desde o final da década de 70, quando rompeu com os traços de seus mestres, Humberto Espíndola e Dalva de Barros, Sodré consolidou estilo próprio, fazendo do erotismo e da irreverência suas marcas na profissão. Tal busca, justificada pela vontade de “existir diferente”, foi alimentada, segundo ele mesmo, por sua audácia: “Se você não tem coragem, não acontece nada. Eu nasci pra isso, mas eu não tinha muito talento, tinha que aprender alguma coisa.”

A partir deste período optou pelo abandono das temáticas de protesto, abrindo mão da divisão de cenas entre pobres e ricos, que chegaram a integrar algumas criações. “Eu queria mudar o mundo com a pintura, mas revolução é com arma na mão. A pintura não é pra isso, a arte não resolve nada. Não que eu seja irresponsável, só estou sendo verdadeiro. Por outro lado, essas coisas servem de plano de fundo pra você brincar com o mundo, que por vezes é muito cruel”, conta.

fotorcreated
Reprodução/Internet

Passando ainda por uma fase inspirada por turistas e pela cantora alemã Nina Hagen, resolveu tornar o apelo dos quadros mais comercial, apostando então nas vendáveis naturezas mortas. A tentativa, contudo, falhou. Ao pintar, descobriu  que os frutos estavam vivos, o que estimulou a associação entre eles e os nossos órgãos reprodutores. “Ao invés de pegar aquela pintura ordinária, comecei a colocar pinto de todo tamanho e xoxota, como ironia. Era visualmente agradável, mas tinha uma mensagem por trás.”

Para isso, encontrou em contornos vaginais e saliências fálicas, o equilíbrio entre a natureza e anatomia humana, também reverenciada em figuras que variam entre santidades, personagens cotidianos e releituras de Fridas, Abaporus e Gueixas japonesas. Mescladas a cores impactantes, estas representações normalmente se ambientam a cenários exuberantes, compostos por floradas e frutos típicos do cerrado. Não raramente, no entanto, a iconografia da flora assume o protagonismo da obra, fazendo-se igualmente importante no repertório.

adirr
Reprodução/Internet

Convicto em sua temática,  decidiu, no final dos anos 80, que seria um artista do Brasil e não somente de Cuiabá, partindo então para a capital paulista. Lá, por acidente, encontrou nas escadarias do Museu de Arte de São Paulo (MASP), a oportunidade que buscava. Ao esbarrar na secretária de Pietro Maria Bardi, um dos fundadores do museu, firmou o primeiro passo na concretização de seu intento. “Foi aí que minha vida mudou. Eu me lembro de mim, totalmente caipira, um jacu, subindo as escadas do MASP com umas telas em baixo do braço”, brinca.

Desde então, fez-se presente em inúmeras exposições pelo país e pelo mundo, e hoje é o único mato-grossense a possuir três obras no Museu. Uma delas, “Enterro de Anjo”, figurou este ano entre trabalhos de Van Gogh, Renoir e Portinari, na mostra Histórias da Infância. Concebido em 1980, o óleo sobre tela de 102x150cm, está exposta com outros 200 trabalhos, e ajuda a resgatar alguns dos temas que permeiam a idade infantil.

Da casa, onde vive e trabalha, fez uma verdadeira galeria com peças de artesanato que remetem aos mais diferentes significados: na janela da sala de entrada, um Adir de papelão em tamanho real, observa incansável a movimentação da rua. De lá até o ateliê, nos fundos, brinquedos, adaptações de objetos transformados por seu pincel, livros, discos e cd’s, se misturam no ambiente, onde uma possível interpretação de desordem permite a concatenação das ideias que ilustra.

adir-casa
Reprodução/Internet

Ali na porta da morada, que também resguarda sua coleção de crucifixos, ele fala sobre a religiosidade que permeia suas obras, justificando a referência com sua presença no inconsciente coletivo. “Eu não sei se existe, mas quando eu rezo pra algum santo eu melhoro. Além do mais, você já viu algum santo feio? Todo santo é bonito, e eles só podem existir se as pessoas acreditarem. Deus só existe, porque tem gente que acredita.”

_rfp8547-1
Rogério Florentino Pereira

Absoluto no estilo “neo qualquer coisa”, inventado por ele mesmo, o artista dispensa a limitação dos rótulos criados pelas escolas, inspirando-se na própria história da pintura para renovar o fluxo da produção. Deste modo, ao revisitar o próprio trabalho e o de outros grandes nomes, mantém a proposta de transformar-se em vários, seguindo aquilo que seu próprio nome o designa: o verbo adir em tradução do latim significa aderir ou adicionar. Os resultados, portanto, passam por combinações infinitas que saem de Adir Horror (referência a Andy Warhol), e vão até Sofrido Kahlo (Frida Kahlo).

