Meu presente de natal: massagem tântrica

Por Raquel Mützenberg

tumblr_m9fap9hgsy1qz6f9yo1_500
Ilustração de Ashley Marnich

Nesta semana fui matar uma curiosidade que tinha há anos: terapia tântrica. Desde que iniciei a vida sexual, costumo ler sobre as diversas maneiras de praticar sexo, e o sexo tântrico sempre foi o que mais me intrigou.

Durante meu último relacionamento, convidei meu então parceiro a ir a uma sessão de meditação tântrica, porém sem sucesso. O terapeuta me explicou que é normal no casal um estar mais disposto que o outro. Mas eu não estava a fim de forçar a barra com uma coisa que considero tão íntima. Pois sexo, pra mim, tem a ver com autoconhecimento e liberdade de buscar o que te sacia e te faz entrar em contato com seu próprio prazer.

Depois de alguns meses curtindo a solteirice, cheguei a um dilema: me sinto uma mulher livre, mas quando vou me relacionar, me parece muito pesada a abordagem que muitos homens têm… eu não acredito que tenho que cumprir algum papel numa relação, mas quando menos espero, ali estou cumprindo também. E se tento desviar algum caminho, parece um perigo, uma afronta, uma falta de noção feminina por estar buscando meu próprio prazer. Me perguntava se era uma questão de falta de intimidade, ou eu é que não estava sabendo lidar.

Pois bem, fui a uma sessão de massagem tântrica. Falei sobre tudo isso ao terapeuta e ele me dissertou sobre as pressões sociais em cima dos homens. Eu só pensava comigo mesma: “e eu com isso?”. Quando me relaciono com mulheres me sinto mais livre para dizer do que gosto e nunca me ocorreu de uma mulher violentamente puxar minha cabeça em direção ao seu sexo e eu ouvir “chupa”. Por que diabos homens se sentem no direito de fazê-lo? Aliás, quando me fizeram, fui bem clara sobre o ponto final que estava acontecendo exatamente naquele momento com o meu tesão. Isso porquê sou uma pessoa de fetiches, mas como tudo numa relação, são coisas que devem ser conversadas antes.

Levei todas essas questões ao Thiago Gopi, terapeuta tântrico que atende no Centro 7 Chakras de terapia tântrica. Busquei um terapeuta homem justamente pelo fato de que sexo com mulheres para mim está muito bem resolvido. Antes de iniciar a prática da massagem, conversamos sobre muito do que precisa ser desconstruído no sexo ocidental, sobre a educação sexual que acontece atualmente basicamente por meio da pornografia – uma pornografia machista que preza pelo prazer masculino e a submissão feminina, sobre a falta de abertura que temos para conversar sobre o assunto. Thiago me explicou também sobre a questão das guerras e dos estupros, de que no Brasil temos uma herança da colonização na qual o estupro foi muito praticado para povoar o lugar com sangue europeu. Minha bisavó paterna, por exemplo, não a conheci, mas na família dizem que foi uma “índia pega no laço”. Ou seja, eu já fui pega no laço, mas porque eu pedi né (risos).

bondage
Fotos do projeto #mottabondage, do artista visual Fábio Motta

Depois de papear um tanto, subimos para a sala onde havia um tatame. Ali rolou uma playlist maravilhosa (arrasou, Thiago!). A prática consiste em muito toque, arrepios, sensibilidade à flor da pele, antes de chegar ao ponto ápice: a massagem genital. Regada a muito óleo de uva, o terapeuta massageia cada parte do corpo de maneira intensa e muita coisa foi novidade pra mim! Orgasmos múltiplos à parte, o último momento da sessão é nas nuvens, literalmente: num momento comigo mesma, aproveitei para meditar e sentir profundamente essa experiência. Dois dias depois da sessão ainda tenho um espasmo de liberdade na alma.

