Kubrick, inclusão e ocupação: Cine Teatro Cuiabá promove mostra a preços simbólicos

 

Em uma mistura de inclusão, e ocupação de espaço, o Cine Teatro Cuiabá exibe a partir desta terça-feira (21), obras de diretores famosos que marcaram gerações. Com preços quase simbólicos, a Sessão Encontros com Cinema devolve ao edifício sua relevância no cenário cultural cuiabano e proporciona, até o dia 9 de maio, um encontro com o diretor Stanley Kubrick, escolhido para nomear a mostra. Laranja Mecânica (1971), O Iluminado (1980) e Lolita (1962) serão algumas dos clássicos rodados.

Nesse embalo, acontece o segundo encontro do curso de extensão “Experimentos Cênicos a partir da distopia em Kubrick”, oferecido pela MT Escola de Teatro, para 25 alunos selecionados. As aulas tiveram início no dia 14 de março e seguem até 02 de maio, às terças, das 19h às 22h.

Os ingressos para assistir aos filmes custam R$4 (inteira) e R$2 (meia), e estão à venda, além da bilheteria, também pelo site Ingressos MT. As exibições são sempre às 19h. A mostra é um projeto em parceria com a Pró-reitoria de Cultura, Extensão & Vivência (PROCEV), Cineclube Coxiponês e Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e tem como objetivo formar plateias que se interessem em ver ou rever obras cinematográficas de cineastas prestigiados nessa área.

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E para o público infantil tem ainda o projeto A Escola vai ao Teatro, que consiste em visitas agendadas, onde alunos e professores de escolas públicas privadas conhecem o Cine Teatro e assistem a um filme. Nesta semana, a atração é Alice Através do Espelho, que é uma continuação de Alice no País das Maravilhas. Desta vez, após uma longa viagem pelo mundo, ela volta para a casa da mãe e através de um espelho mágico retorna ao País das Maravilhas, vivendo incríveis aventuras. O projeto acontece todas as terças-feiras às 15h.

Para esta semana entra em cena Lolita, que conta a história de um professor de meia-idade que se apaixona por uma adolescente de 12 anos. Apesar de não suportar a mãe da jovem, se casa com ela, apenas para ficar mais próximo do objeto de sua obsessão, pois a atração que ele sente pela enteada é algo devastador.

A jovem, por sua vez, mostra ser bastante madura para a sua idade. Enquanto ela está em um acampamento de férias, sua mãe morre atropelada. Sem empecilhos, seu padrasto viaja com sua enteada e diz a todos que é sua filha, mas na privacidade ela se comporta como amante. Porém, ela tem outros planos, que irão gerar trágicos fatos.

O Cine Teatro

Inaugurado em 23 de maio de 1942, o prédio possui 1.182m2 de área construída, incluindo teatro com plateia para uma capacidade de 515 pessoas. Foi construído em área central da cidade, na Avenida Getúlio Vargas, ao lado do antigo Grande Hotel, oportunizou grandes espetáculos cinematográficos e cênicos até fins da década de 60.

Cineteatro
Reprodução/Internet

Em outras décadas, foi sede do Banco Bemat, cedido para a Fundação Cultural de Mato Grosso e sofreu interferências na estrutura do prédio ao longo dos anos. Passou por reforma, restauro e revitalização, reabrindo as portas em 2009. Funcionou até setembro de 2014 sob regime de contrato de gestão.
Atualmente a política de gestão do Cine Teatro Cuiabá passa por reformulação. Um novo chamamento está aberto com o objetivo é transformar o espaço num centro cultural artístico-pedagógico de referência, adotando um modelo de Teatro-Escola que combinará difusão e formação profissional.

Confira a programação que ainda entrará em cena da Mostra Kubrick:

Terça 21/03: Lolita (1962)

Terça 28/03: Dr. Fantástico (1964)

Terça 04/04: Laranja Mecânica (1971)

Terça 11/04: Barry Lyndon (1975)

Terça 18/04: O iluminado (1980)

Terça 25/04: Nascido para matar (1987)

Terça 02/05: De olhos bem fechados (1999)

Terça 09/05:  Documentário: Imagens de uma Vida (2001) – Direção: Jan Harlan

Entrada: R$4 (inteira) / R$2 (meia)

Horário: 19h

 

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Empire – você provavelmente não viu, mas deveria

Série de televisão centrada na família Lyon e na empresa que pertence a eles, Empire foi criada por Lee Daniels e Danny Strong. A série foi ao ar pela primeira vez em janeiro de 2015, e desde então é transmitida pela FOX.

