O urso-cinzento e sua obra-prima

18 de setembro de 2012. O dia do lançamento de um dos melhores álbuns do ano.

Alguns álbuns passam despercebidos, sem serem notados. Ficam ali escondidos, só esperando para serem descobertos. Uns são tão ruins que nem quando notados ganham destaque. Outros, quando são descobertos, se tornam referência cult. Alguns, ainda, são renegados a meros papeis de coadjuvantes em meio a um competitivo cenário de artistas frustrados e bandas estreladas. Nenhum desses casos é o do Shields, novo álbum do Grizzly Bear, que já nasceu pronto para brilhar.

Shields é um épico de 10 faixas e algumas sensações. Muitos duvidavam que a fantástica banda do Brooklyn conseguiria fazer algo superior ao belo Veckatimest. Conseguiram com sobra. O álbum é uma obra-prima. É um daqueles álbuns que se tornam referência. Merecidamente. Continuar lendo “O urso-cinzento e sua obra-prima”

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O twee pop e a nostalgia de uma inocência já perdida

Em 1986, a revista britânica de música NME lançou uma fita cassete (sim, daquelas que tem dois furinhos no meio e que a gente enfiava a caneta BIC nos buracos) chamada C86. A fita era uma compilação de um novo gênero feito de letras puras e nostálgicas, melodias doces e alma pura: o twee pop. Estilo esse que é considerado o primeiro de música independente fora dos padrões musicais da época.

A definição de “twee”, no UrbanDictionary:

  1. twee
    Something that is sweet, almost to the point of being sickeningly so. As a derogatory descriptive, it means something that is affectedly dainty or quaint, or is way too sentimental

Resumindo: é algo tão fofo, doce e sentimental que chega a enjoar. Traduzindo para português seria mais ou menos algo como “piegas”. É assim que é o twee pop. Uma explosão de sentimentos não revelados, lembranças perdidas, fofura, nostalgia da nostalgia e uma pitada de frustrações internas.

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A Nova Estranha América

Greil Marcus, em seu livro Invisible Republic, de 1997, usou a espressão “Old weird America” para descrever os sons estranhos encontrados na compilação Anthology of American Folk Music. O Invisible Republic é um livro sobre a criação e a importância cultural do The Basement Tapes, um álbum de Bob Dylan. Marcus diz que a influência da compilação no álbum de Dylan é tamanha que a sensibilidade do Anthology está refletida nas gravações do The Basement Tapes e argumenta que os sons do Basement são “uma ressurreição do espírito do Anthology”.

David Keenan, na The Wire, revista considerada a bíblia da música de vanguarda e experimental (por favor, não me diga que você achava que a NME e a Pitchfork detinham esse título), chamou o novo movimento de música experimental que vinha emergindo de “New Weird América”, um jogo de palavras com o termo utilizado por Marcus para descrever o Anthology. Keenan então “cunhou” a expressão “freak folk” para definir o estilo de vários artistas, desde Jack Rose até Devendra Banhart.

O freak folk é um gênero (se é que podemos chamar assim) já velho, mas paradoxalmente novo. Une o folk cru dos artistas esquecidos dos anos 60 com a psicodelia que marcaram os mesmos anos, mas com uma roupagem nova.

O cantor que trouxe esse estilo ao mainstream foi Devendra Banhart, que em 2004 lançou a compilação The Gold Apples of the Sun, que reunia a nata do folk psicodélico independente da época. Esse álbum é considerado o principal álbum do movimento. Banhart também tirou do esquecimento artistas como Vashti Bunyan (essa que é considerada genuinamente a primeira cantora de freak folk).

Banhart e seu estilo de vestir. Seria ele um “hipster”?

Banhart é, talvez, o mais relevante (o que não quer dizer que seja o melhor) de uma trupe de notáveis cuja música é calma, fantástica, surreal e com um traço de ironia. A gangue inclui a altamente poética Joanna Newson, que com sua harpa mortal nos deixa em êxtase, os felizes mas não menos psicodélicos do Animal Collective, as emblemáticas e exóticas irmãs Sierra e Bianca do CocoRosie, e o barroco e teatral Antony Hegarty, do Antony and the Johnsons.

As irmãs do CocoRosie

Eles tocam músicas que a maioria das pessoas consideraria estranhas – o que não deixa de ser verdade. O experimentalismo é tanto que às vezes chega a incomodar, mas é um incômodo bom, que dá prazer em ouvir. É sensacional. Além do folk e da psicodelia, alguns artistas adicionam outros temperos à mistura, como o tropicalismo, a musique concrète, o free jazz, elementos eletrônicos, sons étnicos de lugares distantes etc.

Cada novo artista que você descobre é um universo musical a ser desvendado. Cada ritmo, cada acorde, cada timbre, cada instrumento diferente pode ter um experimentalismo mais diferente ainda por trás. Ou não, pode ser apenas a coisa mais simples e banal do mundo, mas que ainda assim vai soar diferente.

