Borboletas de cerâmica habitam Chapada dos Guimarães

Por Juliana Fernandez

Com origem na língua tupi, Panapana significa coletivo de borboleta. Nome apropriado para a junção de duas mentes criativas que buscam liberdade para confeccionar através da inventividade instintiva, peças de cerâmica que remetem um dos mais belos cartões-postais de Mato Grosso: a Chapada dos Guimarães. Estabelecido na cidade histórica, o Laboratório Panapana foi fundado no final de 2015 pela sul-mato-grossense Deborah Chaves, e pela coimbrense Mafalda Ramos. As peças de cerâmica produzidas pela dupla possuem a leveza e o mistério do minimalismo, e a paleta de cores mato-grossense, composta pelos três biomas encontrados no estado.

O duo se conheceu através de uma amiga em comum. Mafalda havia acabado de chegar ao Brasil, e buscava trabalhar em arqueologia, sua área de formação. Deborah, por sua vez, possui mestrado em física, e passou por design de moda. Em uma viagem juntas, as duas identificaram ideias e interesses em comum.

“A Chapada acabou por ser o nosso ponto de confluência, quando decidimos morar juntas. Decidi desvincular-me da minha formação acadêmica com o objetivo de me dedicar a estudar e experimentar com o som e com outras formas de expressão artística. A Deborah sempre teve interesse em arte e não tinha um curso voltado para essa área em Mato Grosso, e por isso, optou por estudar Design em Moda em Cuiabá. Assim, conheceu os conceitos de design que aplicamos no desenvolvimento das coleções do Panapana. Para além do seu trabalho, tem-se dedicado a estudar e fazer cursos na área de artes visuais. Panapana é o nosso laboratório de criação, onde aplicamos os nossos estudos em artes e música, desenvolvendo a nossa forma de expressão artística”, conta Mafalda.

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Deborah explica que a modelagem do barro surge como instinto do ser humano às necessidades do dia-dia, ao mesmo tempo consubstanciando uma comunhão com a terra, na argila.

“Tendo como inspiração a Chapada, concordamos que a cerâmica seria, por isso, o ponto de partida mais adequado para iniciar o nosso projeto, precisamente por essa conexão com a terra no contato com o barro. Escolhemos a cerâmica porque somos dotados de polegares oponentes, num universo humano voltado para si mesmo, imediato, mecanizado e desconectado do seu meio. Valorizamos e reaprendemos atividades artesanais como a confecção de cerâmica, o tricot, a costura, introduzindo também a pintura e a gravura. Cada peça é modelada por nossas mãos e mentes, sem o recurso a formas desnecessárias de estandardização”, diz.

As peças do Laboratório Panapana têm como principal influência a natureza, em suas formas orgânicas e cores. A primeira coleção lançada através dele se chama Apotropaikos, palavra de origem grega cujo significado é “Protetores”. A coleção é inspirada em plantas protetoras brasileiras, recorrentes nos lares em todo o país.

“Somos apaixonadas por plantas. Por ser um tema por demais amplo, optamos por associar as nossas coleções a determinados grupos de plantas. Estes grupos direcionam as nossas pesquisas e a criação das peças. A nossa intenção é também apresentar as plantas que estudamos em vasos, ilustrações e pequenos informativos. A nossa primeira coleção se chama Apotropaikos, plantas de proteção. Já nosso design remete à cerâmica japonesa do século XVIII e contemporânea, alguns artistas que admiramos são Kasuo Takigushi, Kae Takada, Takeshi Omura, Lisa Naples, Nancy Gardner, Michelle Summers, Ruan Hoffmann, Polly Fern, Jenny Mendes e Stig Lindberg. Designamos nossa estética, de forma jocosa, de minimalismo tropical”, revela Deborah.

Em seu processo criativo, as garotas aplicam conceitos de design para a elaboração de suas peças, desde a definição de um tema, sua metodologia de pesquisa e a elaboração da cartela de cores. Cada peça é única e vinculada a uma determinada coleção.

“O nosso percurso na cerâmica é recente e estamos sempre a experimentar. Gostamos de pensar que criamos peças para o nosso dia-a-dia, peças que se víssemos por aí, compraríamos, como se fossemos os nossos próprios clientes. Assim, criamos vasos, que enchemos de plantas; louça utilitária como bules, xícaras, potinhos, pratinhos; peças de bijuteria na forma de pingentes e pequenos patuás. Queremos que as nossas peças sejam tanto utilitárias, quanto artísticas, que carreguem um sentido”, finaliza Mafalda.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

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Irregularidades alimentares em tempos de luto

Por Juliana Fernandez

Quebro o ovo direto no prato. Tal qual um mau presságio em um mito grego, o que cai no macarrão instantâneo não é um ovo com gema amarelinha e saudável. Para o meu horror, uma gosma preta lovecraftiana entra em contato com o resto da comida, o negrume se dissolve no caldo vermelho, o cheiro de morte chega com força nas minhas narinas. Abafo um grito de desespero e com um pouco de pesar e bastante alívio jogo o jantar fora. Refaço a refeição com novos ingredientes, sem o ovo. Engulo tudo rapidamente, um tanto desanimada.

***

O acontecido se dá durante a noite, quando, como de rotina, preparo um miojo Turma da Mônica (sabor tomate suave) com muito creme de pimenta defumada, finalizado com um ovo cru misturado com o resto. Para dar substância, sabe? O prato é feito automaticamente por mim. Sem muito orgulho, assumo a certeza de ser a maior compradora de macarrão instantâneo sabor tomate suave desta parte da cidade: a quantidade varia entre oito a quinze unidades para consumo semanal. Embora eu desvie o olhar na hora de pagar pelo vício, os atendentes do mercadinho já me conhecem. Eu sei que sim.

É provável que atualmente eu seja também a maior compradora de energéticos fora de festas ou raves desta região da cidade. Nem sei se as pessoas ainda falam rave, mas acredito que o propósito da bebida continue parecido com este.Por experiência sei dizer quais delas são mais laxativas, quais são os sabores menos deprimentes e os mais efetivos.

Meus amigos estão preocupados com essa combinação, então venho parando aos poucos de mencionar minha rotina nutricional. “Mas é só até você terminar o seu TCC, não é?”, me pergunta um deles, meio temeroso. Brinco que estou cuidando do meu corpo como se ele fosse um templo… Em ruínas. Rimos de nervoso. Talvez essa seja a mais nova forma de auto-sabotagemTM maquinada pelo meu subconsciente.

Costumo evitar pensar em todas as vezes que me sabotei. Sou insone desde os doze anos, não é preciso de muita coisa para que eu passe a noite acordada, revirando na cama. Com a defesa da monografia cada vez mais próxima, as noites em claro se tornaram cada vez mais recorrentes. Comento “por cima” sobre a minha insônia com meus tios durante uma viagem de carro para Chapada. Eles dizem que eu preciso relaxar, e eles não estão errados.

Mas verdade é que eu não consigo relaxar, pelo menos não durante os últimos nove meses. Não relaxo desde o final de junho do ano passado por causa d’Ela. Meu intuito no início deste texto não era falar sobre Ela. Eu não falo sobre Ela. Não escrevo sobre Ela. Não escrevi sobre Ela no dia se sua morte, nem durante o sétimo dia de seu falecimento. Não escrevi sobre Ela quando se completou um mês de sua morte. Engoli o choro durante o primeiro Natal sem Ela. Justo Ela, que me ensinou através do exemplo que ser uma boa pessoa não significava ser cristã. E Ela definitivamente não era, apesar de seu passado católico, mas era sem dúvida a minha pessoa favorita no mundo todo.