Em Empire, Lucious Lyon (Terrence Howard) é um rapper que saiu das ruas e prosperou na música, como cantor e através de sua gravadora. A história começa com o patriarca descobrindo que possui uma grave doença, e tem apenas três anos de vida, por isso precisa começar a preparar um de seus filhos – Andre (Trai Byers), Jamal (Jussie Smollett) ou Hakeem (Bryshere Y. Gray) –  para ocupar seu trono. Enquanto isso, Cookie (Taraji P. Henson), sua ex-esposa e também ex-sócia, retorna depois de passar 17 anos na prisão, disposta a recuperar tudo que perdeu.

Este não é um texto para te convencer a ver a série, mas sim para elucidar os motivos pelos quais você provavelmente não ouviu falar sobre ela, nem leu posts acalorados de seus amigos sobre os personagens da mesma.

Empire é uma série que eu acompanho desde foi lançada, o apelo à história e cultura negra me cativou desde o começo. Por isso, esperei que os amigos acompanhassem a série com o mesmo fervor que eu. Qual foi a surpresa quando percebi que a hype brasileira não chegou nem perto de consumir essa série?

Me pergunto sobre o que nos falta para perceber e ressaltar essa que é uma das séries de maior sucesso nos Estados Unidos? Afinal, Empire já quebrou recordes de audiência de séries consagradas, como Grey’s Anatomy e The Big Bang Teory.

Acredito que Empire seja talvez mais necessária no Brasil, que em seu país de origem. Temos dificuldade em comprar cultura negra, admirar cultura negra, amar pessoas negras. E Empire não nos dá uma versão polida e educada de pessoas negras (que em geral se relacionam com pessoas brancas), e sim, isso é sobre How to Get Away With Murderer e Scandal – séries que também tem a sua importância, mas que passam a imagem do negro que o brasileiro quer consumir.

O que queremos é uma versão limpa e politizada, um negro que “sabe se comportar”, um negro que ascendeu, enriqueceu, logo deixou de ser “mal educado”. Então não sabemos lidar com os conceitos que Empire traz, com mulheres vestidas com roupas chamativas e sensuais, relações afrocentradas e pessoas não magras exercendo papéis de importância na sociedade e tendo relacionamentos afetivos e sexuais.

Exatamente por isso, Empire é tudo que os brasileiros precisam consumir, porque ela é empoderadora, ela dá novas possibilidades às pessoas negras, a qualquer pessoa, na verdade.

Precisamos ver a Cookie, uma das principais personagens da série. Precisamos saber que ela foi traficante de drogas, porque essa era a única alternativa que ela tinha, conhecer suas amigas da prisão, nos apaixonar por todos os incríveis homens que ela conhece, ver uma mulher adulta às vezes sofrendo por amor, e às vezes apenas querendo um homem bonito em sua cama, sem nenhum problema em falar sobre as duas coisas.

Precisamos ver Cookie usando roupas que nossas mães nunca ousariam usar, ver ela contratando pessoas negras, trabalhando – e trabalhando muito – tendo total consciência de sua força e poder, e do valor de seu trabalho.

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Eu sei coisas.

Mas todo o peso dessa série não se resume a sua representatividade étnica, essa é uma série de minorias. Desde a assistente de Lucius Lyon, Becky Williams (Gabourey Ridley Sidibe), uma mulher negra e gorda, que é bem sucedida no trabalho e tem um homem lindo e sexy para chamar de seu (protagonizando uma cena de sexo que foi extremamente controversa nos EUA), ao Jamal Lyon, homem gay que precisa vencer o preconceito da família e da indústria, temos inúmeros exemplos de força e ativismo.

Ativismo esse que se categoriza pela simples existência, pela vida diária, pelas possibilidades infinitas do ser, extrapolando os limites que a sociedade impõe às minorias.

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Eu interpreto Becky. A muito, muito confiável e super, super linda assistente do Lucious.

Olhar para uma família negra, poderosa, problemática e unida, que sempre passa pela questão racial, mas não se resume a ela, é o que nós precisamos. Empire devia ser a nova bíblia dos afrodescendentes.

Então, se ainda não viu a série, prepare-se para adentrar um novo universo de possibilidades.

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Eu te fiz melhor. Não esqueça de me agradecer.

