Corda Bamba: sobre caminhos, tempo e (des)afetos

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Faz quase três anos que perdi duas das pessoas mais importantes da minha vida. Isso me fez prestar mais atenção no tempo e na finitude das coisas. Desde então, tenho me esforçado bastante pra não me consumir do depois.

Depois marcamos algo, depois nos falamos melhor, depois vejo isso, depois tento de novo. O depois é como um ácido corrosivo, líquido aparentemente inofensivo, que preenche provisoriamente as lacunas entre o hoje e o amanhã. Ele não permite o presente, ele não autoriza a continuidade.
Mudei tanto de lá para cá que nem sei dizer, e foi dando o melhor de mim que aprendi a observar meus limites. Quando se arrisca o “tudo ou nada” o intenso se (con)funde com os extremos.
Solta-se o verbo, os medos, abre-se às jaulas dos anjos e demônios. Após isso passei a ser amada e odiada com mais freqüência.

Talvez, porque ainda me soem desesperadores os manuais de felicidade que indicam caminhos entre os meios termos, nas convicções seguidas de entretanto e nas entrelinhas das pessoas. Pessoas e sensações, atos.
Como dois lados que levam para o mesmo destino, é a tentativa de equilíbrio, uma corda bamba. Essa constante “fuga” do fim, mesmo que saibamos que durante o caminho, ele seja a única certeza para qual caminhamos.

Como se a idéia de eternidade fornecesse margem para que não nos entreguemos agora, é uma poética cruel e que se vende em livros resumidos nas prateleiras promocionais. Como se caminhássemos com um propósito que o objetivo nunca se chega e em caminhos estreitos demais para se incluir sentimentalidades claras, ditas e óbvias. Lembranças de momentos bons ou ruins com nossa família, amigos ou aquele romance típico de Borbulhas de Amor do Fagner fazem parte disso.
Há quem diga que nascemos e morremos sozinhos, e talvez, Orson Welles esteja certo, mas dividir as solidões nunca me pareceu tão sensato. Acontece aquela fisgada a cada resposta morna, conversa mal resolvida. O intenso domina ou abandona, ambos não dividem a mesma fronha do travesseiro pra repousar a consciência indecisa. As pessoas se conhecem por semanas, meses e anos e se desconhecem do nada.

Depois – Esbarram nas ruas, nas filas do mercado, nas feiras ou em qualquer outra coincidência cotidiana. Tal qual uma corda estendida entre dois olhares o movimento é controlado. Existe neste meio o equilíbrio do (des)afeto, nem pra lá ou pra cá. Na passagem pelo bem ou mal me quer. Qualquer passo em falso indica uma queda livre, esquenta o nosso sangue e arde as pontas das orelhas, assim como, as veias do coração.

Depois – Por vezes um movimento com o rosto é o suficiente para anular o abraço, que autoriza o desvio do olhar, segurar a respiração. Em pensamentos parece estarmos sempre sozinhos. O único laço, quem sabe, passe a ser lembranças do que já fora importante – um dia, e com um cálculo preciso nos transformamos em estranhos.

O que não dizem nos parágrafos curtos de uma mensagem virtual ou um “olá” é sobre a escassez  que fica na gente. Mesmo a boca muda, grita. Digita e apaga, digita e apaga. Vou, não vou. Encosto, não encosto. Caminhando perdidos tentamos parecer tranquilos, mas na loucura dos escaldantes neurônios: existem jardins que imaginamos cultivar flores tão lindas quanto a do Pequeno Príncipe, mas nesse labirinto nos deparamos mais frequentemente com buracos tão profundos quanto às expectativas daquela menina louca chamada Alice, que perseguia um coelho surtado e com relógio sempre atrasado – sem saber se os transtornos eram causados pelo “antes” ou pela busca fantasiosa do que aconteceria”depois”.

Depois que sufoca, que nunca chega. É, novamente, aquele ácido que também nos servimos nas xícaras falantes de chá ou café [pontualmente] todos os dias.

Depois, não alimenta sentimento. Nem assemelha-se ao que faz do nosso peito caixinhas de música ou faz trec trec na chave. Não aperta ou deixa mais frouxa, nem solta as notas musicais do coração. O que falta me parece ser um (des)concerto no relógio, se viver mais nas mesmas proporções de tempo. Acelerar e pausar o momento, reativar o tic tac mesmo que se viva em outra dimensão.