Então, este texto, que tratava dos meus péssimos hábitos alimentares, chega até aqui pela minha crença de que a tristeza e o luto se fazem presentes das formas mais estranhas e misteriosas.

Minha mãe, Ela, faleceu sem se despedir. O ataque fulminante veio enquanto eu tomava banho. O som do chuveiro abafava o barulho de fora, mas eu ouvi mamãe gritar. A princípio, achei que ela estava ralhando com meu padrasto. Era costume os dois discutirem sobre assuntos mundanos, ambos muito questionadores. Segundo astrólogos, essa rotina se dava pela natureza ariana dos dois. E lá em casa a gente falava com frequência e também berrava bastante. Mas… Aquela vez em particular, mamãe não parava de falar.

Fechei a torneira e no mesmo instante soube que minha mãe gritava de dor. Eu nunca tinha escutado mamãe berrar de dor, não daquele jeito. Saí correndo do banheiro, a toalha enrolada no meu dorso, os pés escorregando pela casa a procura d’Ela. Cheguei ao portão e meu padrasto já saia com o carro, minha mãe estava no banco de trás, mas eu não conseguia vê-la. Meu irmão mais novo estava parado no meio da sala de estar, aturdido.

Já na minha memória seguinte, estou no meu quarto. Tanto eu quanto mamãe somos parte da Seicho-No-Ie, e naturalmente, li uma sutra, a oferecendo para a melhora d’Ela. Para minha surpresa e desconforto, durante aquela meia hora de leitura, eu só conseguia pensar “nossa, mamãe realmente viveu uma boa vida”, e “ela fez tudo que sonhava fazer e viveu com a liberdade que ansiava tanto”.

Minha mãe foi a única a acreditar na minha vida após uma tentativa de suicídio, o que tornava ainda mais ingrato o fato de eu não acreditar na vida dela. Me condenei. Mamãe não estava morta e aquela era certamente uma atitude não-filial de minha parte. No dia seguinte, bem cedo, avisei os amigos mais próximos que minha mãe estava hospitalizada, pedi orações e boas vibrações. Meia hora depois bateram na porta do meu quarto. Abri e dei de cara com meus tios e meu padrasto. Eles avisaram que “o ataque foi demais para sua mãe” e eu não entendi.

– Ah, mas ela ainda tá viva, não tá?

Questionei temendo a resposta.

Uma semana depois escrevi um pequeno texto para ser lido em sua missa do sétimo dia, justo d’Ela, que não era cristã. No final, não precisei ler. A missa era muito curta e várias pessoas haviam falecido, o padre não teria tempo para que parentes de todos falassem, e se não pudesse ser todos, que não fosse nenhum. Suspirei aliviada. Realmente não estava pronta para falar sobre Ela, especialmente em um lugar tão público. Justo eu, que assim como Ela, nem sou cristã.

Desde então evito falar sobre Ela, com medo de minha própria reação. Depois do falecimento d’Ela, fui morar com meus tios, irmãos de mamãe. A família se separou aos poucos. Meu irmão do meio foi morar sozinho. Meu irmão mais novo, que é meu xodó, ganhou uma bolsa de estudos em Foz do Iguaçu, e está morando lá desde o início do ano. Meu pai se faz presente como pode e a gente se esforça para se ver com regularidade. Whatsapp é um must para famílias espalhadas.

Eles me observam, mas não falam muito. Eu os observo e também fico calada. Nossa família é bem pequena, não tanto por opção. Aparentemente, as pessoas do nosso ramo familiar morrem bem cedo e meus tios já tiveram suas porções de luto ao longo da vida, cada um com sua própria história. Eles já adultam há muito mais tempo que eu, uma adulta em treinamento. Eles me observam, me apóiam e só opinam quando peço.

Este não é o meu primeiro luto. Quatro anos antes de mamãe falecer, foi vovó, que eu também amava muito. Mês passado, minha gata Jorja também morreu. Houve uma época que nós tínhamos muitos gatos, e Jorja era sem dúvida a preferida d’Ela. Jorja também era meu último vínculo com minha vida A.c.M. (Ainda com Mamãe).

Eu já passei por tudo isso antes, eu sei que daqui dois anos eu estarei bem. Enquanto esse momento não chega, vou vivendo como posso. Destruindo meu corpo das maneiras menos nocivas que encontro. Acabei de virar um energético Monster, do verde, e já sinto meu estômago revirar. A água para o miojo está esquentando no fogão.

 

 

 

*Ilustração de ssnchan

Ser mulher no Brasil infelizmente não é tão bom

Por Juliana Fernandez

O Brasil é o pior país da América do Sul para meninas; ele também é um dos piores do mundo para garotas, ficando atrás de países como Iraque, Ghana e Índia. Segundo o estudo Every Last Girl da ONG internacional Save The Children, o Brasil ocupa a 102ª posição no Índice de Oportunidades para Garotas, publicada ano passado. A lista é composta por 144 países. Para a criação do Índice foram considerados dados sobre gravidez na adolescência, mortalidade materna, casamento infantil, representação das mulheres na política e conclusão do ensino médio.

Na lista, o Brasil se destaca por ser um “país de renda média superior, que está ligeiramente acima no índice que o pobre e frágil Estado do Haiti”, que ocupa a 105ª posição. Para a defensora pública e presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher, Rosana Leite, a realidade brasileira é machista, na qual a representatividade feminina é tímida.

“O homem não entende de leis que a mulher precisa, o que ajuda na hierarquização do homem sobre a mulher. As leis que protegem mulheres são muito novas, a própria lei Maria da Penha tem apenas 10 anos. Entretanto, hoje as mulheres são mais abertas ao amparo dessas leis, que são afirmativas. É um trabalho de formiguinha, mas já no ano passado houve a Primavera das Mulheres, na qual mulheres relataram os abusos e situações que passaram em suas vidas. Sou muito esperançosa sobre o futuro, especialmente no que se refere ao futuro das meninas”, comenta a defensora pública.

Em todo Brasil, vivemos rotinas e dinâmicas machistas que transformam e destroem vidas femininas desde o nascimento de uma mulher. A jovem M. R., 20 anos, sofreu uma série de abusos sexuais pelo então namorado de sua mãe aos 6 anos de idade. Segundo o relato da jovem, sua família não tinha consciência a violência pela qual a filha passava.

“Minha mãe nunca gostou que eu ficasse perto de nenhum homem, justamente por eu ser uma menina. Eu era uma criança e não entendia o porquê disso, então teimava. Quando fiz 6 anos, começaram os abusos. Ele me fazia acariciar o órgão genital dele. Por um tempo, não vi maldade nisso, para mim, era apenas um carinho em alguém que eu gostava. Mas ele começou a me dar presentes, então minha mãe desconfiou e teve uma conversa comigo sobre assédio e pedofilia, questionando ao final se eu estava passando por isso, mas eu neguei porque estava envergonhada. Logo depois minha mãe terminou seu relacionamento com ele”, lembra a jovem.

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Ilustração de Daniel Simmonds

Após o abuso, M.R. se tornou uma menina que não gostava de ser tocada pelas pessoas. Durante a adolescência, não tinha relações duradouras. Segundo ela, era porque criava repulsa tanto dela quanto do companheiro.