As cenas mais SURREAIS do seriado Friends

Por Thiago Mattos

O seriado Friends (1994-2003) ainda é visto diariamente por milhares de pessoas ao redor do mundo. Com quase 13 anos da exibição de seu último episódio (6 de maio de 2004), a comédia que reúne Jennifer Aniston (Rachel Grenne), David Schimmer (Ross Geller), Courteney Cox (Monica Geller), Matthew Perry (Chandler Bing), Matt Leblanc (Joey Tribianni) e Lisa Kudrow (Phoebe Buffay), ainda tem espaço reservado na grade televisiva da Warner Bros.

No entanto, mesmo uma série tão aclamada tem seus momentos exóticos e até inverossímeis (o primeiro episódio, por exemplo, é repleto de erros de continuidade). Na coluna de hoje, elencamos as três cenas mais surreais em Friends.

Antes de tudo é necessário destacar: as três cenas são hilárias, porém quando se pensa um pouco sobre elas, o encanto é perdido por serem situações impossíveis.

  1. A troca de apartamentos

A aposta sobre os apartamentos, em que Joey e Chandler vencem um quiz contra Monica e Rachel. As meninas querem se livrar dos patos dos rapazes, mas Monica exagerou na proporção ao aceitar essse desafio.

Pode-se dizer que a competitividade excessiva da personagem de Courteney fez com que ela aceitasse, mas outro traço marcante de sua personalidade é a grande preocupação com organização e limpeza, o que faria com que ela nunca aceitasse ir para um ‘boys apartment’.

E quando você acha que será algo momentâneo, os personagens realmente passam alguns episódios da quarta temporada em apartamentos trocados. Tão hilário quanto impossível na vida real.

  1. Chandler e Janice vão para o Iêmen (e nunca mais se fala nisso)

Também na quarta temporada, em uma de suas tentativas de se livrar da Janice, Chandler inventa que terá que se mudar para o Iêmen por motivos de trabalho. A ideia acaba não surtindo o efeito desejado e a indesejada namorada o acompanha até o voo partir.

Chandler inclusive paga mais de dois mil dólares na passagem. E detalhe, a viagem para o Iêmen não é mencionada em mais nenhum momento durante a série, nem mesmo por Janice.

  1. Rachel cai da sacada

No fim do episódio 16 da primeira temporada, Rachel vai retirar as decorações de Natal da sacada do apartamento da Monica e simplesmente cai de lá. Quando, por um segundo, você acha que ela morreu, a loira fica pendurada por um fino cordão e pede ajuda a Mr. Heckles.

Convenhamos, essa cena é bizarra! No episódio seguinte, Monica leva Rachel ao hospital por ter torcido o tornozelo.

Menção honrosa (A cena que seria surreal)

Além desses três momentos, que julgo como os principais, podemos fazer várias ‘menções honrosas’ como: Ross errando o nome da esposa no casamento e metade das cenas que envolvem as atuações do Joey ou as músicas da Phoebe.

Destaco, como curiosidade, a cena deletada do terceiro episódio da oitava temporada. A cena que, se fosse ao ar, seria a mais surreal de toda a série. Chandler faz uma piada com a revista no aeroporto e acaba sendo levado para responder algumas perguntas.

As partes foram deletadas, pois seriam exibidas originalmente no dia 23 de setembro de 2001, duas semanas após o atentado às Torres Gêmeas no dia 11 de setembro. O ‘timing’ não foi bom e o trecho foi retirado. Confira.

Como os personagens de Breaking Bad se apresentam ideologicamente

Por Thiago Mattos

Breaking Bad é uma série de televisão norte-americana que foi ao ar entre 2008 e 2013. A história, criada e produzida por Vince Gilligan, é sobre um inteligentíssimo e frustrado professor de Química, Walter White, que ao descobrir um câncer terminal, começa a produzir e vender metanfetamina com Jesse Pinkman, seu ex-aluno medíocre.

Walt entra no mundo do crime com o pretexto de garantir o futuro financeiro de sua família: a esposa grávida Skyler e o filho com paralisia cerebral Walter Junior. Para deixar tudo ainda mais interessante, Skyler tem uma irmã cleptomaníaca chamada Marie, casada com Hank Schrader, um policial da Drug Enforcement Agency (DEA) na pacata cidadezinha escolhida para a trama: Albuquerque, New Mexico.

Assim como The Walking Dead, série que analisamos no artigo anterior, Breaking Bad foi exibida no canal AMC e suscita algumas reflexões filosóficas e políticas. Na coluna de hoje, vou falar de Jesse, mas sobretudo de Walter e Hank.

