Empire – você provavelmente não viu, mas deveria

Série de televisão centrada na família Lyon e na empresa que pertence a eles, Empire foi criada por Lee Daniels e Danny Strong. A série foi ao ar pela primeira vez em janeiro de 2015, e desde então é transmitida pela FOX.

Em Empire, Lucious Lyon (Terrence Howard) é um rapper que saiu das ruas e prosperou na música, como cantor e através de sua gravadora. A história começa com o patriarca descobrindo que possui uma grave doença, e tem apenas três anos de vida, por isso precisa começar a preparar um de seus filhos – Andre (Trai Byers), Jamal (Jussie Smollett) ou Hakeem (Bryshere Y. Gray) –  para ocupar seu trono. Enquanto isso, Cookie (Taraji P. Henson), sua ex-esposa e também ex-sócia, retorna depois de passar 17 anos na prisão, disposta a recuperar tudo que perdeu.

Este não é um texto para te convencer a ver a série, mas sim para elucidar os motivos pelos quais você provavelmente não ouviu falar sobre ela, nem leu posts acalorados de seus amigos sobre os personagens da mesma.

Empire é uma série que eu acompanho desde foi lançada, o apelo à história e cultura negra me cativou desde o começo. Por isso, esperei que os amigos acompanhassem a série com o mesmo fervor que eu. Qual foi a surpresa quando percebi que a hype brasileira não chegou nem perto de consumir essa série?

Me pergunto sobre o que nos falta para perceber e ressaltar essa que é uma das séries de maior sucesso nos Estados Unidos? Afinal, Empire já quebrou recordes de audiência de séries consagradas, como Grey’s Anatomy e The Big Bang Teory.

Acredito que Empire seja talvez mais necessária no Brasil, que em seu país de origem. Temos dificuldade em comprar cultura negra, admirar cultura negra, amar pessoas negras. E Empire não nos dá uma versão polida e educada de pessoas negras (que em geral se relacionam com pessoas brancas), e sim, isso é sobre How to Get Away With Murderer e Scandal – séries que também tem a sua importância, mas que passam a imagem do negro que o brasileiro quer consumir.

O que queremos é uma versão limpa e politizada, um negro que “sabe se comportar”, um negro que ascendeu, enriqueceu, logo deixou de ser “mal educado”. Então não sabemos lidar com os conceitos que Empire traz, com mulheres vestidas com roupas chamativas e sensuais, relações afrocentradas e pessoas não magras exercendo papéis de importância na sociedade e tendo relacionamentos afetivos e sexuais.

Exatamente por isso, Empire é tudo que os brasileiros precisam consumir, porque ela é empoderadora, ela dá novas possibilidades às pessoas negras, a qualquer pessoa, na verdade.

Precisamos ver a Cookie, uma das principais personagens da série. Precisamos saber que ela foi traficante de drogas, porque essa era a única alternativa que ela tinha, conhecer suas amigas da prisão, nos apaixonar por todos os incríveis homens que ela conhece, ver uma mulher adulta às vezes sofrendo por amor, e às vezes apenas querendo um homem bonito em sua cama, sem nenhum problema em falar sobre as duas coisas.

Precisamos ver Cookie usando roupas que nossas mães nunca ousariam usar, ver ela contratando pessoas negras, trabalhando – e trabalhando muito – tendo total consciência de sua força e poder, e do valor de seu trabalho.

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Eu sei coisas.

Mas todo o peso dessa série não se resume a sua representatividade étnica, essa é uma série de minorias. Desde a assistente de Lucius Lyon, Becky Williams (Gabourey Ridley Sidibe), uma mulher negra e gorda, que é bem sucedida no trabalho e tem um homem lindo e sexy para chamar de seu (protagonizando uma cena de sexo que foi extremamente controversa nos EUA), ao Jamal Lyon, homem gay que precisa vencer o preconceito da família e da indústria, temos inúmeros exemplos de força e ativismo.

Ativismo esse que se categoriza pela simples existência, pela vida diária, pelas possibilidades infinitas do ser, extrapolando os limites que a sociedade impõe às minorias.