“Já perdi as contas de quantas vezes passei mal na rua porque homens chegaram perto de mim, ou porque eles andavam no mesmo sentido que eu. Hoje eu namoro um menino iluminado, que por ser meu amigo de longa data, atravessa esse inferno comigo todos os dias e aguenta os meus ataques de pânico. Contei sobre o abuso para a minha mãe quando fiz 19 anos. Eu tenho ciência de que preciso de ajuda, porque não é fácil lidar com isso. Mas só de pensar em falar nisso, já dói, já me deixa desconfortável. É uma coisa que, se eu pudesse, apagaria da minha história”, desabafa M.R.

Segundo a integrante do coletivo Frente Feminista da UFMT, Lígia da Silva, os dados do Índice de Oportunidades para Garotas trazem tensão, já que mostram que o Brasil ainda necessita progredir para se tornar um país no qual meninas tenham a oportunidade de atingir seu potencial máximo em toda e qualquer área de suas vidas.

“Enquanto mulher, mãe, trabalhadora e feminista, vejo que ainda temos que enfrentar uma luta muito grande para que as futuras gerações de meninas possam tomar um fôlego, sabe? Eu vejo muitas meninas falando sobre feminismo nas escolas, mas ainda não conseguimos atingir muitas mulheres. Muitas mulheres ainda são invisíveis socialmente pelo recorte de classes que nós temos. Atualmente, o número de analfabetismo em Mato Grosso é maior entre as mulheres do que entre homens. Os dados que recebemos são alarmantes; a média de feminicídios em Mato Grosso é maior que a médica nacional. Nós não temos um governo ou uma segurança que se preocupe com os casos de violência contra as mulheres”, conta Lígia.

De acordo com os dados, um dos principais problemas enfrentados pelo país é a falta de representação parlamentar. A lista “Mulheres em Parlamentos Nacionais” criada pela União Interparlamentar coloca o Brasil na 155ª posição entre países com representação feminina na política; entre os 513 deputados federais eleitos em 2014, apenas 51 são mulheres. Para a cientista política Christiany Fonseca, o Brasil é um país que foi formado dentro de uma perspectiva patriarcalista, onde a figura masculina ainda está muito presente nos espaços, e isso afeta efetivamente na condição e condução de como as mulheres pautam seu cotidiano e a sua entrada no aporte político.

“Grande parte dos partidos no Brasil são comandados por homens. Ao longo dos anos, criamos formas de ampliação legal da inclusão da mulher, efetivamente, essas condições dentro dos partidos são desiguais. Não se dá condições para que as mulheres possam disputar lugares de poder em pé de igualdade com os homens. As mulheres vêm tentando lutar por uma inclusão, desde quando não tinham direito ao voto. A primeira deputada federal brasileira foi eleita em 1934, nós temos a primeira senadora eleita em 1990. A inclusão da mulher no cenário político é muito recente, e quando ela se insere ainda sofre muitas limitações”, finaliza Christiany.

 

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Autoria da ilustração sobre o texto: Daniel Simmonds.

Vaginismo – o corpo da mulher ainda é um tabu

Por Juliana Fernandez

Muitas vezes causado por medo e estresse excessivo, o desconforto durante a relação sexual afeta de 3% a 5% das mulheres no mundo todo. Chamado vaginismo, essa disfunção sexual é rara e pouco conhecido entre mulheres. Descrito como uma síndrome psicofisiológica, o vaginismo é caracterizado pela contração involuntária dos músculos ao redor do orifício vaginal, causando dor e até a impossibilidade de manter relação sexual. Sem causa física, o distúrbio geralmente surge em mulheres que sofreram traumas e abusos sexuais.

Uma das poucas profissionais com conhecimento da área, a fisioterapeuta pélvica Maria Aparecida Araújo Macedo conta que a disfunção afeta drasticamente a autoestima das mulheres já na adolescência.

“Geralmente mulheres vaginicas sofrem com depressão, tem uma grande dificuldade relacionamento interpessoais. A doença pode levar a casamentos não consumados e acarreta  distúrbios emocionais. Mulheres que tem vaginismo fica com autoestima baixa por não conseguir  levar uma vida sexual saudável. Por isso, é recomendado que se trate a disfunção em seu inicio, normalmente durante a juventude da mulher”, explica.

Ela também conta que apesar de sempre ocorrer nos músculos perineais e elbadores, a disfunção se divide em dois tipos: primária e secundária.

“Apesar de ambos causarem a contração dos músculos do assoalho pélvico e adutores da coxa, o vaginismo primário é quando a mulher é incapaz de manter relações sexuais devido às contrações involuntárias da parede da vagina. Já o vaginismo secundário ocorre quando a mulher teve relações sexuais, porém com dificuldade em ter a penetração e dores após a relação, que também chamamos de despareunia”, diz a fisioterapeuta.

A antropóloga Poliana Queiroz, 29 anos, conta que sentiu os sintomas do vaginismo durante sua primeira relação sexual aos 18 anos.

“No inicio, achei que era por ser a primeira relação. Com as outras relações sexuais eu também sentia muita dor. Eu continuava estudando, me tocando, pesquisando… Mas eu ainda sentia muita dor. Até ter um momento que eu não conseguia mais ter penetração alguma. Era muito dolorido, mas eu tinha desejo. Eu procurava ginecologistas e elas sempre falavam que eu precisava relaxar”, lembra.

Segundo Poliana, a falta de informação disponível sobre vaginismo dificultou tanto o diagnostico médico quanto seu autodiagnostico, que ocorreu após longas buscas em sites e redes sociais.

“Li muito até encontrar o termo ‘vaginismo’. E a explicação de uma fisioterapeuta era de que por medo e pressões, por a mulher não ser aberta a conversar sobre sexualidade, ela pode ter um retraimento involuntário na relação. Por mais que a mulher sinta desejo, ela se fecha naturalmente. Foi então que pensei ‘puts, eu tenho isso’. Pesquisando, encontrei uma fisioterapeuta aqui em Cuiabá. Ela explicou para mim o que eu tinha, e que o meu vaginismo nem era grave, em uma escala, o meu era mediano. Tanto é que o meu tratamento foi rapidíssimo”, comenta a jovem.

Poliana conta que, para sua surpresa, encontrou vários grupos de apoio em redes sociais. Neles, mulheres de diferentes idades trocam relatos e dicas sobre o processo de cura da disfunção.

“Através das redes sociais, encontrei grupos de meninas e entendi que essa é uma doença que atinge diversas mulheres e pouco se fala sobre o assunto. Por eu ser antropóloga e ter estudado gênero, e saber das pressões sociais que as mulheres sofrem, acho que este assunto precisa ser discutido mais abertamente. Assim, mais mulheres terão ciência da doença, já que muitas passam por isso sem saber que existe cura”, explica Poliana.

De acordo com Maria Aparecida, o primeiro passo do tratamento é a consulta com um ginecologista, que irá expor a situação e certificar se a mulher realmente possui vaginismo.

“Seguindo essa consulta e fechado o diagnostico, é aconselhável iniciar o tratamento com um fisioterapeuta especialista na área. Dependendo do caso, é recomendável tratamento psicológico conjunto com um profissional que atue na área da sexualidade. Muitas mulheres tem receio de procurar ajuda profissional, assim como temos profissionais não capacitados. O tratamento recomendado contém exercícios para o assoalho pélvico, terapia manual, eletroestimulação, massagem perineal, liberação de pontos de gatilho e uso de dilatadores vaginais”, expõe.