Mirella Duarte é jornalista, poeta de rua e especialista em escrever textos soltos,
desperdiçados que nem açúcar em volta da xícara de café.

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O morro foi feito de samba: 100 anos é cenário de luta e resistência

Ritmo documenta fases da história do Brasil e celebra primeira década com reconhecimento mundial como música popular brasileira

Por Mirella Duarte

Imagine que a arte seja capaz de manter a expressividade de um povo, bem como, proporcionar voz aos menos favorecidos. Dar mais visibilidade as minorias e suas lutas. Mostrar a realidade vezes triste, vezes alegre, mas transformar de maneira poética as dores dos ancestrais em críticas sociais. Virar os olhos do mundo para as avenidas [de carnaval] com trilhas ritmadas por um estilo que já fora criminalizado pelas autoridades no decorrer das décadas. E a arte foi, musicalmente, capaz de evidenciar estes temas, e, apesar de toda a censura em 2016 o samba completa 100 anos. Nesta edição a revista Viver MT fará um especial com depoimentos da velha guarda, músicos, apreciadores e compositores que contribuem ou já contribuíram com este som ao mostrar em como o samba foi e ainda é importante na história do Brasil.

Com influência nos batuques africanos e indígenas a batida do samba é peculiar. Ritmado com o cavaquinho que futuramente em meados da década de 70 foi modificado a partir do banjo, este estilo é harmonioso e pode envolver vários instrumentos, além de combinações entre diversos gêneros. Considerado música popular brasileira por críticos, historiadores e artistas de diferentes modalidades, resgata a essência, história e a multiplicidade cultural de etnias nativas e das que vieram no período de colonização.

Estudiosos afirmam que a palavra samba está relacionada às batidas do estilo, pois, a princípio, os mesmos batuques sonorizariam religiosidades tragas da África, como uma espécie de comunicação ritual através da música e da dança, da percussão e dos movimentos do corpo, na mesma proporção que a capoeira [luta e dança] também originária do Brasil, carrega. Há indícios que ela tenha vindo de uma língua africana chamada banto, falada em Angola.

Sendo assim, os ritmos com o decorrer dos anos também incorporaram elementos de outros estilos, sobretudo no cenário do Rio de Janeiro do século XIX, que ainda evidenciava feridas sociais da escravidão, inclusive, entre brancos e negros, homens e mulheres, ricos e pobres ou de religiões que não se limitavam às matrizes cristãs e européias, como se diferenciavam, por exemplo, a Umbanda e Candomblé.

Em 1930, surgiu Noel Rosa e Ary Barroso, que levaram o ritmo popular às classes médias. É também nesta época foram criadas as variações do samba como samba-canção, samba-choro, samba de breque e samba-enredo. Como retrata a canção de Noel, ‘Orvalho vem caindo’, “Tenho passado tão mal, a minha cama é uma folha de jornal / Meu cortinado é um vasto céu de anil / E o meu despertador é o guarda civil”, no período da Ditadura Militar (1937-1945), no governo Getúlio Vargas, os brasileiros viveram à criação da chamada Lei da Vadiagem, e, em um momento com problemas de falta de trabalho também ocasionado por diversas desigualdades sociais, especialmente para a população de baixa renda e pouca escolaridade, a legislação previa a punição por ociosidade de uma pessoa apta a trabalhar. Desde então, a “vadiagem” serviu, em muitos casos, como amenização de abusos do poder militar — ao representar o Estado — nas prisões efetuadas para averiguações.

Símbolo de resistência, boemia e critica social, o estilo foi auge nas paradas em um período onde a periferia tinha pouca atenção da mídia. O samba retratava desde paixões por mulheres, brigas de bar à pobreza, violência e fome. Na música de Pixinguinha, ‘A Favela vai Abaixo’, o compositor diz saudoso, sobre o amor pela comunidade e dos diversos ataques que a periferia recebia com freqüência. “Vê agora a ingratidão da humanidade / O poder da flor sumítica, amarela / Que sem brilho vive pela cidade / Impondo o desabrigo ao nosso povo da favela / Minha cabocla a favela vai abaixo / Ajunta os troços vamo embora pro Bangu […] / Isso deve ser despeito dessa gente / Porque o samba não se passa para ela / Porque lá o luar é diferente / Não é como o luar que se vê desta favela”, cantarolava.