Sem estudo formal ou teoria que permita explicar sua criação, Sodré reforça a importância da regionalidade ao justificar que só é possível ser global, a partir do momento em que se pensa localmente. Sobre os reflexos da contemporaneidade na criação, se limita a classificar o momento social vivido no país como “dúbio”. “Como é que vou poder cobrar de fora, se eu não sei o que acontece no m eu quintal? Na verdade acho que sou um anarquista vagabundo.”

adir12
Auto-retrato/Arquivo Pessoal

Distante destas falsas pretensões aproveita para reforçar seu desinteresse pela teoria ao afirmar que arte é simplesmente aquilo toca o coração e mexe com quem aquele que a vê. Sem o experiência sôfrega dos hiatos criativos, revela manter o hábito de desenhar inclusive na cama e à mesa, na hora das refeições. “Eu sempre sabia. Quando era pequeno, falei pro meu pai e pra minha mãe que gostava mais de desenhar do que deles.”

Questionado sobre a importância do ofício, mistura ironia e desesperança ao disparar que sua obra serve apenas de sustento, pra que possa comprar comida e pagar conta. “Serve pra eu comer, pra me dar pão. Com isso eu pago minhas contas, paguei os estudos da minha filha. Antes eu não sabia que tinha glamour, depois que delegaram, mas pra mim não tem, eu pinto pra comer. E também não tenho pudor de fazer concessão, de fazer uma pintura decorativa. Eu sempre fui muito irônico, e cínico, eu acho que isso tudo é o caos.”

Afora a dureza das comparações materiais, complementa esta definição com os valores que para ele tem mais significado. Em ritmo acelerado, próprio de sua personalidade inquieta, lembra que a arte existe, acima de tudo, para aliviar angustias e impedir que a realidade nos destrua. “Além de tornar a vida mais leve, foi a arte que me transformou em cidadão.”

O texto foi publicado originalmente no site Olhar Direto.

adirr
Reprodução/Internet

Falta de representatividade e racismo causam adiamento da Mostra de Cinema Negro

Por André Garcia Santana

Adiada  pela insatisfação relacionada à falta de representatividade e acusações de racismo, a “Liberdade Mostra de Cinema Negro”, que aconteceria no período entre os dias 15 e 19 deste mês, não tem uma nova data para sua realização. A decisão foi tomada após uma série de denúncias contra a programação, que não contemplava cineastas ou produtores negros. O debate, nascido da ausência de representação ganhou corpo no Facebook, expondo a falta de diálogo entre o Estado e esta camada da população, muitas vezes invisibilizada pela política e administração pública.

As críticas levantadas com divulgação da programação, na última semana, levam em consideração a sua grade, composta majoritariamente por produções de profissionais brancos. O caráter racista, de acordo o representante do Movimento Rota, André Eduardo Andrade, fica ainda mais evidente com a nomenclatura da sessão “Deu Branco”, repetida em grande parte dos espaços da agenda. Nomes de artistas negros também foram ignorados pela curadoria na escalação para as oficinas que seriam ministradas, segundo ele.

sem-titulo

Programação inicialmente divulgada pela Sec.

A discussão levantada também por grupos como o Coletivo Negro da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), de Quilombolas e religiões de matrizes africanas, aponta ainda para falhas no próprio conceito da divulgação. “Quando você vê grilhões se desfazendo e se transformando em borboletas, percebe que não estão atentos as demandas atuais da população negra, protagonista de sua própria existência”, comenta o produtor cultural.

Um abaixo assinado contra a programação foi criado, reunindo dezenas de assinaturas. Na ocasião e a Secretaria de Estado de Cultura (Sec), informou que houve um erro na divulgação do material que o nome “Deu Branco” já havia sido substituído por “Sessão Regional”, espaço no qual profissionais do Estado exporiam trabalhos relacionados ao assunto. A pasta convocou ainda uma reunião com movimentos artísticos, religiosos e sociais, para que reivindicações e sugestões fossem expostas por quem vive e luta diariamente por uma existência igualitária.

No encontro, realizado no Palácio da Instrução, no entanto, um dos produtores foi acusado de fazer afirmações racistas ao longo das discussões, e os apontamentos já acatados pela organização foram desconsiderados diante da situação, agravada com um desentendimento entre ele e André. “Durante a reunião houve vários momentos em que percebemos a falta de diálogo da curadoria, que nem mesmo estabeleceu uma temática concreta para a mostra. O produtor chegou a dizer que não deveria existir o Dia da Consciência Negra”, relata.

A situação foi narrada pela também integrante do Movimento Rota, Amanda Nery, por meio de uma postagem em seu perfil.  “Os ânimos se exaltaram e o João colocou o dedo na cara do André e levantou o tom de voz. Nesse momento, eu me coloquei fisicamente entre os dois e gritei, berrei, urrei que não admitia que NINGUÉM humilhasse um negro na minha frente…Continuou gritando e avançando cada vez mais perto até outras pessoas intervirem. Um segurança chegou a ser chamado… Mas não recuei. Porque eu não vou mais admitir isso. Nenhum de nós vamos. (Sic)”

sem-titulo1Arte da Mostra Liberdade, também alvo de críticas.