Para Poliana, é preciso que a classe médica se sensibilize com as doenças sexuais femininas, para que assim aja uma maior propagação de informação entre médicos e pacientes.

“Na verdade, o vaginismo não é considerado uma doença. Porque o prazer feminino, historicamente, é um pecado. E isso é internalizado pelas mulheres, que não se percebem como doentes porque não tem informação e não sabem que isso pode ser tratado. No meu caso, através dos grupos do Facebook eu conheci outras pessoas que passavam por situações similares à minha. Mas eu também acho que tem que ocorrer grupos de estudo, e principalmente, tem que ocorrer dialogo para que as mulheres possam se tratar e ser  felizes”, finaliza.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Eternotemporário, o lambe-lambe é exposição artística e adorno urbano

Por Juliana Fernandez 

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Lambe-lambe de Hugo Alberto.

Coloridos ou em preto e branco, chamativos ou discretos. Desenhos grudados nas superfícies da cidade tornam o cinza de prédios e obras não finalizadas parte de uma arte maior. O cotidiano cuiabano se torna uma colagem visual, com diferentes mensagens e olhares. Comunicação e arte é colada na capital através  dos lambe-lambes, ou apenas lambes. Posters de diversos tamanhos que são usados há séculos na publicidade, desde o inicio do milênio eles aparecem pelas cidades brasileiras como formas de intervenções artísticas. De papel e cola, o lambe-lambe é temporário, mas eterno enquanto dura. Através dele, se manifesta críticas e ironias, até declarações de amor e o silêncio.

Foi nessa onda que surgiu o Clichês na Rua, formado por Talissa Briante, Luana Brandão e Thiago Barbosa. O contato com os lambes surgiu no Facebook, quando uma das integrantes viu uma postagem sobre o assunto e se encantou com a ideia. “Nós sempre gostamos de intervenções urbanas. De levar a arte para a rua e comunicar com as pessoas que estão nela. A Talissa teve a ideia de fazer as frases e colocar poemas e versículos pela cidade”, explica Luana, de 26 anos.

Apesar do inicio despretensioso, aos poucos o projeto ganhou forças e recebeu carinho de quem vê. “A gente fez o Instagram e a página do Clichê, e quando vimos, as pessoas tiravam fotos nas ruas dos clichês que a gente produziu e marcavam a gente nas fotos, o lambe tem um retorno muito forte”, comenta Luana. “Não tínhamos criado tanta expectativa. Foi muito bom sentir que as palavras de amor que levamos tiveram um impacto positivo”, completa Talissa.

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Lambe-lambe do Clichês na Rua.

Entre as respostas recebidas por eles, Luana guarda consigo uma em especial.”Na fanpage do Clichês uma mulher escreveu para a gente que ela estava no ponto de ônibus e viu um clichê nosso, nele estava escrito ‘Calma! Ainda há tempo’. Ela disse que estava super apressada, mas se sentiu mais tranquila quando leu o Clichê. O lambe falou com ela de alguma forma.”

Já Hugo Alberto, de 25 anos, utiliza o lambe-lambe como um meio de levar sua arte para a rua de uma forma diferente. O artista plástico cria em seu ateliê, e depois cola os lambes pela cidade. “Me identifiquei com o lambe porque me atrai esteticamente e é uma maneira rápida de intervenção. Geralmente, eu tiro um dia para produzir os lambes e no próximo já saio para colar”, expõe.

No inicio, Hugo produzia desenhos complexos, mas hoje prefere trabalhar com um único elemento que será distribuído por Cuiabá. “Eu fazia os lambes como se tivesse fazendo uma tela mesmo, com vários elementos e de tamanhos maiores. Hoje escolho um elemento que eu esteja trabalhando mais, como estudo de forma e cores, e faço repetições. Como se retirasse uma parte do cenário todo e o levasse para rua”, diz.

Mesmo com seu valor artístico, segundo a assessoria da Polícia Judiciária Civil, o lambe-lambe é arte que só pode ser colado em espaços públicos com autorização. Caso não possua autorização, ainda se enquadra em vandalismo. Ainda segundo a assessoria, não existe uma lei especifica sobre intervenções artísticas em Mato Grosso. Independente de regulamentações, é uma forma rápida e prática de passar uma mensagem, seja ela através de imagem ou palavra. A temporariedade de cada lambe, assim como sua transformação após colado através das forças naturais, é o que o torna único.

Ksuwt é um cuiabano de 20 anos que decidiu adotar o pseudônimo para compartilhar sua arte com a cidade. “Sinceramente, eu não ligo muito para ispão. Regulamentada ou não, a minha linha de movimento é independente e é de ocupação e resistência. Eu colo em um ponto que eu acho interessante, e se tirarem eu coloco de novo. Se tirarem de novo, eu já procuro um outro ponto”, expõe o artista, que observa um tratamento mais positivo do estado em relação à arte de rua nos últimos anos.

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Lambe-lambe de Ksuwt.

Conhecido por trabalhar com feições femininas e desenhos no estilo retrato, Ksuwt vê no lambe-lambe uma forma prática de compartilhar arte. “É importante que aconteçam essas intervenções, primeiramente para dar um charme para a cidade. Estamos cheios de obras paradas, abandonadas ou mal acabadas. Essa cor cinza de concreto predominando não é bonito, é feio.”

Assim como Ksuwt, Hugo acredita na capacidade do lambe-lambe de redefinir um determinado local, tornando a cidade mais agradável para o povo que transita sobre, sob, e dentro dela. “Prefiro colar em casas abandonadas, acho que resignifica o lugar. Quem é artista tem necessidade de se expressar, e qualquer forma de intervenção muda o cotidiano da cidade. A história que a cidade te conta vai tomando outros rumos”, diz.

“Intervenções também são importantes para mostrar a cena underground dos artistas da cidade. Nem sempre a arte vai estar dentro de museus e exposições, mas também em um muro bem alto, um poste, um viaduto. Tira a morbidez da rotina. É legal estar em um ônibus ou carro e ter algo interessante para olhar, algo que não é um outdoor”, finaliza Ksuwt.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Autoreverência através do Big Chop

Por Juliana Fernandez

Com o boom de alisamentos no fim da década de 90 e inicio dos anos 2000, meninas de cabelos crespos e cacheados aprenderam submeter seus cabelos à pesadas químicas desde cedo.  Influenciadas pela família, amigos e televisão, elas abriram mão dos cachos por cabelos mais lisos e, pelo menos em teoria, mais fáceis de cuidar. Essas garotas tentaram de tudo um pouco: de escova progressiva, definitiva e inteligente até relaxamentos. Com ou sem formol. Entretanto, a partir de 2010 essa geração de meninas, unidas através da internet, começou a se perguntar se o que procuravam era realmente um cabelo mais prático, ou se o que buscavam era uma maneira de serem incluídas na sociedade. Foi o inicio de uma geração de jovens – especialmente negras -, com tranças, turbantes e muito cabelo natural.

A busca pelo cabelo sem química não é fácil. Para conseguir os cachos de volta, elas passam pela transição capilar, que é um processo no qual os tratamentos de alisamento são abandonados para que o cabelo cresça sem química. O processo pode ser um baque à autoestima, já que a raiz do cabelo cresce com a textura natural enquanto o resto do cabelo continua liso. A transição capilar pode durar anos, dependendo do tamanho do cabelo de cada uma. A norma é o cabelo alisado, e muitas garotas começam a ter seus cabelos alisados por mães, tias e avós ainda na infância.