Com uma realidade além das praias de Copacabana e Ipanema como era costumeiro por outros estilos, não foi difícil se estender pelo interior do Brasil através das transmissões de rádio e aos poucos deu voz e interpretação a importantes poetas e compositores nacionais como Vinicius de Moraes, Cartola e Pixinguinha. Porém, ainda que com ar literário sofria marginalização de muitos veículos de comunicação, polícia e casas de shows.

De acordo com o músico e jornalista Raoni Ricci, o samba, assim como, todas as formas de arte, além de entreter precisam exercer o papel de inclusão, pois esta é a essência do estilo e deve-se dar continuidade ao que ele propõe. “Em Cuiabá a praça da mandioca tem sido fundamental para envolver várias classes sociais através da música. Além de fazer parte do centro histórico da cidade, esta revitalização permite que fortaleçamos não apenas a cultura do samba, mas a união de várias tribos como a do rock, rap, reggae e outras que ouviram o show da Mart’nália, por exemplo, que abriu a programação festiva e de homenagem ao Centenário do Samba [em Cuiabá]”, ressaltou.

Raonni revela que iniciou a carreira de músico há pouco tempo, apesar do gosto pela música brasileira ter vindo desde cedo através da família. “Comecei a cantar em 2012 em ‘canjas’ no antigo Chorinho. Lá tive a oportunidade de conhecer muitos músicos, inclusive da Velha Guarda, que sempre acolheu a mim e todos os outros jovens apaixonados pelo samba. Acredito também que o Chorinho foi fundamental para fortalecer o samba nos últimos anos, que este ritmo também tem a função de critica social, livre pensamento, e de aperfeiçoar novos talentos da musica mato-grossense”, explicou.

Segundo o sambista da velha guarda Marcelo Beleza Pura, o samba carrega traços valiosos da cultura brasileira, pois permite que a realidade seja retratada de forma leve e na maior parte das vezes, animada para combater preconceitos. “O samba é capaz de transformar o que é triste em poesia serena, faz pessoas sorrirem e chorarem com um ritmo forte e cheio de emoção. Meu pai, irmã [Dada da Mangueira] e toda minha família sempre tiveram laços com a música. Aos 15 anos eu já observava os cantores nas rodas de samba. Na década de 80, mais velho, eu vivia minha juventude tocando cavaquinho e tive, assim como minha irmã a chance de participar dos desfiles da Mangueira”, contou.

Marcelo recorda os sucessos dos grupos Originais do Samba e Cuiabá Samba Show, que tinham uma ‘pegada’ bem humorada para descrever o cotidiano. “Eu sempre cantei Martinho da Vila e outros nomes importantes da música. Tive várias referências, mas lembro-me bem que no início da popularização do samba a polícia escorraçava os compositores, que eram a maior parte homens simples e negros nas praias e eles, desta maneira, obrigatoriamente tiveram que desenvolver o samba no morro [favela] e não em outras localidades consideradas ‘proibidas’. Em Cuiabá houveram bandas de samba que se apresentavam além das marchinhas na década de 50 e 60, algumas delas, os músicos cantam e tocam até hoje, mas em outras formações. Praticamente não houve incentivo de nenhuma secretaria governamental durante todo este tempo e acredito que por isso, apesar do sambar ter a história dele em Mato-Grosso, talvez, não tenha se desenvolvido quanto poderia”, explicou.

Beleza Pura afirma que o samba é uma manifestação artística e popular e os encontros eram freqüentes entre os apreciadores, militantes e outros que se identificavam com as letras e batidas. “Tocávamos com lata, pandeiro, reco-reco e as mais diferentes improvisações possíveis para dar ritmo às composições. Aqui [Cuiabá] não haviam escolas de samba no início da década de 60, apenas comemorações de marchinha. Futuramente iniciamos os blocos de carnaval em zonas que hoje ficam o Museu das Águas, encontros de roda de samba na Casa Cuiabana e eles lotavam. Era freqüente a movimentação com mais de 2 mil pessoas”, lembrou.

