Um amor a declarar

Por Yasmin Souza

Um amor a declarar

O lugar de onde venho
é tão belo de sonhar,
assim que amanhece
o sol de rachar
os passarinhos se põe à espiar
o Seu Messias da padaria
com pão-doce a passar:

– Olha o padeiro!

Na Lixeira que Deus me jogou
de parte de cá e de lá
me ajeitei no colo de São Benedito
que sempre esteve a me ninar e guiar,
o santo preto me ensinou
que não havia dor em ser ovelha negra
pois negro tinha seu valor
assim comecei a cantarolar
feito sabiá

Pelas curvas do rio que cresci
nas suas mananciais me fiz doce
para correnteza dos sonhos
me levar a desaguar no mar

Antes tive que reconhecer
a beleza do teu verde
quando te despiram
e o povo se pôs a chorar
pelo teu desestruturar
Resta teu calor
que aquece as almas
sob um glorioso céu do meu país
de gente amorosa e feliz

Aqui os pássaros gorjeiam
como em nenhum outro lugar
junto à eles
vou cantar eternamente
o transpirar da minha raiz
a minha tão amada, Cuyabá.

Yasmin Souza

ao som de:

mais poesias na minha page:

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Qual é o animal da sua metamorfose?

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Ilustração de Nakano @nakanoart

Por Yasmin Souza

Em tempos duais, em uma sociedade que ainda se baseia na estrutura de bem e mau, se esquece da real forma da unicidade de cada ser em um conjunto. A ilusão contemporânea causa um efeito de estarrecimento entre as micro individualidades ressaltando os egoísmos, mesmo que discutido politicamente deixando mais confuso as regras sociais básicas para boa vivência e convivência, o principio parte da comunicação, e para haver comunicação é preciso mais que um, ouvir e se fazer ouvido.

Claro, são tempos difíceis, de barulhos externos e internos, mas seria talvez um erro pintar, bordar e delinear a cor verde em nossa comunicação? Um verde natural, da cor que percorriam as ruas e avenidas da cidade em que cresci, Cuiabá cidade verde, qual foi igualmente aniquilado aos poucos por nossas políticas públicas, se a natureza floreia o verde, eu quero florescer por dentro e transmitir os benefícios que essa cor reflete. Seja a pseudociência, a psicologia, o feng shui, dizem que as cores tem poder de transformar de dentro pra fora, então que possamos moldar o diálogo na base esperançosa da construção.

O mundo não muda enquanto as referências não se alteram, a vida percorre os clichês mais cíclicos possíveis do poder da mudança, começa individual, com o livre arbítrio que diferencia cada um do reino animal, com o poder da consciência de respeitar e compreender as diferenças. Não só classiais, mas a nível individual, respeitar espaços e tempos, de tudo e de todos. As micro individualidades se afirmando na base do ego, volta ao mesmo erro deturpado do destino da união, entre carteiradas de não aceitação, de erros e acertos, o outro não se faz ouvir, faz guerra.

A mudança começa em que animal você quer transmitir ser, construir ninhos, proteger manadas, alimentar ou destruir, cada um com sua forma, função digna e opcional, mas rumo à um só entendimento.

Top 10 músicas chicletes duráveis

Por Yasmin Souza

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Ile Machado

Há um grande mito que somente músicas ruins tem o direito de serem denominadas como chicletes. Pois oras, ser música chiclete pra mim é privilégio, é o hit, é aquele refrão que você nunca esquecerá na vida, que gruda e se apropria da sua mente por um tempo inestimável.

Durante uma viagem minha em Olinda, na busca de apreciar uma boa música numa noite de quinta-feira naquela cidade maravilhosa. Tinha a tal da quinta do vinil na Casa do Cachorro Preto, um lugar incrível e autêntico, que inclusive, gostaria de mais lugares acolhedores musicalmente assim em minha cidade. Eis que apreciando os discos escolhidos, toca Beatles, foi uma comoção geral, tocar Hey Jude! é tocar lá no fundo do coração, e a música ativará uma parte de seu cérebro em que você, provavelmente, lembrará dela no dia seguinte, feito chiclete, chiclete de sentimentos, a música te gruda, interliga você com alguma felicidade interna. Foi uma alegria no sorriso de cada um esboçando, aquela vontade de cantar junto, e de repente minha amiga soltou:

– Porra, Beatles não tem jeito, né… Pode passar tempos sem ouvir, mas quando toca… toca no fundo!