Estudante de arquitetura, Gizele Mesquita não lembra quando começou a relaxar o cabelo. A jovem de 24 anos teve seu cabelo relaxado por suas tias.

“Eu era muito pequena e morava com as minhas tias. Tem que ter paciência para lidar com o cabelo crespo. Como eu não sabia cuidar, e as minhas tias tinham outras coisas para fazer, elas acharam melhor que eu começasse a relaxar o cabelo para facilitar o penteado. Com o tempo, meu cabelo ficou sem forma. Eu usava Hair Life, que fedia muito. Era uma coisa bem complicada”, lembra.

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Ilustração de Ojo Agi.

Ela decidiu trocar de química aos 15 anos e começou a usar Guanidina, que é na verdade uma mistura de carbonato de guanidina com hidróxido de cálcio. O produto queimou seu couro cabeludo e chegou a criar cascas em sua cabeça.  Com história semelhante, a publicitária Leilaine Rezende, começou a relaxar o cabelo com 13 anos.

“O meu cabelo sempre foi rebelde e volumoso. Ele era contido em um rabo de cavalo no topo da cabeça, com a frente bem lisa, rente ao couro cabeludo e sufocada por muito creme. Isso gerava uma caspa sem igual. Tinha vontade de tê-los soltos. Foi quando uma cabeleireira, amiga da família, sugeriu que eu fizesse um relaxamento leve”, conta Leilaine. Por causa da química, seu cabelo passou de loiro escuro para ruivo queimado, cor que segundo ela, lembrava água de salsicha.

A decisão de voltar ao cabelo natural não foi fácil para ambas. O processo de transição capilar de Gizele começou em 2014, quando foi selecionada para um intercambio em Portugal. Após chegar ao país de destino, notou que o produto utilizado para alisar os fios não era encontrado na região.

“Eu fui deixando, e as pessoas lá achavam bonito o cabelo cacheado. Eu achava muito feio do jeito que estava, com a raiz grande. Mas os meus amigos e conhecidos de lá elogiavam bastante. O meu cabelo era mais um na multidão, eles não estavam nem ligando se a raiz estava aparecendo ou não. Ao mesmo tempo, eu recebia mensagem por inbox de amigos e família aqui no Brasil que pediam para eu pentear ou alisar meu cabelo”, explica.

Quando voltou para Cuiabá, Gizele já havia decido parar de alisar o cabelo. Sua decisão chocou sua família e seus amigos. Ela conta que, além de receber criticas e olhares incomodados, precisou lidar com amigos que decidiram realizar uma intervenção para que alisasse o cabelo.

“Para os meus amigos, eu estava passando muita vergonha. Eles falaram que as pessoas estavam comentando sobre o meu cabelo. Meus amigos perguntaram se eu penteava meu cabelo e se eu tinha espelho em casa. Para eles, eu precisava ‘dar um jeito’, como se fosse fácil, como se só a fala deles pudesse tornar o meu cabelo super hidratado. E eu tenho que levar em consideração que faço arquitetura, que é um curso que preza pela aparência”, relembra a estudante.

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Ilustração de Ojo Agi.

Após o episódio, Gizele realizou o Big Chop, ou BC (Grande Corte, em português). Maneira literal de cortar o mal pela raiz, no BC é removido todo comprimento do cabelo que tenha química. Algumas mulheres chegam a raspar os cabelos, outras cortam as pontas aos poucos até retirar toda a química do cabelo. Quando Leilaine fez o BC em novembro de 2012, as pessoas mais próximas se assustaram.

“Me chamavam de louca, inconsequente e de sapatão. Achavam que eu tinha perdido a vaidade e que isso me faria perder o namorado. Sofri muito. Chorava quando tinha que sair e não sabia que roupa me deixaria mais feminina e menos girafa”, revela.

Segundo Gizele, assumir os cachos a ajudou a se sentir mais empoderada, além de se assumir enquanto mulher negra.

“Antigamente, eu tentava embranquecer nessa cultura do branqueamento. Eu falava que meu cabelo era cacheado, mas não é. Ele é crespo. Leva um tempo para a gente aceitar e saber lidar com esse tipo de coisa. Porque ter cabelo crespo é assumir ser negro, e isso é complicado na sociedade que vivemos. Foi meio que paralelo o empoderamento em relação ao meu cabelo e a questão racial mesmo. Não tem como isso ser separado”, conta.

Para não desistir do processo de transição capilar, tanto Gizele quanto Leilaine contaram com o apoio de outras mulheres cacheadas e crespas através das redes sociais. “Elas foram essenciais no meu processo de aceitação, de afirmação de identidade e de contato com os cuidados ideais para o meu cabelo natural. Foi através do Instagram e do Facebook que eu aceitei que meu cabelo tinha a sua beleza, que existem técnicas mais naturais para realçar a textura e a saúde dos fios crespos. Vi quais eram as questões sociais e políticas que envolviam o preconceito sofrido e isso fortaleceu mais a minha decisão de assumir”, comenta Leilaine, que hoje administra o Ninho de Cacho, um perfil no Instagram sobre aceitação e enaltecimento do cabelo natural que conta com mais de 3 mil seguidores.

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Ilustração de Ojo Agi.

O coro é reforçado por Gizele.“É como você estivesse no consultório de um psicólogo. As meninas dão apoio. Tem menina que posta foto e escreve que não está mais aguentando as criticas da família e dos amigos. Ai vem 70, 80 meninas mostrando fotos dos cabelos delas, falando para não desistir e mostrando o antes e o depois. Sempre tem depoimentos de pessoas que passaram pela transição, aconselhando as meninas a não desistirem.”

A publicitária Jessyca Silva, de 25 anos, está em processo de transição capilar há 15 meses. Para ela, não só as redes sociais se tornaram peça de apoio para quem deseja passar pelo processo, mas também os movimentos sociais.

“A internet me ajudou bastante em relação a como cuidar do cabelo, quais produtos usar e empoderamento. Ver outras mulheres que passaram por isso e hoje tem cabelos cacheados lindíssimos ajuda muito. Os movimentos sociais com mulheres também me ajudam bastante. A gente se sente melhor ao ver que existe tantas mulheres iguais a você, com os mesmos medos, dramas e cabelos. É muito bom quando a gente se liberta do que deveríamos ser, para finalmente ser apenas a gente”, finaliza.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Alienígena do cerrado – contato de terceiro grau com Hilda Kobayaschi

Por Juliana Fernandez

Através do emaranhado de conexões virtuais conheço fantásticos artistas que, de qualquer outra maneira, provavelmente não teria acesso às suas obras. O sentimento de descoberta se torna mais rápido. No primeiro clique, o artista obtém a minha momentânea atenção. No segundo clique, acesso seu trabalho completo, seja por Instagram, seja por site próprio, seja por fanpage. Eu estou acostumada com esse processo, oras, eu inclusive utilizo dele para levar o meu trabalho para outras pessoas. Justamente por estar tão habituada, o momento que conheci a obra de Hilda Kobayaschi ficou gravado na minha memória.

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Obra de Hilda Kobayaschi, fotografia de arquivo pessoal.

