Minha querida (e conturbada) Sputnik

Por Leonardo Yamamura

– Entendo o que quer dizer com precário. Às vezes eu me sinto tão… sei lá… sozinha. O tipo de sentimento de impotência quando tudo o que se está acostumado foi despedaçado. Como se não houvesse mais a gravidade, e eu fosse deixada à deriva no espaço sideral. Sem a menor idéia de para onde estou sendo levada.
– Como um pequeno Sputnik perdido?
– Acho que sim. (pg. 73)

Na sexta-feira chegou o primeiro livro do Murakami que ganhei de aniversário. Havia me apaixonado completamente pelas sinopses dos livros – todos eles – e pedi os três mais baratos no Estante Virtual. Minha querida Sputnik, Do que eu falo quando falo de corridas e Após Anoitecer. Eu não tenho, não tinha o hábito de ler livros por autores. Leio livros pelo que falam, pelas sinopses, por mim mesmo. E pelos títulos, claro. Se dizem pra não julgarmos o livro pela capa, eu digo: julgue o livro pelo título.

E Minha querida Sputnik me roubou o coração pelo título e por algumas sinopses não oficiais que li por aí (a do blog Livros Abertos em especial).

Em verdade sabia muito pouco do livro, e pretendo continuar assim até ler todos os três que comprei e o quarto que vão me emprestar. Quero ver até que ponto consigo me surpreender com a leitura deles como me surpreendi com Sputnik.

Como havia dito, não era de fazer leituras por autores. Pois antes de você ler o que tenho a dizer sobre esse livro em especial, saiba que eu também não tenho o hábito de ler os livros em ordem cronológica de publicação, ou de resenhar livros. Aqui contém simples e puramente minhas impressões ligeiramente afetadas.

A história

O livro é narrado por K, japonês de meia idade, professor do fundamental que reside em Tóquio. Do começo ao fim da história, lidamos em suma com duas personagens além de K: Sumire (violeta em japonês), ex-colega de faculdade de K que sonha em ser romancista e escreve páginas e páginas (e devora outras tantas – no sentido figurado) todos os dias sem muito sucesso até um dia conhecer Miu, empresária de sucesso 17 anos mais velha que Sumire, importadora de vinhos e jovens artistas-revelação do exterior.

A narrativa cronologicamente se situa a partir desse encontro e da paixão desperta por Miu em Sumire por quem desde o início percebemos que K nutre o mesmo sentimento especial. Um triângulo amoroso rodeado por livros, vinhos, viagens e música clássica.

Antes de chegar a metade do livro, decidi colocar uma trilha sonora. As personagens falam tanto de música clássica e eu tinha logo uma referência nipônica de música clássica! É o dueto DEPAPEPE, que lançaram dois álbuns com várias peças ou partes mais famosas desses classudos tocadas somente com o violão.


Os focos

onírico
(grego óneiros, -ou, sonho + -ico)
adj.
Relativo a sonhos. = SONIAL

To digerindo a leitura até agora. O livro chegou na sexta-feira pelo correio, eu matei minha aula de japonês entretido na leitura, tirei um cochilo quando cheguei na metade e terminei pouco depois de meia-noite. Eu não sabia – não esperava – que a história ia por águas tão turvas, afinal o que mais me surpreendeu foi o principal foco da história ser, para mim, o caráter “onírico” da escrita de Murakami.

O que eu quero dizer é o fato dele misturar em seus textos a realidade com o mundo dos sonhos. Lá pelas tantas nos deparamos com Sumire nua, abrindo uma porta e se vendo sobre uma torre muito alta, rodeada por pequenos aviõezinhos de madeira com motor do tamanho de um dedo se transformando em libélulas. É. E eu não tinha ideia que ele faria isso com o roteiro (e com meu cérebro). Sem contar a cena da Roda Gigante, muito famosa e que é indispensável lá pro 1/3 final da história.

Sputnik (Companheiro de Viagem, em Russo.)
(palavra russa)
s. m.
1. Série de 10 satélites colocados em órbita pela U.R.S.S., de 1957 a 1961, por meio de foguetões e providos de aparelhos científicos registradores e emissores capazes de abrigar seres vivos.
2. Satélite artificial.

O que me ganhou na história e em todas as outras que venho fazendo recentemente é a questão muito bem expressa na literatura sobre o lugar do ser humano, sobre sua essência, do local de onde fala e como se mostra no nosso tempo. Graças aos céus nipônicos esse é o outro principal foco que sinto na obra.

As falas – e o porquê de Sputnik – pegam exatamente nesse ponto. É um encanto, especialmente quando descobrimos o porquê do título do livro (não disse? eu disse).

Pontos negativos, pontos positivos e se vou ou não queimar o livro

Eu me desapontei levemente sim, não vou mentir. Li um livro arrebatador no começo deste ano que mudou a forma que encaro os livros, a realidade e tudo o mais e esperava passar por isso de novo com Murakami. Acredito que eu choquei um pouco com o “momento” da obra no que diz respeito aos sonhos. E talvez por ter lido o livro de uma vez, tenha tido a impressão não tão exata que o autor se vale dessas referências oníricas pra se safar da responsabilidade de amarrar todas as pontas da história. E que, devidos a prazos ou sabe-se lá o porquê tenha enfiado as explicações perfeitamente inventadas dos nossos sonhos na inteligibilidade da mesma trama na realidade. Sem contar a repentina saída de cena de Sumire para, de forma muito deslocada, sermos levados à cabine de um guarda de supermercado, junto a um aluno, sua mãe e K e o fato de o livro ter sido traduzido do inglês, não do japonês como a maioria das outras obras publicadas por aqui.

Apesar dos pesares, a edição que comprei vem com o mais que demais selo Alfaguara da editora Objetiva e suas folhas de material forte porém leve, no tom amarelo que só quem lê durante horas ao lado de uma luminária entende como indispensável. A diagramação do livro (de todos que saem com o mesmo selo, na verdade) e a capa parecem ter sido pensadas com especial carinho. A leitura não cansa em resumo.

E sobre a história em si, o livro me ganhou mesmo com os trechos em que as falas fazem analogia à Sputnik ou em que as personagens refletem sobre si. Ah, e não posso me esquecer também do jogo que existe ao longo da obra que nos obriga a deslocar o olhar: alguns capítulos são cartas inteiras ou fragmentos das que Sumire envia a K. e em outros são trechos datilografados do diário também de Sumire que nos possibilitam ver na prática se os elogios despedindos pelo personagem principal fazem jus à “verdade”.

Enfim: não vou queimar o livro. Valeu a pena, me fez refletir, acalantou meu pobre coração em alguns momentos e acredito que me inseriu no estranho mundo da realidade-irmã-gêmea-dos-sonhos. Mais importante, é daqueles livros que eu sei que vou ler de novo, ou melhor, sei que terei vontade de.

No mais, que venha as outras obras de Haruki Murakami.

P.S.: Depois de terminar a leitura eu reuni alguns trechos que me chamaram atenção ao longo da leitura aqui.

Anúncios