Realmente, Beatles é chiclete, nunca deixará de ser, foi uma das pitadas que adoçou com gostinho de eternidade cada música deles. Bom é chiclete que dura mais do que um ano.

Pois, quebremos essa grande balela, deixo de presente um top 10 das minhas músicas chicletes, antigas e atuais e de boa qualidade (creio eu).

Se gostar é porque temos que ser amigos de Spotify.

         


Obsessão na geração crush

Por Yasmin Souza

 

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Gianni Berengo

O mundo é feito de relação. O outro sou eu e eu sou o outro. Onde existe outro, há lei, há respeito, ética e dignidade.

Aí veio o libertino e disse: – O mundo é putaria.

Bom… Uma amiga uma vez me disse, que romance é igual fazer xixi fora de casa, você não quer, mas como não tem outro jeito mesmo, vai, né… Viver de paixões é fácil, mas e aquele amor que  Guimarães Rosa cantava que é um pouquinho de saúde?

Consumimos até nossa forma de relacionar, somos criados desde nosso cerne, temos registros já tão delimitados que reproduzimos. Reproduzimos nosso erotismo, nosso prazer, nossas paixões. É quase um ato canibal, quanto mais desejo, mais me satisfaço, mais consumo o Eu de mim. Viver de paixões é quase que viver na zona de conforto. Paixões se dissolvem, se consomem, mas não constroem apropriadamente.

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Antes do Amanhecer – Richard Linklater

Tudo parece estar envolvendo somente mero consumismo sexual, abraçando certos estereótipos libertários que não garantem relações mais saudáveis, pois só se constituem da dimensão sexual. A insistência nas relações baseadas somente nos interesses sexuais, impede e barra o uso da gentileza, dos elogios e da amizade. Da sincera conexão que se atribui nessa teia de conexões que o mundo proporciona, da leveza do comunicar. Quando você anseia por alguém, você anseia a resposta afirmativa daquela pessoa aos teus desejos, que quem sabe, não fale só sobre sua própria carência de não saber se satisfazer sozinho?

Nós encontramos pessoas, não procuramos.

Você espera encontrar a pessoa suficientemente capaz de suprir carências internas para sua própria satisfação, e cria-se a obsessão pela concorrência, por se fantasiar nesse campo minado de relações afeto-sexual, onde tudo é corriqueiro. Até minha adolescência, a denominação desse surto dos crush’s era chamado de amor platônico mesmo, onde se molda a pessoa, que torna-se objeto, a seu próprio encantamento. Enxerga até relógio de ouro onde na verdade é cobre enferrujado.

Não espere que alguém dê aquilo que se deve obter sozinho. Felicidade é conteúdo inato, se focar, é um mergulho. É o tipo de remédio obrigatório, diário, controlado e disciplinado. É o ato consciente e ético que trata Espinosa, que trata o tantrismo, e mil e uma outras vertentes que consideram que o nível de conhecimento aplicado torna-se algo somático, evolucional. Você é o seu próprio conteúdo de prazer principal, o seu próprio amor, é questão de autonomia, de poder.

Não se deve esperar por falsos amores voando com asas inexistentes e nem olhar admirados para o céu, o amor é uma construção que sai do chão. O amor platônico nos mantém cativos na caverna vendo luzes e sombras. Ele nos alimenta de imagens pálidas que brilham distantes e faz nos tornamos raquíticos sentimentais, onde se não se vê, se vicia.

Apenas os homens fizeram de sua atividade sexual uma atividade erótica, uma busca psicológica independente do fim natural. Segundo George Bataille, o erotismo do homem difere da sexualidade animal justamente por colocar em questão a vida interior. O erotismo é, na consciência do homem, o que nele coloca o ser em questão.

Nós já nascemos amorosos, mas vivemos em um momento histórico em que predominam relações de dominação e competição, contrapondo aos fundamentos amorosos. Esse tipo de relacionar é o oposto do amar, pois amar é um respeito pela individualidade. Amar nos permite sermos vistos, escutados, sentidos. É um tipo de comportamento em que não há expectativas e preconceitos, impera a aceitação do outro pelo que se é de fato, não do que se espera do Ser. O ideal é recuperar o constitutivo do próprio ser e ir de encontro ao outro.

Só o caminho é que se faz no encontro dos amores.