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Hank e Walt mostram jeitos diferentes de enxergar o mundo (Reprodução AMC)

Hank, Walt e os charutos cubanos (Alerta Spoiler)

O policial Hank é retratado como um conservador americano. Conta piadas moralistas, faz o estilo ‘tiozão’ nas reuniões de família e passa a imagem de ‘linha-dura’ no trabalho. Com o passar da história, algumas de suas hipocrisias vão sendo reveladas.

Um dos diálogos mais brilhantes (a série inteira é brilhante) acontece no último episódio da primeira temporada. Após Marie presentear Skyler com uma tiara bastante cara (pra bom entendedor…), Hank fica incomodado com a situação e pergunta se Walt não teria algo ‘mais forte que cerveja’ em sua casa. Assim sendo, ambos vão para o quintal da casa dos White.

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Hank também admite ao filho de Walter que já usou maconha (Reprodução AMC)

Papo vai papo vem e Hank pega um charuto, ficando sem graça ao lembrar do câncer de Walt, mas o químico lhe surpreende e pede um também. Ao perceber que se trata de charuto cubano (proibido até então nos EUA), Walt começa a se deliciar com a situação e instigar frases hipócritas em Hank.

“Fiz um pequeno favor para um colega do FBI” e “Às vezes os frutos proibidos tem o sabor mais doce”, são algumas das pérolas proferidas por Schrader. Trata-se de uma excelente cena para questionar a arbitrariedade com que algumas substâncias são proibidas ou legalizadas, vendo um policial do departamento anti-drogas consumindo um produto ilegal. (Não encontrei a cena com legendas).

Não quero aqui afirmar que tenho antipatia pelo personagem Hank. A série é tão bem construída que podemos citar qualidades, defeitos e contradições em todos os personagens centrais.

Fazendo um paralelo e sem me aprofundar, podemos dizer que Jesse é um personagem bastante humanista, que não aprecia violência e é preocupado com o bem estar de crianças, sofrendo muito quando é impelido a causar danos em outras pessoas.

Mesmo assim, Bbad mostra uma sequência de circunstâncias que levam até uma pessoa de bom coração, como Jesse, a cometer assassinato. A máxima de Rosseau, citada no artigo anterior, valeu para a história de Pinkman.

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BBad constrói Jesse Pinkman como um criminoso de bom coração e cheio de remorso ao machucar outras pessoas. Ele funciona como se fosse a consciência perdida de Walter White. (Reprodução AMC)

O câncer transforma Walter num ultraliberal

Assim como o conservadorismo de Hank, a postura ultraliberal adotada por Walt depois de saber do câncer no pulmão é exposta e criticada. O professor de química se transforma num daqueles lobos de Wall Street, pois mesmo após conseguirem milhões de dólares, só pensam em mais fama e em como fazer os ‘mi’ virarem ‘bi’, com o adendo de que a atividade de Walt é ilegal.

No décimo episódio da terceira temporada (Fly), Jesse e Walter passam boa parte do tempo tentando matar uma mosca que está contaminando a produção de metanfetamina, num dos episódios mais lentos de toda a série.

Em dado instante, ambos fazem uma pausa e começam a conversar. Walt revela que seu câncer ainda está em remissão e que a morte está distante, nesse momento, o professor começa a repensar suas atitudes e lamenta não ter parado (morrido) quando já tinha acumulado dinheiro suficiente; pois Holly (sua filha) já tinha nascido e Skyler ainda não sabia que ele havia se tornado um traficante.

É quando White percebe que já havia ido longe demais e não tinha mais volta. O envolvimento com a barra pesada do tráfico já era enorme e o casamento com Skyler havia ruído. Nessa reflexão, Walt se dá conta da intensa degradação humana pela qual já atravessou e os roteiristas colocam uma crítica à busca incessante pela fama e dinheiro, mesmo quando esses elementos já não se fazem mais tão necessários.

A cena é triste (não encontrei um vídeo dela), pois Walt percebe que se desviou do plano original, cedendo a uma vida cheia de adrenalina, perigos e busca por mais dinheiro e poder a todo custo.

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A famosa cena em que Walter obriga o grupo rival a falar o nome dele (Heinsenberg), evidencia o quanto o personagem já se desviou do curso original que tinha planejado (Reprodução AMC).

Não há seriado que represente mais o Partido Republicano do que The Walking Dead

Por Thiago Mattos

A série norte-americana The Walking Dead estreou em 2010 e está em sua sétima temporada, sempre batendo recordes de audiência nos Estados Unidos. Nesse retorno ao Pacult, me proponho a tentar entender um pouco este fenômeno e cheguei à conclusão de que o sucesso, sobretudo no país de origem, tem um viés cultural.