O movimento vem crescendo relativamente rápido. É do Grizzly Bear o melhor álbum do gênero na minha opinião, o Veckatimest. Alguns outros artistas, como a tUnE-yArDs, os Dirty Projectors, o Vetiver e o Ariel Pink’s Haunted Graffiti vêm fazendo relativo sucesso nos meios alternativos.

Aqui vão alguns dos melhores exemplos (os clipes não deixam de ser estranhos, mas excelentes):

O jeito é embarcar na vibe dos artistas e experimentar também.

A Revolução dos Bichos: todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. O que andar sobre quatro pernas, ou tiver asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupa.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.

George Orwell e a capa do livro

George Orwell, após voltar da Guerra Civil Espanhola como apoiador da Frente Popular, caminhava solitário pelo interior da Inglaterra quando viu um cavalo de tiro ser chicoteado por um jovem rapaz toda vez que tentava se desviar do caminho. Orwell percebeu que, se os animais tivessem consciência de sua força, nós não teríamos o menor poder sobre eles. Segundo Orwell, eles são explorados pelo homem assim como os trabalhadores braçais são explorados pelos ricos.

Apesar disso, Orwell achava que a única tentativa de reivindicação de poder pelos trabalhadores através da revolução armada, a Revolução Russa, havia falhado na sua proposta de representação de poder dos trabalhadores.

Partindo dessa premissa, Orwell resolveu criar um romance alegórico, através de uma sátira do comunismo, com o objeto de destruir o mito soviético, onde animais representariam humanos, classes sociais e sistemas econômicos.

Em uma fazenda na Inglaterra, assim como em muitas outras espalhadas pelo mundo, os animais são explorados pelos humanos. Então um porco, chamado Major (alegoria explícita de Karl Marx) percebe e teoriza essa exploração, e conclama todos os animais a derrubar seus opressores, os humanos (na real life, os ricos). Logo depois, Major morre, e a sua mensagem é adotada pelos animais mais cultos e intelectualizados, os porcos (os comunistas).

Os porcos, através dos cavalos (que aqui representam os trabalhadores braçais, o proletariado), conseguem expulsar os humanos da granja e logo assumem o controle político da fazenda. Logo, dois porcos assumem a linha de frente: Bola-de-Neve (que aqui representa Leon Trotski) e Napoleão (alegoria de Stálin). Napoleão começa a criar filhotes de cães para treinamento (doutrinação). Bola-de-Neve e Napoleão travam intenso combate político para governar a fazenda de modo diferente. Logo, os cães crescem e Napoleão manda os cães (exército) correrem atrás de Bola-de-Neve, que sai correndo com os cães atrás dele, e some no além. Depois desse episódio, Bola-de-Neve nunca mais foi visto na fazenda.

A partir daí começa uma era autoritária de Napoleão à frente da granja. Com o passar do tempo, todos vão se esquecendo dos ideais originais da revolução, que aos poucos foram sendo substituídos por ideais totalitários e de adoração os porcos, e uma nova época de obscuridade se inicia na granja.

Os animais representam o socialismo e os humanos representam o capitalismo. O livro foi enviado por Orwell às nações devastadas pelo stalinismo, principalmente à Ucrânia, onde foi símbolo da luta dos ucranianos contra a poderosa União Soviética. Até hoje o livro é proibido na China, na Coreia do Norte e em Cuba, por motivos óbvios, assim como nos países islâmicos autoritários.

O livro é excelente e tem uma fluidez impressionante. É rápido, mas ao mesmo tempo permite profundas reflexões sobre o mundo atual e sobre o século XX. Cada gesto de cada personagem tem uma representação muito forte dentro do contexto da geopolítica mundial, assim como da nossa vida particular.

Alguns anos depois de publicar A Revolução dos Bichos, Orwell publicaria aquele que viria a ser seu romance mais famoso sobre autoritarismo: 1984. O autor, quando decidiu escrever A Revolução dos Bichos, talvez não tivesse ideia do impacto que ele causaria, e que ele ficaria como um clássico eterno. Uma obra-prima.

4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.
7. Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.

Imagens inspiradoras, paisagens atmosféricas e quotes pessimistas

Fotografias dizem muito sobre uma pessoa. Não só as fotos tiradas por ela – mas principalmente as fotos que ela gosta e aprecia são uma manifestação do eu íntimo de cada um. Cada pequeno detalhe em cada foto é um pequeno pedaço da alma de cada pessoa. E é com base nisso que eu apresento um site fantástico e viciante: o we heart it.

O weheartit.com é um site de compartilhamento de imagens, onde você tem o seu próprio perfil, que funciona como um acervo das imagens que você “guarda”, ou seja, é como se fosse um banco de fotos online.