Veja só, quando eu digo “a obra de Hilda Kobayaschi”, me refiro a uma singular obra, um único quadro. Não sei o nome dele, só sei que ele é diferente de tudo que eu já havia visto de um artista regional, especialmente quando levo em consideração a idade do quadro. Escondido na escuridão do terceiro andar do jornal que estagio, o quadro aparece como uma revelação. Ao vê-lo, sinto a mesma emoção de Maria Madalena ao tocar o Santo Graal pela primeira vez. A temática do quatro é alienígena. É impossível falar de arte e alienígenas sem falar do lendário H. R. Giger, falecido há alguns anos. Entretanto, a obra de Kobayaschi em nada lembra o suiço. A temática alienígena é universal por natureza, mas a artista consegue representa-la de maneira genuinamente regional. Pintado em 1998, o quadro se torna maior de idade neste ano. Eu tinha uns cinco, seis anos quando ele foi feito.

No que capta a minha atenção, aparece uma mulher azul, que adormece serena em segundo plano. Seus seios parecem morros, e morros parecidos com seus seios aparecem ao fundo. Dos bicos dos morros saem alienígenas que parecem formigas. Uma nave globulosa está chegando ou partindo. De familiar encontramos o planeta Terra ao fundo. Entretanto, vê-lo assim tão longe não é familiar, o que torna Terra também alienígena. Por ultimo, o primeiro plano composto por plantas rasteiras, características do Cerrado.

As plantas são o que conectam a obra com o estilo Naif, que a internet me ensinou ser um estilo no qual o artista capta seu próprio cotidiano, utilizando recursos próprios para levar à superfície escolhida paisagens, festas populares e atividades de lazer. A internet também me ensina que este é o estilo de Hilda Kobayaschi. Ela também ensina que, pelo menos no mundo online, Hilda – aqui já a chamando pelo primeiro nome – é muito misteriosa. Da pouca informação coletada, descubro que Hilda também é compositora, toca viola e berrante. Me apaixono mais por ela. Eu acredito em mulheres renascentistas, capazes de exceder em diferentes áreas da arte. Ver Hilda tocando berrante me dá esperança de que eu também não preciso escolher, que eu também posso exceder em diferentes áreas.

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Nessa foto Hilda aparece tocando berrante, a foto foi retirada do twitter @Rio2016

Procuro no Facebook e encontro o perfil de Hilda Conceição Kobayaschi. A descrição diz em letras maiúsculas “SOU ARTISTA PLÁSTICA, NO MOMENTO ESTOU MAIS DEDICANDO A ESCOLA DE MÚSICA VIOLA CAIPIRA” seguida de quatro pontos de exclamação. Ela mora em Campo Grande, mas é mato-grossense de Alto Paraguai. Hilda tem algumas fotos de obras em seu perfil. Checo a assinatura delas com a da obra que gosto tanto. É ela mesma, Hilda Kobayaschi. Momento de tensão: envio um pedido de amizade ou não? Ela não me conhece, não tem motivos para aceitar. Para piorar, ela deixou bem claro em letras maiúsculas e quatro pontos de exclamação de que não está trabalhando com artes plásticas no momento. Quem sou eu para importunar uma senhora tão inspiradora que no momento está se dedicando à escola de música da viola caipira?

Quatro dias depois, com o coração na mão, envio o pedido de amizade. Segundo o perfil de Hilda, a ultima vez que ela acessou o Facebook foi no inicio de novembro. E ela não acessou até o fechamento deste texto. Ela não precisa, vive muito bem no mundo não-virtual, ou assim gosto de imaginar. Na minha cabeça ela é metade humana, metade fictícia. Misteriosa em tempos de redes supostamente sociais. Hilda é como seu quadro que me causou tanta comoção. Tão humana quanto alienígena, tão próxima quanto distante. Entretanto, não perco as esperanças. Já tenho ensaiado o que vou escrever para ela caso aceite meu convite de amizade, mesmo sabendo que na hora vai me dar um nervoso resultando na mensagem “meu deus do céu eu amo muito o trabalho da sra”.

Perfilados, vol. 1 – Dona Dorce, a tia dos livros

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Fotografia por Isabela Meyer

Por Ana Flávia Corrêa

É com um maço de cigarros e, muito provavelmente, com uma garrafa de café extremamente amargo que dona Dorce – a tia do livros – atende, de manhã à noite, os leitores que visitam a Biblioteca Livre, no bairro São Mateus, em Várzea Grande.

A mulher, de 46 anos, há cerca de um concilia seus afazeres domésticos com o cotidiano das crianças, adolescentes e adultos que vão até a biblioteca à procura de um livro, conselho ou meio minuto de prosa.

Entre o asseio das roupas, o cuidado com seus seis gatos e com suas plantas, é certo que alguém baterá palmas em frente à geladeira colorida instalada em frente da casa de dona Dorce e ela sairá, aos gritos, para solucionar o “problema” dos pequenos -ou grandes – leitores.

Foi em novembro de 2015 que ela, seu marido Eder Junior e seu filho mais velho, Lázaro Thor, decidiram montar a biblioteca. Misturando um sonho antigo, a falta de dinheiro e o improviso, a geladeira que estava encostada se transformou em um acervo de livros de todos os gêneros.

O marido, pintor e faz-tudo, ficou responsável pelas engenhosidades, já o filho, estudante, se incumbiu da arrecadação dos livros e restou à dona Dorce a função de “bibliotecária”, da qual ela se adaptou rapidamente.

A tia dos livros, que estudou até a oitava série, cataloga as doações, faz o cadastro dos leitores, anota os empréstimos e dá dicas para os que vão até a “geladeiroteca” sem um pedido específico.

“Acho que você vai gostar de O vendedor de sustos”, diz ela a um menino, sentada na calçada enquanto folheia a obra do escritor João Anzanello Carrascoza.

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Fotografia por Isabela Meyer

Há um consenso entre as crianças. A maioria, segundo ela, voltam satisfeitas e em busca de  um “pitaco” novo.

Dona Dorce , no entanto, não se restringe aos conselhos literários. Ela, que sabe o nome de todos os leitores da biblioteca, arranja tempo para conversar com os jovens durante o empréstimo dos livros e para “assuntar” sobre os problemas cotidianos.

Os leitores, principalmente os mais jovens, adquiriram um vínculo materno com a tia dos livros, que chega a visita-los em casa caso constate que algo não está bem.

“Dia desses, no mercado, vi essas duas crianças pegando comida no lixo, aqui perto. Trouxe elas aqui pra casa. Elas estavam todas sujas, cheias de machucados e com fome”, disse ela, durante conversa.

“A mãe deles estava há dias sem aparecer em casa, aqui na Cohab, tinha deixado os dois com a irmã mais velha, que também estava com fome. Eu chamei o conselho tutelar e eles levaram elas. Hoje a mãe voltou, eles estão bem cuidados e vem sempre na biblioteca”, ela completa, orgulhosa.

Em casa, não falta tempo para o resto das atividades, o café sai de hora em hora e tudo está sempre aconchegante para receber os filhos legítimos e os adotados, que encontram morada na casa toda enfeitada e no riso alto de dona Dorce.

Em meio a tantos afazeres e com tempo para cuidar de tudo e de todos, a tia do livro, quando questionada sobre quem cuida dela, responde:

“Minha filha, quem cuida de mim é eu mesma, porque se não lascou o resto.”

Após adiamento, Mostra de Cinema Negro começa em Cuiabá

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Imagem: divulgação.