Quero experimentar ainda as meditações tântricas que o espaço oferece, se você também ficou curiosx, entre em contato com o Thiago Gopi aqui.

Fica de brinde o último clipe da Clarice Falcão, que tá de parabéns

 

https://vimeo.com/196530591

 

 

 

Anúncios

Sem despedidas: fico em Cuiabá

Por Raquel Mützenberg

Nos últimos anos pude experimentar o que sempre achei que seria a solução para os meus problemas de adolescente rebelde e sem grana: me ausentar de Cuiabá, mesmo que por pouco tempo. Durante a faculdade, que cursei em Cuiabá, um dos primeiros textos mais elaborados que escrevi se chamava “Vou-me embora de Cuiabá”. Querendo dar o fora, sentia que me não encaixava em nenhum grupo social e almejava viver o que outras cidades poderiam proporcionar: cursos de artes, experiências culturais, shows, amigos artistas.

A constante insatisfação me fez correr atrás com o que eu tinha nas mãos: amigos com sonhos parecidos. Incrível pensar na força que uma boa ideia tem, mas uma boa ideia compartilhada… talvez seja o que estamos prestes a viver com a instituição da MT ESCOLA DE TEATRO. Ainda que tardia para a realidade do grupo de amigos artistas que compartilho a vida, vem num momento em que precisamos dar uma respirada profunda para acreditar num futuro mais justo e, tomara não tão distante.

Hoje, depois de passar 25 anos da minha vida em Cuiabá, e alguns meses fora – nos quais pude conhecer minimamente a sensação de sentir saudades do meu lugar – escrevo de longe, novamente. Daqui, vejo artistas propondo repensar o uso da praça da Mandioca, que se tornou movimentada depois de um fluxo de eventos impulsionados por artistas. Vejo grupos de teatro realizando festivais com ou sem apoio, levando ao público performances extremamente potentes. Vejo grupos afirmando suas identidades pautadas na desconstrução do gênero. Vejo Cuiabá com uma potência de crescer no setor criativo, com pessoas competentes e talentosas. Hoje entendo porque não ir embora. Porque faz mais sentido criar o nosso, e nas dimensões que a cidade tem, vejo um mar de possibilidades.

Estou no Cariri, região do sertão do Ceará, participando da Mostra Sesc Cariri 2016 com a performance Maiêutica. Vim só, sem equipe, mas com duas bonecas na mala: minhas eternas companheiras. Aqui, o festival acontece nas cidades maiores e nas menores. Vamos de van (que aqui chama de topique) para os locais de apresentação, apareço nas ruas e caminho parindo.

maieutica-cariri

Durante as refeições, encontro outros artistas locais e de fora da região. O clima é de festejo, de compartilhar experiências e criar laços. É um clima que eu queria ver em Cuiabá. Quente igual, Cariri e Cuiabá tomam forma de um sonho. Com a cabeça derretida pelo sol quente, tropeço em poetas, repentistas, mamulengueiros, cordelistas, performers, músicos. Lindo demais um lugar com tanta gente que se dedica à arte: donas de casa viram poetisas e dançarinas de côco que afirmam com sotaque pesado que sua função é não deixar a cultura morrer. A galera mais jovem me pergunta cadê meu sotaque, dizem que eu tenho que carregar ele comigo e que se eles forem a Cuiabá levam junto.

De noite, a festa é na praça, com a feirinha Cariri Criativo cheia de novidades, bolsinhas, imãs, comidinhas veganas, e o palco com atrações musicais. Depois de ver o show dos amigos da Banda Mais Bonita da Cidade, conheci o Chico Correia & Eletronic Band:

Conheça mais sobre a Mostra Sesc Cariri de Culturas: http://mostracariri.sesc-ce.com.br/

Na próxima semana vamos viver, em Cuiabá, o Festival Zé Bolo Flô de teatro de rua, e que seja de festa e novos encontros! Confira a programação abaixo:

sem-titulo