A grande sacada do site é você poder procurar imagens de acordo com o que você gosta – por exemplo, basta digitar “arctic monkeys” na procura que todas as imagens com a tag “arctic monkeys” do site aparecerão para você. E não é só isso: você também pode dar um heart em imagens externas, de outro site, que automaticamente vão para o site e aparecem no seu perfil. Também é possível separar suas imagens por sets, que é um modo de organização fácil e prático, onde você pode separar as imagens pelo assunto que quiser.

A foto mais popular com a tag “arctic monkeys”

A ideia é você dar um heart em imagens inspiradoras. O interessante é que cada perfil revela um pouco da personalidade da pessoa – um mérito do site, mas principalmente do poder de personificação da fotografia. Cada imagem escolhida pelo usuário revela um traço de sua personalidade – ainda que nem ele mesmo se dê conta disso.

A maioria das fotos é destinada ao público adolescente feminino. Fotos de maquiagem, mundo fashion, ídolos pop e imagens românticas são a maioria no site. Mas também há fotos de paisagens deslumbrantes, cultura pop, quotes de filmes e séries, imagens engraçadas e irônicas, imagens pessimistas e depressivas – ou seja, no final das contas o que vale é a intenção de cada pessoa ao procurar as imagens de acordo com o seu estilo de vida.

Exemplo de imagem de quote muito presente no site

Um lado ruim – ou bom, dependendo do ângulo de quem vê – é que não é possível a interação entre os usuários do site. A interação máxima e única entre usuários é a de following e followers, onde você segue as pessoas que “harteiam” imagens que você julga interessante, e é seguido pelo mesmo motivo.

Outro probleminha – novamente dependendo de quem vê – é o número excessivo de imagens de Justin Bieber, Miley Cyrus etc., além de imagens de memes – é a facebookização do we heart it (risos).

Vale a pena se deixar levar pelo site, ficar passando páginas e mais páginas durante alguns minutos (já vi relatos de pessoas que ficaram a tarde inteira no we heart it), e esquecer um pouco da conturbada vida moderna e se deixar imergir no mundo das imagens inspiradoras, das paisagens atmosféricas e dos quotes pessimistas.

O renascimento de um gênero: dream pop

Por Gabriel Soares

3. dream pop

Music that makes you think about things like unicorns and lasers and flying through space, characterized by faraway vocals, droning basslines, echoing percussion, etc.

Essa é a melhor e mais sincera definição que eu encontrei sobre o gênero – do site urbandictionary.com (esse site é ótimo, acreditem). O dream pop é um subgênero do rock alternativo, marcado pelos vocais etéreos (geralmente femininos), letras introspectivas e texturas atmosféricas.

A grande influência para o gênero é a clássica Sunday Morning do Velvet Underground, e os Cocteau Twins e seu álbum Treasure, de 1984, são considerados os precursores dessa nova era de sons atmosféricos e pessoas sonhadoras. Liz, a vocalista da banda, cantava de forma tão etérea e abstrata que as pessoas diziam que as músicas não tinham letra, e que, se tinham, não sabiam em que língua Liz cantava.

O berço do gênero foi na gravadora 4AD: o supergrupo This Mortal Coil e os góticos do Dead Can Dance saíram de lá.

O dream pop atingiu seu ápice no começo da década de 90; foi quando ele e o shoegaze começaram a se fundir e confundir: os épicos Loveless, do My Bloody Valentine; Souvlaki, do Slowdive; e Going Blank Again, do Ride, são os álbuns mais representativos dessa linda época. Essas bandas mantiveram os aspectos flutuantes do dream pop e adicionaram os efeitos sonoros advindos do barulho urbano do pós-punk.

A partir de 1995, a coisa deu uma esfriada. A maioria das bandas do gênero se desmembrou nessa época. Chapterhouse, Slowdive, Pale Saints, Ride, Lush, My Bloody Valentine e Cocteau Twins são apenas alguns exemplos de bandas que nos deixaram órfãos nesses tristes anos.

O gênero só foi ser redescoberto a partir da segunda metade da década seguinte. Nesse meio-tempo, algumas bandas (entre elas The Radio Dept. e Azure Ray) mantiveram acesa a chama do dream pop. A partir de 2007, houve uma explosão de bandas de dream pop – Lower Dens, Twin Sister, School of Seven Bells, Wild Nothing e The Pains of Being Pure at Heart são os principais exemplos. A consagração do gênero veio com o aclamado Teen Dream, do Beach House. Um álbum digno dos tempos áureos do gênero. Na minha opinião, um dos melhores (senão o melhor) álbum da década passada.

Claro que essa safra de bons artistas deu ao gênero um hype, status de cool, hipster, indie ou qualquer outro adjetivo inútil semelhante, o que deu uma banalizada ao estilo. Artistas como a contestável Grimes e o enfadonho e mais contestável ainda Twin Shadow aparecem como sendo do gênero.

O grande lance do dream pop é viajar sem sair do lugar – e nos lembrar que, mesmo que em tempos de workaholics, consumo em massa, violência, poluição e Copa do Mundo, ainda há espaço para “unicórnios e lasers e voar pelo espaço”.