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Eu interpreto Becky. A muito, muito confiável e super, super linda assistente do Lucious.

Olhar para uma família negra, poderosa, problemática e unida, que sempre passa pela questão racial, mas não se resume a ela, é o que nós precisamos. Empire devia ser a nova bíblia dos afrodescendentes.

Então, se ainda não viu a série, prepare-se para adentrar um novo universo de possibilidades.

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Eu te fiz melhor. Não esqueça de me agradecer.
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Chimamanda e a arte revolucionária de ser mulher

Há quase dois anos me deparei com uma questão: quantas mulheres você já leu?

Na época achei que era uma cobrança profunda, quem eram as pessoas que eu prestigiava? Hoje, algumas páginas depois, eu entendo que não foi uma cobrança, mas sim um conselho, uma ajuda, ouso dizer uma salvação.

Das inúmeras coisas que o feminismo me ensinou a que mais carrego comigo é a importância da representatividade, de buscarmos nos cercar de boas referências, de tirarmos nossos olhares dos padrões impostos socialmente.

Como mulher, latino americana, negra e não-magra, padrões são o exato oposto do que eu represento, construir minha auto-estima referenciada nos filmes hollywoodianos e nos romances clássicos era uma missão utópica.

Então comecei a ler mulheres, ouvir mulheres, assistir mulheres, me cercar de referências que balizassem a construção do meu eu de uma maneira mais saudável.

bn-id265_wolfe_12s_20150428134615Numa dessas, em um beliche de hostel eu li pela primeira vez um livro da Chimamanda Ngozi Adichi. Passei dois dias quase sem sair do quarto, com a sensação de que qualquer minuto gasto longe daquelas páginas seria um desperdício.

Chimamanda ficou bastante conhecida quando um trecho de seu discurso para o TEDx foi usado em uma das músicas da Beyoncé. Vou pedir desde já que vocês ignorem esse discurso, não partam do pressuposto de que ele representa a literatura produzida por ela. Por mais que seja um dos melhores discursos que já ouvi/li, ele não tem a profundidade, vivacidade e leveza da escrita de Chimamanda.

Como mulher, e principalmente como mulher com aspirações a escritora, passei anos lendo romances (em geral escritos por homens) recheados de obviedades e clichês. Me deparar com uma escrita totalmente diferente da que estava acostumada a ler foi uma surpresa gratificante. Foi uma abertura de um novo horizonte, não só como um novo jeito de escrever, mas também como um novo jeito de olhar para a minha própria vida.

13525_ggO primeiro livro que li foi Americanah, que acompanha a adolescência e vida adulta de uma mulher nigeriana que migra para os Estados Unidos e depois retorna ao seu país.

Qualquer mulher fazendo arte por si só é um ato revolucionário. O relato do cotidiano de uma mulher, narrado por uma mulher, já é uma expressão artística importantíssima. Majoritariamente são os homens que ocupam esses lugares, eles que narram o que percebem do universo feminino, que nem sempre se aproxima do real.

Se Americanah não tivesse a profundidade que tem, se o livro não refletisse os aspectos tão intrínsecos do que significa ser uma mulher na sociedade atual, se ele não fosse tão visceral, ainda assim seria uma obra magnífica.

Acompanhar Ifemelu crescer, se apaixonar, perder seu amor, ter depressão, conhecer outros homens, trabalhar, voltar a seu país, escrever, viver… cada um desses momentos me fez mais próxima dessa mulher, e de outras milhares de mulheres no mundo. Me fez pensar sobre as dificuldades dos imigrantes, do que significa ser um africano no ocidente, do que significa não ter dinheiro – aquele não ter dinheiro que nos coloca nas posições mais baixas da sociedade. Do que significa ser uma mulher negra amando um homem, do que significa ser uma mulher negra amando um homem branco, do que significa ser.

É um livro que deixa com vontade de mais, de ler mais, de querer mais, de ser mais.

Se você for tomado pelo mesmo desejo que eu após terminar este, por assim dizer, relato, existem outros dois romances da autora publicados em português, Meio Sol Amarelo (que têm uma adaptação cinematográfica disponível no Netflix) e Hibisco Roxo.