Há fortes valores políticos e ideológicos arraigados ao seriado. Muito desse conteúdo tem forte ligação com, ele mesmo…, o partido Republicano, vencedor das eleições presidenciais.

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O protagonista Rick Grimes. Antes do apocalipse, um ‘xerifão’ da cidade de Cynthiana, interior de Kentucky (Estado com vitória de Trump 62,5% x 32.7% Clinton)

Armas

É impossível assistir TWD sem reparar no protagonismo que as armas, sobretudo as de fogo, possuem. Um assunto polêmico em que a série nitidamente simboliza o pensamento conservador.

Passada num país de cultura armamentista muito forte, em que debates sobre uma maior regulação na posse de armas são vistos como uma ameaça à liberdade, o recado da série é claro: se você está com armas, você está mais seguro.

ALERTA SPOILER

Fiquemos com o exemplo ocorrido na vila de Alexandria (5ª temporada). Rick e o grupo são recebidos pela personagem Deanna, espécie de prefeita do local. As regras são colocadas: não é permitido portar armas, todas devem ficar num arsenal. Além disso, quase nenhum morador sabe como manejar uma.

Após vários episódios mostrando a ingenuidade e fraqueza física e mental dos moradores, evidenciando uma realidade ‘fabricada’ e utópica da vida em Alexandria, a vila acaba atacada por um grupo denominado ‘Wolves’.

Dito e feito. Os pacatos moradores, desacostumados com tal situação, viram presas fáceis e muitos morrem. Os personagens do grupo de Rick, em sua maioria críticos ferrenhos à proibição do armamento, terminam por evitar que uma tragédia pior acontecesse.

Base em Thomas Hobbes

A máxima do pensador inglês Thomas Hobbes, ‘O homem é o lobo do homem’, basicamente resume TWD a partir de sua terceira temporada. Primeiro temos que nos ater ao ‘turning point’ que é final da segunda temporada. Até esse momento, o foco da série é um grupo de sobreviventes a um apocalipse zumbi buscando modos de cada vez buscar mais segurança contra os chamados ‘Walkers’.

A morte de Shane Walsh simboliza a ‘passagem do bastão’. A partir dali, o seriado trata de mostrar que a maior ameaça à continuidade da espécie humana são os próprios humanos, mesmo com um apocalipse zumbi dizimando as pessoas.

Depois de duas temporadas com os Walkers no centro da preocupação dos personagens, o telespectador passa a conhecer verdadeiros genocidas pós-apocalípticos como o Governador e, mais recentemente, Negan. Até mesmo o grupo de Rick começa a eliminar/matar qualquer indício de ameaça, haja vista a intensa mudança da personagem Carol Peletier por exemplo.

Vídeo: Carol, de mãe fragilizada pela perda da filha, à matadora mais fria de TWD.

Gradativamente, o foco foi passando da relação interna de Rick Grimes com seu grupo, para o relacionamento do grupo com outros clãs. A morte de Shane e o fim do triângulo amoroso com Lori foi um facilitador para os roteiristas.

Repare na mensagem: O mundo praticamente acabou, 90% das pessoas morreram ou são zumbis, os recursos estão escassos e as pessoas ‘criam’ novas sociedades, formando times que basicamente ficam matando ou tentando subordinar uns aos outros ao invés de buscar cooperação ou até mesmo a cura.

Voltando àquelas aulinhas básicas de Teoria Política sobre a natureza humana. Jean Jaques Rousseau x Thomas Hobbes; ‘O homem nasce bom, a sociedade que o corrompe (base do pensamento de esquerda) x ‘O homem é o Lobo do Homem’ (base do pensamento de direita).

The Walking Dead, pelo menos até aqui, mostrou a sociedade como conhecemos chegando ao fim. Fato que, ao invés de promover a união dos poucos sobreviventes, provocou guerras para o controle da produção de grupos rivais.

Encerro com o vídeo da última cena da 5ª temporada, que mostra o momento em que Rick discursa e faz Deanna mudar seus conceitos sobre armas e pena de morte. O morador mais problemático de Alexandria entra em cena e faz o discurso de Rick ganhar ainda mais força.

Ruby Sparks: sobre amor e expectativas.