Por Juliana Fernandez

É iniciada hoje a Mostra de Cinema Negro, que vai até quinta-feira (15) no Cine Teatro, em Cuiabá. Inicialmente com o nome ‘Liberdade Mostra de Cinema Negro’, o evento foi adiado após insatisfação da classe artística com a falta de representatividade negra na programação da mostra, além de graves acusações de racismo. A Mostra de Cinema Negro chega ao público a partir das 17h, com uma roda do Abadá Capoeira na Praça Alencastro. O evento traz produções assinadas por cineastas negros de diferentes regiões do Brasil, além de Slam Poetry, intervenções de grafite, shows de rap, palestra e roda de conversa.

A cineasta Juliana Segóvia faz parte da mostra com “Sob os Pés”, documentário de 2015 dirigido em parceria com Neriely Dantas. Ela conta que não houve convite para sua participação, entretanto, isso não impediu que ela e outros fomentadores culturais contribuíssem na construção da programação após o adiamento da primeira mostra.

“Eu acabei ajudando a contribuir com a Lidi [Lidiane Freitas de Barros, assessora da SEC-MT], que assumiu a frente a mostra e sua organização. Ajudei a construir a programação, trazendo nomes daqui e de outras regiões. A Lidi me convidou a participar da roda de conversa ‘Cinema Negro em MT’, que será mediada pelo Paulo Traven. Também participarão da roda o Wuldson Marcelo e o Maurício Pinto, a gente vai debater sobre como trazer mais pessoas negras para dentro da produção audiovisual em Mato Grosso”, explica a diretora.

Integrante da roda de conversa ‘Cinema Negro em MT’, o escritor e cineasta Wuldson Marcelo participa da mostra com ‘Se acaso a tempestade fosse nossa amiga, eu me casaria com você‘, no qual divide a direção e o roteiro com Felippy Damian. Wuldson acredita que o descaso com artista e produtores culturais negros, além de representantes do movimento negro e das religiões de matrizes africanas vem de longa data, e consiste em um problema que vai além da pasta que atende a cultura em Mato Grosso.

“Acredito que depois da mobilização em torno da falta de representatividade, que ficou bem marcada na primeira programação, a mostra terá um público mais preocupado em conhecer e reconhecer as produções audiovisuais realizadas por homens e mulheres negras. São filmes que contam a história, as culturas, as religiões, as vivências de negros e negras neste país onde o racismo é estrutural e a ideia de democracia racial mascara, ou tenta, a sua existência deste crime”, finaliza Wuldson.

Confira a programação da Mostra de Cinema Negro:

Conexão Cuiabá – São Paulo, Vol. 1

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Retrato de Thales Mendonça, arquivo pessoal.

Por Flor Costa

“Se eu não tivesse vindo eu não teria feito nada e esperar estar pronto é esperar o momento que nunca vai chegar”. Essas palavras são do primeiro entrevistado da nossa série sobre cuiabanos que estão seguindo seus sonhos e arriscando em São Paulo.

Thales Mendonça (25) está completando cinco anos na capital paulista e nos recebeu em seu apartamento, no centro da cidade, para contar um pouco de sua trajetória na selva de pedra.

Thales é bacharel em filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e saiu de Cuiabá em 2012 buscando maiores estímulos para suas capacidades artísticas. De lá para cá “aos trancos e barrancos” construiu uma carreira de cineasta, escritor, roteirista, além de sua pesquisa autodidata sobre estética cinematográfica e cultura japonesa.

Escreveu uma série de 10 contos, intitulada “Infornografia”, que conta a história de diversos personagens envolvidos em uma trama numa trama de assassinato e mistério em um universo futurista. Os contos foram lançados m plataforma digital, que podem ser baixados separadamente, ou em compilação (D3-VA), sem comprometer o entendimento da obra. Também realizou dois curtas metragens “S” e “Nada”.

Com a voz sempre calma e cadenciada, nos contou sua experiência, seus objetivos como artista., também falou sobre o mercado de trabalho em São Paulo e as dificuldades e facilidades de morar na maior capital da America Latina. O jovem incentiva a todos que tenham o mesmo sonho para não ter medo e arriscar. Não ficar esperando o momento certo, pois esse só chega quando você se propõe a agir.

Confira a entrevista completa com Thales Mendonça:

Quando e com qual objetivo você foi embora de Cuiabá?

Eu sai em agosto 2012, estava trabalhando com relações internacionais na UFMT coisa que eu não queria fazer. Na época audiovisual em Cuiabá não tinha nenhum tipo de incentivo. Ainda ia demorar muito para que a cidade tivesse uma vivencia de cinema e eu queria aprender sobre a estética asiática, cinema japonês, que é minha área, porém havia uma carência de professores para me ensinarem sobre esse tema. Pensando que São Paulo é a maior colônia japonesa fora do Japão supus que com certeza iria encontrar mais material sobre cinema japonês aqui.

A principio, eu sai de Cuiabá porque lá não tinha incentivo, vida cultural, ou os estímulos que eu precisava. Hoje vejo que já teve uma mudança na cena cuiabana.

Como foi a adaptação em São Paulo no que diz respeito ao mercado de trabalho?

Foi complicado. No primeiro mês eu não tinha emprego, morava de favor na casa de amigos. Me mantive fazendo uns “freelas” em festas de SP, organizei algumas festas. Depois de dois meses fui trabalhar em uma locadora de filmes especializada em cinema europeu e asiático. O publico alvo eram produtores de áudio visual e atores. Lá tive um acesso a cinema que eu nunca tive antes. Foi um intensivão de cinema. Trabalhei lá por um ano e adquiri contatos na área. Foi quando resolvi sair da locadora pra tentar a vida de editor “freelancer”, comecei com vídeos promocionais de festas e eventos sociais, depois vídeos empresariais e artísticos. Nisso quatro anos se passaram, aos trancos e barrancos eu consegui me sustentar com essa carreira. Aos poucos fui me estabilizando e comecei a ter tempo para me dedicar aos meus curtas, ao meu livro, enfim ao lado artístico que eu queria.

Tem como fazer uma comparação do mercado de trabalho de São Paulo como o de Cuiabá?

Impossível comparar, pois SP é a maior metrópole da America Latina, aqui o fluxo de mercado de trabalho é muito mais concorrido, mais dinâmico, mais competitivo e mais lucrativo que o de Cuiabá. Isso falando de audiovisual. Na área da produção audiovisual em Cuiabá tudo é mais difícil, tirando o fato que lá tem a vantagem dos editais serem menos concorridos. Em contra partida, aqui é mais fácil você montar uma equipe, de encontrar profissionais da área, oportunidades, editais que te incluem.

O mercado lá é reduzido e precário, mas acho que é uma questão de tempo, assim como veio muita gente para buscar isso como eu, tem muita gente voltando para lá para aplicar os ensinamentos que adquiriu aqui. Fazer funcionar lá e botar gás nesse mercado. Hoje em dia já vemos três curtas cuiabanos premiados mundialmente, concorrendo a festivais, e saídos diretamente de Cuiabá para o mundo. Tem uma mudança de mercado sim, mas ainda não se compara com SP.

Qual sua relação com Cuiabá hoje em dia?

Eu vou para Cuiabá com frequência.  Escrevo criticas e resenhas cinematográficas para um portal de cultura cuiabano. Faço muito networking com os profissionais de lá. Gosto de manter contato com as pessoas que estão se virando lá para descobrir como esta a cena e o avanço do mercado. Tenho interesse de produzir coisas em Cuiabá. Como qualquer pessoa que morou na cidade, criei um apreço por ela. Eu sai porque o mercado não  tinha oportunidade, mas uma vez que o mercado ofereça oportunidades, é totalmente  valido aproveita-las. Vou lá pelo menos seis vezes ao ano. Costumo ir nas estreias de curtas, exposições de arte que vem surgindo, justamente para incentivar essa cena e o mercado cuiabano que precisam de incentivo.