De acordo com André o caso só evidencia a problemática levantada pelo grupo uma vez que, que uma pessoa branca não poderia considerar tais recortes sociais com a propriedade que uma pessoa negra, inserida nestes contextos. “O Deu Branco foi só a ponta do iceberg. Foi a partir dele que percebemos todo o problema que a falta de representatividade envolvia e resolvemos correr atrás. A elaboração da programação com 70% de profissionais brancos, o conceito da divulgação e a própria postura dos realizadores não seria assim se o projeto fosse realizado por pessoas negras.”

A Sec garantiu que o diálogo com a comunidade será mantido e comunicou, por meio de nota, que o evento será realizado em nova data. “LIBERDADE: MOSTRA DE CINEMA NEGRO, que seria realizada no período de 15 a 19/11/2016, será prorrogada para uma nova data, em razão da reorganização de sua programação proposta pelo movimento negro e agentes do setor do audiovisual em reunião aberta na última sexta-feira (11). Segundo o informe, a SEC trabalhará de forma integrada com os segmentos envolvidos para a finalização da nova programação.

O adiamento, resultante da intervenção dos grupos se mostra como uma medida paliativa, na opinião de André, já que os movimentos só foram ouvidos depois que diversos problemas foram apontados na organização. Sob esta perspectiva André conclui que a medida foi necessária para o momento e que agora uma nova programação, que realmente contemple a população negra, poderá ser elaborada com mais tempo e cuidado.

Sobram ainda os resquícios da desigualdade imposta pela estrutura racista, que permeia sociedade e instituições. “Nossas demandas vão além de uma data apenas, mas não podem querer nos invisibilizar até no Dia da Consciência Negra. Dói muito quando tratam sua reivindicação como exagero, como se você tivesse querendo tirar vantagem. O que é preciso pra que a gente não sejamos tratados como um pretos loucos falando besteira? ”

Enquanto a mostra não ganha uma nova data, separamos cinco produções nacionais dirigidas por profissionais negros, que abordam a temática racial como cerne de seus trabalhos.

Bróder (Jeferson De – 2011)

Capão Redondo, bairro de São Paulo. Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane) são amigos desde a infância e seguiram caminhos distintos ao crescer. Jaiminho tornou-se jogador de futebol, alcançando a fama. Pibe vive com Cláudia e tem um filho com ela, precisando trabalhar muito para pagar as contas de casa. Já Macu entrou para o mundo do crime e está envolvido com os preparativos de um sequestro. Uma festa surpresa organizada por dona Sonia (Cássia Kiss), mãe de Macu, faz com que os três amigos se reencontrem. Em meio à alegria pelo reencontro, a sombra do mundo do crime ameaça a amizade do trio.

A Negação do Brasil (Joel Zito Araújo – 2001)

O documentário é uma viagem na história da telenovela no Brasil e particularmente uma análise do papel nelas atribuído aos atores negros, que sempre representam personagens mais estereotipados e negativos. Baseado em suas memórias e em fortes evidências de pesquisas, o diretor aponta as influências das telenovelas nos processos de identidade étnica dos afro-brasileiros e faz um manifesto pela incorporação positiva do negro nas imagens televisivas do país.

“Família Alcântara” (2006)

O filme conta história da família Alcântara formada por 78 pessoas de etnia bantu (origem da maioria dos africanos escravizados na América), que acreditam descender de povos que foram levados para Minas Gerais em 1760, e postos a trabalhar em plantações. Lilian Solá Santiago foi homenageada em Brasília por ter sido a primeira cineasta negra a ter um filme de média-metragem documental exibido em circuito comercial.

“Kbela”, Yasmim Tayná
O filme bebe na fonte do cineasta Zózimo Bulbul em especial em Alma no Olho. Kbela é uma poesia visual, cuja a técnica e estética estão alinhadas à linguagem cinematográfica no sentido de nos aproximar dos dramas das protagonistas. Curiosidade: o curta nasceu de um poema da diretora. O projeto foi concebido por várias mulheres negras e traz como uma das protagonistas, Maria Clara Araújo, uma mulher trans.
“O Dia de Jerusa”, de Viviane Ferreira
Bixiga, coração de São Paulo. Jerusa, moradora de um sobrado envelhecido pelo tempo, em um dia especial, recebe Silvia, uma pesquisadora de opinião que circula pelo bairro convencendo as pessoas à responderem questionários para uma pesquisa de sabão em pó. No momento em que conhece Silvia, Jerusa a proporciona uma tarde inusitada repleta de memórias, convidando-a a compartilhar momentos de felicidade com uma “desconhecida”. O filme foi exibido na mostra “Short Film Corner”, um espaço profissional dedicado aos encontros, aos intercâmbios e à promoção do filme curto, paralela à mostra competitiva.