Não é de hoje que criamos expectativas sobre pessoas e, todos os dias, pelo menos algum desafortunado – ou desafortunada, já que a falta de sorte não discrimina gênero – se apaixona por alguém sem mesmo conhecê-la. Tá certo, não é todo mundo que se apaixona na primeira vista, mas quantos milhares – ou milhões – não se apaixonaram pela ideia de alguém? Pela concepção platônica que você – em questão de segundos – criou sobre a pessoa em questão. O grau de platonismo pode variar de uma pessoa à outra, mas todas fazem parte do mesmo clube. Esse tipo de paixão é um sentimento complexo e um tanto quanto lamentável, tendo geralmente como resultado final algo frustrante (normalmente envolvendo um punhado de lágrimas, determinada quantidade de comida e/ou bebida, além da promessa de nunca mais passar por isso de novo). Essa receita, ainda que desapontadora na vida real, pelo menos é um sucesso cinematograficamente: vamos chamá-la de Escola Annie Hall de Expectativas Frustradas, cujos ensinamentos podem ser vistos em (500) Days of Summer, How I Met Your Mother e Submarine (para citar alguns exemplos mais recentes). Todavia, nenhum deles é tão literalmente platônico como Ruby Sparks.

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Fall Season: um pouco das novas séries

Algumas vezes por ano, acontecem momentos especiais nas vidas de muitas pessoas. O raiar do dia traz cores até então nunca visualizadas por um ser humano, o vento delicado acaricia os rostos das pessoas e o ar possui o frescor da hortelã, como em um comercial de pasta de dente. O despertador toca no horário certo e os ônibus não estão lotados. Sim, eu estou falando do inicio das temporadas de séries, épocas mágicas durante as quais pessoas parecem estar mais sorridentes (ou apenas sou eu mesmo, o que explicaria muita coisa).

Mesmo que o principal motivo de ansiedade seja a volta de todos os programas que nós amamos – e às vezes odiamos amar –, é também motivo de expectativa o inicio de séries novinhas, algumas com ainda muito chão pela frente… Ainda tal sorte não seja compartilhada com outras.

Acompanhar a trajetória de uma série é como presenciar histórias de pessoas cujas ficções se sentem bem reais. A seguir, serão apresentadas cinco séries que terão um punhado de episódios, prontas para conquistar seu coração e futuramente acabar com seus nervos:

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Séries que deixam saudades: The IT Crowd

Por Juliana Fernandez

Existem séries que acabam e deixam saudades. Dead Like Me, The Sopranos, Arrested Development, Firefly… A lista é longa, e das series que infelizmente – ou não – tiveram seus fins, uma das minhas preferidas é The IT Crowd, que foi transmitida entre 2006 e 2010 pelo Channel 4.

O sitcom britânico foi escrito por Graham Linehan, que – admito – não havia ouvido falar até meados do ano passado. Já conhecia o trabalho do Richard Ayoade enquanto diretor de video clipes e sabia que também atuava, mas foi depois de Submarine (seu primeiro filme enquanto diretor, que foi resenhado por mim aqui) que me veio a curiosidade saber mais sobre ele. E foi assim que conheci a série.

Satirizando séries que se passam em escritório, os três personagens principais trabalham no departamento de suporte tecnico das Industrias Reynholm: Jen Barber (Katherine Parkinson), chefe do departamento não entende muito de informatica (no primeiro episódio ao ser obrigada a dar exemplos de sua experiencia na area, ela lista “receber emails” e “clique duplo”) cujos interesses vão de sapatos até homens, um esteriotipo desnecessário à personagem. Já Roy Trenneman (Chris O’Dowd) ao contrário de sua chefe, entende do que faz, mas não tem muito vontade – na verdade, nenhuma – de trabalhar. E por ultimo, Maurice Moss (Ayoade), que – eu juro que não foi intencional de minha parte – é um dos meus personagens preferidos. Podendo facilmente ter se tornado apenas um estereótipo de um “nerd”, para minha surpresa ele é extremamente cativante e hilário.

 

Entre os personagens que aparecem ao longo da série estão Denholm Reynholm (Chris Morris), o dono das indústrias – o típico empresário moderno – e seu filho Douglas (Matt Berry), que acumula processos por assédio sexual a torto e a direito. E entre as participações, o destaque fica com Noel Fielding (de The Mighty Boosh e Noel’s Fielding’s Luxury Comedy) que interpreta Richmond, que costumava ser o braço direito de Denholm e acaba terminando na IT após virar gótico.

Séries que se ambientam em escritórios existem aos montes, algumas ótimas e outras nem tanto, The IT Crowd se encaixa na primeira categoria. Pode não ser a mais bem produzida, entretanto, o roteiro excelente proporciona a cada personagem grandes momentos, e os personagens por sua vez são interpretados por atores que além de saber muito bem o que estão fazendo, possuem uma dinâmica em grupo que está se tornando incomum hoje em dia.