De onde surgiu a vontade de trabalhar com cinema?

Meu pai foi cineasta por mais de 30 anos e por isso tive essa influencia dentro de casa. Por muito tempo achei que esse era meu foco, que eu queria trabalhar, dirigindo ou atuando no audiovisual. Me formei em filosofia e vim pra SP nessa proposta de trabalhar em uma produtora com produção audiovisual. Com o tempo acabei enveredando muito mais para a escrita (roteiros, resenhas cinematográficas, reportagens cinematográfica, analises e reestruturação de roteiro para alguns trabalhos, roteiro de comercial, episódios de vlog). Percebi que meu foco de trabalho era a escrita, tanto que ano passado lancei meu livro, e para 2017 estou escrevendo o segundo. Focar minha carreira na parte escrita do audiovisual. Tenho interesse em fazer filme para sempre, mas fazer como um hobbie, uma maneira de me comunicar e não como um sustento.

Quem é sua referencia no âmbito da escrita e da estética audiovisual?

No trabalho áudio visual para fazer a resenha cinematográfica, o maior critico de cinema que existiu foi o André Bazin, ele foi um grande estudioso do fazer cinema. Sempre soube separar muito bem a opinião da informação, isso para mim é uma das lições que eu tirei para o meu trabalho. Quando você está explicando cinema é muito importante separar a sua opinião do verdadeiro conteúdo.

Quando se trata de uma estética, eu trabalho com a asiática. Minha linguagem de semiótica e estética é primordialmente asiática, diretores coreanos e japoneses. É claro que eu não sou bitolado, gosto de absorver do que o cinema tem a oferecer, mas minhas maiores referências são do cinema japonês e coreano, cineastas como Kim Ki Duk, Bong Jo-hoo, Wong Kar Wai, Kenji Mizoguchu, Mizoguchi, Takeshi Miike, Takeshi Kitano, Yasujiro Ozu e Kurosawa.

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Cena de Chungking Express, dirigido por Wong Kar Wai

O que te encanta no cinema asiático?

A linguagem, estética e semiótica. A maneira de contar histórias, de expressar elementos e informações através da cor, da fotografia, da imagem, do ritmo. O cinema de mercado brasileiro é muito focado no cinema americano. Grande parte do cinema ocidental tem esse processo como base justamente por ser a maior indústria. Eu sempre busquei outras maneiras de fazer cinema e acabei me encantando pela estética asiática. Não acho que seja melhor ou pior que a ocidental. Só acho que eu me identifico mais, é uma conexão maior.

Falando do projeto “Infornografia”, porque optar por disponibilizar os contos primeiro em plataforma digital?

Acompanhando a própria produção audiovisual, hoje em dia vivemos na época das informações em seriado. As pessoas não querem coisas muito longas, elas querem as informações em pequenas doses para inserir no cotidiano.

Ao mesmo tempo eu sou uma pessoa que consome muito livro. Tive que lidar com o problema de espaço, manutenção e custo. Vivemos em um país onde 70% das pessoas não leem. Você precisa pensar em 30 mil maneiras de transformar a leitura em algo atrativo.

Pensando em tudo isso e levando em conta o fato que as editoras cobram uma taxa para que os escritores publiquem os livros, eu por ser independente estava fugindo disso. Não queria nada que me trouxesse um custo muito grande que inviabilizasse o projeto. Um livro para quem é desconhecido é uma chance enorme de você não vender e ficar com 2 mil copias encaixotadas em casa.

A plataforma da “Amazon” já cobra automaticamente os direitos inclusos no valor que você cobra. Ela manda o dinheiro direto pra sua conta e não gasta papel, o que é ecologicamente positivo. Diminui o custo para o consumidor. Você consegue ler em qualquer veículo eletrônico. Hoje em dia, as pessoas estão muito conectadas aos aparelhos eletrônicos é difícil largarem deles para lerem um livro. Eu preciso transformar esse livro de todas as maneiras em algo que seja acessível e atraente.

Porque lançar “Infornografia” em contos individuais?

Você pode comprar um conto só e ficar feliz apenas com aquele conto ou você pode ler todos contos juntos e entender um quadro maior. O Infornografia surgiu como uma plataforma para que eu inventasse histórias. O compilado chama D3VA, mas esse é só o primeiro compilado de quantas histórias eu quiser fazer dentro desse universo. Uma vez criado o universo, tudo é possível. Então foi um livro pensado da maneira mais viável menos custosa mais acessível e mais atraente. Basicamente, essa é a historia do Infornografia.

Fale sobre o seu próximo livro.

Para o segundo é um processo completamente diferente. Se passa em São Paulo nos anos 70. Demanda mais pesquisa, é muito mais situado na realidade. Vai ser lançado de uma vez só, apostando na ideia de que eu posso fazer um livro pequeno, e uma vez conhecendo a minha obra, fique mais fácil para as pessoas aceitarem a ideia de comprar um livro único.

Mas todos os meus livros são inicialmente digitais. A ideia de criar versões físicas, o que esta sendo programado para o Infornografia, é justamente em pequena tiragem, somente para pessoas que tem o interesse. Uma versão trabalhada de luxo, com capa dura para justificar a impressão. Eu acho que imprimir o livro em grande escala, em qualidade mais ou menos para vender não é o meu foco. Meu foco é compartilhar informação, se a maneira mais viável é a digital, essa é a minha plataforma. Eu espero que todos os meus livros saiam primeiramente na internet.

Como artista o que você busca passar com a sua obra?

O elemento que está presente em tudo que eu faço é a valorização da informação sobre a opinião. Eu falei um pouco antes sobre saber separar o que é sua opinião da verdadeira informação, isso é uma coisa que eu tento expressar em todos os meus trabalhos. A importância da cultura, a importância da informação.

A minha postura quanto ao mundo é que a informação é muito mais valiosa que qualquer opinião. Para mim não existe nada mais enriquecedor na experiência de estar vivo do que estar sempre descobrindo novas informações. Não é a toa que a minha serie chama Infornografia. Porque eu realmente espero promover uma pornografia de informações. Mostrar como a gente pode melhorar a nossa vida na Terra sempre aprendendo um pouco mais.

Para finalizar, que dica você daria para os jovens cuiabanos que estão querendo se aventurar na cidade de São Paulo?

A minha dica para qualquer pessoa é VENHA! Ninguém nunca está pronto, não existe o momento certo, nem a hora perfeita, nem o momento que você vai estar pronto. Esse momento nunca chega. Você só esta pronto quando você faz! Eu vim para cá com quase nenhum dinheiro no bolso, não tinha emprego e não sabia onde eu ia morar. Esse ano completo cinco anos que eu estou aqui. A certeza que eu tenho é que se eu não tivesse vindo eu não teria feito nada. Esperar estar pronto é esperar o momento que nunca vai chegar. Então eu indico isso para os cuiabanos que estão sofrendo com a ideia de querer tentar a vida em São Paulo, que é uma cidade grande assustadora e perigosa, no sentido de viciante em seu estilo de vida, que não tenham medo arriscar. Faz parte da vida e a gente não esta pronto até a gente tentar. Então VENHAM!