Há quem diga que o samba foi importante para visibilidade da mulher na música, mas o fato é a figura feminina é que foi crucial para o samba não perder o espaço, crescer e se consumar com o passar do tempo. Isto porque no período pós-abolicionista marcado pela perseguição de qualquer manifestação popular, artística [musical ou de dança], sotaques e religiosidades afro-brasileiras, que visavam manter tradições que a sociedade e elite tentavam descaracterizar, as mulheres negras foram fundamentais, pois além de manterem economicamente as famílias — já que continuaram a trabalhar como ajudantes nas casas grandes foram base para resistência da cultura, como anfitriãs dos eventos e reuniões de grupos nas comunidades.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida), que hoje seria o que é comumente conhecida como mãe de santo, se destaca entre as personalidades históricas. E é na casa desta senhora que fica na Rua Visconde de Itaúna, próximo à Praça Onze, que dizem ter ‘nascido’ os primeiros sambas. Lá aconteciam as reuniões musicais que eram proibidas, onde nomes como Pixinguinha, Sinhô e tantos outros se conheceram e puderam compor.

Sambistas e compositoras como Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Leci Brandão, Clara Nunes, Elza Soares, Mariene de Castro, Nilze Carvalho, Dona Inah, Jovelina Pérola Negra e Clementina de Jesus fizeram história ao inspirar mais mulheres a se manifestarem artisticamente, sem tantos pudores ou o exigente classicismo predominante em décadas passadas. Influência sonorizada por várias das artistas mencionadas, entre elas, Elza Soares, que dizia sobre a dor e amor de ser mulher, negra, artista e lutar contra preconceitos por meio das canções.

Uma das interpretações de Elza neste sentido foi em ‘Mulher do Fim do Mundo’, que descreve a vida e militância através, também, dos microfones – para falar da favela, pobreza, solidão da mulher negra e os preconceitos sofridos por pessoas periféricas. “As asas de um anjo soltas pelo chão / Na chuva de confetes deixo a minha dor / Na avenida deixei lá / A pele preta e a minha voz / Na avenida deixei lá / A minha fala, minha opinião / A minha casa, minha solidão / Joguei do alto do terceiro andar / Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida / Na avenida dura até o fim / Mulher do fim do mundo”.

Segundo a cantora e compositora Luciana Bonfim, o samba é também expressão da força feminina na música e uma das perfeitas demonstrações da brasilidade no mundo. Desde o início Luciana afirma ter base neste gênero e em ritmos com representações semelhantes. “Comecei a cantar profissionalmente aos 20 anos e no início me apresentava com músicas de Rock e Black Music. Aos 23 anos eu decidi que queria cantar e compor algo característico da minha terra e o samba me acolheu. Participei de diversos festivais e fui finalista de alguns, inclusive, no Rio de Janeiro [que morei por dois anos]. Em um destes festivais eu estava gestante do meu filho João e com a barriga bem grande, mas me apresentei mesmo assim”, ressaltou.

Bonfim considera que a revitalização do centro histórico no Rio de Janeiro foi um marco para reiniciar as apresentações do samba nos últimos dez anos, ao dar mais visibilidade para artistas e compositores apaixonados pelo estilo e impulsionar muitos shows, que, posteriormente, tomaram proporções nacionais. Em sua volta para Mato-Grosso percebeu a melhor aceitação e procura do ritmo. “Após meu retorno para Cuiabá, Marinho, proprietário do antigo ‘Chorinho’ Choro e Serestas me disponibilizou as quintas-feiras para o ‘Samba de Quinta’ e deu muito certo. A casa, que recebia muita gente aos sábados passou a lotar nesta data também, além de lá passei a cantar frequentemente no Sesc Arsenal e outras casas de show. Foi um período de resgate do samba, na minha opinião, porque diversos artistas como Sandra de Sá, Maria Rita e Diogo Nogueira estavam lançando discos. Foi um conjunto de coisas e eu e outros músicos tivemos nossa ascensão através disto. Gravei disco e compus muito. De dez músicas do lançamento do ‘Samba em sombra de pequizá’, oito são autorais”, contou.

O samba continua conquistando espaço pelo mundo e ampliando referências de músicos, admiradores e serve como tema de diversos trabalhos, inclusive, na sétima arte. No Brasil faz simbologicamente mais que 100 anos. Está eternizado além da teimosia e genialidade rítmica, mas no suor e nas conquistas de um povo que não deixa o samba morrer, não deixa o samba acabar.

Publicado originalmente na edição de outubro/2016 da Revista Viver MT.