 

Por mais que as temporadas sejam curtas (são três delas, cada uma com seis episódios), os episódios são excelentes. E talvez seja exatamente por isso, já que o roteiro não se estagna, como acontece com muitas séries que possuem mais de vinte episódios em cada temporada.

The I.T. Crowd poderia ser mais uma comédia “de escritório”, se não fosse seu humor delicioso, personagens cativantes e momentos inusitados. Uma série para assistir e deixar guardada em seu HD para rever depois.

 

 

 

 

 

 

Sombras da Noite: mais do mesmo

Por Juliana Fernandez

Um dos grandes lançamentos do mês de junho, Sombras da Noite (Dark Shadows no original), será lançado no Brasil na próxima sexta-feira, mas está em cartaz a mais de um mês – a estreia aconteceu no dia 11 de maio – nos Estados Unidos. Mesmo ainda não sendo exibido, o filme já pode ser encontrado pelo publico brasileiro através de meios mais… Ilícitos, por assim dizer. A oitava parceria entre o diretor Tim Burton – mais famoso por sua excentricidade, menos por seus fãs xiitas – e o ator Johnny Depp – tão excêntrico quanto o diretor, e com mais fãs “radicais” ainda –, trás de volta tudo que já conhecemos da dupla, para todo bem e todo mal.

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Prometheus: próximo à perfeição

Por Juliana Fernandez

Há 33 anos, o filme Alien ajudou a formar o que hoje chamamos de ficção cientifica. Dirigido por Ridley Scott – que dispensa apresentações –, o longa-metragem foi sucesso de publico e critica, concretizando um gênero e alavancando a carreira de seu diretor. Como a maioria dos sucessos, houve sequencias: o ótimo Aliens (lançado em 1986, dirigido por James Cameron), o mediano Aliens 3 ( de 1992, direção de David Fincher) e mais três filmes, sendo os últimos dois uma parceria com a franquia Predator.

No inicio da década passada, Scott e Cameron desenvolveram ideias para um novo filme da franquia, dessa vez uma prequel (uma sequencia cuja história pertence ao passado cronológico da saga).  Porém, a 20th Century Fox preferiu outro projeto, o longa-metragem Alien vs. Predator (lançado em 2004, dirigido por Paul W. S. Anderson), que mesmo com as criticas negativas, viria a ter uma sequencia – Alien vs. Pretador: Requiem, dirigido pelos irmãos Strause e lançado em 2007. Durante esse tempo, Cameron desistiu da prequel e investiu em outros projetos, um deles era uma ideia antiga, um script de 1995 que se tornou um filme chamado Avatar.

Em 2009, a 20th Century Fox voltou a desenvolver o projeto, e como da vez anterior, Ridley Scott demonstrou interesse. O projeto em questão é o longa-metragem Prometheus, lançado na America do norte semana passada – por algum motivo, no Brasil apenas pré-estreou na mesma data –, dirigido por Scott, sendo um dos filmes mais aguardados do ano, em um ano cheio de estreias esperadas (já tivemos os ótimos Vingadores e Jogos Vorazes, ainda teremos o novo Homem-Aranha, o ultimo Batman de Nolan e a primeira parte de O Hobbit).

O elenco de Alien e o de Prometheus, uma diferença de três décadas nas quais a tecnologia avançou como nunca antes.

A história se passa em 2089, quando os arqueólogos Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green, aparentemente o gêmeo perdido do também ator Tom Hardy) encontram determinado padrão em pinturas antigas. O padrão é, na verdade, um mapa estelar para um planeta distante, que pode conter informações sobre a origem do ser humano. Bancados pelas indústrias Weyland, eles viajam até o tal planeta em uma nave que se chama… Isso mesmo, Prometheus. Na mitologia grega, Prometeu é um titã que roubou o fogo de Zeus e o deu aos mortais, sendo severamente punido por tal ato, o que pode se aplicar aos tripulantes da espaçonave (curiosamente, existe outra nave de mesmo nome na série Stargate SG-1).

A primeira coisa que se nota no filme é sua beleza estética, que é de tirar o fôlego. O superestimado 3D é muito bem utilizado e durante as duas horas e cinco minutos do longa-metragem, não houve um segundo sequer no qual os efeitos visuais, a fotografia, o figurino e a maquiagem decepcionaram. Visualmente perfeito. Os efeitos sonoros são excelentes e dão o tom necessário nas diversas cenas de suspense do filme.

Os atores também não desapontam. Noomi Rapace – a Lisbeth Salander da primeira e ótima versão de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres –, está muito bem como Shaw, sendo a protagonista, posto que já foi ocupado por Sigourney Weaver. Sua boa atuação é visível em várias cenas, porém, seu melhor é a do – por falta de nome melhor – parto. Seu medo, repulsa e dor chegam a infectar o expectador. Charlize Theron – quase tão bem quanto em Branca de Neve e o Caçador, que ainda está nos cinemas e que resenhei aqui – interpreta Meredith Vickers, que a principio parece ser apenas a monitora enviada pelas indústrias Weyland, entretanto se mostra ser muito mais que isso ao longo do filme.

Já Michael Fassbender – famoso pelo papel de Magneto em X-Men: Primeira Classe e sua parceria com o diretor Steve McQueen – rouba a cena como o androide David, que cuida da espaçonave durante a viagem até o planeta e tem uma curiosa fascinação pelo filme Lawrence da Arábia, chegando a imitar o visual de Peter O’Toole. É notável a transformação da personagem, que aos poucos começa a desenvolver aspectos humanos – neste ponto, ele se distancia dos androides da franquia Alien e se aproxima dos retratados em Blade Runner, também dirigido por Scott – , e acaba por secretamente colocar a tripulação em risco. Guy Pearce, Idris Elba e Logan Marshal-Green tem boas atuações, mas são eclipsados pelos três atores principais a maior parte das vezes, e algumas pelo próprio rumo que a história toma.

Peter O’Toole em Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia no original, de 1962) e Michael Fassbender em Prometheus (2012).

Em certo momento do filme, o visual da personagem de Rapace lembra muito Milla Jovovich em O Quinto Elemento, entretanto, se existe um filme que Prometheus realmente presta homenagem, este é o já citado Alien de 1979. Mesmo com diretor, roteiristas e produtores tentando afastá-lo do clássico do fim da década de setenta, as semelhanças vão desde personagens até cenas clássicas.

Milla Jovovich em O Quinto Elemento (The Fifth Element, de 1997) e Noomi Rapace em Prometheus (2012)

Prometheus tinha tudo para ser – e talvez seja –, o melhor filme de ficção cientifica lançado nesse inicio de milênio (talvez melhor até que Avatar, que é visualmente lindo, mas de um roteiro medíocre comparado à grandiosidade do resto), se não fosse o roteiro. Primeiro escrito por Jon Spaihts – roteirista do ruim The Darkest Hour, de 2011 – e depois aprimorado por Damon Lindelof – escreveu o roteiro de Cowboys&Aliens, mas ficou famoso por escrever e produzir a série Lost. Talvez seja o ultimo o responsável pelo resultado um tanto insatisfatório.

Ao contrário dos demais longa-metragens da franquia, Prometheus é o primeiro a não dar ênfase na personagem Xenomorph ( o alien que os filmes se referem nos títulos), e o mistério do filme gira entorno do Space Jockey ( aqui chamado de Engenheiro), que no primeiro Alien aparece ao fundo, como um grande exoesqueleto humanoide em uma cadeira gigante. As questões surgem aos poucos…Quem era o Engenheiro? O que aconteceu com ele? De onde ele veio? E a principal questão: de onde nós viemos?

Elas não são respondidas, e quem conhece o trabalho de Lindelof, fãs de Lost ou não, sabem de certa mania dele enquanto roteirista: criar questões e deixá-las sem resposta. Não sei se ele tem enorme dificuldade em amarrar pontas soltas ou apenas gosta de fazer o expectador de idiota, não me importa, entretanto é de se esperar mais do roteiro de um filme que levou tanto tempo em sua pré-produção.

O fim do filme – que chegou a me agradar, apesar de tudo – dá a entender que haverá uma continuação, que não é o Alien dirigido por Scott. Só nos resta esperar e depois ver se as duvidas foram respondidas ou não no próximo (ou próximos, no plural mesmo) filme.

Com a direção afiada de Ridley Scott, Prometheus é praticamente impecável, valendo cada centavo gasto no ingresso. Agradará não só os fãs de Alien, mas também os fãs do bom cinema, um daqueles filmes que você assiste mais de uma vez, sempre saindo extasiado da sala de cinema.

Nota: 9.0

O filme teve uma grande campanha publicitária, com vídeos virais ótimos. Abaixo está o meu preferido, que introduz o personagem David (Fassbender) e logo em seguida sua paródia, Joel (interpretado por Joel McHale, para o “The Soup”).

E alguns dos posters feitos por fãs, um caso no qual o fanart ficou melhor que o pôster original.

E para quem já assistiu: